Das incisões, que fazem estes selvagens em seos corpos e como escravisam
seos inimigos.
Estes povos, e não só elles, porem geralmente todos os Indios do Brazil,
tem por costume cortar o corpo, e recortal-o tão lindamente, que os
costureiros e alfaiates, embora habeis em sua profissão, buscam imital-os
no córte dos seos vestidos.
Este costume não é só privativo dos homens, e sim tambem das mulheres,
com a differença unica de que os homens se cortam por todo o corpo, e
as mulheres apenas desde o umbigo até as coxas, o que praticam por meio
de um dente de _Cutia_, muito agudo, e uma especie de gomma queimada,
reduzida á carvão, applicada sobre a chaga, e nunca se apagam os córtes.
Digo de passagem e não para demorar-me, e sim apenas para descubrir a
origem deste antigo costume, que me parece ser fundado pela naturesa,
visto ser praticado, já ha muitos annos, por nações civilisadas, cujo
conhecimento por falta de communicação não podia ter esta Nação barbara,
e assim inventou-o e d’elle usou.
Soube d’estes selvagens, que duas razões os levam a cortar assim seos
corpos, uma significa o pesar e o sentimento, que tem pela morte de seos
paes, assassinados pelos seos inimigos, e outra representa o protesto
de vingança, que contra estes promettem elles, como valentes e fortes,
parecendo quererem dizer por estes córtes dolorosos, que não pouparam
nem seo sangue e nem sua vida para vingal-os, e na verdade quanto mais
estigmatisados mais valentes e corajosos são reputados, no que tambem são
imitados pelas mulheres de iguaes qualidades.
Para mostrar a origem anterior d’este costume, não necessito remontar-me
ás historias profanas, no que seria prolixo, e sim contentar-me-hei
fazendo vêr em diversos trechos das escripturas sanctas quanto Deos
reprova este uso barbaro e selvagem. No Levitico 19. _Super mortuo non
incidetis carnem vestram, nec figuras aliquas, aut stigmatas facietis
vobis._ Sobre a vossa carne não fareis incisões, figuras ou signaes.
No cap. 21. _Necque in carnibus suis facient incisuras_: e não farão
incisões na sua carne. No Deut. 14. _Non vos incidetis, necfacietis
calvitiem super mortuo._ No morto não fareis incisões e nem cortareis os
cabellos.
Á respeito d’estas passagens interpretam os Padres, como fazem os gentios
e os idolatras, e de maneira notavel este trecho—_não fareis incisões e
nem cortareis os cabellos_, por que se vêem juntas estas duas coisas, que
os indios sempre separam restrictamente: quanto á incisão, já sabeis o
que ella significa, mas quanto ao arrancamento do cabello ficae sabendo,
que apenas as mulheres e as moças sabem do captiveiro ou morte na guerra
dos seos Paes ou maridos, cortam os cabellos, gritam e lamentam-se
horrivelmente, excitando seos similhantes á vingança, á tomar as armas e
a perseguir seos inimigos, como farei vêr quando narrar a _Historia dos
Tremembeses_.
Dos escravos, que me deram n’aquelle paiz para trabalharem á bem da minha
subsistencia soube da maneira como faziam prisioneiros e escravos.
N’um certo dia reprehendi a preguiça d’um d’elles, fórte e valente, que
me fora dado por um _Tupinambá_, e elle para minha advertencia me deo a
seguinte resposta, embora branda (bem sei o que é necessario observar
para com esta nação, que as reprehensões consideram como chagas e
feridas, e aos castigos preferem a morte,[31] e por esta forma desejam
antes morrer com honra, segundo dizem, no meio das assembleias, como ja
muito bem descreveo o Padre Claudio d’Abbeville): eil-a «na guerra não
me pozeste a mão sobre a espadua,[32] como fez aquelle que me deo a ti
para agora me reprehenderes.» Nasceo-me logo a curiosidade de saber por
intermedio do meu interprete o que elle queria dizer, e então fiquei
sciente de ser uma ceremonia de guerra entre estas nações, quando um
é prisioneiro do outro, bater-lhe este com a mão sobre a espadua e
dizer-lhe—faço-te meo escravo—e desde então este infeliz captivo, por
maior que seja entre os seos, se reconhece escravo e vencido, acompanha
o vencedor, serve-o fielmente sem que seo senhor ande vigiando-o, tendo
liberdade para andar por onde quiser, só fazendo o que fôr de sua
vontade, e de ordinario casa-se com a filha ou a irmã do seo senhor, e
assim vive até o dia em que deve ser morto e comido, o que não se pratica
mais em _Maranhão_, _Tapuitapera_ e em _Cumã_, e só raras vezes em
_Caieté_.
Estas nações me despertaram a lembrança do que li outr’ora nos livros
sagrados e na Historia dos Romanos, quando procediam ao captiveiro
dos prisioneiros, e para bem entender-se bom é notar-se, que foram as
ceremonias externas inventadas para representarem com sinceridade as
affeições do interior: por exemplo, dobrar o joelho, beijar a mão,
descubrir a cabeça, quando saudamos alguem, que estimamos, são outros
tantos testemunhos de apreço interno em que o temos: outr’ora as espadas
tinham hierogliphos representando o mysterio occulto das acções internas
e externas dos homens.
Deixando de parte o que não serve ao meo fim contento-me em referir os
dois seguintes casos:—o sceptro apoiado sobre a espadua significa o
poder regio: a alabarda sobre a espadua declara o poder dos chefes de
guerra: as maças de ouro e prata—o poder dos Senados e dos Pontifices: os
machados com ramos de parreira enroscadas—o poder dos consulados e dos
governadores das provincias. Observe-se o que foi escripto por Isaias
cap. 9. _Factus est Principatus super humerum ejus_, seo dominio foi
posto sobre sua espadua, e no cap. 22. _Dabo clavem domus Davis super
humerum ejus_, e porei a chave da casa de David sobre sua espadua, quer
dizer o—sceptro de David.
Ao contrario, pôr uma canga, como trazem os bois ou cavallos quando
no trabalho, ou então passar debaixo de uma lança, atravessada sobre
duas outras fixadas perpendicularmente, ou receber sobre a espadua nua
uma vergastada era o signal da escravidão, como muito bem o patenteiou
Isaias, cap. 9. _Jugum oneris ejus et virgam humeris ejus, et sceptrum
exactoris ejus superasti_: venceste o jugo do teu fardo e a vara de sua
espada, o sceptro do seu exactor, fallando do captiveiro da Gentilidade,
libertada pelo Salvador: assim tambem estes selvagens batendo sobre o
hombro de seus prisioneiros, significavam serem elles seos captivos, e
na verdade encontro uma bella profecia, toda litteral, narrando esta
desgraça, á qual estão sujeitos estes pobres selvagens de Chanaan, por
juizo impenetravel da sabedoria divina, e participação da antiga maldição
de Channan, seo Pae: é em Isaias, cap. 47—_Tolle molam, et mole farinam:
denuda turpitudinem tuam, discooperi humerum, revela crura, transit
flumina_, toma a mó, e móe a farinha, descobre tua torpesa e tua espadua,
mostra tuas coxas e passa o rio.
Tomam estes selvagens a mó, e a farinha, não tendo ferramenta alguma
para trabalhar, quer nos bosques quer nas roças, servem-se unicamente de
machados de pedra para cortar arvores, fazer suas casas e canoas, aguçar
paus, cultivar a terra, semeiar, plantar raizes, e por unica recompensa
de seos trabalhos só comem farinha, e raizes passadas por um rallador,
feito de pedrinhas agudas, engastadas n’uma taboa da largura de meio pé.
Cosinham a farinha n’uma grande panella de barro, ao fogo, como
amplamente está escripto na Historia do R. Padre Claudio d’Abbeville.
É tão patente sua torpesa, que suas mulheres e filhas, embora honestas,
sentem repugnancia de se vestirem. Trazem o hombro descuberto, sujeito
á este grande captiveiro, commum a todas as nações. Mostram suas coxas,
e a falta de castidade está em uso entre elles sem reprovação, menos o
adulterio.
Passam rios buscando ilhas incognitas atraz de segurança.