Do estado do poder temporal em sua primitiva.
Compõe-se o homem de espirito e corpo; devendo zelar em primeiro lugar
aquelle como mais nobre e depois este; pareceu-nos de muita razão cuidar
a principio nas Capellas para n’ellas abastecer o espirito com a palavra
de Deos, e do SS. Sacramento, e depois no que diz respeito áo temporal.
Assim como uma terra, ainda inculta não dá grande contentamento á
seu dono, e si elle não tivesse pão, que lhe viesse d’algures, por
certo que morreria de fome, assim tambem era sem commodidades o lugar
escolhido para a edificação da fortaleza de São Luiz, n’uma ponta de
rocha, habitada outr’ora por selvagens, que a cultivaram a seu modo,
ou para melhor dizer a esterilisaram, visto que depois de tres annos
faltaram-lhe forças para produzir couza alguma, alem de matto agreste,
sendo necessario descançar por muitos annos.
Foi a causa dos nossos soffrimentos no principio, pois apenas tinhamos
farinha de mandioca para fazer _mingau_, isto é, uma especie de papa com
sal, agua e pimenta, chamada pelos indios _Yonker_, e assim passavamos a
vida.
Quem não podia comer esta farinha secca, desmanchava-a n’agoa, e assim
alimentava-se com ella.
Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz
apenas achavam legumes bem agradaveis.
Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo
Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de
impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o
contrario.
Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir
fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a
terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente.
Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou
40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem
sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as
vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel
de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora
mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a
Ilha: são muito delicados.
Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que
manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia
aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua
Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons
francezes, seo Rei e sua Patria.
São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas
praias.
Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas,
atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra,
retalhadas e salgadas.
Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são
surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.
Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de
40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente,
em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e
refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o
sal de França e de Hespanha.
È necessario apanhal-o antes da estação das chuvas para que ellas lavem o
lugar onde elle estava.
Chegado a este ponto, dispersou-se uma parte dos francezes pelas aldeias,
conforme o costume do paiz, que é ter _Chetuasaps_, isto é, hospedes ou
compadres, aos quaes por pagamento se dava generos em vez de dinheiro.
Esta hospitalidade ou compadresco é entre elles muito intima, porque
estimam seos hospedes, como se fossem seos proprios filhos, vão caçar e
pescar para elles e conforme o seo costume entregam-lhes as filhas, que
desde então se chamam _Maria_, e tem por sobrenome o do Francez a quem
se ligam, de sorte que dizendo-se _Maria de tal_ sabe-se logo de quem é
concubina.
Com certesa não sei porque dão este nome ás concubinas: mostrei um certo
dia a um selvagem um registro da Mãe de Deos, e lhe disse _Koai Tupan
Marie_, «eis a Mãe de Deos,» _ché ai Tupan Arobiar Marie_, «creio e
conheço, que _Maria_ é a Mãe de Deos,» e _Maria_ chamamos nossas filhas
que damos aos _Caraibas_.
Este costume foi prohibido aos francezes, e si ha alguma falta á este
respeito é occultamente, e os proprios selvagens que no principio d’esta
prohibição desconfiaram da fidelidade e da amisade dos francezes, apenas
souberam, que Deos só permittia a posse da mulher por meio do casamento,
e que os Padres, Missionarios de Deos, assim o prégavam e prohibiam por
ordem do _Maioral_, mostram-se escandalisados quando vêem o contrario,
que denunciam logo a este e a nós, de maneira que qualquer francez deve
fazer seos negocios mui occultamente si não quizer ser conhecido.