Dos principaes meios usados pelo diabo para conter em suas cadeias por
tão longo tempo estes selvagens.
Adonibesec, um dos maiores tyrannos do mundo, venceo e subjugou setenta
Reis, aos quaes mandou cortar os dedos das mãos e dos pés, e todas as
vezes que queria comer, mandava buscal-os e pol-os debaixo da mesa como
cães para roerem os ossos, e os boccados de pão, que lhes atirava, e
era com isto unicamente que elles viviam, porque acabada a refeição do
tyranno passavam elles outra vez para os grilhões.
Este tyranno representava o diabo, cujo poder sempre exerceu nas Nações
á elle sujeitas pela infidelidade, tendo-as sempre presas, não lhes
consentindo outros viveres alem dos seos restos, cortando-lhes todos os
meios de acção e de fuga, alterando ou extinguindo os signaes, que Deos
naturalmente imprimio nos homens, pelos quaes podiam inclinar-se a Deos
para d’elles ter piedade, que é o que o diabo mais teme, o que é facil de
vêr-se em nossos selvagens por longo tempo sem conhecimento algum do Deos
Omnipotente, presos em suas cadeias infernaes pelos abusos e corrupções,
que entre elles lançou o diabo.
Eis porque S. Paulo representava as artimanhas e tricas de Satanaz em
suas...
(Falta uma folha.)
... esta razão tinhamos nós occasião d’admirar a forma e a maneira de
proceder dos Pagés ou Feiticeiros, que occupam entre os selvagens o lugar
de Mediadores entre os espiritos e o resto do povo, e são os que hão
adquirido maior autoridade por suas fraudes, subtilezas e abusos, com
que tem subjugado esta gente mui fortemente sob o reinado do inimigo da
salvação, como está escripto no _Proverbio 29_—_Princeps qui libenter
audit verba mendacii, omnes ministros habet impios_ «o Principe, que
prestar ouvidos á mentira, é servido por ministros impios e maus.»
Pondo de parte a explicação litteraria d’esta passagem, nós a aplicamos
ao nosso fim dizendo, que este Principe, que presta attenção á mentira,
ou para melhor dizer, que é o Pae da mentira, é o diabo inimigo da
verdade: seos officiaes abusam do povo por meio de invenções, subtilesas,
e encantos provenientes da instigação dos demonios, como são os
feiticeiros brazileiros, e com tal autoridade se conservam sem a menor
contestação, embora conheçam os enganos, que reciprocamente empregam
contra seos compatriotas.
Estes feiticeiros não tem chefes, porem tornam-se taes, si os favorece
a capacidade de seo espirito, de sorte que os que o possuem melhor, são
considerados mais habeis.
Começam muitos a aprender este officio, convidados pela honra e lucro,
que d’elle colhem os mais espertos, porem poucos atingem á perfeição.
Não encontrareis muitas aldeias, onde os principaes e os velhos não
confessem saber alguma coisa d’elle.
Os noviços d’essa arte estudam muito a merecer elogios, e d’elles
dizer-se maravilhas e fazem alguma subtilesa diante de seos similhantes
para obter fama.
Depende seo adiantamento d’algum acaso, como por exemplo se predizem a
chuva, e ella apparece, se sopram algum doente e elles recobram a saude,
o que os faz muito estimados e respeitados como feiticeiros experientes.
Por exemplo, sem comparação, si algum medico novo ou cirurgião cuidasse
de um doente perdido, ou de alguma chaga pertinaz, e que apparecesse
a saude, não tanto pela industria do medico, e sim pela boa naturesa
coadjuvada por unguentos communs, não ha duvida que tal cura seria
attribuida á sciencia e experiencia dos curadores, e se aproveitariam
d’isto para fazer voar sua fama entre as boas cidades, e serem recebidos
com muita distincção nas boas casas.
O mesmo acontece no Brasil com estes novos feiticeiros, quando se
restabelece o infermo depois dos seos sopros.
Não receis que isto fique só na casa do doente, porque sae o
feiticeirinho de aldeia em aldeia contando suas proesas, e triplicando-as.
O diabo, espirito suberbo, não se communica indifferentemente a todos os
feiticeiros; porem d’entre elles escolhem os mais bellos espiritos, e
lhes infundem suas invenções e subtilesas.
Julgae por isto. Nunca vereis os diabos fazerem grandes operações e
communicações aos pequenos feiticeiros, e limitam-se apenas a dar-lhe
malicia conforme o juiso e talento do seo espirito.
Si pelo contrario encontram algum bello espirito, elles o instruem
largamente de suas perversas e condemnaveis sciencias, que são de
ordinario as nigromancias, judiarias e magicas. O mesmo acontece aos
feiticeiros: achareis muitos pequenos, de que não se faz grande caso,
e nem se tem muito medo, valendo-lhes pouco o officio: outros mais
instruidos e mediocres, que occupam o lugar medio entre pequenos e
grandes. Ordinariamente viajam por certas aldeias importunando os seos
habitantes, cuidando de dansas e de outras coisas, que dependem do seo
officio.
Si algum seu collega apparece por ahi, elles não ficam contentes, mas
quando é convidado algum de seos superiores soffrem-no com paciencia.
Quanto mais progressos fazem nos abusos, mais graves se mostram: fallam
pouco, buscam a solidão, evitam o mais que podem as companhias, com
o que alcançam mais honra e respeito, são mais procurados depois dos
Principaes, e estes lhes fallam com attenção ahi usada, e ninguem os
maltrata.
Para conservar taes honras edificam suas casas á parte, longe de visinhos.
O demonio ardiloso ensina o que pratica a disciplina religiosa, isto é,
o necessario para conservar o espirito de Deos, fazer sua alma capaz
das suas visitas e consolações para o que necessario é amar a solidão e
n’ella residir, evitando cuidadosamente o mais que é possivel a companhia
dos homens, com o que não somente adquirireis favores espirituaes, mas
tambem a honra e o respeito d’aquelles, que evitaes.
A compleição dos homens é similhante a da honra e da sombra: si correis
após ellas, ellas fugirão diante de vós, si as evitaes, ellas vos
procurarão.
Assim são os homens: sê-de com elles familiares, e sereis despresados;
fugi d’elles, sereis respeitados.
Por similhança este velho doutor da malicia ensina os seos principaes
discipulos a evitar communicações, a fugir de tristezas e melancolias, a
fugir de invenções e fantesias, a residir sós com suas familias com o fim
de poder melhor imprimir em seos pensamentos os meios, pelos quaes quer
conservar estes povos na ignorancia e superstição regosijando-se de vêr
tantas nações presas em suas cadeias.
Não é de hoje, e nem n’esta nação somente, que elle inverte os exercicios
da verdadeira Religião, mas de todos os tempos e em todos os lugares,
porque não pode ser autor, e sim falso imitador do verdadeiro bem.
Assim como a serpente se occulta debaixo das folhas para picar o segador,
assim tambem elle occulta seo veneno e sua falsa Religião sob apparencia
somente de uma imitação das obras de Deos.
Dizem Plinio e Solinus, que Cerasto, serpente mortifera, se cobre d’areia
deixando apenas de fóra os cornos afim de enganar os passaros com a ideia
de ser comida, e quando se approximam, ella sahe da embuscada e os apanha.
O Genesis compara o diabo com esta serpente _Cerastes in semita_ «Ceraste
no caminho.» Vemos isto em nossos selvagens, nutridos e entretidos com
taes engodos, que eu não os acreditaria si os não visse, e si o leitor
duvidar, peço-lhe que creia no que vou contar-lhe.
São tão tolos estes pobres selvagens, que em relação aos seos
feiticeiros, especialmente aos grandes, creem firmemente, que elles podem
enviar-lhes molestias e fomes, e tirar-lhes tudo o que elles tem, e
embora saibam os proprios feiticeiros, que elles todos são embusteiros,
não julgam poder curar-se sem que passem por mãos de outros.
Si adoece algum francez nas aldeias, seo Compadre e sua Comadre lhe pedem
permissão para que os feiticeiros o visitem, o bafejem, e lhe toquem com
as mãos.
O que dirieis vós, si eu vos dissesse, que vindo visitar-me muitos
selvagens, quando adoeci, me pediram muito affectuosamente licença para
me trazerem seos feiticeiros afim de me bafejarem, e apalparem-me, sem o
que, asseguravam-me, eu não ficaria bom?
O grande _Thion_ adoecendo apenas chegou do _Mearim_ ao Fórte de S.
Luiz, pensou, e por muito tempo acreditou ser isto devido a ameaça do
Principal-feiticeiro da sua terra, que pretendia seduzir e impedir esses
povos _Mearinenses_ de virem á Ilha, logrando vêr muitos com elle ficarem
nas florestas do _Mearim_.
Tinha ameaçado _Thion_ com a morte apenas aqui chegasse, o que não
aconteceo, porque depois d’uma febre violenta recobrou sua saude: com
tudo, emquanto esteve doente, pensou morrer, por maiores que fossem as
nossas advertencias de que não devia prestar credito a taes feiticeiras.
Si estes pequenos e mediocres feiticeiros gozam de autoridade entre os
seos, muito mais aquelles, que se chamam propriamente _Pagy-uaçú_[100]
«grandes feiticeiros», porque são como os Soberanos d’uma Provincia,
muito temidos, chegando a tal poder por muitas subtilesas: de ordinario
tem communicação tacita com o diabo. Por onde passam, seguem-nos os
povos; são graves e por isso não se communicam facilmente com os seos:
são muito bem acompanhados quando vão a qualquer parte, e tem muitas
mulheres, não lhes faltam mercadorias, julgam-se felizes seos similhantes
quando os presenteiam, e com uma feitiçaria tiram aos seos compatriotas o
melhor que possuem em suas caixas.
Não descobrem suas subtilezas diante dos selvagens, e pelo contrario
zombam delles, e muitos me contaram os meios, que empregaram para isto, o
que ainda direi em lugar proprio.
_Japy-açú_ e o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ tiveram entre si uma
questão, de que resultou reciproca desconfiança.
O grande feiticeiro mandou dizer-lhe, si elle já não se lembrava das
molestias, que outr’ora lhe enviou, e de que pensou morrer a ponto de lhe
pedir que as removesse, e si agora já não as temia?
Estas palavras impressionaram _Japy-açú_, e julgou-se feliz de ter sua
amisade. A questão foi por causa de uma mulher retida por força; porem
merece ser contada esta historia por haver relação entre ella e o objecto
de que tratamos.
Adquirio o grande feiticeiro de _Tapuitapera_ em sua Provincia e
circumvisinhança fama e autoridade de um perfeito Magico, que a seu
bel-prazer distribuia molestias e mortes, curava e dava saude, e por isso
alcançou em seo paiz o grau de Soberano Principal, e dispunha de todos á
sua vontade.
_Japy-açú_ mofava e zombava de tudo isto, o que sabido pelo outro o fez
dizer, que em pouco tempo em si mesmo experimentaria si não tinha o poder
de fazer bem ou mal a quem quizesse.
Não fez _Japy-açú_ caso d’isto, porem veio a fortuna proteger ao seo
contrario fazendo com que elle cahisse doente muito naturalmente;
pensou ser sua molestia devida ao feiticeiro de _Tapuitapéra_, embora a
existencia do mar entre uma e outra Provincia, e pela força de imaginação
agravou-se sua molestia a ponto de o julgarem á morte.
Todos os feiticeiros e feiticeirinhos da Ilha o visitaram, porem nenhum
lhe deo saude e afinal escolheo as melhores fazendas que havia e
humildemente mandou a esse feiticeiro seo antagonista, pedindo-lhe pelos
mensageiros seos parentes, que desse ordens á molestia para deixal-o.
O feiticeiro tomando as mercadorias lhe mandou não sei que moxinifada
para elle tomar, asseverando-lhe cura em breve tempo. _Japy-açu_
acreditou, principiou pouco a pouco a passar melhor temendo d’ahi em
diante o feiticeiro, que comtudo entre os seos zombava d’elle, e outras
vezes o apontava para mais firmar sua autoridade.
Ora como é possivel, direis vós, que appareçam e desappareçam as
molestias por força d’imaginação e apprehensão, d’estes selvagens a
respeito das ameaças ou dos favores de seos feiticeiros?
Decida a medicina: comtudo responderei á pergunta com os exemplos mui
communs, dos _Hypocondriacos_, ou doentes imaginarios, os quaes embora
sãos, e bem conservados, julgam-se debeis e fracos, pensando cada um
soffrer uma molestia differente.
Fechando este artigo, eu vos faço notar que se julgam uns grandes
feiticeiros por fazerem mal, e outros por praticarem o bem.