A mesma ordem e respeito é observada entre as raparigas e as mulheres.
Encontram-se n’estes selvagens vestigios da naturesa, como as pedras
preciosas se acham nas encostas das montanhas.
Seria um louco o que quizesse encontrar em seos jazigos os diamantes tão
claros e brilhantes, como quanto lapidados e engastados n’um anel.
Provem esta differença de se acharem tão ricas pedras cubertas de jaça
sem mostrar o seo valor de tal sorte, que muitos passam e tornam a passar
por cima d’ellas sem levantal-as visto não as conhecerem.
Acontece a mesma coisa na conversação d’estes pobres selvagens: muitos
ignoram e ignorarão ainda o que tenho narrado e narrarei, e embora tenham
conversado com elles por muito tempo, por falta de conhecimento ou de
observação da boa conducta natural d’estas pessoas fóra da graça de Deos,
passaram por ellas, á similhança das pedras preciosas, sem tirar o menor
proveito, e olhando-as com indifferença.
A mesma ordem de classes de idade tenho observado entre as raparigas e as
mulheres, como entre os homens.
A primeira classe é commum á ambos os sexos, cujos individuos, sahindo
immediatamente do ventre de suas mães, se chama _Peitan_, como já
dissemos no art. antecedente.
A segunda classe estabelece distinção de idade, de sexo, e de dever:
d’idade de moça para moça, de sexo de moça para rapaz, e de dever de mais
moça para mais velha.
Comprehende esta classe os sete primeiros annos, e a rapariga d’esse
tempo se chama _kugnantin-myri_, quer dizer _rapariguinha_.
Reside com sua mãe, mama mais um anno do que os rapazes, e vi meninas com
seis annos d’idade ainda mamando, embora comam bem, fallem, e corram como
as outras.
Em quanto os rapazes d’esta idade carregam arcos e flexas, as raparigas
se empregam em ajudar suas mães, fiando algodão como podem, e fazendo uma
especie de redesinha como costumam por brinquedo, e amassando o barro com
que imitam as mais habeis no fabrico de potes e panellas.
Expliquemos o amor, que o pae e a mãe dedicam a seos filhos e filhas.
Pae e mãe consagram todo o seo amor aos filhos, e ás raparigas apenas
accidentalmente, e n’isto acho-lhes razão natural, nossa luz commum,
a qual nos torna mais affeiçoados aos filhos do que ás filhas, porque
aquelles conservam o tronco e estas o despedaçam.
Abrangem a terceira classe desde 7 até 15 annos, e a moça n’esta idade se
chama _kugnantin_, «rapariga»: n’este tempo ordinariamente perdem, por
suas loucas phantasias, o que este sexo tem de mais charo, e sem o que
não podem ser estimadas nem diante de Deos, nem dos homens; perdoem-me
se digo, que n’esta idade não são prudentes, embora a honra e a lei
de Deos as convidasse á immortalidade da candura, porque estas pobres
raparigas selvagens pensam, e muito mal, aconselhadas pelo autor de todas
as desgraças, que não devem ser mais puras quando chega esse tempo. Nada
mais direi para não offender o leitor: basta tocar apenas o fio do meo
discurso.
N’essa idade aprendem todos os deveres de uma mulher: fiam algodão,
tecem redes, trabalham em embiras, semeam e plantão nas roças, fabricam
farinha, fazem vinhos, preparam a comida, guardam completo silencio
quando se acham em quaesquer reuniões onde ha homens, e em geral fallam
pouco se não estão com outras da mesma idade.
A quarta classe está entre 15 a 25 annos, e a rapariga n’ella
comprehendida chama-se _kugnammucu_, «moça ou mulher completa», o que nós
dizemos por «moça boa para casar.»
Passaremos em silencio o abuso, que se pratica n’estes annos, devido aos
enganos de sua Nação, reputados como lei por elles.
São ellas, que cuidam da casa alliviando suas mães, e tratando das
coisas necessarias á vida da familia: cedo são pedidas em casamento,
si seos paes não as destinam para algum francez afim de terem muitos
generos, e no caso contrario são concedidas, e então se chamam
_kugnammucu-poare_,[39] «mulher casada, ou no vigor da idade.»
D’ahi em diante acompanha seo marido carregando na cabeça e ás costas
todos os utencilios necessarios ao preparo da comida, as vezes a propria
comida, ou os viveres necessarios á jornada, como fazem os burros de
carga com a bagagem e alimentação dos seos senhores.
É occasião de dizer, que ambiciosos como os grandes da Europa, que
desejam ostentar sua grandesa apresentando grande numero de burros, estes
selvagens tambem desejam ter muitas mulheres para acompanhal-os, e levar
suas bagagens, mormente havendo entre elles o costume de serem estimados
e apreciados pelo grande numero de mulheres á seo cargo.
Quando grávidas, após o casamento, são chamadas _puruabore_, «mulher
prenhe», e apezar d’este estado não deixam de trabalhar até á hora
do parto, como si nada tivessem. Apresentam grande volume, porque
ordinariamente parem meninos grandes e corpolentos.
Talvez se pense que n’este estado cuidam ellas em cobrir sua nudez, porem
não soffrem a menor alteração o seo modo de viver.
Chegado o tempo do parto, si assim se póde chamar, não procura para
esse fim a cama, si as dores não são fortes: em qualquer dos casos
senta-se, é rodeada por suas visinhas convidadas para assistil-as,
pouco antes do apparecimento das dores, por meio d’estas palavras
_chemenbuirare-kuritim_ «eu vou já partir, ou estou quase a parir»: corre
veloz o boato de casa em casa, que tal e tal mulher vae parir, dizendo
com o nome proprio da parturiente estas palavras _ymen-buirare_, que
significa «tal mulher pario, ou está para parir.»
Acha-se ahi o marido com as visinhas, e si ha demora no parto, elle
aperta-lhe o ventre para fazer sahir o menino, o que acontecido, deita-se
para observar o resguardo em lugar de sua mulher,[40] a qual continua a
fazer o serviço do costume, e então é vesitado em sua cama por todas as
mulheres da aldeia, que lhe dirigem palavras cheias de consolação pelo
trabalho e dôr, que teve de fazer o menino, sendo tratado como gravemente
doente e muito cançado, á maneira do que se pratica em identicas
circumstancias com as mulheres de paizes civilisados.
Comprehende a quinta classe desde 25 até 40 annos, quando o homem e a
mulher attingem ao seo maior vigor.
Dam-lhe geral e commummente o nome de _kugnan_, «uma mulher, ou uma
mulher em todo o seo vigor».
N’essa idade conservam ainda as indias alguns traços de sua mocidade, e
principiam a declinar sensivelmente, sendo feias e porcas, trazendo as
mamas pendentes á similhança dos cães de caça, o que causa horror: quando
jovens, são bonitas e asseiadas, e tem os peitos em pé.
Não quero demorar-me muito n’esta materia, e concluo dizendo, que a
recompensa dada n’este mundo á puresa é a incorruptibilidade e inteiresa
acompanhada de bom cheiro, mui bem representada nas letras santas pela
flôr do lyrio puro, inteiro e cheiroso—_sicut lilium inter spinas, sic
amia mea inter filias_.
A sexta e ultima classe está entre os 40 annos e o resto da vida, e então
a mulher se chama _Uainuy_: n’este tempo ainda parem.
Gosam do privilegio da mãe de familia: presidem ao fabrico dos _cauins_,
e de todas as outras bebidas fermentadas.
Occupam lugar distincto na _casa-grande_ quando ahi vão as mulheres
conversar, e quando ainda se achava em pleno vigor o poder de comerem
os escravos, eram ellas as incumbidas de assar bem o corpo d’elles, de
guardar a gordura, que não queriam, para fazer o _mingau_, de cozinhar
as tripas, e outros intestinos em grandes panellas de barro, de n’ellas
misturar farinha e couves, e dividil-as depois por escudellas de pau, que
mandavam distribuir pelas raparigas.
Dam principio ás lagrymas e lamentos pelos defunctos, ou pela boa chegada
de suas amigas.
Ensinam ás moças o que aprenderam.
Usam de más palavras, e são mais descaradas do que as raparigas e as
moças, e nem me atrevo a dizer o que ellas são, o que vi e observei,
sendo tambem verdade que vi e conheci muitas boas, honestas e caridosas.
Existiam no _Forte de São Luiz_ duas boas mulheres _Tabajares_, que não
se cansavam de trazer-me presentesinhos, e quando me os offereciam,
sempre choravam e desculpavam-se de não poderem dar melhores.
Não espero muito d’estas velhas: e o superior nada tem a fazer senão
esperar que a morte o livre d’ellas: quando morrem não são muito choradas
e nem lamentadas, porque os selvagens gostam muito de ter mulheres moças.
Os selvagens creem supersticiosamente terem as mulheres, depois de
mortas, muita difficuldade de deparar com o lugar onde, alem das
montanhas, dançam seos ante-passados, e que muitas ficam pelos caminhos,
se é que lá chegam.
Não guardam asseio algum quando atingem a idade da decrepitude, e entre
os velhos e velhas nota-se a differença de serem os velhos veneraveis e
apresentarem gravidade e autoridade, e as velhas encolhidas e enrugadas
como pergaminho exposto ao fogo: com tudo isto são respeitadas por seos
maridos e filhos, especialmente pelas moças e meninas.