Do valor e dos costumes dos selvagens do Miary.
Conversando familiarmente com esta nação, descubri muitas de suas
particularidades, e tambem outras, pertencentes tanto á elles como á
todos os _Tupinambás_, ainda não escriptas por pessoa alguma, ou ao menos
mencionadas sufficientemente, e como são bellas e raras tractarei d’ellas
mais detidamente.
Estes povos, antes de reunidos, eram chamados _Tabajares_ pelos
Tupinambás.[27]
Este nome é appelativo e commum para designar toda a sorte de inimigos,
e tanto assim é, que esta mesma nação de _Tabajares_ chamava os
_Tupinambás_ da ilha _Tabajares_, _Topinambas_, embora pacificados e
amigos. Os _Topinambas_ os chamavam _Mearinenses_, quer dizer vindos do
_Miary_,[28] ou habitantes do _Miary_, assim como os Dinamarquezes, que
vieram occupar a Neustria, Provincia antiga e dependente da Corôa de
França, foram chamados Normandos, e sendo ella conservada em homenagem
pelos Reis de França, perdeo seo antigo nome, e conservou o de Normandia.
Os francezes os chamam _Pedras-verdes_[29] por causa de uma montanha, não
muito longe de sua antiga habitação, onde se acham mui bellas e preciosas
_pedras verdes_, dotadas de muitas propriedades, especialmente contra
doenças do baço, e frouxo de sangue, e tambem me disseram haver ahi
esmeraldas muito finas: ahi hiam os selvagens buscar estas pedras verdes
tanto para collocal-as em seos labios, como para negocio com as nações
visinhas.
Os _Tupinambás_ e os _Tapuias_ dão muito apreço a estas pedras:[30]
vi por uma pedra para o beiço dar o valor de mais de vinte escudos de
mercadorias um _Tupinambá_ á um _Miarinense_, em nossa casa de São
Francisco, no Maranhão.
Um certo _Cabelo comprido_ veio ter comnosco, ornado com seos enfeites
mais lindos, que consistiam em dois chifres de bodes, e quatro dentes de
corça, muito cumpridos, em vez de brincos, de que muito se orgulhava por
havel-os alcançado com industria, ao passo que era commum, especialmente
entre as mulheres, trasel-os de madeira, redondos, muito toscos, e da
grossura de dois dedos: calculae o buraco, que fazem nas orelhas: a maior
porem de suas ostentações era uma destas pedras verdes, de comprimento,
pelo menos, de quatro dedos, bem redonda, o que me agradou tanto á ponto
de desejar trazel-a para a França. Perguntei-lhe o que queria que lhe
désse por esta pedra: respondeo-me, «dê-me um Navio de França, carregado
de machados, de foices, de vestidos, de espadas e de arcabuses.»
Outro Tupinambá, já muito velho, trazia uma pedra destas em seo labio
inferior: era oval e tão larga como o concavo da mão, e como a tivesse
trasido por muito tempo ahi, sem nunca tiral-a, estava como que
encaixilhada no seo queixo, ja tendo a carne se dobrado sobre os bordos
da pedra e tomado a sua propria forma.
Narrei tudo isto afim de demonstrar o valor destas pedras verdes.
Estes _Miarinenses_ são ordinariamente de boa estatura, bem conformados,
e valentes na guerra: sendo bem guiados não recuam e nem fogem como os
outros Tupinambás, explicando-se isto pelo facto de serem criados entre
os combates, sempre travados contra os portuguezes, aos quaes atacaram
outr’ora, escalaram suas fortalezas, tomaram suas bandeiras e nunca
mais abandonaram sua primeira habitação, como nos contou _Thion_, seo
Principal, quando veio do Forte de São Luiz, se a falta de canhões não
obrigasse os francezes, que estavam com elles, a cederem á força e á
superioridade do numero dos portuguezes.
Causa gosto ver o zelo e o cuidado, com que trazem as espadas, que lhes
dão os francezes, sempre a seo lado, sem nunca tiral-as senão quando
se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si
em algum ramo de arvore, fazendo-me lembrar a historia de Nehemias, na
reparação dos muros de Jerusalem, quando os seos habitantes trasiam n’uma
das mãos as armas e na outra os instrumentos do trabalho.
Gostam muito de traser as espadas tão limpas como cristal, e para isso as
esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes
para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela
ferrugem muito commum na zona tórrida.
Acostumam-se a bem manejal-as, fazendo marchas e contra-marchas, á
maneira dos suissos quando esgrimam.
Alem de serem corajosos e bons soldados, trabalham muito bem, e antes
quero uma hora de tarefa d’elles do que um dia dos _Tupinambás_.
Seos Principaes trabalham tanto quanto os seos subordinados de menor
representação, porem o serviço está bem regulado, porque ao romper do dia
levantam-se, almoçam, e depois vão elles mulher e filhos, conjunctamente,
alegres risonhos, cantando trabalhar em suas roças, e quando o sol
principia a chegar ao seo maior auge do calor, que é perto das dez horas,
deixam a lida, vão comer e dormir, e duas horas depois do meio dia,
quando o sol principia a declinar voltam outra vez ao trabalho, onde se
conservam até ao anoitecer.
Os Principaes, que ordinariamente tem mesa franca, para o que necessitam
de roças maiores, preparam um _Cauin_ geral, e como todos partilham
d’elle, se incumbem de cuidar nas plantações, o que fazem com alegria
n’uma ou duas manhãs, e depois vão beber na casa d’aquelle para quem
trabalharam, bebendo cada um quando chega a sua vez, e quando o acham
bom o gabam com todas as suas forças, compõem cantigas adequadas, que
entoam ao redor da casa ao som do _Maracá_, pronunciando estas ou outras
similhantes palavras: «oh! o vinho, o bom vinho, nunca elle teve igual;
oh! o vinho, o bom vinho, nós o beberemos á vontade, oh! o vinho, o bom
vinho, n’elle não acharemos preguiça.»
Chamam o vinho preguiçoso quando não tem força bastante para embriagal-os
immediatamente, e que não lhes provocam o vomito por mais que bebam.
Tomam as raparigas parte n’esta festa, onde se dança e canta-se á fartar,
deitam-se os que se embriagam logo e raras vezes apparecem questões:
são alegres e agradaveis n’essa occasião, especialmente as mulheres,
que fazem mil macaquices á ponto de provocarem grande hilaridade, até a
individuos mais tristes e melancolicos. Por mim confesso, que nunca em
minha vida me ri tanto como quando estas mulheres altercavam umas com as
outras, empunhando copos de madeira cheios de vinho, bebendo ora um, ora
outro, fazendo muitas macaquices e tregeitos.
Dão com muita facilidade o que mais presam, como sejam suas filhas e suas
mulheres, porque observei quando se cuidou na segunda viagem do _Miary_
que muitos _Tupinambás_ tanto da _Ilha_ do Maranhão, como de Tapuitapera,
foram de proposito com os Francezes para pedirem filhas e mulheres dos
Miarinenses, o que facilmente obtiveram, como muitas outras coisas, que
só fazem estes povos, e por isso mesmo muito caros e preciosos entre os
Tupinambás.
Tambem tem por costume, que igualmente observei entre os Tupinambás, o
trazerem assobios e flautas, feitos dos ossos das pernas, coxas e braços
de seos inimigos, dos quaes arrancam sons fortes, agudos e claros, e ao
som d’elles entoam seos cantos usuaes, especialmente quando estão nos
_Cauins_, ou quando vão a guerra.
As raparigas não se despresam em casar com velhos e grisalhos, como
praticam as dos _Tupinambás_, e sim antes querem esposar um velho,
especialmente quando é Principal, e admirei-me, como coisa desagradavel,
o vêr muitas jovens, de quinze a deseseis annos, casadas com velhos, e o
contrario praticam as raparigas dos _Tupinambás_, as quaes passam a sua
mocidade livremente, e depois acceitam um marido.
O que acabei de dizer, só tem por fim o mostrar a cegueira das almas
captivadas pelo espirito immundo, que não se descuida de perdel-as por
meio de suas traças.