—São coisas de que me não quero lembrar. Lá vae, acabou, leve o diabo

paixões e mais quem com ellas engorda. Aquella mulher andou muito

mal comigo... Eu fazia-lhe tudo quanto ella queria, dava-lhe muita

libardade... Foi talvez por isso que recebi o pago que tive...

—Alguem que a desencaminhou... alguma companheira...—insinuou o meu amigo.

—Ná... ná... sempre teve aquella queda. Era muito chibante e espirituosa,

não era senhora para mim. Foi uma asneira... Passou—resumiu tristemente.

—Tambem não é tanto como diz. O Lucas estimava-a, e não se póde dizer um

velho—consolei-o.

—Ainda assim tenho mais vinte annos do que ella. Mas não fallo n’esse

particular. Não era senhora para mim, que sou um bruto. Uma raparigona

alta, bonita, bem feita, creada n’um collegio aqui de Lisboa, sabendo

francez e grammatica, toda perluxa e bem fallante... não era casamento

para o Lucas. A minha primeira, que Deus tem, é que estava na conta.

—Você tambem foi cahir em se casar duas vezes!—disse o meu amigo. Lá

n’uma, tenho ouvido dizer, quem quer cae.

—Nem sei como isso aconteceu, meu senhor—confessou melancolico. Uma

bebedeira que me passou na cabeça. Ha dias que melhor fora a gente

apparecer morto na cama. Luisa, a minha outra, era uma dona de casa.

Quando morreu fez-me falta para o negociosito, que eu tinha lá na terra.

O contracto dos gados trazia-me sempre por fora; chegava a ir á Galiza

comprar bois. Uma pessoa para me ficar no estabelecimento, era-me bem

necessaria. Depois o achar-me só, em casa, principiou a dar-me para

o figuedo, e sem uma companheira vivia triste como uma lesma. Até me

lembrei de me afogar. Teria sido melhor—rematou olhando para o chão, a

cofiar a barba reles.

* * * * *

—Pelo que vejo gostava muito da sua primeira mulher...

—Assim... Era muito doente, mas boa creatura. Quando morreu fiz-lhe um

enterro de truz. Nunca lhe pude arrancar um filho, por mais dinheiro

que com ella gastei em medicinas e promessas. Aquillo era molestia das

entranhas. Morreu esmaleitada como a cera e magra como um guiço. Passei

uma ralação, sempre a por-lhe cataplasmas e a dar-lhe chás de noite,

por causa dos ataques. Dava gritos que acordavam a visinhança. Arrotos

que pareciam tiros de espingarda. O ultimo mez, não preguei olho e

já não podia... Veio então a Joanna, a irmã d’ella, que me ajudou a

levar aquillo até ao fim. Essa é que era boa mulher para mim: geitosa,

perfeitaça, trabalhadeira e rija como o ferro. Mas tinha tido uma falta,

com um rapaz que depois embarcou para o Brazil, e eu n’essas coisas

sempre fui muito dos diabos.

—Pois, attendendo ao futuro, tinha sido melhor ter-se casado com essa sua

cunhada—disse o meu amigo, presumindo já, que ao bom do Lucas, lhe haviam

succedido coisas da breca.

—Oh! que se a gente advinhasse, quantas vezes melhor!...—exclamou como

quem se sentia applaudido n’um pensamento secreto. E a coisa vinha a

fazer-se, mais tarde ou mais cedo; porque eu bebia os ares pela moça.

Mas logo a má sorte, me levou lá para a casa fronteira, o major com a

sobrinha...

—Talvez filha—insinuei.

—Não—respondeu vivamente offendido—era de gente casada. Até creio que

de familia muito nobre, cá de Lisboa. Pelo menos ella assim o dizia e

acreditem os senhores que tinha geitos d’isso. Morreu-lhe o pae, a mãe e

não lhe deixaram uma de X. Foi então que o major de quem eram parentes e

quando ainda era capitão metteu, á sua custa, a pequena n’um collegio.

Isso lá de educação e sabença, não acredito que haja outra que se lhe

ponha adeante. O major depois adoptou-a como filha e trazia-a sempre

comsigo.

—Nada ahi anda historia, ella era filha do major—insistiu o meu amigo.

—Não era—certificou com rosto circumspecto—não era, sério. Eu vi-lhe a

certidão d’edade, quando se tirou a licença. Era de gente casada e até

fidalga, diziam-no todos. Mas faltava-lhe dinheiro; porque o major para a

educar, teve de pedir ajuda aos outros parentes. Mas deu-lhe um saber de

truz. Eu nunca vi senhora mais distincta!—repetiu com ostentação.

—E depois o tal major, sabendo que o Lucas tinha o seu pataco,

impingiu-lha.

* * * * *

Conservou-se alguns momentos silencioso e ar dubidativo. Em seguida

esclareceu:

—São sortes. Elles vieram morar em frente da minha casa. As filhas d’um

visconde que havia na terra, iam pra lá aprender o francez, o piano e

a grammatica. Porque aquillo é uma senhora que sabe tudo—repetiu com

vaidade. E bem fallante? nunca vi outra! Aquelles janotas iam conversal-a

da rua para a janella e ella sota e az a todos. Que regalo de mulher! O

delegado que lá estava ao tempo, disse deante de mim que em philosophias,

não encontrára senhora como aquella. Vi muitos homens embasbacados a

ouvil-a. E que homens! O desembargador João Xavier que era conhecido em

toda a parte. Caramba! que mulher tão esperta!—pronunciou batendo uma

palmada na coixa. Pena é que tenha a cabeça leve como uma folha secca.

—E vae, todo cheio de enthusiasmo, namorou-se da lisboeta...—presumi.

—Não senhor—esclareceu—nem tal me passava pela lembrança, se não fosse

ella. Eu bem via que não era homem para aquillo. Ella é que principiou

comigo de volta, a rir-se para mim, a espreitar pela frincha da janella,

a fazer-me tagatés... Não sabia o que tudo isto queria dizer, palavra

d’honra! Olhava para mim e via que não podia ser. Principiei a andar

assim a modo de esquisito, a não saber o que tinha. Um dia diz-me ella,

sem _tirte_ nem _guarte_, que eu era um viuvo ainda muito geitoso. Fazem

lá ideia! Logo que ouvi tal, d’aquella bocca linda como a maçan camoesa,

e com a graça e esprito que ella tinha em todas as coisas, senti cá por

dentro taes esfregações, que não fazem uma ideia! Caramba! até perdi o

comer! Andava assim a modo de tonto, pesava as coisas tão mal na loja,

que era uma risota. E então securas? Todo eu era um forno. De noite

principalmente passava o tempo a beber agua e em vez de dormir vinha-me

prantar á janella, com os olhos pregados na casa onde morava aquelle

demonio tentador, que foi a minha desgraça.

—Era uma paixão—conclui.

—E uma paixão furiosa—acrescentou o meu amigo.

—Sei lá que diabo era! Foi uma grande bebedeira. Parece que me tinham

dado alguma bruxaria a comer. D’ahi por diante nunca mais dei conta de

mim. Não era Lucas Baptista que fallava, era outro homem. Tinha-a sempre

diante dos olhos, quer de dia, quer de noite. As santas da egreja,

inclusiva Nossa Senhora—Deus me perdoe!—pareciam-me feias em comparação

d’ella. Um dia tirei-me dos meus cuidados e pilhando-a a geito na janella

disse-lhe: «Uma casa sem uma dona é triste como um campo de milho sem

sacho!»

* * * * *

—E ella entendeu-o?

—Sei lá! Deu uma gargalhada e sahiu da janella. Fiquei assim a modo de

parvo. Se se tivesse rido de mim, se andasse a fazer chacota, é porque

me ia deitar na levada da azenha e nunca mais appareceria. Mas voltou

logo depois e com um sério muito sério, pôz o dedo no nariz a dizer-me

que lhe não fallasse assim da rua, que lhe podia arranjar alguma fama.

Eu então tive um baque no coração e disse de só para só: «Ella quer!»

Logo que encontrei modo perguntei-lhe em segredo: «Deseja a menina ser

a dona d’esta casa?» Mas quando estas palavras me sahiram da bocca, vi

abrirem-se-me debaixo dos pés as chammas do inferno.

—Porque! Ella disse que não?—perguntou o meu amigo.

—Qual! Pois isso é que foi. O demonio da serpente tentadora, com uns

olhos d’uma maganice que os senhores não fazem ideia, responde assim,

para só eu ouvir: «Isso é com meu tio!» E sae da janella, indo tocar no

piano uma modinha de que eu gostava tanto que até me fazia arrepios.

Caramba! Aquillo fez-me cá por dentro tal arrepanho, deu-me tanta alma

e coração, que desejava ter de meu o mundo inteiro, só para lh’o dar e

fazel-a princeza. Podia lá ser! Um velho, um estupido, que só sabia pesar

arroz e bacalhau e contractar em gados, casado com aquella senhora, tão

bem fallante e tão linda!... Eu só queria que os senhores conversassem

com ella! Desembaraçada e litterata como aquillo não ha. Vá lá o mais

poeta dar-lhe mote, sem vir com a cara a um lado! Os paes d’ella eram

gente grauda cá de Lisboa e o tal tio, honra lhe seja, deu-lhe educação

de espavento. Ainda hoje lhe quero bem só por isso! A tal viscondessa

de quem a D. Rozita do major, (era assim que lhe chamavam lá na terra)

ensinava as filhas, era uma creada ao pé d’ella. Uma senhora de mão

cheia, lá isso valha a verdade.

* * * * *

—O amigo Lucas sabe a historia da nossa mãe Eva e a da maçan que Adão

comeu?—perguntei.

—Ouvi bastas vezes explicar isso lá ao abbade. Pois a gente não é de pau,

é de carne e osso, caramba! Logo n’esse dia o major entrou-me na loja a

comprar charutos. Era assim um home todo arroganças, sempre a retorcer os

bigodes e a dar com o chicote nas calças. Ainda bem conservado, talvez

uns dez annos mais velho do que eu. Chamei-o para traz d’umas saccas

d’assucar, que lhe queria dar duas palavras, em particular. A minha loja

era grande como um armazem! Fazia muito negocio e todos os mezes tinha

pagamentos de duzentos, quatrocentos e mesmo seiscentos mil réis aos

caixeiros do Porto, que iam ás cobranças. Ás vezes havia mais que um

pagamento. Bah! nem me quero lembrar! Tudo perdi, por causa d’aquella

má mulher, que foi a minha perdição. Nunca mais a tornei a ver, não sei

onde diabo se metteu; mas se um dia a encontro, ainda perco a cabeça e

chacino-a, como se faz aos porcos. Para mim hoje tanto se me dá da costa

d’Africa, de morrer no Limoeiro, ou d’um tiro, como se me dá da primeira

camisa que vesti—terminou com desespero.

—Mas o major. O que disse o famoso major?—perguntou interessado o meu

amigo.

—Ora... uma lenga, lenga. Principiou macambusio, a retorcer os bigodes...

Eu que nunca fui medroso, nem peco, pois muitas vezes venci a tiro os

guardas de alfandega na raia, por causa do contrabando, tremia como

varas verdes. Se elle me diz que não, espetava uma faca na minha propria

barriga. Porém, não disse. Mastigou em secco... mastigou... que era o

diabo; grande differença de edades; ella sempre tinha vivido com muita

decencia, mas não tinha nada de seu; que eu precisava de outra mulher...

E dava com o chicote pelas saccas do assucar, e encolhia os hombros e

passeiava d’um lado para o outro, sem atar nem desatar. Este aranzel

puchou por mim e disse: «Ó senhor major, eu bem sei que a não mereço; mas

se ella, assim mesmo como eu sou, me quizer e se eu tiver meios com que

lhe conservar todo o luxo que tem, o senhor não diz que não?»

—Ora, agarrou-lhe com as duas mãos—entendeu o meu companheiro.

—Não é tanto assim! Que não tinha nada com isso. Tinha-a creado; mas

não era sua filha. Demais já tinha passado a edade, podia fazer o que

quizesse. O que lhe custava era separar-se d’ella.

* * * * *

—Ainda é vivo o major? perguntei.

—Não senhor, morreu d’um ataque, era um grande borrachão. Só o vinho do

Porto que elle me bebeu lá da loja?! Ficou-me a dever mais de cem mil

réis! Adiante. Por ultimo disse que sim; mas pediu-me quasi a chorar que

a tractasse bem, que elle sempre a educára muito mimosa.

—Estava tudo resolvido.

—É verdade, uma infelicidade. A gente não sabe onde as tem armadas.

Fomos casar ao Bom-Jesus de Braga e gastei mais de vinte moedas em tudo

isso. Foi ella que assim o quiz. O tio major pilhou uma borracheira que

chegou a estar de cama! Ao fim de tres dias voltamos para a terra n’um

carro fretado ao Franqueira. Pareciamos uns fidalgos. Foi talvez o luxo

que a perdeu, coitada, e a mim tambem—considerou com tristeza. Porque

ella não era má, os senhores podem acreditar; mas o janotismo deu-lhe

volta ao miolo, como acontece a quasi todas as mulheres, para mal dos

maridos—concluiu philosophicamente.

—Não foi só isso, talvez—repliquei. Ora confesse, amigo Lucas. O outro

era ahi algum rapaz novo e janota...

—Que!... Não senhores—interveio com vivacidade—um gebo como eu! Não me

troco! Assim um gordo, de cara espapada e barbicha de cabrito. Não me

troco. Essa é que é toda a minha matacão. Se Rosa fosse para onde algum

rapaz novo e bem parecido... vá. Sou velho e não me tenho por home que

a mereça. Mas para esse bruto com quem ella está! Ainda que eu viva cem

annos, não me posso consolar! Que posição tem elle?... (interrogou-se).

Uma logita alli para os lados de S. Paulo. Ora abobora!... O bicho mulher

não ha ninguem que o entenda!

—Realmente não se percebe bem, a loucura de sua mulher—reflectiu o meu

amigo. O senhor tractava-a mal, batia-lhe?

—Eu!? Eu bater-lhe?! O senhor está a caçoar comigo! Só o que queria saber

é onde ella desejaria passar, para ir beijar o chão onde pozesse os seus

pés. Fazem lá ideia! Aquillo para mim não era uma mulher, era uma santa.

E as lagrimas cahindo-lhe a quatro, Lucas acrescentou:

—Até é uma vergonha, o chorar ainda por aquella ingrata! Não está mais na

minha mão.

* * * * *

—Então não comprehendo—insistiu o meu amigo—como depois de o querer para

marido, o regeitou.

—Pois eu comprehendo muito bem, com sua licença. A questão é que ella

casou comigo, para vir para Lisboa. Depois da bôda não nos demoramos

quatro mezes lá na terra. Principiou aquelle demonio a atanazar-me, que

não podia viver alli, que o negocio não prestava e como o tal tio já

tinha morrido, metteu-me na cabeça, que aqui em Lisboa, eu podia ganhar

mais dinheiro. Isto lá me custou, porque eu bem via ser uma asneira.

Mas ella tanto fez e eu com este meu fraco por aquella sereia, não tive

remedio. Viemos e os primeiros quatro mezes foi uma pandiga. Enguliu-se

um conto de reis, em carros, em theatros e com amigos que logo arranjei

no hotel da rua da Prata, onde estavamos. Muitos d’esses, hoje, nem

me compram uma cautela, só para me não fallarem. No fim d’isto eu que

via sumir-se o dinheiro disse-lhe: «Mulher, as libras acabam-se, é

preciso arranjar algumas.» Ella então teve a ideia de pôrmos uma loja de

capellista, onde ella estivesse a vender, para chamar freguesia. Para

chamar freguesia!—exclamou indignado e ironico.—O que eu merecia era com

uma moca no toutiço! A freguesia de que ella precisava sei eu! Era com um

marmeleiro!

* * * * *

—Então foi ahi que ella...

—Não senhor. O tal gebo conhecemol-o á mesa do hotel e no theatro da rua

dos Condes. Á mesa estava o machacaz em frente de nós, sempre a offerecer

genebra ou vinho do Porto. Por isso, quando a gente arranjou a loja,

que foi alli para a Sé, o janota lampana, não me sahia de lá e era dos

melhores freguezes de charutos que a gente tinha. Fazia-se muito amigo e

eu que sempre fui um simples, contei-lhe a minha vida e confessei que o

negocio não dava para os gastos. No fim d’um anno pouco havia dos cinco

contos que trouxera da terra! Pois elle, com um estadão como eu tinha,

sempre de grande e á franceza, passeios aos domingos, carros, bailes de

mascaras!... E querem os senhores saber?... Foi a desavergonhada (eu a

este tempo, sou capaz de jurar sobre umas _Horas_, como ella ainda não

era má mulher!) que me lembrou fallar com o Gonsalves (era o tal!) para

elle me aconselhar alguma coisa, em que se ganhasse dinheiro. Fallei

n’isso ao cara de demonio e logo muito prompto me disse que mettesse o

que me restava em negocio de vinhos de Torres, que dava muito. Foi até

elle que me arranjou conhecimentos. Por este motivo principiei a andar

dias e dias por fóra de casa, por um lado e pelo outro, sempre n’uma fona.

—Ahi é que bate o ponto. O que elle quiz foi afastal-o para longe.

—Pois!... Eu nunca pequei por esperto. Penso que toda a gente é de boa

fé, como eu!... N’esta coisa de cauteleiro em que ando, tenho aprendido

muito. Hoje nem o mais pintado.

—O negocio de vinho fel-o perder a mulher e o dinheiro—raciocinou o meu

amigo.

—Como diz; porque logo que, por uma carta anonyma, vim a desconfiar

d’aquella ingrata peguei de vigial-a e para melhor o fazer vendi todo

o vinho de repente e com perca grossa. Um dia disse-lhe: «Mulher, tem

juizo, porta-te bem, olha que a honra não ha dinheiro que a pague!»

Respondeu-me que não fosse tolo e voltou-me as costas. Com o fim de

estar perto d’ella, arranjei coisa para ficar em Lisboa. Uns amigos

afiançaram-me em algumas casas de commercio, para eu andar a receber

dinheiro. Ella ralhou-me por isso e disse que havia de ser grande o meu

ganho. Eu respondi: «Para o que tu precisares nunca te hade faltar.

Ainda que eu venda o meu corpo ao diabo, terás sempre para os teus

alfinetes.» Sabem com o que me veio?: «Eu quero continuar a ir aos

theatros e dar os meus passeios. Não hei de estar toda a minha vida

mettida n’um buraco.»

—Tinha aspirações, vê-se.

—Tinha o diabo no corpo, é o que ella tinha. Eu não lhe merecia o pago

que me deu. Trabalhava como um mouro, só para que ella tivesse tudo. Não

havia chuva, não havia vento, não havia calor para mim. Sempre a correr

por essas ruas e então que estáfas! Ás duas por tres, cahia-lhe na loja

como quem vinha de passagem e sabe Deus se não tinha dado uma carreira

de Alcantara até á Sé, só para ver se havia alguma novidade. Os senhores

riem-se? É porque não sabem o que isto é. Chegava todo esbaforido, o

coração aos pulos no peito, e sempre com aquella mulher deante dos olhos

a enganar-me. Não comia, não dormia descançado, um verdadeiro inferno!

* * * * *

—Afinal vê-se que gostava muito d’ella—insinuei.

Respondeu com vivacidade:

—Isso, mesmo cá de dentro. Tinha-me por força dado alguma bruxaria. E

que mal me pagou! Já não lhe pedia que me tivesse amor. Bem sei que não

podia ser, que sou um velho e um ninguem; mas não devia fazer o que fez.

Na noite em que, morto de fome e de frio, entrei em casa depois de ter

andado todo o dia n’uma roda viva, e não a encontrei, cahi no chão como

uma pedra. Tornei a mim, quando a vela do castiçal estava gasta. A casa

em desordem, os bahus e gavetas abertas, como se tivessem andado ladrões!

Aquella mulher perdida não se contentou em me deixar, levou tudo quanto

havia de bom, e fiquei com a triste camisa do corpo. Chorei mais do que

quando morreu minha mãe! Durante tres dias, quasi sem comer, nem beber,

corri toda a cidade pelos botequins, pelas casas de pasto e restaurantes,

pelos theatros com um revolve carregado a ver se os encontrava. Haviamos

de morrer todos tres. A ella tinha vontade de lhe beber o sangue por uma

tigela e a elle de lhe fazer a cabeça n’um bolo. Se os encontro havia de

me vingar até ao fundo d’alma!

—E ainda gosta d’ella?

—Gosto sim senhor, gosto. Para que hei de dizer que não? É o meu peccado.

Teve novas lagrimas nos olhos, que desejou esconder de nós, voltando-se

para a parede.

—Se ella o tornasse a procurar?

—Não me falle n’isso! Ferve-me o sangue! Se um dia a vejo...

—Ah! nunca mais a encontrou?—pergunta o meu amigo.

—Já disse que não senhor. Sei onde mora, porque conheço a casa d’esse

excommungado que m’a furtou; mas a ella nunca mais lhe puz os olhos

em cima. Pois é admiração! Com este meu modo de vida das cautelas e

dos jornaes, corro toda a cidade. Nem nos theatros, nem nos dias de

procissão, nem no Passeio. Aquillo é que só vae á missa cedo e não torna

a sahir—considerou melancolico.

—E se um dia a encontra?

—Mato-a! mato-a, com toda a certeza!—disse exaltado.

Depois mudando rapidamente de tom concluiu:

—Não mato, não mato... Adeus meus senhores, não me apoquentem.

E distanciou-se quasi suffocado pela dôr.

Março de 85.

[Illustration]

[Illustration]

DOIS CATURRAS

Nas serenas tardes de verão, dormida a sésta regulamentar, o dr. Leandro

e frei Antonio, costumavam ir dar juntos um passeio. Sempre methodicos e

taciturnos sahiam de casa á hora conveniente, para se encontrarem junto

da igreja, sem esperarem um pelo outro. A menor falta n’este ponto, um

simples minuto de tardança, era caso para recriminações da parte do que

chegasse primeiro, recriminações manifestadas em monosyllabos de desgosto

e n’uma ou n’outra phrase curta e rapida, atirada para o silencio com

pronuncia desdenhosa: «Pegou-lhe bem na somneca», «Ficou abarrotado com o

jantar», «Isto foi pinga de mais...» Mas depois seguiam cabisbaixos pela

encosta acima, as mãos cruzadas sobre os rins, as bengalas pendentes,

e paravam de vez em quando, para tomar um pouco d’ar. Junto da ermida

da Senhora do Amparo, d’onde se disfructa uma paizagem restricta e

pacificadora, cada um ia-se sentar no seu banco de pedra, á distancia

d’alguns metros, como se fossem desconhecidos. E o frei Antonio, homem

d’um fundo de bondade mais rancoroso, depois de saborear a primeira

pitada, costumava dizer avulsamente, referindo-se a uma collina fronteira:

—Como é bello aquelle monte lá em cima! E é-o por ser unico!...

Leandro, fingindo que não ouvira, monologava:

—Pena é não haver outro monte igual, do lado d’acolá, por causa da

symetria!... Seria incomparavelmente mais bello!

Estas palavras, já significavam uma tregua e uma reconciliação. Eram

ironias mansas ao fim de muitos annos de argumentos, em viva polemica,

esmorraçando mesas, quebrando cadeiras que atiravam ás paredes juntas

com apostrophes. Porém nunca cederam, nem uma pollegada, n’este valioso

ponto de esthetica que os separava. Frei Antonio sempre partidario da

_unidade_, da simplicidade absoluta, e por extensão de principio do

pernão, detestava o _par_. Tinha orgulho em ser padre, só por causa do

celibato. No seu casaco sacerdotal e na ampla batina usava um unico

bolso, para n’elle incluir todas as coisas do seu uso—a caixa, as

chaves, o lenço vermelho, um pequeno breviario...

E justificava-se:

—Em quanto usei muitos, nunca encontrava o que queria. Agora é só metter

a mão e prompto. A caixa?... Aqui. (mostrava-a). O breviario?... Eil-o.

As chaves? o lenço?... Tudo, n’um ai.

Exhibia os objectos com o semblante glorioso d’um prestimano. Era

agressivo e até insolente para todos que lhe não acceitavam a invenção.

Mostrava-se propagandista, loquaz, capcioso, argumentado pelo seu lado.

* * * * *

O dr. Leandro deleitava-se com a opinião diametralmente opposta. Pela

unidade e por tudo quanto era impar tinha mais do que desdem, tinha

desprezo. Dizia, como phrase de sentença, que a natureza nunca podia ser

manca. Para irritar o seu amigo, na presença de muita gente, extasiou-se

diante da insignificante igreja de S. Francisco, só porque tinha duas

torres iguaes. Fingiu-se enthusiasmado, mostrando um pasmo acintoso e

offensivo, e exclamou com os braços abertos:

—Que bello! Olhem como são perfeitamente iguaes! Como é sublime a

symetria!

Frei Antonio sorriu amargamente, encolhendo os hombros, e respondeu com

mal desvanecido azedume:

—Deus, a suprema perfeição, é _Um! Um só!_

E espetando o dedo no ar demorou-se com elle, vingadoramente, diante do

nariz do doutor, que objectou:

—Mas Jesus Christo, a encarnação do pae, tinha duas naturezas, divina e

humana.

O sacerdote enchendo-se de cordura disse-lhe:

—Não gosto de metter n’isto o divino; mas podia responder que sendo

tres,—_tres!_—sublinhou com emphase—as pessoas da Santissima Trindade,

essas mesmas se reduzem a _uma_.

—É tolo—ainda acrescentou o outro.—Não sabe que pela conta do marinheiro,

as pessoas da Santissima Trindade são dez.

—Que diz você seu hereje!—cresceu o sacerdote indignado.

O doutor explicou tranquillamente:

—Pois não sabe? Olhe. As pessoas da Santissima Trindade são tres; Padre,

Filho, Espirito santo—seis; tres pessoas distinctas—nove; um só Deus

verdadeiro —dez.

Os circumstantes riram-se; o frade afastou-se trombudo; e, por agora, o

advogado ficou victorioso, mostrando-o d’um modo saliente.

Como andavam sempre juntos, de momento a momento se levantavam novas

birras. O dr. Leandro, que era magro, pertinaz e acintoso estava

sempre a espicaçar o egresso. Nunca o convidava para jantar, sem que o

numero de convivas fosse par. Levava-os ao jardim para verem as flores

e notava-lhes, sempre com insistencia, que as disposera pelo systema

de parelhas (_de coices_—acrescentava o frade). Se tinha de abrir uma

janella procurava logo estabelecer uma corrente d’ar, escancarando outra,

o que endiabrava o clerigo, que vivia no terror das constipações. Em

tudo se mostrava o rancor d’estes dois irreconciliaveis amigos. Indo

no seu habitual passeio, se encontravam alguem a cavallo, o sacerdote

aproveitava logo o momento para dizer:

—Bonita egua! Não haverá outra como ella, para a emparelhar?

O dono, se era vaidoso, respondia indubitavelmente:

—Nunca a encontrei. Pois tenho corrido um rôr de feiras!

O sacerdote insuflava n’um sarcasmo mordente:

—É porque não procurou bem. Aqui este senhor era capaz de lh’a arranjar.

—Pois não arranjaste!—duvidava o dono da egua.

* * * * *

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 3 / 8 段