Ordem e respeito da naturesa entre os selvagens, observada
inviolavelmente pela mocidade.
O que mais me impressionou e admirou durante os dois annos, que estive
entre os selvagens, foi a ordem e respeito observado inviolavelmente
pelos moços para com os seos parentes mais velhos, ou entre elles,
fazendo cada um o que permitte a sua idade sem cuidar do que se acha no
mais alto ou no menor grau.
Ninguem deixará de admirar-se commigo vendo a naturesa somente ter
n’estes barbaros o poder de fazel-os guardar o respeito, que os meninos
devem a seos maiores, e fazer conter a estes no que é exigido pela
diversidade das idades.
Quem não se hade admirar vendo a naturesa somente ter mais força para
fazer observar estas coisas, do que a Lei e a graça de Jesus-Christo
sobre os Christãos, entre os quaes raras vezes se contem a mocidade nos
seos deveres, apesar de todos os bons ensinos, mestres e pedagogos,
apparecendo sempre confusão e grande presumpção.
Muito praser terei si o caso seguinte nos der algum remedio.
Distinguem os selvagens suas idades por certos graus, e cada grau tem no
frontespicio de sua entrada, seu nome proprio, que ensina ao que pretende
entrar em seo palacio os seos jardins e alamedas, a sua occupação, e isto
por enigmas, como eram outr’ora os Hierogliphos dos Egypcios.
O primeiro grau é destinado as crianças do sexo masculino e legitimos
e dão-lhe em sua lingua o nome de _Peitan_, isto é, «menino sahindo do
ventre de sua mãe.»
Á este primeiro grau da idade do menino é inteiramente cheio de
ignorancia, de fraqueza e de lagrimas, base de todos os outros graus.
A natureza, boa mãe d’estes selvagens, quiz que o menino sahindo do
ventre de sua mãe, se achasse em estado de receber em si as primeiras
sementes do natural commum d’estes selvagens, porque não é afagado,
pensado, aquecido, bem nutrido, bem tratado, nem confiado aos cuidados
de alguma ama, e sim apenas lavado em algum riacho ou n’alguma vasilha
com agua, deitado n’uma redezinha de algodão, com todos os seos membros
em plena liberdade, nus inteiramente, tendo por unico alimento o leite
de sua mãe, e grãos de milho assados, mastigados por ella até ficarem
reduzidos á farinha, amassados com saliva em forma de caldo, e postos em
sua boquinha como costumam a fazer os passaros com a sua prole, isto é,
passando de bocca para bocca.
É bem verdade, que quando o menino é um pouco forte, por conhecimento
e inclinação natural, ri-se, brinca e salta, nos braços de sua mãe,
pensando estar mastigando sua comida, levando seo bracinho á bocca
d’ella, recebendo no concavo de sua mãosinha este repasto natural, que
leva á bocca e come: quando se sente farto, bota fóra o resto, e virando
a cara, e batendo com as mãos na bocca da mãe, lhe dá a entender que não
quer mais.
Obedece a mãe promptamente não forçando seo apetite e nem lhe dando
occasião de chorar.
Si o menino tem sêde, por gestos sabe pedir o peito de sua mãe.
Em tão tenra idade mostram o respeito e o dever, que a natureza lhes dá,
porque não são gritadores, comtanto que vejam suas mães, e ficam no lugar
onde os deixam.
Quando vão trabalhar nas roças ellas as assentam nuasinhas na areia ou na
terra, onde ficam caladinhas, ainda que o ardor do sol lhes dê no rosto
ou no corpo.
Qual seria de nós, que hoje poderia viver soffrendo na primeira idade
tantos encommodos?
Esperam os nossos paes a retribuição e dever, que principiamos a
pagar-lhes desde a primeira idade, si não estão cegos pelo amor que nos
tem; o mesmo devem esperar nas outras idades, sendo mais reconhecidos os
nossos deveres para com elles, custe o que custar-nos.
Começa a segunda idade, quando o menino anima-se a andar sosinho, e
apezar de haver alguma confusão da-se-lhe o mesmo nome.
Observei differença na maneira de criar os meninos, que não sabem andar,
e os que se esforçam para o fazer, o que nos leva a formar outra classe,
e dar-lhe nome proprio: chama-se _Kunumy-miry_, «rapazinho»[38] e abrange
até 7 a 8 annos.
Durante este tempo não se separam de suas mães, e nem acompanham seos
Paes, e o que é mais, deixam-nos mamar até que por si mesmo aborreçam o
peito, habituando-se pouco a pouco ás comidas grosseiras como os grandes
e adultos.
Dão lhes pequenos arcos e flexas proporcionaes ás suas forças,
reunindo-se uns aos outros plantam e juntam algumas cabaças, nas quaes
fazem alvo para o tiro das suas flechas adextrando assim bem cêdo seos
braços.
Não açoitam, e nem castigam seos filhos, que obedecem a seos paes e
respeitam os mais velhos.
È muito agradavel esta idade dos meninos, e n’ella podereis descobrir a
differença existente entre nós pela naturesa e pela graça: sem fazer
comparação, acho-os mimosos, doceis e affaveis como os meninos francezes,
não esquecendo antes tornando bem saliente a graça do Espirito Santo
concedida pelo baptismo aos filhos dos Christãos.
Si acontece morrerem os meninos n’esta idade, tem os paes pesar profundo,
e sempre se recordam d’elles, especialmente nas cerimonias de lagrimas e
lamentações, recordações que fazem uns aos outros, lastimando esta perda
e a morte dos seos filhinhos, dando-lhes o nome de _Ykunumirmee-seon_ «o
menino morto na infancia.»
Vi mães, quase loucas, no meio de suas roças, ou nas matas sosinhas, em
pé ou agachadas, chorando amargamente, e quando lhes perguntava para que
faziam isto, respondiam-me «Oh! recordo-me da morte de meos filhinhos,
_Ché Kunumirmee-seon_, ainda na infancia» e depois continuavam a chorar e
muito.
È na verdade mui natural o ter pesar da perda e morte d’estes meninos,
que ja haviam custado tantos trabalhos á seos paes, e que estavam na
edade de dar-lhes alguma alegria.
Acha-se a terceira classe entre estas duas primeiras—infancia e puericia,
e as da adolescencia e virilidade, entre os 8 a 15 annos, a que chamamos
mocidade: appellidam-nos os selvagens simplesmente por _Kunumy_ sendo a
infancia chamada _Kunumy-miry_, e a adolescencia _Kunumy-uaçu_.
Estes _Kunumys_, ou rapazes, na idade do 8 a 15 annos, não ficam mais
em casa e nem ao redor de sua mãe, e sim acompanham seos paes, tomam
parte no trabalho d’elles imitando o que vêem fazer: empregam-se em
buscar comida para a familia, vão as matas caçar aves, e ao mar flechar
peixes e admira vêr a industria com que flecham as vezes tres a tres
peixes juntos, ou agarram em linha feita de _tucu_ ou em _pussars_,
especie de rêde de pescar, que enchem de ostras e outros mariscos, e
levam para casa. Não se lhes manda fazer isto, porem elles o fazem por
instincto proprio, como dever de sua idade, e já feito tambem por seos
antepassados.
Este trabalho e exercicio mais agradavel do que penoso, e proporcional a
sua idade, os isenta de muitos vicios, aos quaes a naturesa corrompida
costuma a prestar attenção, e a ter predilecção por elles.
Eis a razão porque se facilita á mocidade diversos exercicios liberaes
e mecanicos, para distrahil-a e desvial-a da má inclinação de cada um,
reforçada pelo ocio mormente n’aquella idade.
A quarta classe é para os que os selvagens chamam _Kunumy-uaçú_,
«mancebos»: abrange a idade de 15 a 25 annos, por nós chamada
«adolescencia.»
Tem outro modo de vida, entregam-se com todo o esforço ao trabalho,
acostumam se a remar, e por isso são escolhidos para tripularem as canôas
quando vão á guerra.
Applicam-se especialmente a fazer flexas para a guerra, a caçarem com
cães, a flechar e arpoar peixes grandes, não usam ainda de _Karacóbes_,
isto é, de um pedaço de pano atado na frente para encobrir suas
vergonhas, como fazem os homens casados, e sim de uma folha de Palmeira.
Tem o poder de dividir o que possuem com os mais velhos, reunidos na
_Casa-grande_, onde conversam, e servem tambem os mais velhos.
É n’este tempo, diga-se a verdade, que elles mais ajudam a seos paes e
mães, trabalhando, pescando e caçando, antes de se casarem, e portanto
sem obrigação de sustentarem mulher: eis porque sentem muito seos paes
quando elles morrem n’esta idade, dando-lhes em signal de sua dor o nome
de _Ykunumy-uaçú-remee-seon_, que quer dizer «o mancebo morto» ou «o
mancebo morto na sua adolescencia.»
Abrange a quinta classe desde 25 até 40 annos, e se chama _Aua_ o
individuo n’ella comprehendido, vocabulo aplicado a todas as idades,
assim como usamos com o nome _homem_.
Apesar d’isto ser privativo d’esta idade, assim como o homem é pelos
Latinos chamado _vir_, _á virtude_, e em Francez idade viril, de
virilidade, quer dizer—a força, que no homem chegou a seu termo: n’esta
mesma lingua de selvagens a palavra _Aua_, de que procede _Auaté_, quer
dizer «forte, robusto, valente, audacioso», para significar a 5ª idade
dos seos filhos.
N’essa occasião como guerreiros são bons para combater, nunca porem para
commandar: buscam casar-se, o que não é difficil por consistir o enxoval
da noiva apenas de algumas cabaças, que lhes dá sua mãe para principiar
sua casa, vestidos, e roupas, ao contrario em nosso paiz as mães fornecem
enfeites e pedras brancas a suas filhas.
Os paes dão por dote aos maridos de suas filhas 30 ou 40 toros de pau de
tamanho proprio a poderem ser levados á casa do noivo, os quaes servem
para com elles se accender o _fogo das bodas_: o individuo casado de novo
não se chama _Aua_, e sim _Mendar-amo_.
Embora sejam casados o homem e a mulher não ficam livres da obrigação
natural de proteger seos paes e ajudal-os a fazer suas roças.
Soube d’isto em minha casa, vendo a filha de _Japy-açú_, baptisada e
casada á face da Igreja, dizer a um outro selvagem, seo marido, tambem
christão, quando pretendia ir a _Tapuitapera_ ajudar o Rvd. Padre Arsenio
no baptismo de muitos selvagens, «Onde queres ir? Tu bem sabes que ainda
não se fizeram as roças de meo Pae, e que ha falta de mantimentos: não
sabes, que si elle me deo a ti foi com a obrigação de o auxiliares na
velhice? Si queres abandonal-o então volto para a casa d’elle.»
Advertiram-na á respeito d’estas ultimas palavras, fazendo-a reconhecer
o juramento que dera, de nunca abandonal-o ou separar-se d’elle,
louvando-se comtudo muito os outros sentimentos, que manifestou á favor
de seo Pae, e praza a Deos que todos os christãos a imitassem dando
verdadeira intelligencia a estas palavras formaes do casamento que o
homem e a mulher deixaram seos paes para viverem juntos—porque de outra
fórma seria Deus authorisar a ingratidão dos filhos casados sob pretexto
de terem filhos, ou poder tel-os e precisar cuidar do seo sustento,
quando ao contrario Deos condemna, como reprobo, o que abandona seos
paes, sem os quaes, não fallando na vontade de Deos, não viriam ao mundo
nem elles, e nem seos filhos, embora por essas palavras mostre a grande
união, que pelo casamento se faz entre o corpo e o espiríto dos casados.
Comprehende a 6ª classe os annos de 40 até a morte: é a mais honrosa de
todas, e cercada de respeito e veneração, os soldados valentes, e os
capitães prudentes.
Assim como o mez dá a colheita dos trabalhos e a recompensa da paciencia,
com que o lavrador supportou o inverno e a primavera, lavrando com a sua
charrua o campo em todos os sentidos, sem ser ajudado pela terra, assim
tambem quando chega a estação da velhice são honrados pelos que tem menos
idade.
O que occupa esta classe chama-se _Thuyuae_, quer dizer, «ancião ou
velho.»
Não póde, como os outros, ser assiduo ao trabalho: trabalha quando
quer, e bem a sua vontade, mais para exemplo da mocidade, respeitando
tradicções da sua Nação, do que por necessidade: é ouvido com todo o
silencio na _casa-grande_, falla grave e pausadamente usando de gestos,
que bem explicam o que elle quer dizer e o sentimento, com que falla.
Todos lhe respondem com brandura e respeito, e ouvem-nos os mancebos
com attenção: quando vae a festa das _Cauinagens_ é o primeiro, que
se assenta e é servido; entre as moças, que distribuem o vinho pelos
convidados, as de mais consideração o servem, e são as parentas mais
proximas do que fez o convite.
No meio das danças entoam os cantos; dam-lhe a nota, principiam pela mais
baixa até a mais grave, crescendo gradualmente até chegar á força da
nossa musica.
Suas mulheres cuidam n’elles, lavam-lhes os pés, apromptam e trazem-lhe a
comida, e se ha alguma difficuldade na carne, no peixe ou nos mariscos,
ellas a tiram, accommodando-a ás suas forças.
Quando morrem alguns d’elles os velhos lhe prestam honras, e o choram
como as mulheres, e lhe dam o nome de _thuy-uae-pee-seon_: quando
morrem na guerra, chamam-no _marate-kuepee-seon_, «velho morto no meio
das armas», o que ennobrece tanto seos filhos e parentes, como entre
nós qualquer velho Coronel, que occupou sua vida inteira no serviço do
exercito pelo Rei e pela Patria, e que por corôa de gloria morreo com as
armas na mão, com a frente para os inimigos, no meio de renhido combate,
coisa nunca esquecida por seos filhos antes considerada como grande
herança, e de que se aproveitam apresentando-os ao Principe como bons
serviços de seo Pae, e pedindo por elles uma recompensa.
Não fazendo estes selvagens caso algum de recompensas humanas, porem
empenhando todas as suas forças para conseguirem essas honras, provam
com isto o quanto apreciam não só os actos de heroismo de seos paes, mas
tambem a serem estimados por causa d’elles.
Os que morrem nos seos leitos não deixam de ser honrados, conforme o seo
merito, e chamam-no _theon-suyee-seon_, «o bom velho que morreo na cama».
Por isto podeis avaliar como a naturesa por si só nos ensina a respeitar,
a ajudar, e a soccorrer os velhos e anciões e á refrear com violencia
a temeridade e presumpção dos moços, que sem prevêrem o futuro, não se
recordam de que na sua velhice, se lhes fará justamente o que elles,
quando jovens, fizeram aos mais velhos, dando esse exemplo á seos filhos,
e ensinando-os a serem ingratos.