Dos preparativos dos Tupinambás para uma viagem ao Amazonas.
Apenas voltou esta expedição do Mearim, fallou-se com enthusiasmo de uma
viagem, em breves dias, ao Amazonas.[12]
Já antes se havia fallado n’ella, porem com tal friesa, que poucos
acreditavam, não havendo probabilidade de deixar-se a Ilha, sendo nós
tão poucos para defendel a contra as aggressões dos portuguezes, que nos
ameaçavam ha muito tempo.
Ao divulgar-se esta noticia levantaram-se a ilha e as provincias
visinhas, porque, como é geralmente sabido, não ha no Mundo nação
alguma mais inclinada á guerra e á viagens pelo desconhecido como estes
selvagens brasileiros.
Quatrocentas ou quinhentas legoas nada são para elles quando vão atacar
seos inimigos e fazel-os escravos. Com quanto sejam por naturesa timidos
e medrosos, nos combates ganham calor, não abandonam o campo, e quando
perdem as armas pelejam com unhas e dentes.
Suas guerras são feitas, pela maior parte por surpresa e astucias; ao
romper do dia assaltam seos inimigos dentro de suas aldeias: salvam-se
de ordinario os que tem boas pernas, sendo aprisionados os velhos,
as mulheres, e os meninos, e condusidos como escravos para as terras
dos _Tupinambás_. Tambem sob o pretexto de negocio, vão elles pelas
praias, onde moram seos inimigos, promettem-lhes muito, mostram-lhes
suas mercadorias em _caramemos_ ou _paneiros_, onde arranjam o que tem
de melhor, e quando os veem entretidos, lançam-se sobre elles, pobres
ingenuos, matam uns, aprisionam e captivam outros: por este motivo todas
as nações do Brasil, desconfiam d’elles, julgam-nos traidores, e nem
querem sua paz.
São muito afoitos quando estão com os francezes, e querem que estes
vão sempre adiante, e se acontece voltar um francez para traz, ninguem
corre melhor e mais veloz do que elles. D’isto se conclue quanto valle a
opinião que se forma de certas pessoas, que não passa de uma loucura e
vaidade d’este mundo, acontecendo muitas vezes ficarem atraz os bons e
virtuosos ou serem queridos e levados os viciosos e corrompidos.
Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra,
não me contentando só com as informações.
Em primeiro lugar as mulheres e as suas filhas preparam a _farinha de
munição_,[13] e em abundancia, por saberem, naturalmente, que um soldado
bem nutrido valle por dois, que a fome é a coisa mais perigosa n’um
exercito, por transformar os mais valentes em covardes, e fracos, os
quaes em vez de atacarem o inimigo, buscam meios de viver.
É differente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida,
e misturada com _cariman_ para durar mais tempo, embora menos saborosa,
porem mais san e fresca.
Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas, ou concertar as
que já possuem proprias para este fim, por que é necessario, que sejam
compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e
comtudo são feitas de uma arvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos
e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão,
e então tiram-lhe a casca, e racham n’a dando-lhe meio pé de largura
e profundidade: n’este caso lançam-lhe fogo n’essa fenda por meio de
cavacos bem seccos, e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco,
raspam com uma chapa de aço, e assim vão fazendo até que o tronco esteja
todo cavado, deixando apenas duas pollegadas d’espessura, e depois com
alavancas dão-lhe fórma e largura: estas canoas conduzem as vezes 200
ou 300 pessoas[14] com as suas competentes munições. São conduzidas por
mancebos fortes e robustos, escolhidos de proposito, por meio de remos de
pás de tres pés cada um, que cortam as agoas a pique e não de travessia.
Em terceiro lugar preparam suas pennas, tanto para a cabeça, braços, e
rins, como para as armas. Para a cabeça usam de uma peruca ou cabelleira
de pennas de cores vermelhas, amarellas, verde-gaio e violetas, que
prendem aos cabellos com uma especie de colla ou grude.
Enfeitam a testa com grandes pennas de araras, e outros passaros
similhantes, de cores variadas, e dispostas á maneira de mitra, que
amarram atraz da cabeça.
Nos braços atam braceletes tambem de pennas de diversas cores, tecidas
com fio de algodão, similhante á mitra de que acabamos de fallar.
Nos rins usam de uma roda de pennas da cauda de ema,[15] presa por dois
fios d’algodão, tinctos de vermelho, cruzando-se pelos hombros a maneira
de suspensorios, de sorte que ao vel-os emplumados, dir-se-hia que são
emas, que só tem pennas nestas tres partes do corpo.
Na verdade, quando os vejo assim lembro-me do que antigamente disse Job
no cap. 39. _Penna struthionis similis est pennis Erodii et Accipitris_:
a penna de ema é igual a da garça real e do gavião: esta passagem é
claramente explicada por diversas licções ou versões dos Gregos e dos
Romanos, que tinham por costume apresentarem os coroneis aos capitães e
soldados pennas d’ema para collocarem em seos capacetes e morriões afim
de animal-os á guerra.
Quiz saber por intermedio do meu interprete porque traziam sobre os
rins estas pennas de ema: responderam-me, que seos paes lhes deixaram
este costume para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando
a ema, pois quando ella se sente mais forte ataca atrevidamente o
seo perseguidor, e quando mais fraca abre suas azas, despede o vôo e
arremessa com os pés areia e pedras sobre seos inimigos: assim devemos
fazer, accrescentavam elles. Reconheci este costume da ema, vendo uma
pequena, creada na aldeia de _Vsaap_, que era perseguida diariamente
por todos os rapasinhos do lugar: quando eram só dois ou tres, ella os
accommettia, e dando-lhes com o peito, atirava-os por terra, porem quando
era maior o numero preferia fugir.
Estou certo, que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de
dizer, mas tambem como é possivel buscarem estes selvagens, meios de
governarem-se entre as praticas animaes: si se lembrarem porem que o
conhecimento das hervas medicinaes foi ensinado aos homens pela cegonha,
pela pomba; pelo viado e pelo cabrito; que a maneira de fazer a guerra
e postar sentinellas foi colhida das aves chamadas grous; que a bondade
do estado monarchico foi a principio observado entre as abelhas; que os
architectos com as andorinhas aprenderam a fazer abobadas; que o proprio
Jesus-Christo nos mandou observar o milhafre, o abutre, a aguia e o
pardal, desapparecerá a admiração, e especialmente si acreditarem, que
estes selvagens imitam com a maior perfeição possivel os passaros e
animaes do seo paiz, o que elles exaltam nos cantos que recitam em suas
festas.
Por que nos passaros de sua terra predominam as cores verde-gaio,
vermelho e amarello elles gostam de pannos e vestidos destas tres cores.
Por que as onças e os javalis são os animaes mais ferozes do mundo,
elles arrancam os seos dentes e os trazem nos labios e orelhas afim de
parecerem mais terriveis.
As pennas das armas são postas nas extremidades dos arcos e das flexas.
Assim preparados bebem publicamente o vinho de _muay_, e dizem adeos aos
que ficam.