De um Indio, condemnado á morte, que pedio o baptismo antes de morrer.
Não se acreditaria, si a experiencia não o tivesse confirmado, que
vendo-se simplesmente por fora a concha de uma ostra marinha coberta e
suja de lama e lodo, que ella em si ja tivesse uma perola preciosa digna
de ser collocada no gabinete dos principes.
Quem poderá crer, que um selvagem iniquo, impuro, e immundo, como não
posso dizer, embora creia que o proprio diabo, author de taes traças, se
envergonhe d’isto, não tenha inimisade e soberba contra o soberano, que o
tira d’isto?
Quem poderá, digo eu, crer, que tal individuo, por determinação da divina
Providencia, fosse escolhido para o reino do Ceo, e tirado d’esses
abysmos infernaes, para receber (na hora da morte, bem merecidas por
suas torpezas) o sagrado baptismo, que o lava de todas as máculas, e lhe
proporciona facil e franca entrada no Paraiso?
Um pobre indio, bruto, mais cavallo do que homem, fugio para o matto por
ouvir dizer, que os francezes o procuravam e aos seos similhantes para
matal-os e purificar a terra de suas maldades por meio da santidade do
Evangelho, da candura, da puresa, e da claresa da Religião Catholica
Apostolica Romana.
Apenas foi apanhado amarraram-no, e trouxeram-no com segurança ao Forte
de Sam Luiz, onde deitaram-lhe ferros aos pés: vigiaram-no bem até
que chegassem os principaes de outras aldeias para assistirem ao seo
processo, e proferirem sua sentença, como fizeram a final.
Não esperou o prisioneiro pelo principio do processo, e elle mesmo
sentenciou-se, porque diante de todos disse, «vou morrer, e bem o mereço,
porem desejo que igual fim tenham os meos cumplices.»
Terminado o processo e proferida a sentença, cuidou-se em sua alma
dizendo-se-lhe, que si elle recebesse o baptismo, apesar de sua má vida
passada, iria direito para o Ceo apenas sua alma se desprendesse do corpo.
Acreditou nossas palavras, e pedio o baptismo: para tal fim veio o Sr.
de Pezieux procurar-me em nossa casa de S. Francisco em Maranhão, e
conversando si devia ser eu quem o baptisasse, resolvemos negativamente
pelas seguintes razões:
Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas
e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante
os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos
estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos,
que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso
tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse
publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos
d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam
de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso
causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres
gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os
christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não
pedem a vida d’este?»
Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente
e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que,
depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao
supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio.
Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes
selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado
_Karuatapiran_ «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas
palavras:
«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois
presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de
_Tatu-uaçu_ (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos
Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero
pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos
tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo,
expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que
apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr _Tupan_ e viver
com os _Caraibas_, que o cercam: quando _Tupan_ mandar alguem tomar teo
corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher
antes do que o de um homem, pede a _Tupan_, que te dê o corpo de mulher e
resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos
homens.»
Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno,
fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia
resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em
que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser
indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem
ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa,
pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado
referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça
sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei
sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever.
Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e
antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou
morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de _Jeropary_ pois sou
filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e
nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que
estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de _Petum_ para que eu
morra alegremente, com voz e sem medo.»
Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos
quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais
remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com
myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes.
Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte
de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça,
e o _Cardo vermelho_ lançou fogo á escorva, em presença de todos os
Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala
dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no
mar, onde nunca mais foi encontrada.
Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo
logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da
salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem
commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que
tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo
comtudo esta promessa de Jesus Christo—_Hodie mecum eris in Paradiso_,
«hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse
infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de
adorar os juizos de Deos.
_Karuatapiran_, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande
contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal
honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos
dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas
as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos,
quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza
para ser um dia Principal.
Por tudo isto o grande _Karuatapiran_ exaltava-se d’este seo feito e
d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por
onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo
defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes.