Qual a crença natural dos selvagens a respeito de Deos, dos espiritos e
da alma.
O Psalmista Rei David, no Psalmo 101, que é uma supplica por elle
composta para os pobres e infelizes, cheios de anciedade e oppressão,
particularmente os infieis, diz—_Placuerunt servis tuis lapides ejus, et
terra ejus miserebuntur._ «As pedras de Syão agradarão a teos servos; e
por esta causa serão misericordiosas para com a terra.»
S. Jeronymo transforma estas palavras d’esta forma—_Quia placitos
fecerunt servi tui lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_. «Teos
servos fizeram suas pedras agradaveis á tua Magestade, até chegar ao pó
sem consideração.»
Apliquemos estas palavras ao nosso objecto, pondo de parte todos os
outros mysterios, e digamos que _Placuerunt servis tuis lapides ejus_.
Em nossa primeira missão achamos estes pobres selvagens e barbaros como
pedras proprias para construir e edificar a Santa Igreja em paizes
desertos, e com o nosso ministerio demos a misericordia divina á algum
punhado de terra e areia.
Baptisamos muitos meninos, moribundos e adultos, que são na verdade tres
grãos de areia, á similhança da extenção e profundidade das areias do
mar, isto é, em comparação da quantidade e multidão das nações immensas
pelo seo numero, na visinhança do Maranhão.
Digamos depois, com São Jeronymo, _quia placitos fecerunt servi tui
lapides ejus, et pulverem ejus miserabilem_, que temos feito vêr a toda
a Christandade, e aos seos monarchas, espirituaes ou temporaes, em
desencargo de nossa consciencia, que á Deos agrada o despertar estes
barbaros do profundo somno de uma crença má, ou si quizerdes, que á Deos
agrada fazer arder e queimar a pequena faisca do fogo da luz natural, que
sob as causas de mil superstições é sempre guardada entre estas nações
desde o naufragio universal do diluvio.
Esta faisca, occulta sob as cinsas, entre estes selvagens, é a crença
natural, que sempre tiveram de Deos, dos espiritos e da immortalidade da
alma.
Quanto á crença de Deos, é impossivel, naturalmente fallando, que
haja no Mundo uma Nação tão rude, estupida e brutal que não reconheça
universalmente uma Magestade Soberana, porque, como diz Lactancio
Firmiano, em suas Instituições divinas, livro 1.º, cap. 2.º—_Nemo est
enim tam rudis, tam feris moribus, qui non oculos suos in cœlis tollens
etc_. Não ha homem tão rude, nem tão brutal, que levantando os olhos
para o Ceo, ainda que não possa comprehender que haja Deos, qual seja a
sua providencia, embora não conheça da grandesa e extenção dos Ceos, do
perpetuo movimento d’elles, da disposição, firmesa, utilidade e bellesa
d’estas abobadas azuladas, que não reconheça haver um Soberano que tudo
isto dirige e com harmonia.
Boecio, livr. 4º, da _Consolação dos sabios_. Prosa 6.ª _Omnium generatio
rerum_ etc. «que a geração continua dos mistos, a diversidade, e
ordem das formas, que vestem a materia primitiva, convence natural e
necessariamente, que ha um primeiro director no movimento uniforme de
tantas coisas de formas contrarias no sentido de aperfeiçoar este mundo
universal.»
Seneca, na Epistola 92 á seo amigo Lucilio—_Quis dubitare potest mi
Lucilli, quin Deorum immortalium munus sit quod vivimus?_ «Quem é meu
amigo Lucilio, que duvida não ser sua vida um dom e beneficio dos Deoses
immortaes?»
Aristoteles, Livro II _dos animaes_, depois que contou muito bem a
perfeição d’elles concluio _debemus inspicere formas et delectari in
Artifice qui fecit eas_: «devemos contemplar as formas das creaturas, não
para olhal-as só e simplesmente, e sim para d’ellas passar ao que as fez
afim de nos regosijarmos.»
É facto averiguado sempre terem tido estes selvagens conhecimento de
Deos, porem não da Essencia, Unidade, e Trindade, materia inteiramente
dependente de fé, embora Deos tenha deixado na naturesa alguns vestigios,
pelos quaes possam os homens formar algumas conjecturas.
Aristoteles, livro 4º, do _Ceo e da terra_, depois de ter pensado muito
nas perfeições d’este mundo, disse _Nihil est perfectum nisi Trinitas_.
«Somente a Trindade é perfeita.»
Estes selvagens sempre chamaram a Deos—_Tupan_, nome que dão ao _trovão_,
a maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras
primas o nome do autor: Note-se porem que este nome no singular não se
applica aos relampagos e trovões, que rebentam e illuminam todas as
partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem
e reconhecem, que elles são formados pela poderosa mão d’Aquelle, que
habita nos Ceos.
Por intermedio do interprete informei-me dos velhos do paiz si elles
acreditavam, que este _Tupan_, autor do trovão, era homem como elle?
Responderam-me que não, porque si fosse um homem como nós, seria um
grande senhor, e como poderia elle correr tão depressa, do Oriente
para o Occidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós, e nas quatro
partes do mundo, tanto na França, como sobre nós? Demais, si fosse homem,
era necessario, que outro homem o fizesse, porque todo o homem procede
de outro homem. Ainda mais: _Jeropary_ é o creado de Deos, e nós não o
vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos, que
_Tupan_ seja um homem.
Mas, repliquei eu, o que pensaes que elle seja?
Não sabemos, responderam, porem pensamos, que existe em toda a parte, e
que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não fallaram com
elle, pois apenas fallam com os companheiros de _Jeropary_.
Eis a crença de Deos, sempre pela naturesa impressa nos espiritos dos
selvagens, que com tudo não o reconheciam por meio de preces e de
supplicios.
Acreditavam naturalmente nos espiritos bons e maus.
Chamam os bons espiritos ou anjos _Apoiaueué_, e os maos ou diabos
_Uaiupia_.
Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes.
Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo proprio, que não fazem mal
ás suas roças, que não os castigam e nem os atormentam, que sobem ao Ceo
para contar á Deos o que se passa aqui na terra, que não causam medo nem
á noite e nem nos bosques, que acompanham e protegem os francezes.
Pensam, que os diabos estão sob o dominio de _Jeropary_, que era creado
de Deos, e que por suas maldades Deos o despresou, não querendo mais
vêl-o e nem aos seos, pelo que aborrecia os homens e nada valia: que os
diabos impedem as vindas das chuvas em tempo proprio, que os trazem em
guerra com seos inimigos, que os maltrata, e lhes faz medo, habitando
ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em logares onde tem
sido sepultados os corpos de seos parentes.
Ouvi tambem dizer a alguns indios, que indo elles apanhar cajus em
algumas aldeias abandonadas, sahio-lhe ao encontro _Jeropary_ gritando
com voz medonha, e chegou até o ponto de espancar muito alguns dos seos.
Dizem tambem, que _Jeropary_ e os seos tem certos animaes, que nunca
se vê, que só andam a noite, soltando gritos horriveis, que abala todo
o interior (o que ouvi infinitas vezes) com os quaes convivem, e por
isso os chamam _Soo-Jeropary_ «animal de Jeropary», e creem que estes
animaes servem aos diabos ora de homens ora de mulheres, e por isso nós
o chamamos _Succubes_ e _Incubes_, e os selvagens _Kugnan Jeropary_ «a
mulher do diabo» _Aua Jeropary_ «o homem do diabo.»
Ha tambem certos passaros noturnos, que não cantam, mas que tem um
piado queixoso, enfadonho, e triste, que vivem sempre escondidos, não
sahindo dos bosques, chamados pelos indios _Uyra Jeropary_ «passaros do
diabo,»[99] e dizem que os diabos com elles convivem, que quando põem é
um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e
que só comem terra.
Não exgotando minha curiosidade procurei indagar bem a verdade d’isto:
muitas vezes estes animaes nocturnos vinham rodear nossa casa de Sam
Francisco e soltar seos gritos medonhos, quando as noites eram sombrias e
negras.
Apromptei-me para com outros francezes investir estes passaros onde se
achassem conforme pudessemos prevêr, porem nada pudemos conseguir por não
vel-os, embora os ouvissemos gritar em distancia de mais de um quarto de
legoa.
Disseram-me alguns francezes, que eram uma especie de gatos bravos, o que
não pode ser a vista do som, do sussurro e do volume do grito, que elle
solta.
Outros disseram ser o vagido de _vaccas bravas_, o que negam os selvagens
dizendo ser vozes de uma especie de animaes parecidos com maçaricos, e
maiores do que uma raposa.
Quiz eu mesmo verificar o que eram estes passaros de _Jeropary_, e
para isto fui caminhando de mansinho até onde meos ouvidos me levaram
a pensar, que lá estavam, pelo piado melancolico d’elles. Calculado o
lugar ahi fui no dia seguinte á tarde muito cedo occultar-me nos mattos,
e d’esta vez não me enganei porque apenas anoiteceu aproximou-se este
triste passaro de mim e distante apenas dois passos saltando sobre a
areia, e soltou seo canto medonho, o que não pude aturar. Sahi logo do
meo logar e fui onde elle estava e nada achei: sua configuração e tamanho
era de uma coruja de França e as pennas pardas.
Tudo o que referi não está longe do senso commum, porque lemos na
Historia, e em diversos autores a união dos diabos com animaes feios e
immundos, e foi elle que desde o principio do mundo tomou a forma de uma
serpente cabelluda para enganar nossos primeiros paes.
Creem na immortalidade da alma: quando no corpo chamam-na _An_, e quando
deixa este para ir ao lugar, que lhe é destinado, _Anguere_.
Creem que só as mulheres virtuosas tem alma immortal, segundo o que pude
comprehender de varios discursos d’elles e de muitas perguntas que lhes
fiz, pensando que estas mulheres virtuosas devem ser postas ao lado dos
homens, visto terem todos almas immortaes depois da morte.
Em quanto ás outras mulheres duvidam que ellas tenham alma.
Pensam, e muito naturalmente, que as almas dos maus vão ter com
_Jeropary_, que são ellas que os atormentam de concomitancia com o
proprio diabo, e que vão residir nas antigas aldeias, onde são enterrados
os corpos, que habitaram.
Pensam, que as almas dos bons, vão para um lugar de repouso, onde dançam
constantemente sem nada lhes faltar.
Eis tudo quanto pude saber relativamente a estes tres pontos de sua
crença natural de Deos, dos Espiritos e das Almas, por meio de
cuidadosas indagações entre discursos communs, que ouvi por dois annos de
muitissimos selvagens.