De algumas outras ceremonias diabolicas praticadas pelos feiticeiros do
Brazil.
Sentiria muito este Principe se deixasse intacta alguma coisa no serviço
de Deos, sem procurar imital-a falsamente, e sem buscar introduzil-a no
culto supersticioso de sua soberba.
Outr’ora Deos no Antigo Testamento instituio as agoas da Purificação,
feitas e compostas de diversas materias e differentes ceremonias,
conforme o fim e objecto, a que se destinavam, tanto para purificar os
homens, os vasos, e os utensilios do Templo, como os vestidos, as casas e
todos os moveis.
Por imitação instituio este demonio as agoas de lustração, das quaes
se serviam os pagãos para diversos fins, bem como os judeos, lavando e
aspergindo com ellas os homens antes dos sacrificios, os utencilios dos
templos dos idolos, as casas, os vestidos e moveis dos infieis.
Vejamos se esqueceo-se esta desgraçada serpente d’illudir nossos
selvagens com taes superstições.
Quando outros exemplos não podessemos produzir alem do já referido no
_Tratado do Temporal_, das nigromancias feitas pelo feiticeiro, vindo dos
campos do Mearim, bastava só esse para demonstrar claramente as loucuras
e abusos, que semeára este antigo enganador entre os povos, em relação ao
nosso fim.
Como soube, da propria bocca dos feiticeiros, de muitas particularidades,
que faziam para illudir estas gentes, não quero privar o leitor de as
conhecer.
È costume dos _Pagys-uaçus_ celebrarem, em certa epoca do anno,
lustrações publicas,[103] isto é, purificações supersticiosas por
aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que tudo dependa de sua
imaginação, fazendo á capricho taes oblações, comtudo de ordinario enchem
d’agoa grandes potes de barro, proferindo em segredo algumas palavras
sobre elles, deitando tambem fumaças de _Petum_, e misturando tambem um
pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se a dançar, e depois o
feiticeiro toma um ramo de palha, mete dentro do pote, e com elle asperge
a companhia.
Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas _cuias_, ou
tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a seos filhos.
_Pacamão_, grande feiticeiro de _Commã_,[104] contou-me um dia, que faria
sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de
todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua
casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos,
mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra
d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em
abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os
seos.
Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito
das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e
n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram
perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e
outras profanas.
Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os
venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente,
que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe _Jeropary_.
Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as
mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz
correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se
animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença
de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e
fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa.
Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos
atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e
parindo lagartos em vez de crianças.
Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte
em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes
para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito
riso a nós outros, os francezes.
Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes
feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos
outros, isto é, por meio da herva _Petun_ introdusida n’um caniço, de que
elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a
mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude.
Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar
Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos
seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas.
Assim se lê em São João—_Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum
Sanctum_: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»
D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não
lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta
região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam
aprendel-a de outra nação.
Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para
curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o
mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta
d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só
jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de
pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam
chupado, e fazendo acreditar ao doente.
Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de
_Vsaap_.
Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz.
Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o
seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas
vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o
doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e
mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do
ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por
um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.»
Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses
pregos.
Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça
d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs
entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes
com tal loucura.
Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim.
Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto
acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo
que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os
selvagens.
Nada digo que não ouvisse da bocca de _Pacamão_, de outros selvagens e
dos franceses.
O grande _Pagy_, na sua provincia de _Commã_, ia visitar, quando
lhe aprasia, as aldeias do seo dominio, ordenando que todos fossem
confessar-se com elle, especialmente as mulheres e as raparigas, e quando
encontrava alguma que se recusava a dizer tudo, elle a ameaçava com o
seo _espirito_, que as havia de atormentar, e tinha muita finura para
reconhecer si occultavam ou não alguma coisa. Dava-lhes depois não sei
que especie de absolvição, e contava tal feito d’esta e d’aquella, e
apesar de tudo isto sempre exerceo seo officio de confessar até nossa
chegada.
Pensae, eu vos peço, quem lhe ensinaria esta maneira de confissão
auricular, de ameaçar seos similhantes, no caso de occultarem alguma
coisa com o seo _espirito_, que os castigaria, e que os absolveria, se
tudo confessassem?