Segunda conferencia, que tive com Pacamão.
Na manhã seguinte veio vêr-me, como me tinha promettido, em companhia de
sua gente.
Não quiz assentar-se na rede, e pegando-me na mão disse-me _Ché assepiak
ok Tupan_ «eu te rogo leva-me a vêr a casa de Deos quero fallar-te
conforme teos discursos de hontem á tarde.»
Disse-lhe, que me acompanhasse, que satisfaria seos desejos, e assim o
fiz.
Logo que entraram todos, mandou que ficassem na porta e proximando-se de
mim fallou-me em segredo—aquelles, nada sabem e nem entendem o que se
fallar á respeito de Deos, por tanto quero que conversemos á vontade.
Mandei ornar a nossa Capella com os melhores paramentos, e pôr sobre os
degraos do altar muitas e differentes Imagens.
Aproximamos-nos do altar sempre acompanhado pelo intreprete.
Por mais de duas horas indagou de mim tudo quanto via.
1.º Quiz saber o que significava o Crucifixo dizendo-me—quem é este morto
tão bem feito e tão bem estendido n’este pau encruzado? Expliquei-lhe
que isto representava o Filho de Deos, feito homem no ventre da Virgem,
pregado por seos inimigos sobre esse madeiro afim de ir ter com seu
seo Pae, felicidade que alcançariam tambem os que fossem lavados com o
sangue, que elle via correr de suas mãos, pés e lado.
Conservou-se admirado por algum tempo, olhando com muita attenção a
Imagem do Crucificado: exhalou depois um suspiro, e soltou estas palavras
como _omano Tupan?_ «Que! será possivel que Deos morresse?»
Repliquei-lhe não ser necessario, que elle pensasse que Deos tivesse
morrido, porque sempre viveo desde a eternidade, dando vida aos homens
e aos animaes: o que falleceo foi o corpo somente, que elle tomou da
Virgem Santa Maria para matar _Jeropary_, como elle via fazer aos meninos
quando querem apanhar um peixe grande no mar, que devora os pequenos,
deitando como isca no anzol de sua linha o corpo de um d’esses peixinhos,
o que sendo visto pelo peixe grande atira-se sobre elle e vê-se pilhado,
puxado, derribado e morto, em favor e livramento dos pequenos.
Assim tambem este mau _Jeropary_ ia devorando todos os nossos Paes, porem
aprouve a Deos enviar seo Filho para pescal-o á linha, servindo de haste
esta Cruz, de anzol ou de croquezinho estes cravos e espinhos, e d’isca
seo corpo.
Mas, respondeo-me elle, porque havia o diabo de ter poder sobre nossos
paes?
Porque, respondi, elles foram rebeldes á lei de Deos, comendo do fructo
prohibido, e deixaram-se enganar pelo diabo, debaixo da forma de serpente.
Com quanto Deos nos podesse salvar por outros meios, achou mais docil e
rasoavel tomar o rapinador em lugar de suas victimas.
Mostrou-se contente, e perguntou—o corpo de _Tupan_ está ainda em França
sobre a Cruz, como este que tu me mostras, e tu o vistes?
Não, respondi, porem resuscitou pouco depois da sua morte, levando seo
corpo lá para cima, lá para o Ceo, vivendo e brilhando como o sol,
sentado no mais bello lugar do Paraizo, vindo curvar-se diante d’elle
todos os espiritos e almas de pessoas de bem, e agradecer-lhes a morte do
seo inimigo.
Com a protecção d’este corpo, os nossos, depois de mortos, resuscitarão e
irão para o Ceo levados pelos Anjos, isto é, nós que somos lavados com o
sangue derramado de suas chagas.
Vossos corpos e os de vossos paes irão ter com _Jeropary_ arder em fogos
eternos, si não fordes lavados com este sangue.
É necessario, disse elle, correr muito sangue de seo corpo, e que vós o
guardeis com todo o cuidado para lavar tanta gente.
Respondi—és ainda muito obtuso para comprehenderes estes mysterios.
«Basta ter sido espalhado uma unica vez esse sangue sobre a terra, e que
em memoria e respeito a elle lavemos espiritualmente as almas com agoa
elementar, que derramamos sobre vossos corpos.
«Não vês correr sempre uma fonte, ainda que cavada uma só vez pela mão de
Deos?
«Tu bem sabes, que as constellações sete-estrellas e a ursamenor foram
pregadas uma só vez no Ceo, e com tudo todos os annos, apenas brilham por
cima da tua cabeça, ellas te mandam chuva, que rega tuas roças.»
Disse ainda:
«Eram malvados os que mataram _Tupan_, porque elle era bom, eu o amo, e
n’elle creio.»
Respondi-lhe. Foram seduzidos por _Jeropary_, como tu, que os animou a
perseguil-o, a matal-o, e crucifical-o, porque elle os censurava por sua
maldade, como nós agora fazemos, seguindo em tudo a lei, que nos deo.
Todos os que obedecem ao diabo são seos inimigos e si elle hoje voltasse
ao Mundo passaria por iguaes soffrimentos, repetindo os actuaes o mesmo
que fizeram os outros antigamente.
Respondeo-me—desejava que me desses uma Imagem como esta para levar
commigo quando regressasse á minha provincia. Repetirei palavra por
palavra á meos similhantes o que acabas de dizer-me, e farei para ella
melhor casa do que esta, eu a fecharei muito bem, só eu entrarei ahi, e
algumas pessoas capazes de entenderem as explicações, que me destes.
Respondi—quando fores baptisado, nós te daremos licença para fazeres uma
casa, onde levantaremos um Altar igual á este, com iguaes ornatos, e com
Imagens como as que estás vendo.
2.º Nos pés do Crucifixo havia uma Imagem de Nossa Senhora, feita em
bordado alto, de extrema belleza, e revestida de perolas, presente
do Sr. de S. Vicente quando regressou á França: olhando para ella,
perguntou-me—quem é esta mulher tão bonita, e este menino que olha para
ella de mãos postas? Eu lhe disse, que era a figura de Maria, Mãe de
Deos, e este menino é o filho de Deos quando sahio do ventre d’Ella.
Repetio estas palavras duas ou tres vezes—_Ko ai Tupan Marie?_ «Como é
Maria Mãe de Deos?» _Kugnan Ycatu_, «linda mulher.»
Respondi, que assim devia ser, pois que Deos a escolheo para Esposa e Mãe
de seu Filho, que era a Princesa de todas as mulheres, tendo tido por
marido Deos unicamente, e que sendo pura deo á luz o Filho de Deos, que
tinha resuscitado depois da sua morte, como aconteceo a seo Filho, sendo
levada para o Ceo pelos Anjos, onde estava assentada ao pé do corpo de
seo Filho.
Que grande coisa, disse elle, uma Virgem parir. Como, respondi eu, não
vês crescerem as ôstras nos ramos das arvores, só e unicamente, sem
auxilio algum?
Deos ama a puresa, porque elle é mais puro do que a luz do sol.
È verdade, respondeo, porem vós, e os outros padres, sabeis grandes
coisas, sois mais sabios do que nós, porque não prestamos attenção ás
coisas da nossa terra, que vemos todos os dias, e vós em tão pouco tempo
já as conheceis.
Ainda não é tudo, disse-lhe, vinde commigo, e prestae attenção ao que vou
dizer-vos por intermedio do meo interprete para repetirdes tudo, quanto
souberdes, aos teos companheiros, que ficaram na porta por tua ordem,
visto ser da vontade de Deos que todos se salvem grandes e pequenos.
Dizendo-lhe isto, fiz-lhe vêr todas as peças e quadros da creação e
da redempção, apontando-lhe todas as suas diversas partes: n’uma, por
exemplo, a creação dos Ceos e dos elementos, n’outra a creação dos peixes
e dos passaros, e n’outra a creação dos animaes, das arvores e das
hervas: causava prazer vel-os olhar com muita attenção para as figuras
dos passaros, dos peixes e dos animaes afim de conhecerem os da sua
terra, e quando descobriam um parecido, não deixavam de dizer-nos—eis tal
passaro, tal peixe, e tal animal, e os que não conheciam perguntavam
si haviam em França, e como se chamava. Captivou-lhes principalmente a
attenção a figura de Deos, no meio do quadro, com os braços abertos,
soltando da bocca um forte sopro de vento, e me perguntaram o que isto
queria dizer?
Expliquei-lhes, que isto representava a maneira, como foram feitas todas
as coisas, apenas com a palavra de Deos, cujo poder e dominio estendia-se
ás duas extremidades do Ceo.
Admirou-se tambem muito da mulher ter sido formada pela costella do
homem, quando dormia, pedio-me explicações, e assim o satisfiz dizendo,
que Deos quiz com isto que elle tivesse uma só mulher e não mais de
trinta como elle tinha; porque si Deos quizesse, que tivesse mais de uma,
elle o teria permittido desde o principio, e sendo creado somente uma e
ainda á custa da costella do homem assim demonstrou, que este só devia
ter uma mulher, a quem amasse e conservasse, e não mudal-a á capricho da
vontade, como fazeis vós outros, sectarios de Jeropary, que vos persuadio
terdes muitas mulheres afim de indispor-vos e estrangular-vos uns com
os outros, visto que costumaes roubal-as até na casa de seos proprios
maridos.
Na escada do altar estavam as imagens dos doze Apostolos e o padre Sam
Francisco, muito bem feitas e illuminadas.
Perguntou-me quem eram esses _Caraybas_?
Estes doze, respondi, são doze _Maratas_ do filho do _Tupan_,[107] os
quaes, depois que subiram ao Ceo, dividiram o Mundo Universal em doze
partes: tomou cada um a sua, onde foi guerrear _Jeropary_, e lavar todos
os crentes em Deos, deixando successores, que foram se revesando até nós.
Peguei na imagem de S. Bartholomeo, e lhe disse—Olhae, veio a vossa terra
este grande _Marata_, e aqui fez muitas maravilhas, como por tradicção
vos contou vossos antepassados. Foi elle quem fez talhar, á rocha, o
altar as imagens, e as inscripções, que ainda existem actualmente, como
tendes visto.[108]
Foi elle quem vos deixou a _mandióca_, e vos ensinou a fazer pão, pois
vossos paes, antes de sua vinda, comiam só raizes amargas dos mattos.
Como não quizestes obedecer, elle vos deixou, predizendo grandes
desgraças, e que ficarieis por muito tempo sem vêr _Maratas_.
Tal qual aconteceo, e só agora é que tivestes quem vos livrasse das mãos
do diabo, e vos fizesse filho de Deos.
Tomae cuidado em não fazerdes o que fizeram vossos paes.
Logo que lhes transmitti estas palavras pelo meu interprete, olhou para a
imagem de Sam Francisco e me disse—quem é aquelle que está vestido como
tu?
É, disse eu, o pae de nós outros padres, que assim se vestem.
Vive ainda? replicou, está em França? Foi elle quem te mandou para cá e
aos outros padres?
Não, respondi, ja não vive, morreo, porque nós todos morremos, porem
deixou successores, que nos mandaram para cá. Não está mais em França, e
sim no Ceo com Deos, onde esperamos ir vel-o.
Não tinha mulheres, como vós não tendes? perguntou.
Não, respondi, porque todos os padres não as tem, imitando assim o Filho
de Deos, seo Rei, que vivendo n’este mundo não tinha mulher.
Dizendo isto, olhava o Ceo e as sanefas que cobriam nosso altar, as quaes
eram de bello damasco com grandes folhagens, agaloadas, e guarnecidas de
passamanes e franjas de prata fina, bem como o frontal do altar.
Disse depois que tudo era bonito, e que serviamos _Tupan_ com grande
reverencia e pedio-me para baptisal-o antes do seo regresso, e que lhe
desse imagens para leval-as comsigo.
É preciso, respondi, que saibas antes a doutrina de Deos.
Não me dissestes ja, replicou elle, tudo quanto era necessario saber para
ser lavado?
Não, respondi, isto não passou de uma conversa: ha ainda muito que
aprender.
Que me ensinarás ainda?
Respondi—si quizeres morar commigo eu te ensinarei, ou te farei ensinar
muita coisa, mas não te posso baptisar ja, sem primeiro saberes a
doutrina de _Tupan_. Quero experimentar tua constancia, e esperar
nossos padres que não tardam a chegar conforme me prometteram. Elles te
baptisarão, e irão comtigo fazer a casa de Deos na tua aldeia, e não te
deixaram mais.
Antes d’isso não deixes de repetir na tua _caza grande_ á teos
similhantes o que sabes: não faças mais feitiçarias, e assim nós, e todos
os francezes, te estimaremos, e sempre serás bem vindo.
Prometto, disse elle, e cumprirei minha palavra. Bem desejo que tu me
lavasses agora. Não deixarei de te vir visitar muitas vezes, porque
sempre aprenderei alguma coisa.
Chamou então seos companheiros, que ficaram por todo este tempo na porta
da igreja.
Que obediencia e respeito entre os selvagens! Mandou que se aproximassem
ao altar e á elles repetio o que lhe ensinei, mostrando-lhes as imagens e
explicando o que representavam.
Esta pobre gente estava como que fóra de si, mostrando-se admirada a seo
geito, e depois despedio-se e foi para o Forte de S. Luiz, onde embarcou
e regressou á sua terra.
Veio depois visitar-me para tratar do mesmo objecto, e contou-me como
cumprio suas promessas, fallando na _caza grande_, e repetindo o que lhe
ensinei, e affirmou que todos se fariam christãos logo que elle fosse
baptisado, o que me pedio ainda uma vez.
Animei-o a continuar a proceder assim, e dei-lhe esperança de que seria
baptisado em pouco tempo, apenas chegassem os Padres de França.
Conversamos ainda sobre os objectos, de que já nos tinhamos occupado da
primeira vez, e com avidez recebia todos os conhecimentos mostrando por
seos gestos indizivel contentamento.
N’esta segunda visita, veio mais modesto, e acompanhado por poucas
pessoas, sem muitos enfeites de pennas, e fallando com muito menos
arrogancia do que o fez na primeira vez.