Da chegada de uma barca portugueza á Maranhão.
Quando menos pensavamos, achando-se a Ilha sem indios e sem francezes,
por terem aquelles ido viajar pelo Amazonas, e estes pela segunda vez
ao _Miary_, de que brevemente trataremos, por espaço de um mez fomos
incommodados com mil noticias, ora de selvagens residentes perto do
mar, ora de francezes moradores nos fortes, que diziam ter ouvido tiros
de peça para o lado da costa da pequena _Ilha de Santa Anna_, e da de
_Tabucuru_,[24] e ter visto tres navios velejando ao redor da Ilha, eis
que se apresentou uma barca, commandada por um capitão portuguez, chamado
Martin Soares.
Vinha da Ilha de Santa Anna, onde tinha desembarcado, tomado posse d’ella
para o Rei Catholico, plantado uma grande Cruz, e levantado um marco com
uma inscripção, de que logo fallaremos.
Andou este navio por todo o porto de Caurs, saltando sua tripulação
sempre que lhe approuve para vêr e escolher lugares proprios á plantação
de canas e ao fabrico do assucar, especialmente no lugar chamado
_Ianuarapin_, onde foi erguida uma Cruz com o fim de crear-se uma bella
habitação de portuguezes, e construir-se muitos engenhos de assucar.
Approximaram-se depois da enseiada de Caurs, uma das entradas da Ilha,
onde depois da sua vinda, se edificaram dois bellos fortes afim de
impedir o desembarque.
Elles davam alguns tiros de peça para chamar os selvagens da Ilha:
nenhum lá foi, menos o Principal de _Itaparis_, suspeito por traidor:
perguntaram-lhe muita coisa, e ignora-se o que respondeo: deram-lhe
machados e fouces, e depois veio para a Ilha.
Os portuguezes traziam comsigo os indios _Canibaes_,[25] moradores em
_Mocuru_, e parentes de outros do mesmo nome refugiados em Maranhão, os
quaes elles mandaram á terra para tomar conhecimento, e informações, si
na Ilha haviam muitos francezes, si estavam fortificados, e si tinham
canhões.
Felizmente dirigiram-se aos _Tupinambás_, que lhes disseram não haver
na Ilha um só francez, um só forte, um só navio, barca, nem canhão,
e com tal segurança principiaram a comer, e os Tupinambás mandaram
immediatamente ao forte de S. Luiz contar tudo isto.
Expedio-se logo uma barca, bem esquipada, com o fim de prender os
portuguezes; porem aconteceo, que um traidor _Canibal_, inimigo rancoroso
dos francezes, e a quem já se tinha muitas vezes perdoado castigos,
em que havia incorrido, sabendo da noticia da vinda dos outros, foi
procural-os furtivamente, e em segredo lhes disse—«que fazeis aqui, fugi
depressa para o mar, regressae ao vosso navio, porque os francezes tem na
Ilha um bello forte, canôas, navios, e canhões.»
Mal ouviram isto, levantaram-se ás pressas, e disseram aos seos hospedes
_Tupinambás_, que os divertiam—Ah! maus, enganaes vossos camaradas—e
assim dizendo á passos apressados foram com o traidor para a sua canôa, e
em breve chegaram a barca, ancorada n’uma enseiada um pouco adiante.
Vendo isto os portuguezes, desconfiaram logo que os francezes estavam
na Ilha, e que não deixariam de os perseguir, e apenas tinham levantado
ancoras, descobriram a barca dos francezes, e estes a d’elles,
apressaram-se a tomar a dianteira dos portuguezes, navegando á bolina,
muito bem, quebrando os rolos d’agoa, pelos bancos d’area, pouco pensando
em encalhar comtanto que conseguissem apresional-a do que lhes resultaria
muita commodidade, visto conhecer-se a intenção dos portuguezes,
descoberta pela bôa vontade dos...
* * * * *
... todas as Nações, e nós vemos por experiencia em varios lugares da
França, d’onde veio o proverbio—_chorar de alegria_.
Chegados ao Forte depois de descançarem como poderam, conservaram-se
serios e reservados sem entregarem-se á vivacidade e impulso da
curiosidade, e sendo a imperfeição unica dos francezes o fazer tudo ás
pressas, buscando todos os meios de conseguir seos fins, foram elles ter
com o Maioral, aos quaes assim fallaram:
«Conforme as noticias que déstes a dois dos nossos, escravos entre os
_Tupinambás_, para nos transmittirem fielmente a respeito da tua vinda
e da dos Padres n’estes lugares afim de defender-nos dos _Peros_, e
ensinar-nos a conhecer o verdadeiro Deos, dar-nos machados e outras
ferramentas para facilitar a nossa vida, fallamos n’isto em muitas
reuniões, e recordando-nos de que os francezes sempre nos fôram fieis,
vivendo em paz comnosco, e acompanhando-nos á guerra, onde alguns
morreram, todos os meos similhantes mostraram-se contentes e resolveram,
de combinação com o nosso chefe, obedecer-te e em tudo fazer-te a
vontade: eis porque me mandaram expressamente afim de pedir-te alguns
francezes para acompanhar-nos e guardar-nos até voltarmos do lugar, por
ti indicado.»
Respondeo-se-lhe com palavras de amisade, e que se lhes daria os
francezes.
Sahindo d’ahi foram procurar-me em minha casa, onde tambem me exposeram a
sua missão, de que fallarei quando for occasião.
Pediram-me o meu pequeno interprete para ir com elles assegurar ao
_Thion_, seo chefe, e a todos os seos companheiros, que eu os receberia
como filhos de Deos, e que podiam vir afoitamente confiados na protecção
dos Padres.
Acompanhados por muitos francezes e pelo meo interprete, a quem dei
algumas imagens como mimos, a _Thion_, elles embarcaram para o Mearim em
busca de suas casas.
Foram recebidos com muitos applausos, choros, lagrymas, e danças de dia e
de noite.
Prepararam vinhos em abundancia, presentearam os francezes com muitos
porcos do matto e outras caças, e offereceram-lhes muitas raparigas das
mais bonitas, o que regeitaram dizendo que Deos não queria, e que os
Padres prohibiam, e se quizessem agradar os Padres, quando fossem para a
Ilha, deviam levar Cruzes para expellir o _Giropary_[26] do meio d’elles:
assim o disseram, assim o fizeram, plantando muitas Cruzes, em varios
lugares na frente de suas casas, como ainda hoje se vê, e que ficaram
como prova de habitação antiga, d’onde foram chamados para ir á outra
terra, já illuminada pelo conhecimento de Deos, e enriquecida com os
Sacrosantos Sacramentos da Igreja, como aconteceo outr’ora com a nação do
povo de Israel, que sahio do Egypto em busca da terra da Promissão.
Dispostas estas coisas, cada um cuidou em arrumar-se e fazer sua
colheita, destruir as roças, e preparar bom farnél, pois deviam em pouco
tempo deixar e abandonar este lugar: indagavam muito de varias coisas
tendentes á sua salvação, e eram satisfeitas as suas perguntas.
Aproveitaram-se os Francezes da occasião e facilidade, que lhes offerecia
para conquistar a nação proxima de indios inimigos, da aldeia de Thion,
e causava pena ouvil-os dizer, que haviam comido a muitos, porque eram
mais fortes, tinham maior numero de aldeiamentos e de homens, e o
Principal d’elles, chamado _Farinha-grossa_, valente na guerra, alegre,
e muito propenso ao Christianismo, como fallaremos n’outro lugar, dizia
com garbo, «si eu quizesse comer os inimigos, não ficaria um só, porem
conservei-os para satisfazer minha vontade, uns após outros, entreter
meo apetite, e exercitar diariamente minha gente na guerra: e de que
serviria matal-os todos de uma só vez quando não havia quem os comesse?
Alem d’isto não tendo minha gente com quem bater-se, se desuniriam, e
separar-se-iam como aconteceo á _Thion_.» Assim disse, porque antes estas
duas nações formavam uma só, morando juntas, em lugares longinquos e
distantes dos inimigos, contra os quaes podiam exercitar-se na guerra, e
apezar de tudo atacaram-se reciprocamente.
Tal proceder confirma a bella maxima do Estado—quem deseja conservar o
interior em paz, deve empregar os sediciosos fóra d’ahi, especialmente
contra os inimigos da fé, e fallando em sentido moral—quem quer salvár o
coração de todo o vicio e imperfeição deve resguardal-o das impressões
exteriores.
Como condições de paz estabeleceo-se o esquecimento reciproco de todas
as injurias, mortes e banquetes com os corpos dos inimigos: que devia
revestir-se de paciencia quem mais perdesse: que não devia havêr
exprobrações de parte á parte, e quando recolhidos a Ilha, morariam
separados uns dos outros, e todos seriam fieis aos Francezes.
Chegada a occasião foram enviadas muitas canoas e barcos, nas quaes
vieram para a Ilha.
Foram bem recebidos, o seo chefe _Thion_ saudado com cinco tiros de peça,
e duas descargas de mosquetaria, passando por meio de soldados francezes,
dispostos conforme as ceremonias da guerra, assim entrou no Forte, onde o
Sr. Pesieux e eu o acolhemos, e o condusimos á sua casa para descançar.
Em lugar proprio contarei o que elle nos disse.