Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um c

COMEDIA DO CAMPO

LISBOA

TYPOGRAPHIA DE ADOLPHO, MODESTO & C.ª

_Rua Nova do Loureiro, 25 a 43_

1887

_4.º vol. da_ COMEDIA DO CAMPO

NOVOS CONTOS

DE

BENTO MORENO

La plupart des drames sont dans

les idées que nous formons

des choses. Les événements qui

nous paraissent dramatiques ne

sont que les sujets que notre

âme convertit en tragédie ou en

comédie, au gré de notre caractère.

H. DE BALZAC—_Modeste Mignon_.

[Illustration]

EDITORES

TAVARES CARDOSO & IRMÃO

_5, Largo do Camões, 6_

1887

OBRAS DO MESMO AUCTOR

PUBLICADAS PELOS EDITORES DAVID CORAZZI E TAVARES CARDOSO & IRMÃO

COLLECÇÃO DA COMEDIA DO CAMPO:

Contos—1 vol. 500

Amor divino—1 vol. 500

Antonio Fogueira—1 vol. 500

Novos contos—1 vol 600

COLLECÇÃO DA COMEDIA BURGUEZA:

Noivos (quasi esgotada)—1 vol. de 500 pag. 1$000

O Sallustio Nogueira—1 vol. de 500 pag. 1$000

O Grande Homem (Comedia)—1 vol. 700

[Illustration]

[Illustration]

A MINHA MORTE

Estava na convalescença d’um typho. Não teria doze annos, mas na minha

imaginação representa-se ainda nitidamente esse longo periodo de

febre e de terriveis visões. Apesar de debil e quasi enfesado resisti

heroicamente ao soffrimento e á molestia. Sempre de costas na cama,

passava o tempo a contar e recontar as tabuas do tecto e a fileira de

cachos dependurados ao longo da parede branca. Sentia-me embebido em

estupidez; as perguntas que me faziam, ácerca do meu estado, do sabor

dos remedios e do apetite, ficavam sem resposta. Olhava para todos sem

comprehender o que diziam, ou, pelo menos, sem ter os meios de exprimir

tudo quanto de violento e de extraordinario se passava em todo o meu

corpo. Era como um empastamento geral da minha carne, uma liquifação

do meu cerebro, a ausencia de mim mesmo para sentir. Até as dores que

soffria, tendo um resto de consciencia para saber que se passavam em

mim, attribuia-as mais facilmente a outro corpo. O meu interior era o de

uma enorme fornalha; o proprio halito parecia-me de labaredas brancas,

formadas de ar incandescente. As minhas sensações reduziam-se a uma sede

permanente, que se não podia mitigar. Por mais que me humedecessem a

lingua, nem por um instante m’a podiam tornar molle e flexivel: era uma

lingua de papagaio, que seria facil quebrar como se fôra um caco. Ainda

me recordo de quanto me custava a supportal-a na bocca e de ter, por

vezes, desejos de a arrancar.

Mas depois fui melhorando. A volta das sensações ordinarias fazia-se

uma a uma, como pombos escorraçados d’um pombal. Era um renascimento

gradual, e noto que appareceram primeiro as sensações mais elementares,

aquellas em que o homem tem menos imperio. Todos os dias a febre

decrescia, reconquistava um pouco do viver antigo, como se eu tivesse

feito uma viagem ao chimerico paiz das sombras, e de lá voltasse por um

comprido corredor de muitas legoas, approximando-me instante a instante

da benefica luz do sol, que se visse brilhar ao fundo, cá n’este

mundo vulgar que todos habitamos. Entrei por fim em convalescença. O

facultativo consentiu que me levantasse todos os dias um nadita. Já podia

ir fazendo tentativas de chupar a minha aza de frango. O enjôo da comida

ainda era grande, por isso o meu desgosto era enorme. Reconhecendo-me

melhorado não estava nas condicções das outras pessoas...

No emtanto a minha alegria e satisfação voltaram com o franco apetite.

Tudo era pouco para mim, não havia coisa que me satisfizesse e era

preciso que me ralhassem para não ser tão guloso, que me podia fazer mal.

Até não queria que os outros comessem ao pé de mim; porque isso me dava

inveja, e até raiva, ficando a reparar com olhos avaros e insaciaveis.

O medico argumentava que o meu estomago devia estar fraco, que não

supportaria sem damno grandes quantidades; mas eu sentia-me como uma

grande planta, que lançasse por toda a parte as suas ambiciosas raizes,

para se sustentar á custa da seiva que pertencia ás outras e roubar-lh’a

com o poder absorvente de uma enorme bomba. A comida de predilecção

n’essa minha convalescença eram as boas sardinhas de Vigo, cabeçudas e

grandes, que os gallegos iam vender á minha terra. Á distancia de 26

annos, ainda hoje sinto no paladar o sabor d’essa incomparavel comida.

A chuva d’esse aspero mez de dezembro era frigidissima, o vento

assobiava pelas frinchas das portas. Como já podia andar por toda a

casa ia de vez em quando ao mirante, olhar para os montes que estão ao

norte, e contemplava-os todos cobertos de neve, como se fossem pyramides

collossaes, formadas d’assucar.

Mas a chuva e o vento que soprava d’aquelle lado obrigavam-me a descer;

pois que a janella não era guarnecida de vidraça. N’uma d’essas occasiões

até, a saraiva me veio bater na cara e eu, com medo de recahir,

fui-me logo sentar ao lume, que estava vivo, imponente, abrangendo

grandiosamente em labaredas, os potes de ferro que estavam ao redor.

A nossa cozinha era comprida, terrea e de telha vã. A lareira, grande,

coberta pelo enorme e phantastico chapeu da chaminé, muito farta de

lenha—podia aquecer uma duzia de pessoas á vontade. Na vespera do

sarrabulho ou na noite da consoada, essa cozinha tomava o aspecto

glorioso d’um templo em festa. Havia maior numero de potes; as labaredas

melhor sustentadas enroscavam-se umas nas outras sempre na mesma altura,

como parafusos sem fim. Era manifesta e patente a alegria, a satisfação,

o contentamento que este bom fogo produzia em todos, principalmente

quando as castanhas estoiravam debaixo das brazas e sabendo-se que estava

perto a enfusa de vinho.

Mas quando desci apressadamente do mirante, batido no rosto pela saraiva

e com o tetrico medo de recahir, a cosinha estava solitaria e lugubre.

Era dia ordinario, o lume bem acceso, o pote da ceia gorgolhava com a

fervura, os gatos e os cães, fraternalmente misturados, enroscavam-se

do lado do forno. Fui-me sentar ao meu canto, contando estar ali até á

reza. Lá fóra das portas era quasi escuro, a chuva e o vento passavam

ruidosamente sobre o telhado, produzindo ressonancia dentro da chaminé.

Todo este barulho exterior e material tornava mais sensivel a minha

solidão. Sabia que minha avó, estava á janella na dupla occupação de

rezar as suas contas e de vigiar se os visinhos traziam sardinhas da

praça, que era para tambem as mandar comprar. Porém o rom-rom dos gatos,

o arfar do lume, o ralho da fervura e o sussurro do vento formavam

um ambiente caracteristico de solidão ao qual se veio juntar a nota

sentimental e lugubre do toque das trindades. A torre da egreja era

sobranceira á cosinha e as nove badaladas cahiram-me espaçadamente no

cerebro imprimindo uma sensação gemebunda e prolongada. Apezar da viva

chamma do lume ser propria para desfazer tristezas, sentia sobre mim o

lendario pezo da noite, com todo o seu imprevisto de sombras. E a enorme

chaminé, negra de ferrugem, abria sobre mim um espaço indefinido, d’uma

amplitude amedrontadora. Diante dos meus olhos, em correnteza, estavam

pendurados os salpicões e eu contava-os machinalmente até á minha

chouricinha e á de meu irmão, que estavam juntas, á esquerda. Fui pouco

a pouco cahindo n’um longo esquecimento, fui perdendo a consciencia, a

ponto de quasi se extinguir o meu ser.

* * * * *

Provavelmente o calor benefico do lume concorria para o entorpecimento.

Já quando o sino acabou de tocar as «ave marias» eu voejava n’uma

atmosphera de sensações vagas, como suspenso no meio do espaço. A

cadencia das badaladas deu-me o impulso ondulatorio que me atirou por

desconhecidas regiões, fóra de toda a contingencia. Um pingo d’agua cahia

a compasso da torneira da cosinha e o som tristonho parecido com o gemer

d’ave, feria-me levemente o ouvido como se fôra o desfallecer d’uma

d’essas musicas ideaes, que só existem na região do azul. O estrepito do

vento tambem se distanciára de mim, ouvia-o dilatado e longinquo, com a

doçura e encanto do som d’um pinheiral. Estava envolvido, tapetado d’uma

substancia isoladora que me fazia perceber attenuadas todas as sensações.

O meu pensar vago e indeciso, traduzia esta especie de anniquilamento das

minhas forças physicas e a perda das minhas idéas pessoaes. Reconhecia-me

consubstanciado n’este mundo novo e abstracto, balouçando-me n’uma

amplitude infinita como a da morte. Cá na minha, eu já não pertencia

ao numero dos vivos apesar da memoria me reproduzir claramente toda

a realidade material que eu gosára e soffrera, durante os annos da

convivencia terrestre. Confesso que tive saudades do que fôra. Gostava da

vida, mesmo simples e humilde como sempre a passára. Viver por viver e

para viver, é que me enthusiasmava e não as altas posições da fortuna e

da gloria. Todo o homem tem dentro em si tantos meios de ser feliz, que

não saber aproveital-os é signal de desequilibrio e doença. Por isso, a

idéa de ser um morto não me alegrava e, bem pelo contrario, principiei a

apavorar-me á maneira que percebia que isto era sério. Deixar assim de

repente, sem uma despedida, a vida terrena, na qual eu ia sonhadoramente

gosando a minha obscuridade, lá me parecia duro. E sem enterro, sem chôro

de parentes, sem nenhuma pompa funebre... como é que eu tinha morrido?

Depois, independente da questão do céu e do inferno, aquillo lá pelo

outro mundo não é satisfatorio. Antes de entrar nas regiões da perpetua

ventura ou do infinito castigo eu não via senão caras tremendas, que nada

tinham de commum com as expressões minhas conhecidas. Os que riam era

com esgares terrificantes, boccas arrepanhadas e olhos de fogo que me

faziam medo; os que choravam abriam taes guelas, e figuravam-se-me tão

pavorosas as suas cabelleiras formadas de florestas, que me senti gelado,

não podendo sequer encaral-os.

Não me faziam mal, não se approximavam de mim; mas eram desagradáveis

companheiros na sua impavidez sinistra. Tambem, lá por esses espaços,

que levianamente se chamam sideraes, eu não encontrava senão

precipicios, abysmos sem fim, montanhas cujos pincaros a minha vista

não podia alcançar. Por cima da cabeça tudo eram nuvens encastelladas

e carrancudas, que deviam conter fogo e tempestades para myriades de

seculos. Um raio de sol palpitante rompeu n’um momento esta espessura;

mas isso, maiores saudades me fez, por me lembrar com entranhado amor

tudo quanto tinha perdido de carinhoso e bom. Nunca senti como n’esse

instante o preço da vida. A epopeia grandiosa da eternidade, attrahia-me

muito pouco, não seduzia, com as suas magnificencias, a imaginação

simples da creança. Por isso a minha anciedade, a minha tortura cresceu

progressivamente. Nunca mais voltaria a gosar a tranquilla convivencia do

rio, dos montes, das campinas e dos penhascos?!... O canto dos passaros,

as paizagens floridas, o melancholico luar do outono, a exhuberancia da

primavera, os gosos familiares, as festas, as vindimas, as amizades...

tudo teria acabado para mim?!

Que tristesa, que amargura, que saudades me torturavam! As lagrimas

cahiam-me em fio, sentia-me soluçar, a minha admiração pelos sublimes

coros celestiaes, diminuia d’um modo consideravel. E tamanha era esta

saudade e esta dôr que nem o aspecto patente do fogo da querida lareira,

dos potes a ferver, dos salpicões pendurados diante dos meus olhos, me

dava a precisa tranquilidade e resignação. Não me lembro mesmo se cheguei

a considerar estas visões enganosas, como perfidos meios de transacção,

para eu me habituar á outra vida. O meu desespero só fazia augmentar,

sentia pungentissimamente quanto perdi. A minha chouricinha, que estava

ali em frente de mim, já eu não a poderia saborear, em quanto que meu

irmão, que era um vivo, havia de comer as duas e talvez muito regalado.

Principiava a reconhecer-me fatigado, exhausto de forças e ambicionava um

momento de repouso. Visto estar morto, a tormentosa viagem atravez dos

espaços infinitos havia de acabar. Decerto era este o pavoroso caminho da

eternidade, que teria no fim o ceu ou o inferno. Bem sei que logo para

começo podia ser o purgatorio, como logar de purificação; mas declaro

francamente que esta transigencia nos soffrimentos não me foi muito

consoladora. Talvez pelo receio de ter a vida cheia de peccados, julguei

mais provavel não vir a ser um dos eternos habitantes do paraizo!...

Estaria mais satisfeito, se o meu destino estivesse no ceu—atmosphera

ideal, mais pura que o diamante, de cor mais serena que a perola, logar

onde não ha noite, nem sombra, onde os cantos são perpetuos, como é

perpetua e renovada de instante a instante a floração d’aquella primavera

sem fim. No entretanto, se me fora licito ter uma opinião, haveria

declarado preferir a todas as sublimidades ideaes, o continuar na terra

contingente, com todos os seus males, desgostos e contratempos. Porem já

que me achava no outro mundo desejava antes o paraizo do que o inferno,

ou mesmo o purgatorio. Infelizmente este horrendo caminho que seguia, com

a velocidade d’um cyclone, não me dava esperanças de me levar á patria

eternamente luminosa e bella. O ultimo precipicio em que estava era d’um

horrendo incomparavel. Por todos os lados a treva sem limites, e para o

fundo um inconcebivel funil por onde ia resvalando!

Como no terrivel naufragio do conto de Poe, no qual todos os destroços

eram engulidos pelo redemoinho infernal do Maelstrom, assim o meu corpo,

o meu cerebro, o meu pensamento soffriam as torturas d’um movimento

concentrico. Sentia que de instante a instante me apertavam mais e

mais as paredes d’esta nova prisão. Descendo sempre estava cruelmente

atormentado e os meus olhos cheios de pavor não percebiam a menor restea

de luz. A minha existencia conhecia-a sómente pela dor d’uma perna onde

cravára com desespero as proprias unhas. A superficie interna do funil

era lisa a ponto de lhe não perceber o contacto.

Os circulos que eu descrevia eram cada vez menores, a ponto de para o

fim redemoinhar em volta de mim mesmo, como se houvera um eixo material,

servindo de ponto fixo. Evidentemente estava a chegar ao meu pavoroso e

tetrico fim! Uma sensação de frio penetrava-me até á medula dos ossos,

apesar de que, por uma inexplicavel contradicção, conservava no meu

corpo viva reminiscencia do meu calor natural e procurava concentrar-me,

aconchegar-me, metter-me por assim dizer, para dentro de mim mesmo.

Veio uma onda de calor que me lambeu a cara... Talvez o desmoronamento

da pilha d’achas que formavam a fogueira. Esta sensação, de certo

agradavel em outras circumstancias, poz-me em grande terror; pois que

mais me confirmou na ideia da proximidade do inferno. Lá ia eu cahir

n’esse fogo perpetuo, que tão horrendo antevira nas descripções dos

missionarios! E apesar do pavor, irritava-me esta evidente injustiça

d’um poder sobrenatural. Que peccados teriam commettido os meus doze

annos, para merecerem tão severa punição? Já não tinha lagrimas,

sentia-me anniquillado e sem força para me oppor. O meu incomparavel

infortunio, não se limitava a perder o gozo da vida terrena, que tanto

amava. E transigia covardemente: Se, ao menos, fosse trocar o mundo,

a familia, os brinquedos, a caça aos pardaes, a pesca aos barbos, a

minha chouricinha... pelo reino do ceu, vá lá. Não teria ganho, mas vá

lá. Porem abandonar todas estas coisas sympathicas e ter para todo o

sempre de gritar entre chammas, com o diabo a espicaçar-me e monstros

horrendos a deitarem-me perpetuamente pelas guelas chumbo derretido, breu

e azeite a ferver!... era o que eu não podia levar á paciencia. A grande

afflicção em que me vi deu-me ainda um momento de revolta, que resultou

d’uma onda de sangue novo que se me espalhou no cerebro. Por mais que

esquadrinhasse na consciencia, por mais que posesse aberto e claro o

meu passado insignificante, não me sentia merecedor de tão formidavel

pena! Resolvi interpor recurso. Deus é infinitamente misericordioso e de

certo me ouvirá—pensei. Alem de que eu tinha sobejos motivos para assim

proceder, attendendo ao modo excessivamente escuro como correra o meu

processo. Não me lembrava de ter apparecido na sua divina presença; não

vira aquellas venerandas e compridas barbas, brancas como espuma do mar;

não me recordava dos coros dos anjos e das virgens, nem das incomparaveis

bellezas da celestial habitação... Quem sabe se eu ia para o inferno

por engano! Quem me dizia não ser eu victima de manobras d’algum

verdadeiro condemnado que tivesse tido artes de se trocar por mim?! A

minha perturbada intelligencia comprehendia esta possibilidade. Por

tanto—resolvi—levantemos um clamor bem alto, uma supplica formidavel, que

alargando-se por este funil em que me acho, suba aos ouvidos justiceiros

do bom Deus, grande e omnipotente. A convicção da minha innocencia,

dava-me força para tamanha ousadia. E tomei enorme folego, enchi o peito

d’ar, concentrei em mim todas as energias da terra. Da minha garganta

sahiu um estridente brado que se dilatou pelos espaços! Ao mesmo tempo

fugi pela cozinha fóra e fui-me agarrar a minha avó, que resava as suas

contas encostada á janella. Contei-lhe toda a minha afflicção e os

tormentos mentaes em que me vira. Ella reconheceu logo, bem como depois o

confirmou um sacerdote nosso amigo, que este facto devia ser tomado como

um aviso do ceu. Apesar da minha pouca edade, este toque divino, mostrava

claramente que eu andava em peccado mortal. Uma confissão geral de todo

o meu negro passado era urgente. Os esconjuros deviam completar esta

obra de limpeza espiritual. Procedeu-se por esta forma e os exorcismos

foram resados por um padre gallego, que era homem eminente em escorraçar

demonios.

Janeiro de 86.

[Illustration]

[Illustration]

NOSSO SENHOR JESUS CHRISTO

(_A Valentina de Lucena_)

Entardecia. Como o brilho do sol desaparecera, uma illuminação egual

ameigava a paisagem. Os ultimos soutos de castanheiros transmontanos,

pareciam nodoas de relva nas encostas dos montes. A escuridade cahia

lentamente sobre os povoados, como um tenue orvalho. A physionomia das

terras, em especial dos arvoredos, principiava a ser minhota. Havia mais

d’uma hora que a carruagem rodava por uma estrada em declive. Disse-me

o cocheiro, que algumas casas e uma egreja agglomeradas n’um valle,

na margem direita do Tamega, formavam a povoação de Ribeira de Pena.

Montanhas severas e apocalypticas emmolduravam este bocadinho de campo,

no qual eu principiava a reconhecer a paisagem querida dos meus primeiros

annos.

Vinha só e sentia-me triste sem motivo. O continuado e monotono barulho

da carruagem, o assobio dolente e vago do cocheiro, a amortecedora luz

do crepusculo infiltrando-se por entre as penedias das encostas, os

renques d’arvores do valle tinham-me lançado n’um estado de inconsciente

melancolia. Já cançado da jornada, ainda me faltavam muitas horas para

chegar ao Arco, logar onde ficaria essa noite. N’um estado intermedio

ao somno e á vigilia, as ideias perpassavam-me no cerebro, umas vezes,

como nuvens transparentes e macias recordando momentos d’agradavel

convivencia; outras vezes, encastelladas e escuras, como são as ideias

proprias d’aquelles que vão perdendo o contente palpitar da mocidade!...

Oh! minha encantadora e modesta infancia, eu que sou um dos homens que

mais tem rido, dize-me tu se já algum dia fui alegre, despreocupadamente

alegre!...

* * * * *

Á ponta da noite, no momento em que á luz indecisa, os objectos tem

adquirido um esfumado que os avoluma, a carruagem parou á porta d’uma

taberna para se desaguarem os cavallos. Os meus nervos foram chamados

á realidade com energia. N’um banco de pedra, d’esses toscos e muito

usuaes que se encontram juncto das habitações dos camponeses minhotos,

estava sentado um velhinho magro, tendo ao lado um saquito enfiado n’um

páu e uma pequena almotolia d’azeite presa á cintura por uma correia. O

seu rosto sumido era gracioso e terno como o d’uma creança; o sorriso

natural, que lhe resaltava da expressão, parecia sahir d’um berço.

Havia o quer que fosse de inconsciente e ethereo, de amoravel e bondoso,

no rosto d’esse pobresinho. Ali ninguem o conhecia; mas elle olhava para

todos com uma attenção familiar e intima. Um porco atrevido roçava-se-lhe

pelas calças, roncava-lhe junto á cara e elle afastava-o com humildade

e carinho, dizendo-lhe até palavras de conselho. De certo os seus

nervos delicados se encommodavam com aquelle grunhir insolente; mas

nem por isso se mostrava menos attencioso, para com o bruto. Fallava a

todos tão suave e brandamente que a sua voz semelhava um murmurio e uma

consolação á cabeceira d’um enfermo. O seu olhar, d’uma tranquillidade de

justo, prolongava-se pelo espaço infinito, quando olhava para o ceu. Os

cabellos brancos, enquadrando-lhe o rosto pacifico, eram limpos, finos

e fluctuantes como floccos de neve, tinham a transparencia do nimbo

dos sanctos. Tocou-me aquella bondade, aquelle ar compadecido e altivo.

Pareceu-me um pedinte e olhei-o com attenção antes de o interrogar. Elle

sorria-se para mim, com a expressão d’uma pessoa que conversa junto d’uma

lareira aldeã, quando a fogueira crepita e o vento uiva victoriosamente

sobre o telhado. Sentia-me attrahido para elle e então perguntei-lhe

mesmo de dentro da carruagem:

—Vocemecê vem de longe?

Parecera-me que sim. Os pés tinha-os doridos, talvez d’uma longa

caminhada. Estava alli a descançar. A dona da taberna disse que o não

conhecia e que não era das redondezas. O velhito, como eu lhe fallei,

levantou-se sorrindo e approximou-se. E n’um tom de mysterio, para que

mais ninguem o ouvisse, segredou-me:

—Se venho de longe? De muito longe. Nem eu mesmo o sei.

Tomei estas palavras como de soffrimento resignado e tive piedade.

Não sabia d’onde vinha, estava alquebrado pelo cansaço e não encarecia

as suas dores para me pedir esmola! Conheci-lhe pela expressão dolorida

do semblante, quando pôz os pés no chão para me vir fallar, que andára

muitas leguas a pé. Talvez para ir ver uma filha enferma! talvez para

exprimir outro grande affecto que lhe restasse no coração! Tantas terras

percorrera, que até a sua memoria enfraquecida pela edade não retivera os

nomes! Ter-se-hia perdido no caminho?...

Insisti com modos de incredulo:

—Essa é boa! Então não sabe d’onde vem?

Olhou-me com ar sereno e firme como de quem tinha dicto uma coisa

perfeitamente exacta.

—Não senhor. Ninguem sabe!...—segredou-me com extrema reserva.

E acrescentou sorrindo intelligentemente:

—A mim ninguem me conhece; mas eu conheço todo o mundo. Bem sei quem o

senhor é... É o senhor conde. Ah! cuidava que não sabia?...

No rosto do pobresito appareceu uma aurora de triumpho. Para lh’a

sustentar perguntei muito baixo:

—Mas como advinhou? Quem foi que lh’o disse?

A enormidade do seu poder reconheci-a no desdem superior com que me

olhou. Continha lá dentro infinitos thesouros de sabedoria e perspicacia,

á qual não resistiam os insondaveis mysterios do amplo ceu. Quem era eu,

um misero conde, diante d’aquella omnipotencia que considerava o globo

terraqueo como uma insignificante bolinha de pão?! Na minha tristesa e

confusão devia-se reconhecer que o comprehendi; pois que o velhinho, para

me consolar acrescentou:

—Eu sei tudo, advinho tudo. Se não digo d’onde venho é porque ando por

todo o mundo. Agora ahi vou eu para Hespanha ver se componho _aquillo_

e se acabo com todas essas questões que por lá vejo. Levo aqui—designou

o saquito—os papeis e livros necessarios para dar luz e felicidade _a

todos_—sublinhou.

* * * * *

Entristeceu-me ver tamanho valor e convicção reunidos n’um corpo assim

fragil. Pedi-lhe com interesse e bons modos que me deixasse examinar

os seus thesouros. Accedeu da melhor vontade abrindo primeiro o sacco

d’estopa, dentro do qual estava um de panno preto, contendo ainda outro

de chita de ramagens. O cocheiro e a dona da taberna aproximaram-se

ironicamente para disfrutarem o pobre; mas elle, com um verdadeiro olhar

altivo e nobre, afastou-os significando, que taes segredos não eram

para espiritos grosseiros e motejadores. A meu pedido os indiscretos

retiraram-se e por fim o pobresito mostrou-me envolvidos em farrapos e

bem ligados com fitas de cores e cordeis, tres velhos alfarrabios em

lingua hespanhola e algumas folhas manuscriptas, d’uma lettra amarella

e inintelligivel. Pelo meio havia folhas seccas de castanheiro, algumas

flores mirradas e pequeninos ramos d’alecrim. Examinei com escrupulosa

attenção estas preciosidades, dando-lhes grande valor! Elle seguiu todos

os meus gestos e movimentos faciaes com olho sagaz e aspecto orgulhoso.

Quando lhe entreguei as suas preciosas reliquias, encarecendo-lhas elle

concluiu:

—Já o senhor conde vê que não é ninguem ao pé de mim.

—Oh! de certo!...

E depois que já tinha guardado os seus livros e papeis inestimaveis

perguntei-lhe:

—Mas como vem de muito longe deve trazer fome. Quer que lhe dê alguma

coisa?

Sem altivez respondeu:

—É da lei acceitar sempre a esmola. Fome não tenho. Ando por aqui ha um

rôr de seculos e nunca senti fome.

E com um sorriso delicioso, como quem faz uma revelação:

—Isso é para vocês que são d’este mundo. Para mim não, que não sou de cá.

—Ah! vocemecê não é de cá?

—Eu sim!...

E sorriu-se da minha estupidez, da minha falta de comprehensão,

abrangendo n’um infinito olhar toda a amplitude da terra ao ceu!

Habitava essas regiões ideaes e interminaveis do azul, suspenso na

serena ondulação do ar, e bafejado da poeira brilhante da luz. A

expressão humilde e conformada do seu rosto, a grandesa e compaixão

que lhe resaltava da voz fraca e singela, o seu triumphante sorriso de

tranquillidade... convenceram-me de que este velhinho resumia em si uma

entidade poderosa. Quem julgará elle representar n’este mundo?—perguntei

a mim mesmo. Talvez algum sancto milagroso, algum lobis-homem das lendas,

algum bruxo afamado entre o povo!... A convicção da sua immaterialidade

e do seu immenso poder reconhecia-se que a tinha, pelo tom desdenhoso e

superior com que se referia a tudo que o cercava. D’elle só veriam sahir

protecção e bondade:—os beneficios que um acto rudimentar do seu querer

podia espalhar sobre a terra eram incalculaveis. Um simples designio da

sua vontade tornaria os homens eternamente felizes ou desgraçados. Não

comia, não se cançava, não havia ponto na terra d’onde tivesse partido

ou que devesse occupar...—o mundo, o ceu, os espaços inconcebiveis eram

a séde da sua ubiquidade. Nem a dôr, nem o falivel o tocava. A misera

fraquesa humana não a sentia, a contingencia do globo merecia-lhe um

pensamento compadecido. Sereno e grande vivia no seu reino especial!...

Qual seria pois, o personagem imaginario que este velho magro, de rosto

sumido, alegre, bondoso, expressão de soberba e de compadecido, julgava

representar? Perguntei-lh’o com a premeditada cautela que elle empregava

nas suas palavras:

—Então quem é vocemecê?

—Pois ainda não advinhou?! Olha bem para mim creatura!... Nosso Senhor

Jesus Christo!

E fixando-me com tremenda piedade concluiu:

—Ando aqui para os salvar a todos.

Dei-lhe uma esmola. O pobresito retirou-se serenamente, depois de me

recommendar:

—Agora caluda, por causa d’esta gente. São hereges, não acreditam.

Janeiro de 85.

[Illustration]

[Illustration]

O CEGO DE GUARDIAM

Logo que expirou o cunhado, José Domingues cahiu n’um scismar

atormentado. Só elle comprehendia a grande desgraça que n’esse dia

entrára na casa de sua irmã, pobre mãe de cinco filhos, que tinha para os

sustentar, unicamente uma roca. Lembrou-se de os trazer todos para onde

a si; mas como poderiam viver tantas pessoas com duas pipas de vinho e

um carro de pão? A pensar n’isto se consumia o pobre José Domingues, e

aquelles olhos cegos desde tenra infancia, estavam grossos como punhos

de tanto que tinham chorado. Até perdera o gosto á rebeca, prenda que

seu tio frade lhe deixára, juntamente com as territas de que vivia. A

comida entrava-lhe na bocca só á força, depois de muito o apoquentarem.

Como toda a gente o estimava em Guardiam, iam alli pela eira pessoas

conversar com elle, dando-lhe consolações e conselhos, coisas de pouca

valia, pois não produsiam alimento para os sobrinhos. O seu amigo Miguel

Tinta, trouxe o violão uma noite, para lhe acompanhar a rebeca; porem o

cego é que não estava para tocar.

—Que queres, não posso. Tenho aqui um peso de seiscentas arrobas—rematou

arrepanhando o coração.

Mas como algumas raparigas, com o fim caridoso de o tirarem d’aquelle

malucar, lhe pediram insistentemente, José Domingues tocou umas musicas

tristes, muito populares e queridas d’aquella gente. Foi n’esta occasião,

que o Miguel, sentindo o cerebro illuminado por uma ideia, disse com

enthusiasmo:

—Ouve lá. E se nós fossemos por ahi abaixo ambos! Não se ganharia alguma

coisa?

Todas as pessoas presentes acreditaram que sim e applaudiram com

estrepito a lembrança. Só o rabequista não tinha grande fé, pois disse:

—O que, a tocar? Uh!...

—Hade haver muito quem vos queira ouvir. Tentar fortuna é sempre bom

prophetisou emphaticamente Zé Maximo, o barbeiro.

Resolveram-no logo alli. Os dois mais interessados planearam a coisa

detalhadamente, mencionando as terras que percorreriam e as musicas que

haviam de escolher. Uma manhã de primavera, partiram com o sol rubro

no horisonte. Andaram por fóra alguns mezes e quando voltaram vinham

satisfeitos, porque traziam um bom par de moedas na algibeira. Foi uma

alegria para aquella gente, mormente para José Domingues, que ao entregar

o dinheiro á irmã pulava de contente, com os sobrinhos todos em volta a

agarrarem-se-lhe ás pernas. No forte das suas expansões, o cego, planeava

uma vida d’abundancia: queria que se comprasse um porco para matar n’esse

anno e mais um bácoro, para o seguinte.

—N’esta casa!—com seiscentos diabos!—hade tornar a haver salgadeira e

fumeiro, como antigamente—affirmou.

Foi este o começo da vida de tocador de rebeca, que tão popular fez o

cego de Guardiam, em toda a provincia do Minho.

* * * * *

O seu nome chegou mesmo á cidade do Porto. Quem fallasse no _ceguinho_

designava logo José Domingues. A expressão persuasiva e bondosa do seu

rosto tornava-o attrahente e querido. Ou tocando a chorosa rebeca, ou

a cantar modas alegres, ou a gracejar com as raparigas, era sempre

comedido e delicado; por forma a ser cubiçada a sua presença. De todos

os cegos pedintes e trovadores, só elle gosava de verdadeira sympathia.

Chamavam-no a muitas casas para o ouvir e, alem da paga, offereciam-lhe

vinho e marmelada. Tambem elle não se parecia com nenhum d’esses

tocadores de sanfona, lamorientos e porcos. Sempre limpinho:—vestido de

briche; camisa lavada; botas de cano, toscas e fortes; a mão apoiada

no hombro do companheiro; o extincto olhar voltado para o sol; assim

percorria a provincia. Tinha o seu orgulho d’artista e de pequeno

proprietario—nunca exaltou ou fingiu miserias e necessidades para

provocar compaixão. Acceitava o que lhe dessem, fosse muito fosse pouco,

agradecendo tudo com um sorriso. O que ambiccionava principalmente era

que o escutassem com religião e amor. Se havia pelas janellas senhoras

formosas, em quem presumisse melhor comprehensão da musica, o Miguel

advertia-o; pois que n’essas circumstancias, o arco de José Domingues,

tinha movimentos expressivos, alma enthusiasta, e coração de poeta.

* * * * *

Que ideia faria elle da formosura!...

Fora tão cedo, logo no começo da infancia, que perdera a vista!... As

suas recordações não podiam deixar de ser pedaços de mundo dispersos, mal

definidos, impressões fugitivas, como as da luz no pôr do sol. Comtudo

na viva e larga imaginação, era certo que lhe esvoaçavam encantadoras

imagens. A meiguice do sorriso, a bravura da expressão em certos

momentos, fazem-no presumir. Quando acreditava que a sua alma, a sua

rebeca, estava fazendo palpitar algum coração de mulher, o rosto bexigoso

e feio, animava-se-lhe triumphantemente, como uma aurora. Parecia que

tinha um resplendor, que respirava n’um circulo de luz propria.

É porque elle instinctivamente calculava que áquella expanção de

sensibilidade que lhe vibrava nos proprios nervos, corresponderiam outros

efluvios em nervos mais delicados. E a potente voz da arte embravecia-lhe

a natureza cheia de candura, transformando o humilde cego, n’um ente

dominador e altivo. A proximidade da mulher, a sua inflexão meiga e

dolente, amansava d’um modo absoluto, qualquer aspereza d’este homem,

que nunca lhe pudera calcular a pureza das linhas. Talvez isto fosse por

conhecer a dolorosa historia de seu tio frade, que morto aos septenta

annos, conservára até á ultima, o amor d’uma imagem extincta, evocando-a

aos sons da mesma rebeca, que José Domingues tocava!

Esse tio egresso fôra o seu educador e o seu amigo. Homem de viver em si,

conhecendo a musica e as lettras, ensinara-o a tocar, e transmittira-lhe

a alma que possuia. A doce affabilidade de convivencia com esse bom

velho, introduzira-lhe no coração sentimentos preciosos de humildade.

Despresar os bens terrenos, para se confortar nos gozos interiores, fôra

o que esse obscuro evangelista sempre lhe aconselhára, como meio de se

oppor á desgraça e soffrer com valor as agruras do mundo. Por isso, elle

acceitou em toda a conformidade, esta vida de tocador ambulante, por

mais que ella fosse contraria, ao seu quietismo aldeão. Ainda assim

tinha a impellil-o n’este vagabundear de terra em terra, o seu caracter

impressionavel d’artista. O fanatismo com que todos o ouviam em Guardiam,

em Refuinho e n’outros logares, por vezes lhe levantára as ambições e

sonhára com publico mais numeroso e selecto. Porem nunca pensára em sahir

da sua aldeia, e do adro da egreja, onde nos domingos, depois da missa

conventual, até o abbade parava a ouvil-o. _A donzella abandonada_,

o _Marinheiro_ e o _Cão fiel_ eram algumas das poucas cantigas que

n’esse tempo conhecia. Exprimia-as com tal sentimento e candura, que

era frequente perceber-se o chôro d’algum coração de rapariga enamorada

e sensivel, que encontrava nas palavras da canção qualquer lembrança

pungente. Então o José Domingues, que era galhofeiro dizia:

—Quem diabo está ahi a fungar, a rir-se da minha rabeca? Anda cá menina

que elles não te entendem!...

E beijava-a repetidas vezes, balouçando-a contra o seio, acariciando-a

como terna mãe acaricia um filho. Isto dava sempre bom effeito, alegrava

os ouvintes, tornava-os communicativos e contentes. Para que todos

bailassem, o cego, tocava-lhes a _Canninha verde_, a _Maria Cachucha_,

o _Afasta janota, arreda_, e os rapazes acercavam-se das raparigas,

formando logo a roda.

Se o Carvalhosa presenciava, nunca deixou de dizer com sorriso de

consentimento e um dedo no ar:

—Moços! juizo, ouviram? Muito juizinho.

* * * * *

Agora que andava de terra em terra, a força de sympathia e attracção do

José Domingues dilatou-se por muita gente. A sua pequena estatura, a

magresa do corpo, a expressão terna, o olhar fixo e indefinido sempre

voltado para a luz, a delicadesa natural e a suavidade das suas fallas, a

inspiração muitas vezes caudalosa e atormentada da sua rabeca... tudo se

fixou na imaginação collectiva, com traços vigorosos e duradoiros. Elle é

que levava pelo mundo a sua fama. Todas as terras o estimavam e queriam

a ponto de se fallar com antecedencia da vinda do cego de Guardiam, que

tinha epocas determinadas e fixas, para os diversos pontos da provincia.

Se tardava uma semana, isso era logo motivo de reparo. Preoccupavam-se

com a ideia de que estivesse doente e nem queriam suppor que tivesse

morrido. O seu apparecimento era considerado como o das aves cantoras

na primavera, que preannunciam os bons dias e as flores. Por isso era

recebido com verdadeira satisfação este portador de novas canções e,

principalmente as raparigas do povo, saudavam-no com alegria expontanea e

sincera. Parava a conversar com pessoas de diversas cathegorias, e sempre

lhes narrava coisas novas em que os interessava pela simplicidade da sua

palavra.

Estas jornadas, pelos ensombrados caminhos da provincia, começava-as

no principio d’abril, quando os pampanos rebentam e parecem olhos de

satyros a rir de todo o mundo. O inverno passava-o em casa, junto do

lar crepitante, no meio dos sobrinhos, que lhe enchiam a alma de gosos

paternaes. Havia magustos com estoiros de castanhas e o bom rascante,

colhido nas videiras que lhe legara o tio frade. Havia a matança do porco

e a consoada, que eram festas salutares e bulhentas. A neve embranquecia

os montes sobranceiros, a rispida nortada esfuziava, ás lufadas, pelo

valle. Era preciso cada qual acercar-se da fogueira para assim ludibriar

a furia dos elementos, que zombeteavam cá fora. José Domingues com a sua

modestia bem provida do necessario, dizia aos sobrinhos, quando tinham

medo do trovão:

—Deixa lá, é a musica do pae do ceu.

—Gosto mais da rabeca do tio Zé. A musica do pae do ceu, não

presta—observou um de oito annos.

—É zabumba—considerou philosophicamente outro de menos edade.

* * * * *

A primavera fazia-o sahir de Guardiam acompanhado do Miguel. Tinham um

jumento para levar o vestuario e o presigo dos primeiros dias. Durante

as chuvas, como os pintasilgos, tinha a voz amortecida. Só a fragancia

do ar tepido e balsamico o fazia cantor. Sentia, como os que tem bons

olhos, que a natureza se subtilisava para a festa grande da creação. No

fermentar estrondoso das sementes que rebentam, estava a sua paisagem

florida. As canções d’esta epoca, o _Regadinho_, o _Pintalhão_ eram

vivas, travessas e maliciosas. As do outono eram melancolicas, arrastadas

e dolentes, sentindo-se no arco da sua rabeca certa preguiça, e o

sentimento das vozes ternas, que vem de longe pelas corgas dos montes.

Havia n’esses cantos, notas flutuantes que pareciam folhas amarellentas

vagueando no ar, impellidas pelo rigido nordeste. Se na volta d’um

caminho percebia alguma cantiga sahida de pinheiral rumuroso, parava

escutando e, ás vezes, rebentavam-lhe lagrimas. Aproximava-se o tempo

de recolher a casa, ás consolações da familia. Lá voltava a Guardiam

com a imaginação cheia de lembranças alegres. No logar era festivamente

celebrada a sua volta e, rindo e chorando, José Domingues abraçava com

effusão e verdadeiro prazer todos que se lhe approximavam. Dançava,

pulava, atirava o chapeu ao ar, como uma creança!

É que se sentia entre corações d’amigos.

* * * * *

N’um d’esses periodos d’inverno, que passára junto dos seus, ouviu ler na

gazeta que o padre Carvalhosa emprestava ao mestre-eschola de Guardiam,

que estava em Lisboa e talvez viesse ao Porto e a Braga um rabequista

celebre a quem chamavam pomposamente o «primeiro violinista do mundo».

—Olhem que não tocará melhor que o nosso José Domingues—affirmou

enthusiasta e patrioticamente o professor.

—Ora, senhor José Fortunato, nem diga isso. Eu, um pobre estupido, posso

lá!...—respondeu com modo agradecido.

—Deixa-te de tolices, homem. Olha que eu com os sessenta e cinco que já

conto, nunca ouvi como Frei Gonsalo. E já fui uma vez a Lisboa, com o

fidalgo de Refuinho, quando elle era vivo.

—Lá isso, maior que meu tio, não acredito que haja. Devo-lhe a alma que

tenho—confessou commovido.

José Fortunato ainda acrescentou:

—Olha que lá as meninas (as de Refuinho) estiveram no Porto com o tio

general. Presencearam por lá grandes coisas e disseram-me que antes

queriam ouvir o José Domingues.

—Isso são umas santinhas. Eu sou um pobre cego, não sei nada, senhor José

Fortunato.

—Não sabes nada? Sabes tudo, tens d’isto—rematou o mestre-eschola,

batendo uma punhada sobre o coração.

O mais velho dos sobrinhos do cego, comprehendendo tudo pelo instincto,

atirou a carapuça ao telhado, gritando:

—Viva o tio Zé Domingues e a sua rabeca!

—Viva! viva!—acompanharam os outros.

Mas o rabequista, ficou a scismar no que seria, essa maravilha tão

apregoada pela gazeta. Que poder, que attracção teria no seu arco, esse

homem que era superior a todos os que havia no mundo! Na sua mente

ingenua, apresentou-se logo uma figura aureolada de sol, dominando a

multidão dos admiradores que o applaudiam. Um publico de fidalgos e

mulheres ricas é bem differente do seu, que era rude e casual. Haveria

fragor de enthusiasmo, comprehensão vasta n’esse theatro em que as luzes

faziam sobresahir a opulencia. A apotheose alargava-se até aos confins

da terra e o artista victoriado levantava-se até ás nuvens... A alma

calorosa do cego de Guardiam, sentia-se enebriada com esse imaginado

triumpho, a commoção manifestava-se nas lagrimas que lhe apontavam. E

batendo uma palmada no joelho disse com resolução:

—Pois ainda não hei de morrer sem ouvir uma coisa d’estas!

N’esse momento chegou o Miguel Tinta a quem perguntou:

—Queres tu ir comigo a Braga ouvir o tal home?! Talvez se lhe possa tirar

alguma coisa.

* * * * *

Sempre fora este o seu processo d’aprender e progredir. Musica que

ouvisse logo lhe ficava. Tinha no Porto e em Braga, quem lhe arranjasse

versos apropriados. Ás vezes mesmo, lhe ministravam musica e lettra,

o que valia oiro sobre azul. Entrava em todas as egrejas onde ouvisse

tocar o orgão e era assiduo perto das bandas militares, quando soubesse

que tocavam em publico. Se qualquer musica lhe calhava, elle e o Miguel

tractavam logo de lhe applicar versos dos que sabiam e assim chegaram a

popularisar canções, como aconteceu áquella que principiava:

Veja lá menina

Se levanta a saia

.................

a qual toda a provincia decorou. Algumas vezes aconteceu

aristocratisarem-se as suas modas até chegarem ás salas de provincia, e

então José Domingues ouvindo-as celebradas em piano dizia com orgulho:

—Vê lá Miguel. Aquella trouxemol-a nós.

A noticia que ouvira ler na gazeta do padre Carvalhosa, sobresaltou-lhe

o coração, cheio de enthusiasmo pela musica. Era rigoroso dezembro; o

frio enregelava as carnes; as neves cobriam os montes; o ceu, estucado de

nuvens côr de lama, tinha uma immobilidade sombria. Os caminhos estavam

intransitaveis, muita gente lhe aconselhou a não fazer a jornada; mas

elle, logo que soube que o afamado rabequista chegára a Braga, resolveu

o Miguel e partiram. Era como uma peregrinação religiosa. De tempos

a tempos, José Domingues soltava seus ais admirativos e dizia para o

companheiro:

—Mas como será este home, que é o primeiro rabequista do mundo?

Miguel observou scepticamente:

—Quem sabe lá! Isto de gazetas, consentem o que lhe põem.

—Não, não. Deve ser coisa de respeito!—considerou absorvido na sua ideia.

Logo á entrada da cidade, perto da egreja de S. Vicente, procuraram um

estudante de Guardiam, com o fim de lhe pedirem esclarecimentos. Souberam

que tudo quanto se dizia era verdade, que o senhor arcebispo, tendo

escrupulos de ir ao theatro, convidára o famoso artista para tocar n’essa

noite no Paço. O estrangeiro accedera, para conquistar as sympathias do

prelado e do publico.

—Ó senhor Joãosinho—supplicou José Domingues—eu queria ouvil-o. Não me

poderá arranjar um buraco no palacio do senhor arcebispo? Eu arrumo-me em

qualquer parte. Um buraco que seja, menino.

* * * * *

Não foi difficil obter esta infima posição. O estudante era amigo d’um

famulo de sua excellencia, o qual pôde esconder o cego n’um vão de

escada, proximo do logar onde se realisaria o concerto. José Domingues

levou comsigo a rabeca, pois desejava apertal-a sobre o peito para melhor

comprehender a musica. Tiveram de o introduzir de dia, n’um momento

conveniente para não ser presentido. Durante umas seis horas, esperou que

chegasse o instante. Encolhido, quieto, respirando brandamente para não

dar rumor de si, alli se conservou. Perto da noite, accometteu-o uma sede

furiosa, que supportou heroicamente, sem o menor arrependimento.

O famulo que alli o introduzira, veio n’uma furtadela perguntar-lhe se

estava bem e o cego respondeu agradecido:

—Ricamente, meu senhor. Só tenho uma sêde!...

Satisfeita esta necessidade ficou n’um paraizo. Momentos depois entrava

tudo quanto havia de selecto na sociedade bracarense. A alta clerezia

appresentou as suas familias respeitaveis. O general, o governador

civil, o commandante do 8, o juiz de direito, administrador do concelho,

delegado, professores do lyceu, trouxeram suas esposas e filhas. Ondulava

um murmurio de vozes e de sedas, e José Domingues ouvia pronunciar nomes

consagrados, que toda a vida respeitára humildemente. Isto augmentou

no seu espirito o valor d’aquella festa, tornando-a imponente. Era

um deslumbramento e um ceu aberto o que principiava a despontar na

sua imaginação. Agarrado a sua rabeca, apertando-a contra o seio,

estremecendo-a como se fora um ente animado, estava commovido. Ia-se

verificar a apotheose d’um seu irmão, e elle identificava-se com a gloria

do artista que não conhecia. Entrou o prelado. O cego deu conta d’esse

facto pelo recuar de cadeiras e pelos comprimentos. Pouco depois chega o

rabequista e a curiosidade da parte dos assistentes produziu um sussurro

maior, que immediatamente se acalmou, seguindo-se um silencio de mar que

se esbate sobre a areia.

* * * * *

Logo que os primeiros sons da rabeca encheram a sala, a alma de José

Domingues sentiu-se arrebatada para um horisonte largo. Dos seus olhos

sem vista, irradiaram fulgurações d’uma belleza sideral. Erguendo-se no

amplo espaço com a pujança d’um crente, a sua imaginação livre, vagueou

na larguesa sem fim, n’um redemoinho d’harmonias, que o impelliam como

ligeiro farrapo de nuvem. Toda a miseria terrena desaparecera para elle.

Não estava n’um buraco, como cão despresivel, socio e companheiro de

ratos: aos seus olhos apparecia um amplo salão, ornamentado de riquezas

e de mulheres formosas. Esquecera-lhe o rouco uivar do vento sobre a

telha vãa da sua pobre casa, os caminhos enlameados e cheios de poças, os

encontros por vezes desagradaveis da sua vida de tocador.

Quando a rabeca tinha momentos alegres, extravagantes, buliçosos, José

Domingues ia indo n’aquella toada e vinham-lhe á mente coisas loucas

e pueris: dançava em volta d’uma fogueira, abraçava as raparigas

que lhe fugiam aos gritos, ouvia repiques de sinos, e ao longe, a

multidão festival passava para a romaria. Se era a dolencia das musicas

hespanholas, entranhadas de sentimento arabe, expraiando-se brandamente,

como as mansas aguas do Mediterraneo, os seus nervos sentiam uma paz

infinita, quasi um torpor. A visão paradisiaca d’uma primavera só formada

de cantos de passaros e de perfumes d’hervas e de flores, como elle

a contemplava n’esses momentos, era mais intensamente bella do que a

paisagem das amendoeiras e dos campos cheios de trevo e de malmequeres

brancos.

Mas o seu pendor, a tendencia da sua alma, era para todos os trechos

lacrimosos, d’uma plangencia terna que se abrissem largamente em

espaços constellados. Não valiam tanto os rouxinoes e os melros no

meio silencioso das mattas, e o rio murmuroso ladeado de choupos.

Corriam-lhe em fio as lagrimas e apesar dos applausos dos ouvintes, José

Domingues sentia que elles não comprehendiam bem aquella musica. Se

elle podesse, entraria de joelhos na sala, para beijar os pés do grande

artista mostrando-lhe a sua admiração, n’um chôro copioso e enthusiasta!

Rastejar pela terra como humilde verme, era o modo que a sua rudeza

achava bastante expressivo, para glorificar aquelle seu irmão. Porque não

procediam assim esses homens que o ouviam? Vinham-lhe suffucações de

colera contra os que se não levantavam em extasis d’um enthusiasmo viril

e ardente como o seu. É que não tinham alma para sentir. Elle humilde,

obscuro, rude, apertado entre as paredes d’aquelle buraco, era-lhes

superior, comprehendia o que elles não podiam comprehender, tinha em

si um thesouro, que nem todos os thesouros da terra podiam egualar.

Vibravam-lhe no cerebro os echos d’aquella musica, a sua commoção era

grande, os soluços que não podia evitar apanhava-os nas mãos para não

serem percebidos, com medo de perturbar aquella musica celestial!

* * * * *

Novos contos 4º volume da Comedia do Campo · 第 1 / 8 段