Partida dos francezes para o Amazonas em companhia dos selvagens.
Antes que entre na materia, convem narrar o que me disseram os selvagens
relativamente á verdade da existencia das Amazonas, porque é questão de
todos os dias se n’esses lugares ha Amazonas, e si são similhantes ás
descriptas pelos historiadores?
É voz geral e commum entre os selvagens, que ha Amazonas, e que habitam
n’uma ilha muito grande, cercada pelo grande rio do _Maranhão_, ou das
_Amazonas_, que desembocca no mar por um espaço de 50 legoas de largura:
que essas Amazonas foram antigamente mulheres e filhas dos _Tupinambás_,
que se retiraram da companhia e do dominio d’elles—seduzidas e guiadas
por uma d’ellas: que internando-se pelo paiz ao longo d’esta costa,
descobriram á final uma linda ilha, ahi se recolheram, e em certas
estações do anno acceitam por companheiros os homens das habitações mais
proximas.
Si párem um menino pertence ao pae, que d’elle cuida logo depois de
desmamado: si porem é uma menina fica com a mãe em casa. Eis a voz geral
e commum.
N’um dia, quando os francezes andavam n’esta viagem, fui visitado por
um grande Principal, que morava muito acima n’este rio. Depois dos
seos cumprimentos, que descreverei mais adiante, me disse morar nas
ultimas terras dos Tupinambás, e que só em duas luas podia voltar do rio
_Maranhão_ á sua aldeia, e então lhe respondi admirando-me do trabalho
que tomou vindo de tão longe. Replicou-me «fui ao Pará vêr meos parentes,
quando foram os francezes guerrear nossos inimigos, e ouvindo fallar
de vós e dos outros Padres, quiz vel-os pessoalmente para dar noticias
certas aos meos companheiros.»
Por intermedio do meo interprete lhe perguntei si sua residencia era
muito longe da das _Amazonas_, e elle respondeo-me «uma lua,» isto é, um
mez para ir.
Repliquei-lhe, si tinha estado entre ellas, e si as tinha visto, e
respondeu-me «que nem uma coisa nem outra», pois nas canoas de guerra,
onde andou, se desviou da ilha onde ellas residiam.
Esta palavra _Amasonas_ lhes foi imposta pelos portuguezes e
francezes[16] pela similhança, que ellas tinham com as antigas _Amazonas_
por causa de sua separação dos homens; porem não cortam a mama direita,
e nem imitam a coragem d’essas afamadas guerreiras, mas vivem como as
outras mulheres selvagens, ageis e dextras no manejo do arco, e nuas se
defendem dos seos inimigos, como podem.
No dia 8 de julho de 1613 do porto de Santa Maria do Maranhão, partio o
Sr. Ravardiere ao som de muitos tiros de artilharia e mosquetaria, com
que o saudou o Forte de S. Luiz segundo é costume entre os militares.
Levou em sua companhia 40 soldados valentes, e 10 marinheiros, e por
cautella tambem 20 dos principaes selvagens, tanto da Ilha do Maranhão e
de Tapuytapera, como de Cumã.
Seguio para Cumã[17] onde o esperavam muitas canoas de indios, e
provendo-se de farinha seguio para _Caieté_ onde haviam 20 aldeias de
_Tupinambás_, e ahi se demorando mais de um mez, reforçou a tripolação de
sua embarcação com mais 60 escravos que lhe deram.
No dia 17 de agosto partio de _Caieté_ com muitos habitantes d’essa
localidade, e dirigio-se para a aldeia _Meron_, onde em grandes canoas
embarcou selvagens e francezes, e seguio para a embocadura do rio _Pará_:
em viagem morreo afogado um francez por ter se virado a canoa em que elle
ia, porem salvaram-se seos companheiros trepados no dorso da mesma.
O rio Pará desde a sua emboccadura para cima é muito povoado de
Tupinambás; chegando á ultima aldeia, situada á 60 legoas da sua
emboccadura, todos os principaes d’esses lugares lhe pediram com
instancia, que fosse guerrear os _Camarapins_,[18] os quaes são muito
ferozes, não querem paz, e por isso não poupam seos inimigos, pois quando
os captivam, matam-nos e comem-nos: poucos dias antes tinham matado
tres filhinhos d’um dos principaes dos Tupinambás d’aquellas regiões, e
guardaram os ossos d’elles para mostrar aos paes afim de causar-lhes mais
dó.
Este exercito de francezes e de Tupinambás, em numero de 1200,
sahio do _Pará_, entrou no rio de _Pacajares_, d’ahi dirigio-se ao
de _Parisop_,[19] onde encontraram _Vuacété_ ou _Vuac-Uaçú_, que
simpathisando com este movimento offereceo para reforçal-o 1200 dos seos
companheiros.
Acceitou-se apenas um pequeno numero de selvagens, que elle mesmo
acompanhou, e os encaminhou ao lugar, onde residiam os inimigos, o qual
era nas _Iuras_,[20] que são casas feitas á imitação das «_Ponte aux
changes_,» de S. Miguel de Paris, collocadas no cume de grossas arvores
plantadas n’agoa.
Foram immediatamente cercados pelos nossos, que os saudaram com 1000
ou 1200 tiros de mosquetaria em tres horas: defenderam-se porem elles
valorosamente de sorte que sobre os nossos cahiam as flexas como chuva ou
saraiva, ferindo alguns francezes e Tupinambás, porem não matando um só.
Sobre alguns dispararam-se tiros de morteiro, e de canhão,
incendiaram-se-lhes tres _Iuras_ morrendo n’essa occasião 60 indios
d’elles, o que somente servio para mais augmentar-lhes o desespero pois
antes queriam morrer do que cahir nas mãos dos Tupinambás.
Á vista d’isto resolveo-se abandonal-os com intenção de ver, si n’outra
occasião, tratados com doçura podiam ser domesticados.
Durante o medonho combate dos mosqueteiros, usaram os selvagens d’uma
traça singular pendurando os seos mortos no parapeito de suas _Iuras_, e
por meio de uma corda de algodão amarrada aos pés faziam com que elles se
mexessem.
Pelas fendas ou frestas viam os francezes estes corpos, e julgando-os
vivos contra elles faziam fogo tres e quatro vezes a ponto de ficarem
despedaçados, o que provocava os gritos e zombarias d’estes canalhas, e
somente terminou-se esta triste scena quando uma mulher acenando com um
pano branco á maneira dos parlamentares, fez com que cessasse o fogo, e
então ella gritou «_Vuac, Vuac._» Porque trouxeste estas boccas de fogo,
(fallava dos francezes por causa da luz, que sahia das caçoletas de suas
armas) para arruinar-nos, e destruir a terra?
«Pensas contar-nos no numero dos teos escravos, eis os ossos dos teos
amigos e dos teos alliados, cuja carne comi, e ainda espero comer a tua e
a dos teos.»
Pelos interpretes se lhe disse, que se entregasse afim de salvar o resto,
que havia.
Não, não, respondeo ella, nunca nos entregaremos aos _Tupinambás_,
elles são traidores. Eis aqui os nossos principaes, que morreram
victimas d’essas boccas de fogo de gente, que nunca vimos: si fôr
necessario morreremos todos, voluntariamente, como fizeram nossos grandes
guerreiros. Nossa nação é grande, e ahi fica para vingar nossa morte.
Um dos seos principaes veio n’uma canoa collocar-se á frente do nosso
exercito, trazendo n’uma das mãos um feixe de flexas, e na outra o arco,
disse: «Vinde, vinde ao combate, nada tememos, somos valentes, e eu só
por mim atravessarei a muitos.»
Chegando-se porem muito perto dos nossos soldados, um d’elles acertou-lhe
com uma balla na testa, que o atirou n’agoa ja morto.
Eram tão dextros no manejo das flexas, que atirando-as ao ar vinham
cahir na galeota, onde estavam nossos soldados, e nas canoas dos indios,
ferindo muitos.
Por isto avaliareis a coragem d’estes selvagens, maus somente pela
naturesa.
O que seriam si fossem policiados, ou conduzidos e instruidos pela
disciplina militar?