Os filhos do Brazil darão cabo do reinado de Lucifer, e começarão a
estabelecer o reinado de Jesus Christo.
O psalmista rei David, no seo psalmo 8.º—_In finem pro torcularibus,
psalmus David_, isto é, o psalmo de David, que deve ser cantado em acção
de graças ao Senhor no fim das vindimas diz, prevendo a ruina total do
imperio de Lucifer sobre as almas dos infieis, e o estabelecimento do
reinado de Jesus Christo—_Ex ore infantium et lactentium perfecisti
laudem propter inimicos tuos, ut destruas inimicum et ultorem_. «Tens
apurado teos louvores pela bocca dos meninos e das crianças de peito
á despeito dos teos inimigos, e por isso tu destroes o adversario e o
tyranno vingativo.»
Rabbi Jonathas embellezou esta passagem, e esclareceo-a por esta
forma—_Fundasti fortitudinem, ut destruas Auctorem inimicitiarum et
ultorem_ «estabelecestes a força do teo imperio pela bocca e confissão
da Fé dos meninos para mostrar tua grandesa, e destruir o autor das
vinganças e o sanguinario vingador.»
Disse São Jeronymo—_Quiescat inimicus et ultor_ «fechaste a bocca ao
seductor inimigo da salvação, e enraivecido contra os homens pela voz dos
meninos.»
Grande maravilha é o serem os meninos o symbolo da proxima fundação do
reinado de Jesus Christo e a queda do poder dos demonios.
Não me demoro em fundamentar com muitos exemplos este signal da
providencia de Deos, e assim limito-me a referir o que se passou no
Triumpho de Jesus Christo antes de sua Paixão, quando os meninos em
alta voz diziam—_Hosanna filio David_ «seja bem vindo o Filho de Deos,»
o que disse em primeiro logar o santo rei no seo cantico—_In finem pro
torcularibus_, «no fim pelas pressões,» isto é, no fim do reinado de
Satanaz, e no principio da Paixão de Jesus Christo, quando era tempo de
pagarem os meninos este tributo de reconhecimento.
Em segundo lugar, de dia a dia, na continuação, no fim, e na consummação
do captiveiro de Satanaz sobre as almas infieis, e no principio da Santa
Igreja, fundada entre ellas, principalmente pelos meninos, o que desejo
mostrar ter sido feito pelos filhos do Brasil.
Estas almas juvenis, ainda não corrompidas por antigos e maus costumes
de seos paes, mostram não sei que disposição singular e particular para
receber, como si fosse uma taboa rasa, qualquer pintura...
(Falta uma folha.)
... repugnancia: nós lhe facilitavamos os meios de o entender comparando
com as coisas, que veem diariamente.
Assim como crescem as ostras sobre os ramos das arvores, tomando carnes
e recebendo vida entre duas conchas, sem mistura, nem effusão de semente
do humor marinho, e apenas pelo calor do sol, assim tambem o Filho de
Deos no ventre da joven, a Santa Virgem, recebeo seo precioso sangue da
materia, e o Espirito Santo, do calor, e assim tomou corpo sem alguma
outra operação humana.
Gostavam muito da comparação, e me disseram que em seo paiz muitas coisas
se geravam pela simples influencia do Sol, como os lagartos, que sahem
dos ovos, depois que recebem a vida do calor do Sol, e por isso não
tinham difficuldade em crer o que nós lhes ensinavamos, e nem que Deos se
fizesse homem para morrer afim de salvar os seos, porque, diziam elles,
_Jeropary_, apesar de ser espirito mau, entra no corpo dos monstros para
nos amedrontar, espancar e atormentar.
Sobre tudo muita admiração nos causava o como facilmente se convenciam da
verdade e da realidade de Jesus Christo, Filho de Deos, sob as especies
de pão e vinho, ao passo que viamos tantas almas vacillantes n’este
ponto, embora lhes sóbre espirito e comprehensão para outras coisas.
A este respeito não pude dizer outra coisa, senão o que disse a
Escriptura Santa no proverbio 25—_Sicut qui mel multum comedit, non est
ei bonun, sic qui scrutator est magestatis, opprimetur a gloria_.—«É
coisa tão doce como o mel, mas quem d’ella comer muito, não pode offender
mais o estomago.»
Nada ha de mais suave e delicioso do que a contemplação das obras de
Deos e a leitura das letras santas, mas para aquelle que vae muito alem,
e tudo mede pela vara de seo espirito, impellido pela soberba de seo
entendimento.
Nada ha mais seguro, que não fique opprimido pelos vivos raios da gloria
de Sua Magestade, como se observa nos mochos cegos, visto quererem olhar
e julgar da face do sol, e da sua luz.
Ao contrario, os que manejam com temor e humildade os mysterios de nossa
fé, são esclarecidos sem prejuiso de suas vistas, e docilmente obedecem a
vontade e poder do soberano, que pode o que quer, quer e faz o que diz.
Estes pobres selvagens, fallo até dos que não são ainda christãos, apenas
se lhes fazia signal de sahirem da igreja, retiravam-se promptamente,
ficando comtudo na porta, que se conservava fechada em quanto se recitava
o canon da missa, e fazia-se a communhão.
Diziam elles, em resumo, que n’essa hora descia _Tupan_ sobre os altares,
bebendo e comendo comnosco, que não tinham merecimento para ficar ahi em
frente d’elle senão quando fossem baptisados, e a maior parte d’elles se
ajoelhavam, imitando os francezes.
Os Indios christãos ajoelhavam-se apenas ouviam tocar a campainha,
juntavam as mãos e adoravam a Deos.
Ao mysterio do Sacratissimo Corpo e Precioso Sangue do Filho de Deos
elles chamam _Tupan_, quer dizer, o proprio Deos, segundo suas crenças,
_Aséreu yanondé Tupan rare_, quer dizer, «antes de morrer receberás o
corpo de Deos».
Ainda que eu reconhecesse n’elles facilidade de crer segredo tão
profundo, não me animaria a communicar-lhes senão em artigo de morte,
e antes queria deixar esta tarefa para os que viessem depois de mim,
porque dando n’um certo dia a communhão a uma India, a quem examinei
tanto quanto pude antes de lhe dar o Precioso Corpo de Jesus Christo na
Paschoa, apenas recebeo a Hostia Consagrada perturbou-se muito e não
a poude engolir a ponto de querer tiral-a com a mão o que lhe prohibi
disendo só poder ser tocada por sacerdotes, que não tivesse receio, e
nem se assustasse tendo de receber seo Deos, que era de sua vontade,
que ella recebesse a hostia e a engolisse com toda a confiança, o que
fez mediante um pouco de vinho que lhe dei a beber no calix: tão grande
secura da lingoa e bocca proveio da grande timidez d’ella em receber
tão santo manjar, o que me resolveo de então em diante a deixal-os bem
fundamentarem-se no conhecimento d’este artigo antes de administrar-lhes
o Santo Sacramento, e ainda que muitos me pedissem o _Tupan_, eu lhes
respondia que esperassem pela vinda dos nossos padres.
Não ha grande difficuldade em fazel-os confessar suas faltas, até mesmo
as proprias mulheres, e de coisas que são difficeis a este sexo declarar
aos sacerdotes, representantes da pessoa de Deos.
Mui livremente vos dizem sim e não, o tempo, o lugar, a qualidade das
pessoas, o numero de seos peccados, sem algum vexame tolo e mau como por
ahi se observa.
Não tem a menor hesitação em crer na efficacia do baptismo, que é o
lavamento dos peccados, a filiação de Deos, e a acquisição do Ceo, tendo
como certo que os baptisados vão para o paraiso gozar da companhia de
Deos, com tanto que não caiam outra vez em peccado mortal.
Acreditaram sempre, que havia inferno, onde estava _Jeropary_, e para
onde iam os maus.
Sabiam ao mesmo tempo por tradicção, que Deos era muito feliz lá em cima,
vivendo com os espiritos bons, e que seos paes que tinham tido boa vida,
iam para um lugar de delicias, onde nada lhes faltava embora terrestre.
A vista d’isto facil nos foi fazel-os entender o que deviam crer do
paraiso, do inferno e de um terceiro lugar, onde se purificam as almas
antes de irem para o Ceo, de um quarto onde os meninos, que não chegaram
a receber o baptismo, morrendo antes do uso da razão, eram recebidos para
não padecerem por nunca poderem vêr a Deos, visto ser o baptismo a chave
do Ceo.
Não se acreditaria, senão vendo-se, quanto são os selvagens curiosos por
saberem das coisas de Deos. Todos, quando com elles conversavamos, nos
faziam mil perguntas á este respeito, iguaes á estas:
Como Deos fez o Mundo?
Si o fez com suas proprias mãos, ou si ajudado pelos bons espiritos poude
fazer o Ceo, as estrellas, o sol, a lua, o fogo, o ar, a agoa, a terra,
os primeiros homens, os primeiros passaros, peixes e animaes, reptis,
arvores e hervas?
O que existia antes de feito o mundo, e o que fazia Deos vivendo sosinho?
De que forma está no Ceo?
Como faz rebumbar o trovão, e cahir a chuva?
Si falla aos homens, si viemos do Ceo, si nascemos de mulheres, si vimos
anjos e diabos?
Quem nos ensinou tudo quanto ensinavamos, si não morriamos, e depois da
nossa morte como si faziam outros padres?
Si em França haviam muitos padres, si andam vestidos como nós, si havia
um padre que fosse rei, porque regeitavamos mulheres e mercadorias?
Si a Mãe de Deos era uma rapariga como outra qualquer, si bebia e comia
como nós, porque tinha morrido, si não vinha do Ceo passeiar as vezes na
terra e fallar comnosco?
Si os Apostolos eram padres como nós, quantos tinham existido, porque os
outros _Caraibas_ francezes não eram tambem padres como nós, si fomos nós
mesmos que nos fizemos Padres, ou si foi outra pessoa?
A todas estas e a muitas outras perguntas respondiamos com a verdade, e
elles por gestos e palavras demonstravam seo contentamento.
Assim corria de maneira agradavel o tempo entre taes perguntas e
entretinimento.
É por isso que pretendo aqui deixar as diversas e mais singulares
conversações, que tive com os _Muruuichaues_, isto é, com os principaes
de _Maranhão_, _Tapuitapéra_, _Commã_, _Caietés_, _Pará_ e _Miary_.
Não quero demorar-me mais fallando em taes perguntas e respostas, visto
que as vereis mais adiante, e espero que minhas respostas vos contentarão
muito, e vos assevero que serão fielmente transcriptas até na propria
linguagem com que foram proferidas.
Espero desculpa não só por isso como tambem pelo mais que ja deixei
escripto, mormente não se achando tantos ornatos n’esta historia como
exigia a curiosidade d’este seculo.
É minha opinião, que a bellesa de uma historia consiste na verdade do
facto e na simplicidade do estylo.
Si eu não descrever palavra por palavra essas conferencias, ou si
não usar de muitas palavras, basta que não offenda em coisa alguma a
substancia do facto, sendo essa abundancia de discurso necessaria e
requerida para vos fazer entender bem claramente suas intenções, e as
nossas expressões.