Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham
vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei.
O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao
conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era
representado pelo simulacro do seo _Palladium_, que fingiam ser trazido
do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade.
Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de
sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores,
produzindo-lhes doce somno.
Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de
Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de
um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca
uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e
mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si.
Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são
attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e
humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos
soberanos para a conservação dos seos vassallos.
O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os
nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento
de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a
cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso
combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos
démos muito bem.
Já tinha lido no cantico primeiro, que entre os ornamentos dados
por Jesus Christo á sua Igreja, a mansidão e a clemencia para com
os peccadores e infieis era um dos primeiros deveres conforme estas
palavras: _Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatus argento_ «nós te
faremos collares de oiro, torcidos como pequenas lampreias, esmaltadas de
fios de prata em forma de vermesinho para mais fazer realçar a bellesa do
oiro.»
Dizem os Septenta—_Simulachra auri faciemus tibi, cum vermiculacionibus
argenti_; «nós te faremos pequenas estatuas de oiro fino, esmaltadas de
fio de prata do feitio de vermesinhos.»
Accrescenta Rabbi Jonathas que taes eram as taboas de Saphira, em que
estavam gravados os mandamentos da lei de Deos porque a luz da gloria do
Doador dava á saphyra diaphana a côr de oiro, e a escripta gravada em
linha pelo dedo de Deos formava o esmalte em pequenas lampreias ou vermes
da terra.
Quem não diria que ha intelligencia entre estas ceremonias divinas e as
dos Athenienses e Gaulezes, visto significar-nos umas e outras, por meio
de estatuas e cadeias de oiro, a força e o poder da doçura para subjugar
as almas mais barbaras á obediencia das leis de Deos.
Não é sem rasão, que Jesus Christo ornou os collares de oiro de sua
esposa com figuras de vermes da terra, e de pequenas lampreias, visto que
elle mesmo se fez verme para chamar a si os vermes, e misturou-se com a
terra para se juntar com os vermes, que ahi achasse.
Assim como as lampreias não repellem as serpentes por que podem causar
medo com o veneno, que estas vomitarem, assim tambem Jesus Christo não
despresa os homens, pobres serpentes, comtanto que estes se despojem do
seo veneno.
Si o Mestre fez isto, o que devem fazer os obscuros discipulos de Sua
Magestade?
Quem se offerece a servir a Deos na conversão dos selvagens deve modelar
suas palavras e acções pela doçura, de que sempre usou Jesus Christo na
terra.
Eram estes os artigos de nossas conferencias com os selvagens.
1. Procuravamos convencel-os, que eramos seos amigos, e amigos fieis,
mais que seos paes, mães, e outros parentes, dizendo-lhes estas e outras
palavras _pera-uçu_, _pare koroyco_ «somos vossos amigos, vossos intimos.»
Com taes expressões alegraram-se muito, e cheios de confiança vinham
conversar comnosco a ponto de tornarem-se importunos, não nos permittindo
descanço algum, e só nos olhando e observando até os nossos menores
gestos.
Vou dar-vos alguns exemplos.
Um dia de paschoa, depois do serviço, ao qual assistiram muitos
selvagens, tanto de _Tapuitapera_ como da _Ilha_, quiz recolher-me para
meditar no sermão, que devia prégar depois do jantar, e para isto mandei
fechar as portas de nossa casa para que ninguem entrasse durante esse
pouco tempo até a hora da prédica, porem os selvagens impacientes, para
entrarem, rodeiaram a casa duas ou tres vezes buscando uma abertura, e
afinal quebraram algumas estacas e por ahi passaram.
Mostrei-lhes má cara significando o meo descontentamento pelo que haviam
feito, e lhes perguntei porque eram tão importunos?
Responderam-me «porque tinhamos vontade de te vêr, e fallar comtigo
livremente, na ausencia dos francezes, e para esse fim viemos de
proposito». Á vista d’isto não tive outro remedio senão atural-os.
Quando eu orava sosinho na nossa Capella, com as portas fechadas, rompiam
o panno de Guiné, com que forramos a Igrejinha para vêr o que fazia eu
ajoelhado defronte do Altar, e diziam uns para os outros _ygneém Tupan_
«falla com Deos», e d’ahi não sahiam em quanto eu rezava.
Para livrar-me d’estas importunações mandei construir uma cerca ao redor
da nossa casa e Capella de S. Francisco, muito forte, e entremeiada com
ramos de palmeira espinhosa, assim conhecida por ter espinhos maiores do
que o comprimento de um dedo, e embora tudo isto achavam meios de entrar
e de me procurarem.
Ao escrever isto recorda-me o dito de Antalcide, escripto por Plutarcho
no tratado dos _Apophtegmas Laconicos_, «quem quizer ganhar a amisade dos
homens, deve ter na lingua um regato de mel, e nas mãos muitos fructos»
isto é—palavras doces e serviços conforme ás palavras.
Mais não podiamos fazer para com estes selvagens do que captarmos
sua amisade por palavras doceis, e fazer-lhes conhecer a Deos e os
sacramentos da Igreja, unicos fructos da Paixão de Jesus Christo.
Ælian, no livro 14 de suas _Historias diversas_, disse, que «Epaminondas
se admiraria muito se sahisse do seo palacio para misturar-se com o povo,
e não adquirisse um novo amigo para juntal-o aos seos amigos.»
Não nos seria necessario ir a 200 e nem a 300 legoas afim de conquistar
novos amigos para Jesus Christo, porque viriam por si mesmos offerecer-se
para isso.
Gelius no livro 1º cap. 3º conta, que Pericles, um dos grandes do
Areopago de Athenas, terminava a amisade dos homens junto aos altares dos
Deoses, porem nunca fallou da amisade divina entre Deos e os homens,
estabelecida e enraisada sobre os altares, porque pagão, como era, não
podia comprehender a força e o vigor de tal amor, similhante ao do
proprio centro, onde cada creatura tem o destino de viver e descançar.
O poderoso rei Darius recebeu em presente de um seu amigo uma bella romã,
que partio ao meio, e admirando a bellesa e o numero dos seos grãosinhos
disse aos que com elle estavam—por minha vontade eu teria tantos Zopiros,
(nome do seo mais intimo amigo) quanto ha de grãos n’esta romã.
Não foi pequena graça, e nem pequeno privilegio, que Deos fez á Ordem
Seraphica de São Francisco dando-lhe a faca da palavra para abrir o pomo
ainda inteiro e fechado das terras de Maranhão afim de apresentar a Jesus
Christo milhões de almas, não só para com Elle se conciliarem, mas tambem
para um dia lhe serem fieis esposas.
Deos inspirou a Salomão, no liv. 4º dos Reis, cap. 29, fazer os capiteis
das columnas com arame, semeiado de romãs, indicando assim a missão do
Evangelho para com as nações infieis, servindo para agarrar os peixes
fugitivos por meio de uma eloquencia docil, e as romãs para ligal-os e
unil-os pelo amor de Jesus Christo ao resto dos fieis, não havendo nada
mais forte para obter o accordo que o proprio amor.
Eis a razão porque julguei ser absolutamente necessario fazer conhecer
a estes selvagens, que nós os amavamos terna e infinitamente, que lhes
offereciamos nossas pessoas e bens, dizendo-lhes _ore-mae pémareamo_
«tudo o que temos é vosso.»
Por isto quando tinhamos muitos peixes, o que acontecia ordinariamente,
lhes davamos todos, especialmente aos _Tabajares_, recem-chegados
á _Ilha_, ainda necessitados de tudo, por não terem feito roças,
especialmente os nossos visinhos.
2.º Nós lhes expunhamos os fructos e os emolumentos, que deviam esperar
de nossa amisade, isto é, reforma em sua vida, conhecimento do verdadeiro
Deos, defesa do nosso rei contra seos inimigos, o qual não deixaria de
enviar-lhes homens e armas conforme necessitassem. _Pe moé Koroiut,
pere Koramrecé: Tupan mombe-ouane koroiut peam: yande mogna gare, rhé,
opap katu, ahé maé mognan. Yangaturan: yandé renonde vuac ueriko: ahé
gneem rupi yané rekormé. Pepusurom peamo tareumbare soiy yauaeté oreru
vichaue: Pepusurum okat araia oboure uaia pepusurô anuam_; quer isto
dizer—«Nós vos ensinamos a viver mais para a vossa felicidade: queremos
ensinar-vos o verdadeiro Deos, creador do universo, infinitamente bom, e
que nos prometteo o Ceo si n’esta vida fizermos o que elle diz. Viemos
defender-vos de vossos inimigos. Nosso rei, que é forte e poderoso, vos
dará sempre soccorro de armas e de homens.»
Prestavam muita attenção ao que diziamos, e nos respondiam que os
francezes sempre os haviam auxiliado; que tinham vindo agora por ordem do
rei para tiral-os das cadeias de _Jeropary_, que não duvidavam aprender
grandes coisas á respeito de Deos, especialmente quando ja soubessemos
sua lingua, porque os interpretes, diziam elles, não fallam como vós
á Deos. Não nos podem dizer outra coisa, porem se fallasseis comnosco
vós nos dirieis o que Deos vos disser. Nossos filhos serão mais felizes
do que nós, porque comvosco aprenderão a lingua francesa, como nos
promettestes, e assim terão mais conhecimento de Deos do que nós, que ja
somos velhos.
Nós o que temos feito é correr e andar errantes pelos bosques adiante
dos _Peros_[97] tendo por alimento apenas raizes de arvores. Nossos
filhos estarão seguros contra seos inimigos, os francezes se unirão
á nossas filhas, e nossos filhos ás filhas dos francezes, e assim
seremos parentes: ficareis comnosco, em nossas aldeias, e sereis nossos
padres _Tupan_ os amará, e _Jeropary_ nada poderá contra elles. Haverá
abundancia de viveres e nunca se sentirá falta de mercadorias francezas.
Oh! quanto serão felizes! porem nós não veremos estas coisas.
O imperador Vespasiano e tambem Domiciano, quando entravam n’um paiz
novo para ahi estabelecer Colonias Romanas, tinham por costume mandar
fundir em bronze a Fé e os seos fructos, que publicamente promettiam a
todos, representando uma dama, que estendia a mão direita, symbolo da Fé,
trazendo na esquerda a cornucopia da abundancia, cheia de toda a especie
de fructos, e tinham este mesmo carimbo o dinheiro, que ahi faziam correr
assegurando por esta fórma a sua fidelidade para com estes povos, de que
resultaria muitos bens e commodidades á sua nação.
Tomae, se quizerdes, por esta dama a Santa Igreja entrando pela primeira
vez n’estas terras barbaras, estendendo sua mão direita para prometter
aos seos habitantes a fé de Jesus Christo, seo esposo, e a fidelidade de
seos sectarios, que não se poupam a trabalhos, e arriscam até a propria
vida para ajudal-a na salvação d’ellas.
Os fructos, que ella lhes offerecia, eram os sacramentos, o conhecimento
de Deos e das coisas divinas.
Tomae tambem, si quizerdes, por esta mesma Dama, a França plantando
pela primeira vez seos lyrios n’estas regiões e paizes do Brazil, dando
com a mão direita a segurança de defender e conservar estes selvagens
obedientes á sua corôa, e com a esquerda os fructos provenientes do
commercio entre ella e o Brazil.