Do que fez este christão em beneficio da instrucção e conversão dos seos
similhantes.
Nada ha mais bravio e mais difficil para domesticar-se do que a
phanthéra, ainda mais por ser de naturesa furiosa para com os animaes das
florestas, que ella ataca e despedaça no primeiro encontro.
Ao contrario, quando se sente grávida, torna-se mais favoravel, exhala
bom cheiro pelos poros do seo corpo, e muda sua voz de cruel para branda,
como que convidando os outros animaes a seguil-a, o que fazem.
A nação dos _Tupinambás_ era uma verdadeira panthéra, cruel como nenhuma,
segundo mostra o seo procedimento devorando seos inimigos. Apenas
appareceo a graça sobre estas terras, mudaram em doçura sua crueldade;
seos discursos desesperados em salutares; seos cheiros putridos,
provenientes de seus fumeiros em outros agradaveis, approximando-se aos
de Jesus Christo, transbordando de amor para com o proximo, desejando-lhe
fazer o mesmo que elles receberam, inspirados pela concepção espiritual
das graças de Deos no fundo de sua alma, como se lê nos _Canticos_ I.
_Oleum effusum nomen tuum, idéo adolescentulæ dilexerunt te nimis_: e
pouco depois, _Trahe me post te, curremus in odorem unguentorum tuorum_:
«teo nome, ó Salvador do Mundo, e o teo conhecimento é um balsamo
derramado, por cuja influencia e cheiro sentem-se as novas almas cheias
de teo amor, e todas se dedicam a adquerir-te.»
Martinho Francisco entre os outros selvagens executou esta doutrina,
porque apenas chegou a aldeia principiou a fallar a seos visinhos, e
d’ahi caminhando para outras aldeias da provincia de _Tapuitapéra_,
sempre das grandezas de Deos e das graças que elle recebeo. Apresentava
sempre aos olhos dos selvagens a desgraça dos seos antepassados, que
tinham fallecido nas crenças de _Jeropary_, e a felicidade, que gozavam
os que se baptisavam e se faziam filhos de Deos.
Taes conversas produziram effeito, muitos procuraram a fonte de salvação
para n’ella beber, e sugar o leite do peito de Jesus-Christo, como elle o
fez e se conta do Unicorne, que procurando as agoas, distantes do veneno,
por acaso foi tocado até o coração pela suavidade do canto de uma joven
donzella[96] deitada sob os ramos floridos das arvores da floresta, o que
livrou este animal de sua furia natural e o aproximou do peito d’aquella
que o commoveo.
O Unicorne, grato e não avaro do bem recebido, desejoso de que seos
similhantes tambem o partilhem, vae procural-os no centro dos bosques,
e por todas as sortes e gestos convidam-nos a seguil-o afim de tomarem
parte na sua felicidade.
A joven donzella representa a esposa de Jesus Christo, a santa igreja,
seo canto harmonioso a prédica do Evangelho, seo peito, onde são
acolhidos os proprios animaes irracionaes, a misericordia divina com
todo o seo poder, as agoas sem veneno, os sagrados sacramentos, o
feroz Unicorne, os infieis, e Martinho Francisco, por seos discursos e
exemplos, foi a primeira acquisição, seguida de muitas outras.
Não se tinham passados seis mezes, e ja se experimentavam grandes
effeitos, porque tendo elle convertido e instruido muitos habitantes
de _Tapuitapéra_ de todas as idades, mandou-nos os mais instruidos e
intelligentes ao Forte de Sam Luiz para serem baptisados, o que fez,
depois de os reter comigo por algum tempo para experimental-os em seos
desejos.
Augmentando-se diariamente o numero dos catecumenos em _Tapuitapéra_ foi
necessario ahi ir o Rvd. padre Arsenio para baptisar muitos d’elles,
dignos d’essa graça tanto pelo seo desejo, como pela sua instrucção
christã.
Tinha Martinho edificado uma Capella, e junto d’ella uma casa, no meio de
sua aldeia, com o auxilio dos outros christãos e selvagens ahi residentes.
Benzeo o padre a Capella, e tomou conta da casa, onde foi vesitado e
sustentado em quanto ahi esteve, por christãos e selvagens.
Depois que baptisou os que para isso julgou aptos, foi vêr algumas
aldeias da provincia, e o seo principal soberano, e por toda a parte
foi muito bem acolhido, manifestando todos em geral o desejo de serem
christãos, e de terem padres em suas aldeias.
Alcançou o bom homem Martinho Francisco nome honroso, dado pelos
habitantes de _Tapuitapéra_ em recompensa de seos trabalhos e fadigas
para fazel-os christãos por ter sido entre elles o primeiro christão, e
por saberem quanto nós o estimavamos.
Chamaram-no _Pai-miry_, «Padre pequeno ou o vigario dos Padres,» e na
verdade bem merecia tal nome, porque desde que se fez christão nunca mais
se descobrio n’elle vestigios do antigo homem, ou os máos costumes dos
selvagens. Era grave, modesto, pouco fallador e raras vezes ria-se, e
nada fazia que parecesse ser contrario ao christianismo.
Era este o regimen de vida que observava, e como mais velho fazia
observar aos outros christãos:
1.º Pela manhã e á tarde reuniam-se todos na Capella: levantava-se um
d’elles, ajoelhavam-se outros, e depois dizia um em seo idioma «_em
nome do Pai, do Filho, e do Espirito Santo_» e fazia o signal da Cruz,
na testa, na bocca e nos peitos, no que era pelos outros imitado:
punha depois as mãos, fixava a vista no altar, e recitava pausada
e distinctamente a oração dominical, o symbolo dos Apostolos, os
mandamentos de Deos e da Igreja, o que findo, si tinha alguma advertencia
a fazer aproveitava a occasião, sinão, recolhia-se cada um á sua casa.
2.º Viviam em commum quando se achavam juntos, e para isso traziam o
resultado de suas pescarias e caçadas para serem igualmente dividido
entre elles, e antes de comerem, o mais velho recitava em sua linguagem
o _Benedicite_, fazendo o signal da Cruz sobre si, e sobre as iguarias:
tiravam todos o chapeo, faziam em si o mesmo signal e ninguem tocava na
comida antes de abençoada.
Em quanto comiam não contavam coisas más ou que excitasse o riso, como
fazem os Tupinambás; porem o mais velho dizia alguma coisa á respeito de
Deos e da Religião.
3.º Nunca iam aos _cauins_ e reuniões, conforme costumavam os
_Tupinambás_: era um dos pontos principaes, que Martinho Francisco
gravava no coração dos convertidos, isto é, que os _cauins_ eram
inventados por _Jeropary_ para semeiar a discordia entre elles, e fazer
com que praticassem toda a especie de males os que os frequentassem,
sendo impossivel amar a Deos quem gostasse de _cauins_, porque, dizia
elle, quando descubro, que alguns dos meos similhantes se retiram das
_cauinagens_, agouro que bem depressa serão christãos e vou procural-os;
mas não tenho animo para fazer o mesmo aos que frequentam taes orgias.
O que elle dizia era verdade por ser horrivel espectaculo vêr essas
gentes em reuniões, parecendo antes congresso nocturno de feiticeiros do
que ajuntamento de homens.
Achei-me apenas uma só vez n’estas reuniões para d’ellas poder fallar, e
nunca mais lá tornei.
Via aqui uns deitados em suas redes vomitando com muita força, outro
caminhando ou marchando em diversos sentidos com o juiso perdido pelo
vinho, ali outros gritando, fazendo mil tregeitos, estes dançando ao
som do _maracá_, aquelles bebendo com muito boa vontade, aquell’outros
fumando para mais se embriagarem, e o que ainda é peior, é estarem
mulheres e moças ahi misturadas parecendo bem difficil a presença de
Bacho sem Venus.
Por minha vontade os francezes deviam fazer o que fizeram os portuguezes,
isto é, prohibir todas estas _cauinagens_: os portuguezes, depois
que habitaram algum tempo na India, reconheceram, que um dos maiores
embaraços para a propagação do christianismo eram essas reuniões
diabolicas, de que procedem todas as discordias e desgraças entre os
selvagens.
4.º Vestem-se estes novos christãos o melhor que podem, caminham todos
juntos, não trazem flechas e nem arcos, excepto quando vão á caça ou a
pesca, contentando-se em trazer um cacete de uma especie de ebano, negro
ou vermelho, com que se distinguem facilmente dos outros.
Quando vão a outras aldeias, si encontram algum christão, recolhem-se á
casa d’elle, contentam-se com o que tem e vivem sóbriamente como tanto
convem a um christão.