O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo
acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino
filios arietum_.
«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o
que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus
Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores
ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle
dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos
santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação
das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a
turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens
apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da
infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e
ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras
do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de
Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta
Sanctorum_.
Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura
da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as
tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e
ahi continuaram os mesmos sacrificios.
Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de
infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes
tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir
as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de
Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma
bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns
da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto
para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do
Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma
bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha
de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem.
Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela
devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era
dedicada.
Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem
trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este
santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a
noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão
estranha do Altissimo á terra.
Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita
de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio
de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos
compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e
depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo
Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do
Santissimo Sacramento do altar.
Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos
depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos
no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa,
que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso
espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa.
Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o
mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este
uso.
Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a
_Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos,
com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores
chamadas _Acaiukantin_.
Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos.
A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a
saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para
onde queria.