Da construcção do Forte de São Luiz, e do interesse dos selvagens em
carregar terra.
Chegado o tempo proprio de trabalhar nas fortificações da praça designada
á defeza dos francezes, fincada a madeira segundo o plano dado para
servir de cercadura ao _Forte_, e de sustentar as terras, mandou-se então
avisar por todas as aldeias da ilha e da provincia de Tapuytapera,[6]
que viessem Indios uns após outros conduzir a terra tirada dos fossos
para os terraços das cortinas, esporões e plata-formas, depois cobertas
por grandes e grossas _Apparituries_, «mangues» arvores duras como ferro
e incorruptiveis; de forma que seria contra ella quasi inutil o tiro do
canhão, e mui difficil a escalada: assim se disse e assim se fez: de
todas as aldeias pouco a pouco vinham os selvagens com suas mulheres
e filhos, trazendo viveres para o tempo, que calculavam demorar-se no
trabalho, e sempre debaixo das ordens dos seos Principaes, costume
que geralmente observam, trazendo-os sempre na frente da Companhia,
fazendo-lhes a natureza conhecer, que o exemplo dos superiores anima
infinitamente os inferiores.
Mais do que nós são elles fieis á natureza, pois vemos o contrario na
Republica Christã, d’onde provem os erros e a corrupção dos costumes,
porque ainda que devamos prestar attenção somente á doutrina e não
entregarmo-nos a má vida, os fracos fazem o que querem sem cuidar do máo
nome, que adquirem.
Apenas chegavam estes selvagens entregavam-se ao trabalho com
incomparavel dedicação, mostrando na voz e nos gestos admiravel coragem,
parecendo antes que iam á um festejo de casamento do que para o serviço,
rindo e brincando uns com os outros, correndo dos fossos para os terraços
com uma especie de emulação para vêr quem dava mais caminhadas, e
conduzia maior numero de cestos de terra.
Notareis agora, que não ha ninguem no mundo mais infatigavel do que
elles, quando de boa vontade trabalham em qualquer coisa; não cuidam em
comer e beber com tanto que tenham á sua frente o seu chefe, e quando
encontram difficuldades, por maiores que sejam, riem, cantam e gritam
para se animarem reciprocamente.
Se ao contrario o tractardes com asperesa e ameaças, nada farão que
preste, e conhecendo o seo natural nunca constrangem seos filhos e nem
seos escravos, e antes os governam com doçura.
O francez, especialmente os nobres, tem igual naturesa; não soffrem
constrangimento, porem não duvidam expôr sua vida, afim de comprirem as
doces ordens dos seos Principes: bello argumento para convencer os que
governam, que mais vale a doçura e clemencia do que o rigor e a força,
respeitando assim o natural da Nação francesa.
Não trabalhavam somente os homens e sim tambem as mulheres e os
filhinhos, aos quaes elles davam pequenos cestos, para carregar terra
conforme suas forças.
Vi muitos meninos, apenas com dois ou tres annos d’idade, fazer a carga
com suas mãosinhas e não ter força para conduzil-a.
Perguntei a alguns velhos porque consentiam que trabalhassem os meninos,
servindo isto para distrahir os que os vigiavam, especialmente seos
paes, que assim não podiam adiantar a tarefa, achando-se elles sempre
em perigo, ou por estarem nùs apezar de tenrinhos, ou por poderem ser
feridos pelo desabamento de algum pedaço de terra, ou por alguma pedra,
que se desprendesse do monte.
Respondeo-me assim o interprete. Temos muito prazer vendo nossos filhos
comnosco trabalhando n’este _Forte_, para que um dia digam á seos filhos
e estes a seos descendentes «eis a Fortalesa, que nós e nossos paes
fizemos para os Francezes, que trouxeram Padres, que levantaram casas a
Deos, e que vieram defender-nos de nossos inimigos.»
É mui commum esta maneira de communicar á seos filhos o que entre elles
se passa, já que por escriptos não podem fazel-o aos vindouros, e ir
assim á posteridade.
Para nada esquecer, como que gravam na memoria as occorrencias, e só
d’esta maneira se pode explicar como contam muitas coisas passadas nos
seculos, em que viveram seos avós, ou no tempo da sua mocidade: vão
passando por esta forma o que sabem a seos filhos, como ainda diremos
ádiante.
Desejaria muito, que nossos Paes assim se empenhassem para gravar no
coração de seos descendentes...
* * * * *
... mente e em abundancia, os selvagens lançam fogo nos espinhaes e
moutas, onde se recolhem esses reptis.
Ha de tres qualidades:[7] uma de terra, que mora nos mattos; outra de
agoa doce, que mora nas margens dos rios e lugares pantanosos: a ultima,
é do mar, e a que vem pôr seos ovos na areia, que fica bem perto, e onde
os occultam com geito. Parece-se muito com os ovos de galinhas, menos na
casca, que não é tão dura, e sim mais flexivel e molle, nem tão grossos
e agudos, e sim mais redondos, porem muito saborosos, quer comidos na
casca, quer de outra qualquer maneira.
Nas margens d’este rio encontram-se arvores medicinaes, muito melhores do
que as que se achavam commummente, como eu e muitos dos meos companheiros
verificamos: alem d’esta virtude, são mais fortes que as do Levante,
mostrando a experiencia que uma onça d’estas faz tanto effeito como duas
d’aquelle paiz. Sendo bem preparadas certas composições são excellentes
laxantes, e assim conservam o corpo para seo beneficio. Existem bellos
prados, largos e compridos á perder de vista, que produzem herva fina
e macia. Encontra-se a piteira, de cujos productos se fazem na China
muitos tafetás: crescem seos ramos como a cauda de um cavallo, tem a
bellesa da seda e é ainda mais forte. A terra é forte e feraz e produz
com mais certesa, que a do _Maranhão_, ou de suas visinhanças, e dizem-me
que dá duas colheitas annualmente. As florestas são altas, virgens, e
ricas de muitas especies de madeiras, quer proprias á tincturaria, quer
á medicina, e asseguram-nos os selvagens, que lá moram, a existencia ahi
do _pau brazil_. No meio d’estas florestas, ha muitos viados, capivaras,
cabras, vaccas bravas[8] e javalis, e em poucas horas matareis tantas
quantas precisardes, e para que não me accusem de hyperbolico, invoco
o testemunho dos que viajaram pelo _Miary_, e hoje se acham em França:
se lerem isto, dirão que são estas as informações, que me deram, e que
os selvagens, remadores das suas canoas, lhes traziam tanta caça, que
d’ella não sabiam o que fazer.
Contou-me um fidalgo, que andou n’essa viagem, haver morto com um só tiro
tres javalis,[9] o que não poderia acontecer se estivessem espalhados.
Ha muitas arvores carregadas de cortiço de mel de abelhas, as quaes são
mais pequenas e franzinas do que as nossas, porem mais industriosas, pois
fabricam mel excellente, liquido, e tão claro como agua potavel pura,
guardado em pequenas celulas de cera da grossura da casca de um ovo,
similhantes na forma á nossas garrafinhas de vidro, e penduradas com
alguma ordem n’uma arvoresinha de cera, que se acha encostada ou presa
pelos ramos ao tronco, ou nas cavidades das arvores das florestas ou dos
prados.
Com este mel fabrica-se vinho muito forte e quente para o estomago,
similhante na côr e no gosto ao de Canaria. Nossa gente, quando por lá
andou, fez algum vinho, e com elle embebedou-se.
Existe tambem ahi uma especie de mel, impropriamente, assim chamado,
porque é tão azedo, como vinagre, e fabricado por outra especie de
abelhas.
Alguns dias depois que ahi chegou nossa gente, procuraram os
_Tabajares_,[10] e suas habitações: encontraram, não os que procuravam, e
sim os _Aiupaues_,[11] e caminhos recentemente abertos.
Vendo que diminuia a farinha, da qual apenas poderia ter quanto bastasse
para regressar a Maranhão, essa mesma muito pouca, deliberou regressar
com os seos selvagens, deixando ahi somente dois escravos _Tabajares_,
a quem deram farinha para um mez, e diversos generos, promettendo-lhes
liberdade com certesa, e boa recompensa si fossem procurar e achassem
seos similhantes, o que acceitaram e cumpriram aproximando-se das suas
aldeias e gritando para não serem flexados, visto andar esta Nação em
guerra com uma outra visinha. Aos seos gritos accudiram muitos, aos
quaes contaram o que traziam, como estavam em Maranhão os francezes
bem fortificados, que entre elles se achavam os Padres, que os foram
procurar; mas que se viram obrigados a retirar-se por falta de farinha,
sendo elles escolhidos para ir procural-os, e dando-lhes os presentes
fortaleciam mais as suas palavras, mormente sendo proferidas por dois
individuos, seos conhecidos, que foram escravisados na guerra pelos
_Tupinambás_.
Bem podeis calcular como elles ficaram alegres com as noticias dadas
pelos _Tabajares_. Ahi descançaram por tres ou quatro mezes para contarem
tudo bem a sua vontade, e regressamos com nossa gente para a Ilha.