Como falla o diabo aos feiticeiros do Brazil, suas falsas prophecias,
idolos e sacrificios.
Diz Santo Agostinho, que o diabo insuflado por sua soberba quiz ser
obedecido como Deos, imitando com falsidade em tudo e por tudo o
proceder de Deos, especialmente em seos oraculos—_Diabolus est Angelus
per superbiam separatus á Deo, qui in veritate non istetit, et doctor
mendacii, etc_. «o diabo é um Anjo separado por sua soberba de Deos, que
não quiz persistir na verdade fazendo-se assim doutor da mentira.»
Vendo que Deos fallava outr’ora a seos prophetas por diversos modos,
e a seo povo entre duas figuras de cherubins postas sobre a arca da
alliança, quiz tambem em todos os tempos ter falsos prophetas, com os
quaes consultava seos desgraçados projectos, e seos falsos oraculos
proferidos entre diversas figuras por meio de demonios escondidos por ahi
ou occultos ora sob a figura de uma serpente, ora de um touro, ora de um
mocho ou gralha, e finalmente de uma pyramide, estatua e assim por diante.
Advinhavam estes falsos prophetas o futuro não por espirito prophetico,
visto não ter o diabo tal poder, e sim por experiencia de muito tempo,
junta á subtilesa de seo espirito, que os faz presagiar coisas futuras
pelo que vê nos homens e nas coisas, como bem diz Isidoro—_Dæmones
triplici acumine præscientiæ vigent, scilicet, sublimitate naturæ,
experientia temporum, revelatione superiorum potestatum_, «possuem os
demonios tres subtilesas para prevêr o futuro, finura por naturesa,
experiencia de tempo, e revelação de poderes superiores.»
Deixando de parte a experiencia tão antiga dos seos procedimentos para
com a Gentilidade, quero fazer-vos vêr o que ha de verdadeiro a tal
respeito, visto que o diabo tem sempre enganado, e ainda hoje, estes
pobres selvagens por seos oraculos e predicções.
O feiticeiro, de que ja vos fallei, recolhido ás campinas do Mearim,
tinha em casa diabos sob a figura de pequenos passaros negros, que o
advertiam do que deviam fazer e do que se passava na ilha e em outros
lugares.
Quando quiz ir a Maranhão revelaram-lhe estes passaros por occasião
de andar passeiando nas suas roças, que cedo chegariam os Tapuyas, e
destruiriam seo milho e suas raizes, mas que nenhum mal succederia
nem a elle, nem aos seos, e assim aconteceo, porque vindo os Tapuyas
de mansinho para sorprehendel-o, ouviram grande matinada na casa do
feiticeiro, e por isso não se animaram a atacar, receiando superioridade
de defensores, contentando-se com carregar os milhos e raizes, e assim se
foram.
Estes mesmos passaros, ou os diabos sob tal forma, ordenaram a este
feiticeiro, que fosse á ilha do Maranhão, fazer suas feitiçarias, e
convidar os que quizessem deixar a ilha para vir ahi residir devendo
desembarcar no porto de _Taperussu_, isto é, na aldeia dos animaes
gordos, n’uma das extremidades do Maranhão, sendo-lhe absolutamente
prohibido aproximar-se do lugar onde moravam os padres, o que cumprio
pontualmente.
Nunca poude vir ahi nos vêr, apesar de toda a segurança que lhe
promettiamos. Dizia que seos espiritos nos temiam, e se lhes
desobedecessem, suas roças ficariam por fazer, não trabalharia mais, e
perderia o poder, que tinha entre os seos, que seos espiritos lhe haviam
aconselhado de retirar-se do Maranhão antes de nós lá chegarmos afim de
continuarem á viver com elle tão pacificamente como até hoje.
Estes e outros factos contava elle aos habitantes de _Taperussu_, que
em parte lhe prestavam credito, pois n’essa occasião muitas mulheres
se agarravam ás suas pernas, chorando e gritando, pedindo-lhe para que
não deixasse o seo paiz, e nem fosse para _Yuiret_, onde estavamos,
principalmente porque lhe fora isso prohibido pelos espiritos, e se
fizesse o contrario succeder-lhe-hia mal.
Considerae, leitor, a maldade, e o temor d’estes demonios, maldade
para impedir que se cheguem os homens á luz da verdade, ficando sempre
obedientes ás trevas da infidelidade.
É proprio da malicia fugir da claridade com medo de serem descobertas
suas maldades, e sua autoridade destruida.
O temor, que elles tem, dos servos de Deos, em cuja presença não se podem
sustentar, bem como o mocho diante dos raios do sol, e os sapos á vista
da flor e cheiro da vinha, mostra quam grande é o poder de Deos, dado á
sua igreja contra a potestade do inferno.
Prosigamos.
Dois principaes feiticeiros governavam duas nações de _Tabajares_,
inimigas reciprocas, das quaes abusavam dizendo que tinham repetidas
conferencias com os diabos tomando a figura de diversos passaros.
O feiticeiro do lado de Thion, mau e desgraçado (que nunca quiz vir á
ilha, e que della desviava seos similhantes o mais que podia) criava
em sua casa um morcego, a que chamava _Endura_, que lhe fallava em voz
humana em lingua dos _Tupinambás_, algumas vezes tão alto, que podia ser
ouvido á seis passos de distancia, não distincta, porem confusamente e
com timbre infantil.
Respondia-lhe o selvagem ficando só em sua casa, porque despedia a todos
quando percebia que elle lhe queria fallar.
Quando os nossos la foram afim de preparar os selvagens a sahir do seo
paiz para a ilha, instigou-se a curiosidade de alguns francezes, que
tinham ouvido dizer maravilhas d’este feiticeiro, e pediram a seos
compadres que lhes dissessem o que percebessem do colloquio d’elle com o
morcego, e para isso aproximaram-se de mansinho da morada d’elle a ponto
de ouvirem perfeitamente a voz de ambos, e querendo chegar mais perto
foram descobertos pelo feiticeiro, e retirou-se o morcego.
Chamou-os o feiticeiro, sem zangar-se, fel-os entrar em sua casa, e
perguntou-lhes o que queriam e porque estavam a escutar?
Responderam-lhes os francezes, que tinham ouvido dizer aos selvagens
seos similhantes, que ahi havia uma communicação visivel e familiar com
_Jeropary_, que d’ella desejavam vêr alguma coisa, e eis porque se tinham
aproximado, e ouvido distinctamente duas vozes, a sua e uma outra mais
doce e clara.
É verdade, disse elle, eu fallava agora com o meo morcego, que me veio
dizer maravilhas e grandes novidades, como sejam guerra em França, e
que os _Caraibas_ do Maranhão não estavam onde pensavam, que de nada me
assustasse, e ficasse com elle n’esta terra não acompanhando á ilha meos
compatriotas, que aqui não ficariamos muito tempo, porque os francezes
regressariam á sua patria, e que muitos selvagens de _Tapuitapéra_ tinham
fugido para o matto.
Perguntaram-lhes os francezes como elle criava e sustentava este morcego?
Respondeo, que um dia seo espirito, em quanto elle estava só, lhe disse
que de ora em diante lhe fallaria sob a figura de tão feio animal, e
que por isso lhe havia preparado um quarto em sua casa, onde dormiria e
descançaria, comendo do que elle comesse, e quando quizesse fallar-lhe,
que elle o ouviria e responderia: que este espirito tambem quando
quizesse communicar-lhe alguma coisa de novo o chamaria por seo nome, e
com elle fallaria na casa ou no bosque, e mandou o feiticeiro fazer-lhe
um ninho para recolher-se, e com elle sempre fallava sob a forma de
morcego.
Dizendo isto mostrou um dos cantos da sua casa, onde estava o ninho feito
de folhas de palmeira: ahi, disse, vem elle comigo conversar, discorremos
como dois iguaes, e come o que lhe dou.
Não posso deixar de notar as particularidades seguintes:
1.ª Porque o diabo antes quiz tomar a forma de um morcego do que a de
outro qualquer passaro.
2.ª Como o diabo imita a voz humana.
3.ª Da verdade d’estas novidades em França, e como é possivel, que saiba
o diabo o que se passa no mundo.
4.ª Porque razão comia carne.
5.ª Da localidade por elle escolhida para discorrer com o seo Magico.
Para satisfazer a primeira, dizemos, que o axioma dos philosophos—_todos
procuram seos similhantes_, é uma verdade provada quer nas coisas
physicas, quer nas sobrenaturaes, porque o diabo, que por sua soberba se
fez espirito immundo, busca de ordinario tomar as formas mais horriveis e
immundas, que pode ser, para communicar-se com seos bons servos e amigos.
Bem sei o que disse S. Paulo—_Ipse enim Sathanas transfigurat se in
Angelum lucis_ «que Satanaz, transformado em camaleão, para seduzir os
tolos, toma a forma de um Anjo de luz», isto é, reveste-se de bellas
figuras, ou profere boas palavras para melhor fazer seo jogo.
As bonitas formas de mulheres e raparigas, que elle toma para melhor
attrahir os homens luxuriosos, não tem outro motivo senão o desejo de
chamar a si os individuos conforme sua inclinação.
Diz S. Thomaz, que por este motivo, não pode o diabo aborrecer
naturalmente os Anjos felizes, porque tem parte na natureza d’elles,
sendo impossivel amal-os em relação á justiça dos Anjos, e injustiça dos
diabos.
D’esta conclusão deduso duas inclinações dos demonios: uma natural com
que amam as coisas boas, ou pelo menos não as podem aborrecer, e a outra
é proveniente da culpa e da soberba, com que procuram coisas immundas
e abominaveis, e não podem proceder de diverso modo porque gostam da
perversão do appetite, por culpa da natureza.
Dizemos por isto em lingua vulgar, que o diabo horrorisa-se das torpesas
e maldades, a que leva o homem a praticar por suas instigações, o que
entendereis conforme a distincção da naturesa e a culpa do diabo.
Eis uma das principaes causas, porque este cruel Behemot toma a figura de
morcego, a que accrescento outra tirada de uma propriedade peculiar aos
morcegos, qual a destes maus passaros nocturnos, muito mais horriveis e
maiores do que os de França procurarem as pessoas que estão deitadas e
dormindo,[101] e lhe arrancarem um pedaço de carne e depois lhe chuparem
muito sangue sem que se desperte a victima, porque tem a propriedade de
conservar o homem adormecido emquanto lhe chupam o sangue: achando-se
fartos o deixam, continuando o sangue a correr, e por isto fica debil a
pessoa, e por muitos dias anda com difficuldade.
Melhor escolha não podia fazer Satanaz para representar sua naturesa e
crueldade porque anda a noite, e sob as trevas da ignorancia procura os
homens adormecidos e si delicia nas suas carnes, tirando-lhe a inclinação
natural que tem para com Deos, e procura meios de sugar á sua vontade o
sangue, instrumento da vida, as affeições e paixões dos seos captivos
para tornal-os fracos e impotentes em fazer o bem e procurar sua salvação.
2.º Consiste a 2ª dificuldade na imitação da voz humana pelo diabo, não
tendo orgãos e nem lingua para fazel-o.
Sua palavra é apenas a manifestação de seo desejo e vontade quando falla
aos outros diabos, seos companheiros, e aos homens pelas impressões
fantasticas, que faz as suas imaginações.
Comtudo nos ensina a Santa Escriptura, que elle servio-se da lingua da
serpente para seduzir nossa primeira mãe, permittindo Deos, porque não
tem poder na creatura, em quanto fraca e indigente, sem licença de Deos,
e com ella pode crear um corpo no ar, e articular em qualquer lingua até
mesmo nas desconhecidas suas affeições e desejos.
Ponho de parte mil outros modos, pelos quaes manifesta seos desejos aos
feiticeiros, por não ser nosso proposito.
3.º Notamos as noticias, que deo dos motins havidos era França, isto é,
d’esta ultima leva de soldados, e como poude ser isto.
Direi com Santo Agostinho, que os demonios excedem em ligeiresa todo o
corpo existente na maquina do mundo, nada havendo que possa com elles
competir em velocidade.
Em 24 horas fez o primeiro movel este grande curso em torno das abobadas
inferiores, espaço superior aos calculos dos mathematicos, de tal modo
que dentro d’uma hora vence não sei quantas mil legoas.
Calculae agora a ligeiresa d’estes espiritos, que em poucos momentos
giram ao redor do universo, sabendo e vendo o que por elle se passa, e
conjecturando o que se pode predizer das coisas futuras: si tão ligeiros
fossem os correios, á cada hora receberiamos noticias de todas as partes.
4.º Usava de carne, dado o caso de ser verdadeira a existencia d’este
morcego, de que se servia o diabo, e por tanto tinha necessidade de
nutrir-se, e si fosse apenas parto de imaginação não tinha precisão de
carne para viver.
Não obstante tudo isto, tem sempre sido costume do demonio comer e beber
apparentemente em companhia do seos mais dedicados servos, imitando assim
o exemplo dos anjos bons do antigo Testamento, que comiam com Abraham,
Loth, Tobias e outros.
5.º A situação do logar procurado por este espirito, isto é, os bosques,
o concavo das arvores, ou o recanto de alguma casa solitaria, nos faz
ver a inclinação, que tem estes espiritos rebeldes a fazerem, como os
condemnados, suas moradias em logares escuros e desertos, tristes e
melancolicos, temendo, se assim se pode dizer, a luz creada, e a doçura
da harmonia.
Acha-se isto em prova na pessoa de Saul, possesso, sendo aplacado pelo
som da harpa de David.
Asmodeo foi preso pelo anjo Raphael no fundo do deserto, e Satanaz pelo
anjo do Apocalypse no fundo dos abysmos.
Este pobre, victima de legiões diabolicas, que Jesus-Christo livrou, dia
e noite morava nos sepulchros dos defuntos.
Fingiam os antigos, que Cerberas, tirado do inferno, apenas vio a
brilhante luz do sol principiou a vomitar Aconite, até que lhe foi
permittido regressar ás suas cavernas tenebrosas.
Diga-se isto em relação ao feiticeiro da aldeia do grande _Thion_.
Quanto ao _Pagy-uassu_, das aldeias de _farinha molhada_, prevenio aos
seos, alguns mezes antes, da chegada dos francezes, que breve chegavam os
_Caraybas_, trazendo-lhes mercadorias, sendo para notar, que ignoravam a
estada dos francezes na _Ilha do Maranhão_.
Com tal aviso vestiram-se uns de camisas, e outros de diversos factos do
tempo, que outr’ora com elles moravam os francezes.
Assim vestidos foram ter com os habitantes das aldeias de _Thion_, e para
assustal-os lhes disseram—«entregae-vos á nós, porque os francezes estão
comnosco; olhae as roupas que nos deram.»
Estas palavras intimidaram muito a _Thion_ e os seos, e pensavam em fugir
quando chegaram os enviados dos francezes dizendo-lhes, que estes os
veriam ver logo que elles mandassem suas embaixadas á ilha.
Por isto podeis ver, quanto o astucioso Satanaz dava poderes a estes
_pagys_, fazendo-lhes prever coisas futuras.
Sua astucia porem não é tão grande, relativamente á predicção, porque via
o esforço dos francezes visitando os povos visinhos, e tambem o desejo e
a resolução de ir procurar essas nações, onde se achassem, e por tanto
este bom criado advertio seo senhor.
Usam os diabos de outra maneira de fallar e de communicar-se com os
diabos e com os feiticeiros d’este paiz, a saber, fazem um buraco em
terra, dentro de casas longinquas, deitam-se de bruços os feiticeiros,
mettem a cabeça no buraco, fecham os olhos, perguntam ao demonio o que
querem, e do fundo do buraco estes lhes respondem.
Este uso era muito trivial na Gentilidade, e deixando as historias
profanas vou referir-me ao que está escripto no livro 1º dos Reys, cap.
28 quando Saul foi consultar a feiticeira de Endor, a qual curvando-se em
terra, metendo a cabeça e o rosto n’um buraco, fazendo suas invocações,
disse—_Deos vidi ascendentes de terra_—«vi Deoses subindo da terra.»
Não é sem fundamento, que ella escreveo e servio-se d’estas palavras—_vi
deoses_, a menos, que estas feitiçarias não tivessem poder e força
para fazer apparecer alguns diabos, mas quiz Deos, que a propria alma
de Samuel acudisse á sua palavra afim de prophetisar a ultima desgraça
de Saul, que em suas necessidades havia recorrido aos adevinhos e
feiticeiros.
Soube de alguns francezes, moradores na aldeia de _Vsaap_, que um
feiticeiro d’ahi era mui respeitado e temido pelos selvagens, por ser
geral a crença delle fallar com toda a liberdade com o diabo, pela
maneira ja dita, e por isso não se atreviam a aproximar-se de sua casa
quando viam a porta fechada receiando tal colloquio.
Havia tambem na Ilha uma velha feiticeira, que guardava-se muito em
segredo: era mui apreciada pelos selvagens e procurada especialmente nas
molestias incuraveis; quando todos os feiticeiros já não sabiam o que
haviam fazer, então ella era convidada, e trazida com segurança, porem
sempre occulta.
N’um dia, segundo o que me disseram alguns francezes, ella veio a _Vsaap_
para fazer uma cura, já sem esperança, e, antes de começar fechou-se
n’uma casa, isolada no meio da praça da aldeia, e ahi fez suas invocações
e feitiçarias diabolicas sobre o corpo do infermo, fazendo apparecer
visivelmente o seo demonio.
Os francezes, que isto me contaram, tiveram desejos de espiar o que fazia
esta feiticeira, porem os selvagens os embaraçaram o mais que poderam,
asseverando-lhes serem perigosos e maus os espiritos d’esta mulher, de
fórma que na seguinte noite torceriam o pescoço de quem os espiasse.
Zombaram os francezes, e foram de muito boa vontade á essa casa, com
grande admiração dos selvagens, que os julgavam atrevidos e presumpçosos,
e fazendo um buraco na parede de palha viram as gesticulações d’essa
mulher e notaram não sei que de monstruoso ao redor d’ella, não podendo
destinguir o que era, e assim se retiraram.
Em quanto estive doente, muitas pessoas me fallaram d’esta desgraçada
creatura com grandes gabos e estima, como infallivel em dar saude aos que
lh’a pediam. Bem podeis calcular si me agradavam taes palavras.
Fallaram-me tambem de certos barbeiros d’aquelles paizes, que habitavam
em choupanas nos bosques, onde iam consultar seos espiritos.
Na verdade, é frequente na Ilha e nos paizes visinhos edificarem os
feiticeiros pequenas choupanas de palha em lugares longinquos nos mattos:
ahi collocam pequenos idolos de cera ou de madeira em forma humana,[102]
uns maiores, outros menores, porem os maiores não tem mais que um covado.
Ali em certos dias vão elles levando comsigo fogo, agoa, carne ou peixe,
farinha, milho, legumes, pennas de côr e flôres. D’estas carnes fazem
uma especie de sacrificio a esses idolos queimam resinas cheirosas,
enfeitam-nos com pennas e flores, e ahi se demoram muito tempo sosinhos:
crê-se que era a communicação d’estes espiritos.
Crescia este mau costume, e estendia-se as aldeias visinhas de
_Juniparan_, onde morava o Revd. Padre Arsenio a ponto d’elle encontrar
estes idolos de cera na visinhança dos bosques e algumas vezes nas
proprias casas.
Livrou-se d’elles por meio d’exorcismos, que fez em sua Capella contra
estes diabos tão insolentes como atrevidos, e depois não ouvi mais fallar
n’isto.
Considerae agora a presumpção de Satanaz, que em todos os lugares, e em
todas as nações, quando póde, se faz conhecido por alguma especie de
adoração e sacrificio por saber, que nenhuma religião boa ou má, pode
existir sem algum sacrificio e representação da coisa adorada.
Eis porque elle inventou os idolos em lugar das verdadeiras imagens, que
Deos mandou levantar no tabernaculo, e depois no templo de Salomão.
Em vez dos verdadeiros sacrificios, que Deos estabelecia na sua lei,
procurou este espirito soberbo ter altares e sacrificios de toda a
especie de animaes e fructos da terra.
Comquanto esta nação de selvagens não tivesse perante o publico algumas
ceremonias de religião, nem préces e nem orações, comtudo em particular
estes feiticeiros serviam ao diabo, como ja disse.
Para acabar, direi que acreditavam estas pessoas em espiritos
particulares, até mesmo francezes.
Vou dar-vos exemplos.
Quando o Sr. de la Ravardiere, depois da guerra dos _Camarapins_,
regressava do Pará, advertio-lhe uma mulher que fora resolvida a
sua morte, bem como a de todos os francezes e _Tupinambás_, que o
acompanhavam, pelos selvagens d’aldeia, onde estava alojado.
Fez-se tudo quanto foi possivel para descobrir-se a verdade, porem todos
negaram e nada confessaram.
Fizeram crer aos selvagens d’aquelles lugares, que no relogio
d’algibeira, que trasia o Sr. de la Ravardiere, havia um _espirito_
escondido, que dava movimento ao que se via por dentro e por fóra, e que
aos francezes revellava as coisas mais secretas.
Fez-se vir ao chefe, ao qual se disse, que se o ponteiro do relogio
chegasse a tal ponto do quadrante, que fallava a verdade o _espirito_,
e por isso acrescentaram—leva-o comtigo e guarda-o até ahi chegar o
ponteiro, e vem antes do nosso _espirito_ e conta-nos tudo.
Pegou do relogio e levou-o para sua casa, e vendo que elle caminhava
sempre para diante, acreditou facilmente no espirito dos francezes, que
imprimia tal movimento, e não esperou que chegasse ao fim prescripto,
voltou, declarou tudo e restituio o relogio.
O capitão d’um navio de guerra deo-nos uma bella imagem, tomada de um
navio portuguez, que ia para Pernambuco.
Por acaso mandei guardar essa imagem, na hora em que a recebi, n’uma das
caixas, que tinha em nosso quarto, e n’esse mesmo momento vieram muitas
mulheres indias á nossa casa, e vendo a imagem muito bem esculpida,
pintada com diversas cores sobre fundo de oiro, admiraram-se e não
queriam entrar, dizendo—_Y anaité asse quege seta?_ «que coisa nova
é esta que nos olha tão vivamente? Ella nos faz medo.» Fil-os entrar
dizendo-lhes que não tivessem medo, e que era uma imagem dos servos de
Deos. Admirei-me de vel-os immediatamente prostrados a seos pés chorando
sua boa vinda, e depois me perguntaram que carne ella comia para irem
buscal-a. Ri-me de tal simplicidade, e colloquei a imagem na Capella de
Sam Francisco.
Coisa igual aconteceo a um _Tabajare_, muito simples, vendo da porta da
Capella de S. Luiz um bello crucifixo, que dentro estava. Não me foi
possivel fazel-o entrar na Capella, e dizia ao interprete. «Elle me olha
vivamente, está vivo sem duvida, tenho medo d’entrar não sendo baptisado
porque me faz mal.»
Fizeram o mesmo muitos outros, porem tomando o crucifixo em meos braços,
fiz-lhes vêr que elle era de madeira, representando com tal forma o que
Jesus Christo por nós soffreo.
Eis o resultado da superstição, como eu já disse, que entre elles
derramaram seos feiticeiros, tanto á respeito de seos idolos, como de
seos espiritos.