Todos estes sentimentos augmentaram de intensidade, e no coração

repercutiram-lhe os fremitos magestosos d’uma epopeia, quando os

primeiros accordes da «Ave Maria» de Gounod se fizeram ouvir. Na sua

imperfeita comprehensão, não se destrinçavam claramente as bellezas

accumuladas no famoso trecho. Vinha-lhe tudo em globo, tumultuariamente,

como se a lendaria figura da morte o arrebatasse n’um instante, levando-o

por ermos desconhecidos, onde a sensibilidade fosse outra. N’aquella

ondulação luminosa d’harmonias, sentia-se crescer, vencia espaços

incommensuraveis, passava gloriosamente sobre altos montes, ia em

rapido vôo sobre o mar tormentoso, para no fim parar em regiões serenas

formadas de luz e melodia. Arrepanhava as carnes procurando a realidade

na manifestação da dôr; mordia os punhos a ponto de fazer sangue; queria

gritar e não podia; agarrava-se energicamente á sua querida rabeca, n’uma

effusão de ternura e o seu coração não se apasiguava nunca! O canto

angelico e suave crescia em profundeza, augmentava em area—era como uma

palpitação infinita. O cerebro de José Domingues enchia-se de carinho,

o enthusiasmo suffocava-o, anniquilava-lhe as forças. E lá era levado

de novo, subindo até ficar sobranceiro ás nuvens, conhecendo instantes

de paz e de tortura, chorando, sorrindo, estorcendo-se no chão como uma

cobra ferida.

* * * * *

Os bravos e as palmas d’esta vez foram mais estrondosos. Prolongaram-se

porque era o agradecimento final. Porem, todo esse ruido não pôde dominar

um doloroso grito, forte como se sahisse do peito d’Othelo n’um arranque

de ciume, meigo como se fora o ultimo queixume da rola Ophelia.

Ficaram rapidamente silenciosos e perplexos os espectadores. Um soluçar

ancioso continuou e para o logar d’onde elle vinha se dirigiram as

pessoas interessadas em tamanha dôr. N’aquelle buraco escuro, de bruços

sobre a rabeca que esmigalhára, estava o cego de Guardiam, que não

poderam mais chamar á vida!

Janeiro de 86.

[Illustration]

[Illustration]

A VELHICE D’UM REI

Sentado na larga poltrona de seda azul, o monarcha conversava em voz

pausada e lenta. Uma graciosa imagem da Virgem, talhada em marfim, por

desconhecido artista da Renascença, dava-lhe ensejo de explicar a velhos

amigos, como conjecturava, que teriam trabalhado aquelles talentos

singulares, creadores de tantas maravilhas. Tenuissima nuvem de paz,

de conforto, de luxo estudado, pairava sobre este ambiente, tornando-o

em região intermedia á riqueza mundana e á severidade do gabinete d’um

sabio obscuro. No rosto sereno do rei, havia o orgulho do nascimento

e a tristeza propria dos annos. A sua longa barba branca, objecto de

veneração em todo o paiz, era até commentada entre a gente rude dos

campos. Quasi a tinham como symbolo de orgulho nacional, pois com

jactancia affirmavam não haver outro rei com barba tão longa, tão linda e

tão branca.

A vaidade das coisas realengas—orgulho natural nos paços doirados,

sentimento peculiar dos que soltam os primeiros vagidos sentados n’um

throno—diziam que a não tinha. A abnegação e o desprendimento de

todas essas pompas eram-lhe attribuidos com meiga sympathia entre as

classes populares, que são as que melhor comprehendem as inclinações

democraticas. Elle abdicára em seu herdeiro o poder de que disposera

durante muitos annos e havia praticado esse bello acto sem ostentação e

logo que o principe chegára á maioridade. Adquiriu a liberdade de homem,

entregando-se ás suas collecções artisticas, aos prazeres da caça e á

conversação intelligente. Perdia-se dias inteiros na espessura das mattas

reaes, sempre poeta, contemplando a luz e vivendo intimamente na absoluta

natureza silenciosa. Para ser um bom rei, querido e estimado, até muitos

o diziam generoso e esmoler.

Porém, nem todas as pessoas tinham esta opinião benevolente. Alguns

revelavam que fazia sentir as suas dadivas, fallando d’ellas. Censurava

os gastos de muitos que os não podiam fazer, tinha a opinião de que

a sua bolsa não era inexhaurivel. Egoista e reparador—chamavam-lhe.

Desfazia com palavras, alguma generosidade que praticava. Apontavam como

impropria, a ponta d’avareza que esboracava o manto real. Um soberano

amesquinha-se fallando de coisas tão vulgares. Era o que faltava que

procedesse d’outra fórma. Não fazia o povo muito mais pelo rei, do que

o rei pelo povo? Qual era o azeite e o vinho que produsiam as extensas

coutadas que a nação lhe dispensava para os seus divertimentos?!...

* * * * *

Depois a velhice tornara-o rabujento. Os camaristas para lhe entreterem

as insomnias, tinham de colher ou inventar episodios escandalosos. Era

fatigante a sua exigencia nos detalhes e torturava-os com repetições. A

surdez obrigava-os a servirem-se da corneta acustica para lhe fallarem.

Havia perguntas e respostas disparatadas, situações grotescas que depois

se desfaziam em motejos nas ante-camaras. A consciencia d’estes factos

entristecera-o e só a muito custo lhe tiravam um sorriso, um ar de

approvação. A sensibilidade embotára-se-lhe com a velhice e só historias

picantes, difficeis de inventar, conseguiam distrahil-o.

A rainha,(tratavam-na assim por deferencia, só dentro do palacio) esposa

morganatica do rei, senhora ainda forte, saudavel, com vida para gastar,

abandonára-o n’este periodo de doença, sob pretexto de que elle estava

mais satisfeito entre os seus amigos. A falta d’um contacto feminino,

que lhe enternecesse a organisação, fizera variar aquella sensibilidade

que fôra delicada e exigente. Só episodios burlescos, onde apparecessem

mulheres adulteras, maridos comicamente trahidos, creadas servindo

intrigas amorosas, homens escapando-se de gatas por telhados... é que lhe

enchiam o vasio das longas insomnias. Alguns dos seus camaristas eram

rapazes de sangue ardente, creados n’uma vida ociosa e delicada. Passavam

um aborrecimento n’aquelle palacio de grossas muralhas. O que lhes valia

era a conversação das companheiras da rainha, senhoras formosas, muitas

gentis, todas de uma educação esmerada. Desanuviavam-se reciprocamente

d’aquella vida pautada e monotona, fazendo má lingua, fallando da

sociedade com a liberdade de parentes e camaradas. Um ou outro de

apetites mais grosseiros, preferia abraçar nos corredores sombrios as

simples creadas, mulheres de carnes saudaveis, sangue plebeu e revolto,

que enchem a existencia d’alegrias. As provas de tão insignificantes

delictos estavam nos beijos a cantar na escuridade, nos vultos a fugir

cautelosos, nas palavras de carinho apanhadas avulsamente n’um perpassar

rapido.

* * * * *

Um dia, o medico de serviço approximou-se do rei para lhe tomar o pulso.

A um contrahir facial de suspeita do facultativo acrescentou o monarcha:

—Não passei muito bem a noite, não.

Tivera soffucações, maus sonhos, um dormir inquieto. O doutor

applicou-lhe demoradamente o ouvido á região cardiaca, concentrou-se n’um

raciocinio e quietou o doente com o sorriso profissional. Nervoso, talvez

a maldita dyspepsia—esclareceu.

Porém logo se dirigiu aos aposentos da rainha a informal-a da gravidade

e adiantado da molestia. Poucos minutos levou, para o mais humilde

serventuario do palacio saber que o soberano padecia d’uma lesão. Era

coisa já antiga e sómente os ultimos gelos a tinham aggravado. Congestões

abdominaes e no figado haviam obrigado aquelle velho coração a empregar,

nos ultimos tempos, um grande esforço para impellir o sangue até aos

confins do corpo. Um coração delicado de rei, batendo sempre moderamente

debaixo de lendarios arminhos, logo que sentiu resistencia ao seu poder,

entristeceu; principiou a condescender, a sobrecarregar-se; dilatou-se;

adelgaçou... e a terrivel aneurisma estava proxima a romper-se.

—É como se o monarcha, sentisse contra o seu poder providencial a revolta

dos seus vassalos—comparou o medico, com delicadeza de phrase.

Tal acontecimento impressionou diversamente. Não havia unanimidade de

sentir, nem de crença. Todos viam que o rei continuava a conversar na sua

voz pausada e fidalga. O doutor era homem sabio e respeitado, mas podia

enganar-se.

—A sciencia humana—disse um velho de sorriso sceptico—é fallivel. «A mais

aguda, segundo o poeta, é ignorancia cega ante a divina». O aspecto de

sua magestade não é para sobresaltos.

—E a edade?—argumentou outro.

—Sim, a edade é condição desfavoravel—rematou o primeiro.

Alguem notára, que nos ultimos tempos, o rei, outr’ora tão expansivo,

se callava frequentemente, levando a mão ao peito quando desejava

respirar mais fundo. Porém acreditavam ser o cansaço de estar sentado,

o aborrecimento de viver no quarto e a tristeza da maldita surdez, que

parecia não ter cura. Que se levantasse algumas vezes, que fosse até á

larga varanda admirar a primavera que principiava a romper nos campos e

veriam, como logo adquiriria vigor, como os olhos se lhe alegrariam.

* * * * *

Os do pessoal menor do palacio, que tanto como outros viviam da

munificencia regia, preoccupavam-se, para o caso da morte, com o theor do

testamento. Alguns esperavam d’alli uma especie de liquidação vantajosa

da propria fortuna; outros, mais reservados e scepticos, temiam não ser

contemplados e perderem aquelle bom agasalho e santa ociosidade.

—Não nos fiemos em sapatos de defunto. Poderemos obter d’esta fórma o

equivalente do que gosamos?—resumiam.

—Ah! não póde deixar de ser! Até seria uma vergonha se o não fizesse!...

Esse rico papel escripto pelo proprio punho do rei, diziam estar dentro

d’um cofre de malachite, guardado n’um armario de ferro. Ninguem o tinha

lido, a não ser talvez o primogenito e a rainha; mas para todos era um

motivo de palavras humildes e risos captivantes, em face do doente.

Este homem, fabulosamente rico, podia deixar a independencia social aos

que eram pobres e accrescentamento de fortuna aos opulentos. E tinha de

o fazer, se queria engrandecida e celebrada a sua memoria. Isto de reis

são orgulhosos, mesmo quando o não parecem; teem a vaidade de que os

lamentem depois da morte, para se conservar a velha ideia biblica de que

o monarcha é o pae, é o senhor, é o ungido de Deus!

—N’esse caso que o pague—concluiam.

* * * * *

Poucos dias depois do ultimo alvoroço ácerca da saude do rei, houve um

acontecimento que impressionou. O doente não tivera, durante a noite, uma

hora de somno tranquillo. Sonhara uma vida agitada de batalhas, sentira o

sangue tumultuar-lhe nas arterias.

—Vejam lá, n’estes tempos modernos, eu a imaginar torneios e golpes de

lança!—criticou elle mesmo.

O doutor foi de opinião, que lhe devia ter feito mal a visita d’um

antiquario estrangeiro. A surdez obrigava o monarcha a grandes esforços

na conversa. Durante perto d’uma hora os dois tinham discreteado ácerca

de tempos passados, da belleza e encanto da vida d’outr’ora, artistica e

batalhadora, despreoccupada e cheia d’aventuras—bons tempos em que houve

homens que foram simultaneamente guerreiros, poetas e artistas, como

Cellini.

—Evite-me vossa magestade essas commoções. Ponha-me esses sabios na

rua—recommendou o medico.

A mulher do rei foi claramente informada da extrema gravidade da

molestia de seu marido. Senhora de ascendentes fidalgos, muito temente

a Deus, conseguira enfileirar na familia do rei, por um abuso da força

poderosa da sua belleza e da sua carne, sobre a organisação já caduca do

soberano. Tambem se fallava de influencias clericaes, que miravam a obter

para certo instituto, parte da fortuna particular do monarcha. Todos

entendiam que ella se prestára a aquecer os membros frios d’um velho, por

simples vaidade de ser chamada rainha.

Amava a riqueza, a consideração publica, o fausto da corte e a supremacia

entre as mulheres. A importancia da doença do marido, cuja morte

para ella significava a perda de todas estas garantias e vantagens,

assustou-a. O seu rosto de vivo que era, tornou-se tão composto e triste,

que abrandou, no começo, a malevolencia de muitos que na corte lhe

eram hostis. Ella que tanto amava os theatros, os bailes, as corridas,

os passeios de carruagem ao ar livre, em face das bellas paisagens

illuminadas pelo sol, deixou de sahir logo que o mal tomou o caracter

assignaladamente grave, e installou-se ao lado da poltrona onde o marido

dormitava, ouvia os seus amigos, e arfava os cansaços da molestia.

Ella, ás vezes sob pretextos futeis pedia que a deixassem só com o rei.

Condescendiam os camaristas, formando conjecturas, que nem sempre eram

benevolas. Diziam que depois d’essas intimidades lhe notavam no rosto

uma agitação febril, mal dissimulada. Accrescentavam que no semblante

do rei, apesar da compostura calculada, apesar da respeitavel barba

branca que lhe diminuia a expressão, apesar de reclinado na poltrona

com as palpebras docemente cahidas... descobriam restos de fadiga e o

aspecto d’um homem contrariado. Parece que se percebera n’um dia barulho

d’altercação, parece que se ouvira depois um soluçar de mulher. A

creadagem affirmava ter sentido beijos de esposos, palavras de colera,

expressões de reconhecimento. Tudo isto não podia deixar de ser obra de

testamento—entendiam. Os velhos amigos do soberano, sempre lhe tinham

tractado respeitosamente a mulher, indicando, ainda assim, na friesa e

polidez dos cumprimentos, que a não estimavam. Na ausencia chamavam-lhe

intrusa, ambiciosa, desnaturada, pois abreviava os dias do doente com

mortificações, e até a sua notoria religiosidade, tomavam como impostura.

* * * * *

A molestia progredia a olhos vistos, e já a ninguem era licito

desconhecer o proximo termo d’aquella vida d’opulencia. O proprio

doente disso estava convencido e quando lhe diziam palavras d’esperança

sorria com amargura. As ancias, as suffocações, agora mais frequentes

e incommodas eram um desmentido claro. A oppressão no peito dava-lhe

um sentimento de homem replecto. Os beiços engrossavam todos os dias,

as olheiras eram fundas como a sombra da noite, as palpebras pesadas e

adormecia facilmente como um bebedo. Este homem nascido em berço d’oiro,

esta imaginação educada e aberta sempre n’uma atmosphera de delicadezas,

repugnando-lhe as miserias asquerosas d’uma doença prolongada, começou a

ter pelo corpo de que fôra tão vaidoso, um desprezo invencivel. As suas

pernas estavam grossas como rudes troncos de carvalho, o ventre volumoso

chocalhava como um barril mal cheio, e, segundo lhe segredava a memoria,

devia conter um liquido viscoso, semelhante a baba d’animaes. Preferia

ter uma doença de cruciantes dôres. Devia haver molestias para reis,

molestias limpas, que fossem o logico terminar da vida das grandezas.

A cabeça recostada no espaldar alto da cadeira, o roupão de seda a

arfar-lhe sobre o peito, fechava voluntariamente os olhos para fugir á

vil realidade e entrar n’um mundo ideal de lembranças dignas. E parecia

conseguil-o, pois havia momentos em que o seu rosto era d’uma paz e duma

tranquillidade de stoico.

* * * * *

Viveria em imaginação no seu passado?

Fôra criança e logo na edade em que o cerebro começa a perceber viu-se

rodeado da consideração, que pode gerar o orgulho—velhos fidalgos iam-lhe

submissamente confiar as suas barbas, para que o principe as tomasse

como brinquedo. Tinha sido entregue depois a professores, que sobre

elle exerciam uma auctoridade parecida antes com a obediencia. Quando

cavalleiro, gentil e vaidoso, o fanatismo de todas as mulheres, gosára

amores defezos, que tanto o divertiam pela posição do homem enganado.

Subiu ao throno, e viu curvadas diante de si, as illustrações do sangue

e da sciencia, homens de renome que só d’elle, do seu tradicional poder,

deviam receber a consagração. Aborrecido do mando, com o egoismo proprio

da velhice, abdicou, creara novos prazeres recolhidos, encontrára ainda

uma formosura que o amára, sentira-se remoçado e contente durante certo

periodo...

Porém n’outros momentos vinham-lhe subitas crispações faciaes

significativas de desgosto. É que sentia o desabar de todo esse mundo,

como desabam as montanhas n’um rancoroso terremoto. Tinha, ás vezes, a

sensação de que um largo alçapão se abria na terra e o engulia para uma

escuridade absoluta e eterna! Era homem como os outros. Diante da miseria

da carne estava nivelado com a plebe mais infima. A corôa, o sceptro, a

auctoridade real, os gosos da intelligencia, nada faziam para que tivesse

um fim grandioso.

Felizes só os reis antigos, mortos heroicamente nas batalhas medievaes,

atravessando inimigos com lanças relusentes e acabando entre maldições e

hymnos de gloria! A sua imaginação dolorida apresentava-lh’o ainda mais

repellente do que estava, o rosto espapaçado—palpebras entumescidas e

cyanoticas, beiços grossos e olhar sem brilho. Vira-se uma vez ao espelho

e ficara horrorisado de si mesmo. Despresava-se com nojo.

* * * * *

Sobre todas as ironias da carne, vinha ainda a preversidade dos vivos

cubiçando-lhe os haveres. A mulher queria um testamento que lhe fosse

absolutamente favoravel. Era o legitimo preço da sua belleza e da sua

fresca mocidade, que elle estragára com beijos senís. Ao calor emprestado

pelo sangue da donzella, devia o rei o prolongamento d’uma vida

arruinada. Os filhos questionavam os seus direitos, com razões de casta,

ligando-as a interesses d’Estado. Fallavam das tradições de familia; da

abundante riqueza que era preciso ostentar, para se imporem pelo fausto,

como já se impunham pelo nascimento. Porém elle tinha amigos fieis,

companheiros dos enthusiasmos juvenis; creados cujos aturados serviços

mereciam uma recompensa, uma lembrança no supremo instante da despedida.

A exigente consorte queria tudo para si. Cá regularia todos esses deveres

como entendesse. Só assim poderia sustentar o respeito e consideração

publica, continuando na sua mão as dependencias que até alli tinham sido

do rei. Exhorava-o com beijos, com palavras acrimoniosas, com ameaças

sobre a sua memoria.

Como meio de sahir de taes amarguras, o monarcha lembrou-se do suicidio.

A razão aconselhava-lhe a findar o mais depressa uma existencia

assim despresivel. Seria um acto cobarde?!... Entre o soffrimento e

o gozo passa-se toda a vida humana. Quem não póde luctar desapparece

d’arena—pensou resolutamente. Ia furtar-se a muito desgosto, a sentir o

difinitivo escorrer do seu corpo, que já era massa inerte, alastrando-se

pelo chão. Ia poupar-se a afflicções, não queria supportar o peso

d’aquellas pernas inchadas, não queria ouvir por mais tempo o chocalhar

dos liquidos no ventre, o que lhe dava a ideia de que elle era um

despresivel odre, caminhando no dorso d’um macho.

* * * * *

Que bella noite, serena e calma! Uma lampada de Sèvres, espalhava no

amplo quarto uma bruxuleante claridade. A rainha recolhera-se aos seus

aposentos. Alguns camaristas, medico e serventuarios, vigiavam os restos

d’aquella vida. Quando a apparencia d’um somno tranquillo se espalhou

no rosto do doente, todos se retiraram para as salas proximas. O rei

sentiu-se bem, só. Calculou que todos estariam despreoccupados da sua

pessoa. Convencido d’isto, teve um sorriso de triumpho! Logo tentou

erguer-se, fincando as mãos nos braços da cadeira. Mal se pôde mover!

Estava entorpecido, o corpo pesado, a sensibilidade ausente. Terrivel e

severo desgosto foi o seu, quando se viu nas condições de semelhança com

um sapo hydropico! Reagiu corajosamente contra a inercia dos musculos

e, n’este esforço de dignidade suprema, conseguiu levantar-se. Mas logo

se sentou, para não cahir. A colera do seu espirito tomou proporções

formidaveis, como o vento que arrasa florestas. Concentrou no combalido

coração o antigo vigor da juventude, toda a coragem da mocidade. Queria

supplantar este phantasma da impotencia, que se levantava deante dos seus

olhos. Passando da cadeira a apoiar-se no rebordo d’uma meza, depois

na hombreira da janella, apanhou a bengala de castão d’oiro e pedras

preciosas, que lhe mandára de presente um papa, e conseguiu firmar-se em

pé. Deu alguns passos cambaleantes; mas parecendo-lhe ouvir um rumor,

parou de subito. Não era ninguem. A sombra do seu corpo projectada pela

tenue luz estendia-se no pavimento, tremula de susto.

Oh! fraqueza, oh! implacavel miseria humana! Este senhor poderoso, esse

phantasma movendo-se tropego e cauto no silencio da noite, é o proprio

Luiz XI aterrado diante das visões do seu cerebro! Foi-se abeirando,

timido e com passo incerto, d’uma pequena estante entre duas janellas.

Lançou mão d’um objecto que metteu no bolso do _robe-de-chambre_,

furtivamente, como homem que andasse a roubar. N’esse momento a estante

oscilou, o barulho attrahiu um creado.

—Não preciso... não chamei...

Tremia de medo, como creança encontrada n’uma travessura. Veio o

medico e o camarista. Approximaram-se, ampararam-no até á cadeira, e

reprehenderam-no amoravelmente.

Desculpou-se com palavras de humildade e sujeição.

Tentára esta experiencia para vêr se podia andar, sem o auxilio de

ninguem. Querendo inferir, por si mesmo, da força e vigor de que

dispunha, era necessario mexer-se no quarto só, sem que o vigiassem.

Ainda estava vigoroso e forte—affirmou. Sentia-se com vida para muito

tempo.

Fortificaram-no n’esta ideia; porém retorquiam que fôra temeridade o que

acabava de fazer. Podia ter cahido, dar com a fronte na esquina de uma

cadeira e isto ser-lhe fatal, no estado de fraqueza em que ainda estava.

Assim se interromperia uma boa convalescença, assim adquiriria novos

padecimentos que podiam ser mais graves, muito mais graves do que os

actuaes.

Concordava em tudo, sorrindo. Porém, a tentativa, visto não ter dado

mal nenhum, estava contente por têl-a feito. Atravessára o quarto sem

auxilio, e era isso que até alli suppunha impossivel. Talvez no dia

seguinte fosse ao gabinete contiguo, depois á varanda e finalmente ao

jardim.

—Poderei experimentar doutor?

—Com precauções, meu senhor, com precauções.

Discorreu ainda, com serenidade, alguns minutos. Estava evidentemente

melhor, mais desafogado. Aquella experiencia tornára-o communicativo e

alegre. Conseguira ter vontade de dormir. Parecia-lhe que ia gozar um

somno regalado e sereno. Os olhos estavam com tendencia para se fecharem.

Que o deixassem só é que desejava.

—Mas vossa magestade...

—Não me levanto mais—atalhou. Palavra de rei.

* * * * *

Sahiram. Tudo ficou em paz e tranquillidade. O rei conservou-se largo

periodo immovel, os olhos fitos n’uma armadura que estava de sentinella

a uma porta. Concentrou toda a força dos sentidos, para reconhecer que

o não vigiavam. A manhã surgia do infinito dos tempos. Os passaros

começaram a chilrear nas acacias do parque. Ouviu-se o cantar lento e

monotono do velho jardineiro, que por entre as flores regougava melopeias

do seu paiz. Levantava-se, subindo e alargando-se como um nevoeiro que

emerge d’um rio, o sussurro que fórma o dia—mistura de muitos sons. A

creação universal ia engrandecer-se com um novo impulso do sol, n’este

formoso dia de primavera.

O rei tinha uma expressão firme de tenebrosa coragem. Tacteava com

perspicacia, para encontrar no braço esquerdo o signal d’uma sangria, que

em moço lhe haviam feito, pela queda d’um cavallo. Na mão brilhava-lhe

uma pequena lamina de Toledo, obra de esmerado artista, com multiplicadas

linhas d’oiro encrustadas em ferro. Abandonava riqueza e fausto,

sentia-se podridão e lama! Com a indomita coragem dos altivos e dos

desventurados abriu a cicatriz quasi apagada. E emquanto esse sangue

de rei escorria, gottejando no chão, o moribundo encostou a cabeça no

espaldar alto da poltrona e com um sorriso de amargura, disse suspirando:

—Acabou-se.

Penderam-lhe os braços, a cabeça rolou para um lado, todo o seu corpo foi

entregue ao supremo desleixo da morte!

O segredo d’este acontecimento conservou-se nos intimos do palacio. O

medico, ao contemplar o cadaver inerme, com a ideia nos soffrimentos que

ainda estavam reservados ao monarcha se continuasse a padecer, concluiu:

—Foi melhor assim!

Lisboa, janeiro 85.

[Illustration]

[Illustration]

A MULHER DE LUCAS

Diga-nos, então, como foi essa historia do seu casamento; como é que a

sua mulher fugiu de casa.

—Ora... não fallemos de coisas tristes. Eu já lh’o contei e o senhor bem

o sabe. Compram-me uma cautella?

—Mas desejo—insisti—que este meu amigo oiça tudo da sua propria bocca...

Sorriu, olhou interrogativo para nós ambos e perguntou:

—Porque? Este senhor conhece-a?—E mudando para um tom energico e quasi

enfurecido:—Sabe onde ella mora?

Fizemos-lhe signal negativo, e Lucas retomando a sua expressão habitual

de paciencia e doçura disse:

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 2 / 8 段