Claros signaes do reino do diabo no Maranhão.
O Salvador do Mundo em S. Marcos, antes de subir á direita de seo Pae,
encarregou a seos Apostolos e discipulos de irem pelo universo converter
os infieis assegurando-lhes por certos indicios e signaes a proxima
ruina do imperio dos demonios, a saber—_signa eos qui crediderint hæc
sequentur: In nomine meo dæmonia ejicient, linguis loquentur novis,
serpentes tollent, et si mortiferum quid biberint, non eis nocebit.
Super ægros manus imponent et bene habebunt_: «estes signaes seguiram
os crentes, em meu nome expellirão o diabo, fallarão novas lingoas,
desviarão as serpentes, e si beberem algum veneno mortifero nada
soffrerão.»
Para bem entender-se estas palavras, convem notar com os padres e
doutores, que foram postas litteralmente em pratica pelos primeiros
christãos, quando na primeira idade da igreja era preciso combater a
obstinação dos judeos e a louca sabedoria dos gentios.
Depois que estendeo-se a fé por todo o universo, que foi por todos
condemnada a pertinacia dos judeos e tida por vaidade a sabedoria humana,
não foi mais necessario observar litteralmente estes signaes na conversão
dos incredulos e sim unicamente a pratica allegorica e mistica.
Eis o que desejamos mostrar n’este capitulo ter-se feito todos os dias em
Maranhão.
Primeiramente elle disse—_In nomine meo dæmonia ejicient_: «em meo nome
elles expellirão os demonios.»
Em dois annos que estive em Maranhão, vi isto cumprido por diversas
formas, por que os diabos fizeram apparecer realmente o medo e o temor
que tinham do nome de Deos, procurando por todos os meios embaraçar nossa
missão, já persuadindo seos feiticeiros, mais fieis, a ordenar as nações
sobre que tinham poder, de não se aproximarem de nós, já infundindo-lhes
terror com o signal da Cruz e excitando-os a arrancar os que existiam,
dando maus exemplos com ridicularisar o que sanctamente ensinavamos a
estes barbaros, intimidando por muitas vezes os habitantes de _Maranhão_,
_Tapuitapéra_, _Commã_, _Caetés_, _Pará_ e _Mearim_ e fazendo-os fugir
para os matos e logares desconhecidos com receio de serem presos e
captivados pelos francezes ou pelos portuguezes.
Finalmente mostrou-se tudo de forma diversa, porque quando julgavamos
tudo perdido, foi quando Deos mostrou o poder do seo nome, conservando
não só estes selvagens junto de nós, mas tambem fazendo com que
despresassem seos feiticeiros e o poder do diabo, fazendo fugir
_Jeropary_, com o nome de Deos, e a ablução de Jesus Christo.
Vou mostrar bons exemplos.
Lembrar-vos-heis do que acima vos disse tanto dos feiticeiros dos campos
do Mearim e das habitações de _Thion_, como da maneira porque os diabos
manifestavam o temor, que tinham das cruzes, que plantavamos em nome
de Jesus Christo, e de nós seos fieis servos: quando alguns de seos
Principaes me diziam, que estes feiticeiros não quiseram vir com elles,
eu lhes perguntava a razão, e elles me respondiam—_porque Jeropary tem
medo de Tupan_.
_Acaiuy_, principal do Mearim, de quem fallaremos mais de espaço, veio
me pedir licença para fazer sua casa ao pé da minha, não querendo ficar
com os outros no _Forte_, dizendo-me entre outras rasões que tinha para
isto, ser porque _Jeropary_ não se atrevia a aproximar-se do logar, em
que habitavamos visto termos vindo expressamente para repellil-o.
_Pedro Cão_, selvagem baptisado em Dieppe havia muitos annos, dizia
a mim e aos Srs. de la Ravardiere, de Pezieux, e a outros quando o
interrogavamos á respeito de sua felicidade na guerra, que Deos sempre o
livrára de mil perigos porque era christão, e fazia fugir o diabo apenas
chegava n’uma aldeia, e que seos similhantes mostravam-se animados,
quando em companhia d’elle, não temendo _Jeropary_.
O mesmo pensavam os habitantes de _Tapuytapéra_ á respeito dos novos
christãos, julgando que elles perseguiam e faziam fugir _Jeropary_,
mostrando-se contentes por isto quando tinham esses christãos em suas
aldeias.
Servindo-nos d’estas crenças embutiamos no espirito dos cathecumenos
como ponto de fé, que logo que elles fossem _lavados_, adquiririam poder
contra o diabo, e nunca mais deviam temel-o.
Corre voz geral em todas estas terras, que os diabos são _espiritos
maus_, que temem os _Pays_ e os _Caraybas_, isto é, os padres e todos os
que são baptisados.
Recorda-me que fallando mil vezes d’esta materia aos selvagens, elles me
disseram—_Jeropary yportassuasseque gésera_—«o diabo está agora pobre
e miseravel, tem muito medo e já não é atrevido como era.» _Jeropary
ypochu, Tupan Katu_ «o diabo é mau, cruel e nada valle, porem Deos é
muito bom.»
Que desejarieis mais para o complemento d’este primeiro signal, e
segurança da total ruina do diabo?
São os proprios diabos, que confessam temer o nome de Jesus Christo,
as armas de sua paixão, e até os seos servos, dissuadindo seos intimos
amigos para que de nós se ausentassem, abalando ceos e terra afim de
embaraçar-nos, e movendo tudo para inutilisar nossos esforços, emfim
cahiram de ventas no chão, e chegaram ao cabo de suas astucias.
Os que outr’ora os temiam, hoje os despresam; emfim só nos resta
continuar as obras começadas.
_Linguis loquentur novis_: «fallarão novas linguas». Na verdade os nossos
selvagens do Maranhão fallam uma linguagem inteiramente nova, visto
que, esse _Marata_ antigo, isto é, um dos Apostolos de Jesus Christo
de quem fallarei mais adiante, não lhes ensinou a fallar como fallam
agora, a saber: na profissão do christianismo recitando o symbolo dos
Apostolos _Arobiar Tupan_ etc. etc., a dirigir-se a Deos por meio da
oração dominical _Oreruue_ etc. a encaminhar suas vidas e acções segundo
os mandamentos da lei de Deos _Ymoeté yepé Tupan_ etc. etc. conforme os
mandamentos da Igreja. _Are maratecuare ehumé_ etc. «lavar e fortificar
suas almas pelos Santissimos Sacramentos.» _Iemongarauiue_ etc.
É por certo fallar linguagem nova, quando discorrem sobre os mysterios
da nossa fé, como sejam a unidade da essencia em Deos, e na Trindade
das Pessoas; que o Filho de Deos tomou corpo no ventre da Virgem: que
os maus vão para o inferno, que todos os homens resuscitarão em corpo e
alma, indo depois cada um para o lugar de sua sentença: são estes com
tudo os discursos diarios dos feiticeiros, só fallando em matar, comer,
assar e seccar a carne dos seos inimigos, e nas suas incontinencias,
libertinagens e loucuras.
Admirar-se-ha muito quem pensar em tal mudança entre os barbaros, que
somente sabem o que lhes ensinou a natureza.
Creem os judeos, que os Apostolos sahiram d’um tunel, bem cheio, de vinho
e de carne, e viram que os gentios de diversas nações davam signaes
de entender o que prégavam, e que os Apostolos por sua vez tambem os
percebiam.
Tambem vos disse, que os selvagens ficavam muito admirados quando viam
seos similhantes, baptisados, discorrer em sua lingua sobre coisas altas,
profundas, e tão novas, como as que conheciamos por seos interpretes, e
diziam uns aos outros—como é que esta gente falla tambem de _Tupan_, como
os Padres lhes tem ensinado tão bellas coisas, quaes as que nos contam:
como nossos filhos sabem mais do que nós, nossos Padres, e mais remotos
antepassados, que embora tenham vivido muito nada nos contaram como estes
Padres: por força fallaram com Deos.
_Em terceiro lugar._ _Serpentes tollent_ «elles desviaram as serpentes.»
Que são essas serpentes do Brazil, que com sua lingua e cauda envenenam
estes povos? Não são todos os grandes e pequenos feiticeiros, que
envenenam suas Nações?
A fé de Jesus Christo é como a Cegonha, que purifica o paiz, onde está,
das serpentes venenosas.
S. Paulo, na Ilha de Malta, atirou ao fogo a vibora que trazia no dedo.
O dedo dado por Jesus Christo aos Apostolos, é o poder do Espirito Santo,
que de ordinario busca agentes naturaes docemente, sem constrangimento,
para dispôr o objecto a receber uma nova fórma pelo banimento e ruina de
outra fórma contraria.
Estas viboras, arremeçadas ao fogo, são os Ministros de Satanaz, que o
Espirito Santo expelle para tornar a Nação cheia d’abusos susceptivel de
acceitar o Evangelho e de conhecer a Deos.
Si eu disser, que me parece ter o Espirito Santo, em relação a estes
feiticeiros do Maranhão, feito um grande milagre, que nunca fez para com
os sacrificadores do Paganismo, creio ser bem recebida a minha opinião,
porque, alem de dois ou tres feiticeiros, todos os grandes só desejam ser
baptisados: ao contrario, raras vezes estes sacrificadores do diabo, na
gentilidade esposavam o christianismo.
Por isso podiamos dizer, que as serpentes venenosas, que se arrastam na
terra, tornam-se passaros voadores no elemento do ar, conforme a profecia
de Isaias: _De radice colubri egredietur Regulus, et semen ejus absorvens
volucrem_: «da raiz da cobra sahirá o Basilico, e a semente do Basilico
engulirá o passaro,» o que Vatable assim interpreta[105]: _De radice
serpentis egredietur Regulos, et fructus ejus, cerestes volans_: «da raiz
da serpente sahirá o Basilico, e o seo fructo será uma cerasta volante.»
Para entender esta passagem convem recordar-se do que escrevem os
naturalistas, a saber, que as cobras grandes e grossas geram o Basilico
quando comem um sapo; porem o Basilico procura gallinhas brancas, com
quem se unem, pondo ellas ovos, que enterram n’areia ao ardor do Sol, e
d’elles sahem serpentes, que voam.
Nada dizem, que eu não visse em Maranhão, conforme me diziam e pensavam
os selvagens, e aconteceo-me por duas vezes, que uma gallinha branca
que eu tinha, pozesse dois ovosinhos redondos como uma ameixa de dama e
salpicados, e depois ella mudou de cacarejar, e parecia louca.
Disseram-me então os selvagens, que infallivelmente o Basilico nos mattos
a tinha coberto, pelo que convinha matar, quebrar e queimar os ovos, para
evitar a morte infallivel de quem os comêsse: si se deixasse os ovos, sem
queimal-os, d’elles sahiriam serpentes voadoras, que não era a primeira
vez, que isto acontecia, e então todas as gallinhas mudam de canto, e não
param n’um lugar.
Appliquemos isto ao nosso fim, e digamos que a antiga cobra é Satanaz,
Principe dos Demonios, os Basilicos são os Diabos destacados nas
Provincias por Lucifer para seduzir o Mundo; as serpentes são seos
Ministros, como sejam os _Pagys_ ou feiticeiros do Brazil, que desejam
adquerir azas para mudar de elemento da terra para o do ar, deixar seos
velhos e abominaveis costumes de arrastar o peito em seo execrando e
diabolico serviço, e aproximar-se do Ceo, como o resto dos indios pela
ablução ou lavagem de seos antigos peccados pelo Sacramento do Baptismo.
Estas serpentes, tão perseguidas no Brazil, são esses desgraçados
costumes, e abominaveis peccados, como sejam as vilanias, raivas, e
vinganças, já descriptas amplamente n’outra parte.
_Em quarto lugar._ _Et si mortiferum quid biberint non eis nocebit_: «e
si bebem algum veneno mortifero, não lhes damnificará.» O verdadeiro
veneno, que engolem as almas, é a falsa doutrina, que o Diabo faz
suggerir nos ouvidos dos novos christãos.
Vós o achareis em muitos exemplos do proprio seculo dos Apostolos. Certos
seductores iam corromper os individuos sem malicia, e apenas bebiam ellas
o _Aconito_, sentiam-se afflictos, impressionados em sua alma, e abalados
em sua fé; porem o Espirito Santo mencionado no genesis—_Spiritus Domini,
ferebatur super aquas_ «o Espirito do Senhor é levado sobre as agoas de
Chaos,» isto é, ainda não purificadas e nem limpidas, ou como querem
dizer os outros: _Incubabat aquis_, deitava-se sobre as agoas do Chaos
para d’elle tirar as bellas pombas, como fingiam os Poetas, os ovos de
Thetis, cobertos pelo pombo branco, ou o Cysne, de que sahiram Castor e
Pollux, ou então _fouebat aquas_, aquecia essas agoas ainda frias.
O Espirito Santo, digo eu desculpa mais facilmente a fragilidade e
fraquesa d’estes novos christãos, mas não as dos antigos crentes.
Assim vae adejando sobre as agoas desviadas do verdadeiro caminho pelos
maus discursos d’aquelles, que tem a alma mal conformada, vae chocando
os ovos abandonados pelo Pae e Mãe, almas recentemente lavadas, porem
separadas da presença d’aquelles que as tem lavado.
Aquecidas essas agoas geladas pelo sopro do pernicioso Aquilon, não quer
que o veneno bebido lhes dê a morte, conduzindo-as ao regaço de sua Mãe,
e entre os braços dos que, depois de Deos, os geraram espiritualmente em
Jesus Christo para obrigal-os a vomitar o veneno do seo coração, e tomar
o alimento salutar, pelo qual se fortificaram para resistir de ora em
diante a todos os choques.
Passou-se isto no Brazil, como aconteceo no tempo dos Apostolos, onde
um certo numero de novos christãos de _Tapuitapéra_, seduzidos por
más palavras de um certo personagem, metade d’elles se deshouveram e
renunciaram o Christianismo; porem nós cuidamos d’elles com todo o zelo.
Assim fizeram os nossos superiores, que redobraram de cuidados para
remediar este mal levando para ahi tudo quanto julgaram necessario,
e por isso essas novas plantas, fanadas por brisa gelada, adquiriram
seo antigo vigor e florescencia, e tornando a vel-os no Forte de Sam
Luiz, procuramos animal-os a ficarem firmes e constantes na profissão
do Christianismo, e ordenamos-lhes de não se separarem de Martinho
Francisco, ahi nosso suffraganeo.
Sentia-se o diabo cercado por todos os lados, e peiores os seos negocios
de dia para dia.
N’esta epocha, em que estou escrevendo, espero que os padres que por la
andam, lhe deem terriveis combates, e que seo reinado vá de decadencia
em decadencia, até total ruina; porque antes de eu deixar a ilha, via
e experimentava a disposição geral e universal d’estes selvagens,[106]
especialmente dos meninos, para os converterem.