Conferencia com o grande feiticeiro de Tapuytapéra.
O grande feiticeiro de _Tapuytapéra_ era homem muito respeitavel, de boa
estatura e bem feito, valente guerreiro, modesto, grave, e de poucas
palavras: era muito amigo dos francezes, e gozava entre os habitantes do
seo paiz do mesmo poder, que Pacamão em _Commã_, Japy-açú em _Maranhão_,
o Arraia-grande entre os _Caietés_, Thion e Farinha-molhada entre os
_Tabajares_, rico, e de muito bons filhos, que são fieis aos francezes e
christãos, como d’aqui ha pouco diremos.
Veio ao Fórte de S. Luiz seguido por perto de tresentos a quatrocentos
dos seos companheiros para fazel-os trabalhar nas fortificações, e
regressar á seos lares depois de acabarem seo tempo, revesando-se assim,
e nunca menos de dusentos a tresentos selvagens.
Durante as horas do trabalho assentava-se elle junto aos francezes
mais graduados, ahi vigiava a sua gente, animava-a, e recommendava-lhe
perfeição de obra.
Fui vêl-o n’essa lida, desculpou-se muito para commigo, por intermedio
do seo interprete, por não me ter vindo vêr logo que chegou a Ilha, por
estas palavras:
«Não te fui procurar, embora tivesse muito que conversar comtigo, porem
deve ser com descanço.
«Agora é preciso vigiar minha gente no trabalho, afim de se empregar com
animo na fortificação d’esta praça.
«Não deixarei de te ir vêr com _Migan_, que está aqui para te fazer
sabedor do que eu digo, contando-me tambem as maravilhas, que ensinas aos
nossos similhantes.»
Respondi-lhe, que achava isto bom, e que estava contente vendo-o assiduo
no trabalho para que fóssem bem feitas as trincheiras e fóssos afim
de resistirem a seos inimigos, e que depois si nos offerecia occasião
de conferenciarmos: que era só isto, que eu desejava, que nós todos o
estimavamos e muito, tanto por sua bondade natural como porque elle era
amigo dos francezes, e sempre fiel.
Assentamos-nos depois um em frente do outro, conversamos sobre muitas
coisas indifferentes, especialmente do enthusiasmo de sua gente, e
particularmente das crianças, que carregavam terra, o que causava a elle
e á nós muita satisfação, fazendo-me dizer e a proposito, que bem razão
lhes assistia n’esse trabalho, cheio de fervor e de coragem, pois era
para elles, que se lidava, visto que um dia veriam as maravilhas feitas
pelos francezes n’esta terra.
«Serão bem differentes do que somos, dizia elle, porque serão _Caraibas_,
andarão vestidos, e verão as Igrejas de Deos construidas de pedra.»
Confirmei em minha resposta a felicidade de seos filhos no futuro,
assegurando-lhes, que d’ella tambem gozariam porque não haveria muita
demora na vinda de soccorros e navios de França trazendo muitos Padres,
muitos francezes guerreiros, muita ferramenta e generos para elles:
que então se construiriam casas á maneira dos francezes, que seriam
acompanhados por elles quando fossem guerrear seos inimigos, que viriam
os _Tupinambás_ e os outros alliados cultivar a terra da _Ilha_, e que
tudo isto poderiam vêr antes de morrerem.
Ditas estas palavras despedi-me d’elle, e regressei á minha habitação.
Quando acabou o tempo do seo trabalho veio visitar-me, acompanhado pelos
principaes da sua Nação, e pelo interprete _Migan_.
Assentou-se, e pedindo fumo, como costumava, me disse estas palavras:
—Antigamente usei de muitas feitiçarias para me tornar grande e
authoridade entre os meos.
Muito tempo ha que conheci este abuso, e que zombo dos que se empregam
n’este officio.
Não ignoro a existencia de um Deos, porem não sei conhecel-o.
Seria impossivel o giro annual do sol, a existencia de ventos e chuvas, e
o forte estampido dos trovões si não houvesse um Deos, autor de tudo isto.
Temos então homens maus, que vivem livremente sem temer algum castigo, e
pensamos que elles irão ter com _Jeropary_.
Temos outros homens, que são bons, que não matam, que dão expontaneamente
a sua comida, e pensamos serem elles amados por Deos, e por tanto que não
vão cahir no poder do diabo.
Alegrei-me muito quando me noticiaram a vinda dos padres, que faziam
conhecer _Tupan_, e que em seo nome lavavam os homens: foi este o
principal motivo, que aqui me trouxe para vos vêr, e manifestar-vos o meo
desejo de ser instruido e baptisado, porque ja soube, que dissestes serem
condemnados os não baptisados, e que se perderam nossos paes.
Tenho muitos filhos, quero que sejam christãos, como eu afim de irmos
todos para a companhia de Deos.
Desejo edificar na minha aldeia para elle uma casa, e junto d’ella outra
para vós: eu o sustentarei e nada lhe faltará.