Primeira conferencia com Pacamão, grande feiticeiro de Commã.
Tendo tido muitas conferencias com este principal e grande feiticeiro,
vou narral-as por capitulos: eis o primeiro.
_Pacamão_ é pequeno no corpo, vil e abjecto á tal ponto, que quem não o
conhece, não faria caso d’elle.
Comtudo isto é o maior e o mais graduado de todos os principaes do
Maranhão, especialmente na provincia de _Commã_, uma das mais bellas,
fertil e povoada no paiz dos _Tupinambás_.
Goza entre elles de tal poder, que somente com sua palavra tem movido
todos os habitantes, sendo extremamente temído.
É fino e velhaco tanto quanto pode ser um selvagem, e por essas
qualidades chegou a obter esse poder, grandesa e prestigio, sendo tido
por supremo curandeiro, subtilissimo feiticeiro, muito familiarisado
com os Espiritos, tendo entre suas mãos e á sua disposição a morte e a
vida, concedendo vida e saude a quem bem lhe aprouver; alem de grande
bafejador entretinha os ingenuos por meio de confissões, de lustração,
incensamento, e muitas outras coisas iguaes como ja dissemos.
Não foi dos primeiros a visitar os francezes e fazer-lhes seos
offerecimentos, desejando vêr o que elles queriam, porque tinham vindo
aqui, e como se estabeleceriam.
Informando-se bem de tudo isto, veio ao Forte de Sam Luiz, entrou, e
saudou agradavelmente o Sr. de la Ravardiere. Vinha bem acompanhado por
indios enfeitados de pennas, trouxe comsigo a mais vigorosa de todas as
suas mulheres, cujo numero chegava a trinta.
Chegando a _Yuiret_, tendo passado o mar em nossa barca, que tinha ido
buscar farinha á sua terra, distante mais de 40 legoas do Forte de Sam
Luiz, fez saber ao Sr. de la Ravardiere, que ia ao seo Forte, e foi
esperado.
Formou sua gente, uns atraz dos outros, e todos o acompanharam.
Andou ao redor das casas, situadas na grande praça de Sam Luiz, fallando
como era de costume, apregoando sua grandesa, o seo amor aos francezes, o
objecto da sua visita, e tambem o valor e poder dos francezes.
Acabado isto, aproximou-se da porta do Forte, perto de um quartinho, onde
estavam alguns francezes observando o que elle fazia.
Ordenou á sua mulher, que se prevenisse para carregal-o até a casa do
governador, e foi obedecido promptamente, escanxando-se na cintura d’ella
como usam os indios quando carregam seos filhos: assim entrou no Forte,
e dirigio-se ao dito senhor: sua mulher era negra como o diabo e pintada
desde a planta dos pés até a cabeça com o succo do genipapo.
Antes de ir adiante pensae si era possivel conter o riso, vendo-se um dos
Principaes do Brazil montado em tão bello cavallo.
Foi comtudo muito bem acolhido, e disse o que lhe veio á mente para
desculpar-se, findo o que, e depois de tratar dos seos negocios, veio á
minha casa, em São Francisco, acompanhado por gente implumada.
Mandei logo armar-lhe uma rede de algodão bem alva, onde assentou-se, e
pedindo a um dos seos companheiros o seo caximbo, este o entregou ja com
fogo.
Depois de ter tomado tres ou quatro caximbadas, exhalando o fumo pelas
ventas começou assim a fallar-me grave e pausadamente achando-me defronte
d’elle n’outra rede:
«Ha muitas luas, que eu tive vontade de te vir vêr e aos outros Padres;
mas tu, que fallas com Deos sabes, que não é bom e nem prudente ser-se
leviano e facil, mormente nós outros que fallamos com os Espiritos, e
mover-nos com as primeiras noticias e pôr-nos á caminho, porque sendo
observados pelos nossos similhantes, elles nos imitarão.
«O poder, que alcançamos sobre nossa gente, se conserva por certa
gravidade em nossas acções e palavras.
«Os intromettidos, e os que a primeira noticia apromptam suas canoas, se
emplumam e vão logo vêr o que ha de novo são pouco estimados, e nunca
chegam a ser grandes Principaes.
«Foi isto o que me impedio e embaraçou de vir logo.
«Os habitantes de _Tapuitapéra_ e muitos de minha provincia vieram antes
de mim, porem são menos do que eu.
«Alegro-me com a vossa vinda, porque saberei que ha Deos: sou mais capaz
de o saber do que um só dos meos similhantes: não desejava que um só
d’elles me precedesse ou que tu o levasses diante de mim, e o fizesses
fallar com Deos.
«Quando me ensinardes o que é _Tupan_, terei mais autoridade e serei mais
estimado, do que actualmente, e em meo paiz occuparei o primeiro logar
depois de ti.
«Dize o que queres que eu faça, e quando meos similhantes virem, que eu
sou filho de Deos e lavado todos desejarão sel-o, buscando imitar-me.
«Terei grande pesar, si estimares outro mais do que eu, porque sempre
vizei altas coisas.
«Tinha muita curiosidade de visitar e de ouvir os Francezes.
«De meos avós aprendi a historia de Noé, o qual construio uma barca, pôz
dentro sua gente, que Deos fez chuver abundantemente por muitos dias, que
a terra ficou submergida debaixo d’agoa, invadindo campos, montanhas,
valles, mar, e separando-nos de vós.
«Noé foi pae de todos.
«Soube tambem que Maria era Mãe de _Tupan_, sendo Virgem, porem Deos
mesmo fez corpo para si no ventre d’ella e quando cresceo mandou
_Maratás_, Apostolos para toda a parte, nossos paes viram um, cujos
vestigios ainda existe.
«Vós outros padres são mais do que nós, porque fallaes a _Tupan_, e sois
temídos pelos espiritos: eis porque quero ser padre.
«Muito tempo ha, que eu sou _pagy_, e ninguem é mais do que eu, porem não
faço caso d’isto, porque vejo que meos similhantes somente vos apreciarão.
«Desejaria muito que viesses a minha provincia, boa terra, onde se
encontram muitos javalys, viados, e corças, nada te faltará, e sempre
estarei comtigo.»
Respondi-lhe a tudo isto, dizendo ter muita satisfação de vel-o, ja tendo
muitas vezes ouvido fallar d’elle e do seo poder, como enganava com
certos ardis os indios fazendo-os acreditar ter em seo poder um espirito
familiar, sendo ainda maior o seo contentamento por vel-o principiar a
reconhecer sua falta, sendo certo que por seo discurso eu bem percebia
que elle não tinha a intenção, que Deos exige, para ser posto no numero
dos seos filhos e lavado com agoa divina.
Replicou-me assim:
«Que queres dizer com isto, que eu não procuro Deos como convem?
«Será porque desejo ser padre como tu, fazer-me admirar mais do que nunca
entre os meos, persuadil-os a ser filhos de Deos, a procurar-te para
serem baptisados, e fazeres em minha provincia o que quizeres, que de mim
se diga que eu era o grande _Pagy_, sendo o primeiro a reconhecer Deos e
vós outros padres.
«Sendo estimado pelo grande espirito, os outros á minha sombra procurarão
a Deos e farão como eu.
«Si eu não me fizer lavar, muitos não o farão, e dirão—esperemos que
_Pacamão_ seja _Caraiba_, e depois nós o seremos, porque tem melhor
espirito e é mais esperto do que nós.
«Deves saber que antes de terdes chegado, eu ja lavava os habitantes do
meo paiz, como vós padres fazeis com os vossos, porem em nome do meo
espirito, e vós o praticaes em nome de _Tupan_.
«Eu bafejava os infermos, e elles ficavam bons: elles me diziam o que
fizeram, e eu embaracei _Jeropary_ de fazer-lhes mal.
«Fazia apparecer annos bons, e vingava-me dando doenças aos que me
despresavam. Dava-lhes agua que corria do pavimento de minha casa, o que
agora não faço e nem quero mais fazer, porque era a subtilesa do meo
espirito, que me suggeria todas estas coisas, zombando assim dos meos,
que julgavam, por falta de espirito, ser isto maravilha.
«Foi um francez que me ensinou a fazer brotar agoa do soalho de minha
casa.»
Respondi-lhe pelo meu interprete, que na sua réplica descobria não
procurar elle a Deos como era conveniente, por que pretendia por meio
do baptismo fazer-se maior e mais estimado entre os seos do que era
antes por meio de seos grosseiros embustes, visto que Deos exigia de
seos filhos, que fossem humildes, e que se arrependessem dos peccados
passados: com quanto na verdade Deos não deixe de exaltar os seos,
muito mais do que os diabos fazem com os seos sectarios, em quanto elle
tivesse esse espirito, não esperasse que os padres o baptisassem, e sim o
fariam só quando elle não fosse soberbo, e estivesse arrependido de suas
feitiçarias.
Em quanto eu dizia estas palavras, chegou o interprete do Sr. de la
Ravardiere por nome _Mingan_, a quem eu tinha mandado chamar para
conversar com _Pacamão_, porque é da indole d’esses selvagens dar mais
credito aos interpretes mais velhos do que aos moços.
Contei-lhe palavra por palavra toda a nossa conferencia até aquella
hora, e lhe pedi para fallar a elle de conformidade com os meos e seos
pensamentos.
Eis como elle fallou:
«Tu bem sabes, que ha muito tempo eu converso comvosco, e com vossos
paes, quando estavamos em _Potyiu_.
«Muitas vezes te chamei embusteiro por abusares de teos similhantes,
muito credulos.
«Tu lhes fazias crer tudo quanto querias: teos paes e todos os não
baptisados vão para _Jeropary_ no inferno, e tu irás com elles si não
fizeres o que dizem os padres.
«Quando estavamos comtigo antes da vinda dos padres, sempre zombavamos do
que faziam vós e os outros _pagys_: não diziamos palavra por não ser esse
o nosso fim, e sim colher algodão.
«Lançavamos mão de vossas filhas, e d’ellas tinhamos filhos, o que é
hoje prohibido pelos Padres, não me atrevendo por isto nem eu e nem os
outros, ir a Igreja, porque os Padres nos ensinam, que Deos prohibe a
deshonestidade.
«Tens trinta mulheres, deves deixal-as e te contentares com uma, se
desejas ser filho de Deos e receber o baptismo.
«Pensa bem e sobretudo na felicidade que si te offerece de poder
salvar-te e livrar-te das patas do Diabo.
«Teos paes não tiveram tal occasião: foi Deos que te inspirou a vir ter
com os Padres e lhes pedir o baptismo.
«Lembra-te que Deos sabe de tudo e não pode ser enganado, quer e deseja
que todos que o buscam, renunciem o diabo e suas acções.»
Respondeo assim _Pacamão_:
«Não sabes o que tenho sido entre os meos? Quanto caso fazem de meos
feitiços? Não sabes que sempre tratei os francezes como pude, e de muito
boa vontade?
«Animei sempre meos similhantes a dar-lhes suas filhas e seos generos em
troco de ferramentas: sentia-me satisfeito entre elles aprendendo alguma
coisa de novo, porque os francezes tem mais espirito e intelligencia do
que nós, e apenas soube da chegada dos Padres fiquei muito contente, e
disse aos meos similhantes—que felicidade! elles nos ensinaram a conhecer
a Deos, quero ir vel-os. Foi isto que aqui me trouxe, e é d’isto que nos
occupamos.»
Disse a _Migan_ estar elle repetindo o que eu ja havia dito, isto
é, que era bem vindo, sendo porem necessario buscar o baptismo com
arrependimento e humildade.
Migan explicou-lhe muito bem a grandeza e o poder de Deos, e a pequenez
dos homens, especialmente dos captivos de Satanaz.
Mostrou-se satisfeito, e me prometteo vir na manhã seguinte fallar
commigo dos seos negocios.
Assim finalisou-se esta conferencia, e si retiraram para o Forte depois
de ter cada um bebido um pouco de agoardente.
Vamos notar muito bellas particularidades n’este discurso, que não seriam
entendidas ou passariam desapercebidas si não fossem indicadas.
Em primeiro lugar o falso zelo d’estes selvagens em conservarem sua
autoridade e prestigio entre os seos, não fazendo acção alguma sem
reflectir, pela qual possam ser mal apreciados pelos seos inferiores,
tão levianos e imperfeitos como elles, e por conseguinte tão incapazes
de entretêr os espiritos familiares como elles: supponhamos que para ter
o gozo dos espiritos é preciso ser constante e grave, e não se deixar
levar pelas primeiras informações. Pensando n’isto, vêde como os diabos
abusam da luz natural do homem, que claramente nos faz vêr si desejamos
conservar em nós o verdadeiro espirito de Deos, sendo conveniente banir
a leviandade e inconstancia do nosso interior, reconcentrar-nos com
firmesa, e nada fazer ou dizer, que não seja discutido e decidido pela
rasão.
De outra fórma somos menores em relação a profissão do Christianismo, do
que estes feiticeiros, que se esforçam a ser graves procurando conquistar
a estima de seos similhantes.
Em segundo lugar notareis os effeitos do espirito diabolico, que são
a soberba e a grande presumpção, que já se abriga até entre as coisas
sagradas: tão grande é o seo veneno a ponto de querer atacar o seo
contrario, visto não haver maior antagonismo do que entre o Espirito de
Deos e o de Satanaz, a humildade de Jesus Christo e a soberba de Lucifer,
a abnegação do Christão e a presumpção dos filhos do diabo!
Assim procedia Simão, o magico, para com S. Pedro, procurando com seo
dinheiro o Espirito de Deos, afim de se fazer reconhecido como grande por
meio do Espirito Santo.
Que grande cegueira julgar Deos vassallo da vaidade!
Que desgraça estar uma alma presa por infernaes obscuridades!
Este pobre feiticeiro do Brazil julgava no principio, que tinhamos Deos
em nossa algibeira para dal-o a quem bem nos aprouvesse, obedecendo elle
a quem o entregassemos.
Com o fim de se apoderar de sua alma o diabo o escravisa e o obriga a
commetter mil loucuras, inspirando esse _Pagy_ para isso. Deos nos livre
de tal perigo!
Em terceiro lugar—quanto ao que elle disse de Noé e da Virgem não
ousarei dizer d’onde elle teve essas ideias: si foi dos francezes, não
parece muito, porque os que vieram antes de nós só lhes fallariam de
obscenidade, e concubinatos; é mais provavel, que fosse de tradicções
antigas, porque apenas chegamos a _Yuiret_, _Japy-açú_ nos fallou quasi
da mesma maneira do diluvio e de um Apostolo, que por aqui andou, como se
lê na obra do Reverendo Padre Claudio d’Abbeville.