Da construcção das capellas de S. Francisco e S. Luiz do Maranhão.[3]

O Psalmista Rei David, no seo Psalmo 28, composto em acção de graças pelo

acabamento do Tabernaculo, disse—_Afferte Domino fili Dei, afferte Domino

filios arietum_.

«Trazei ao Senhor, ó filhos de Deos, trazei cordeiros ao Senhor,» o

que Rabbi Jonathas assim explicou—_Tribuite coram Domino laudem cœtus

Angelorum, tribuite coram Domino gloriam et fortitudinem_—«dae louvores

ao Senhor, ó choros angelicos, dae ao Senhor gloria e força:» queria elle

dizer, que os Anjos bemaventurados auxiliam os homens em todos os seos

santos projectos, e especialmente quando se trata de procurar a salvação

das almas, porque caminham adiante estes felizes espiritos e rompem a

turba dos diabos, inimigos da salvação afim de soccorrerem os homens

apostolicos, incumbidos de salvarem as almas errantes nos desertos da

infidelidade, ahi comparados aos filhos dos Carneiros que saltam aqui e

ali pelos rochedos da dureza do coração, porem afagados pelas doçuras

do Evangelho se deixam guiar brandamente até a porta do Tabernaculo de

Deos, levados no grande mar do baptismo, e offerecidos á face do _Sancta

Sanctorum_.

Os primeiros sacrificios, que Deos recebeo do povo de Israel, em procura

da terra da promissão, d’onde expellio a infidelidade, foram sob as

tendas e pavilhões do Tabernaculo, porem depois edificou-se o templo, e

ahi continuaram os mesmos sacrificios.

Coisa similhante nos aconteceo quando fomos a esse paiz, cheio de

infidelidade e ignorancia de Deos, carregado de demonios, insolentes

tyrannos d’essas pobres almas captivas, levar a luz do Evangelho, banir

as falsas crenças, expellir os demonios, plantar e construir a Igreja de

Deos: durante mais de quatro mezes celebramos os santos sacrificios n’uma

bonita tenda, no meio de arvores verdejantes: partindo depois alguns

da nossa comitiva para a França em busca de auxilio, e ficando o resto

para fundar a Colonia; fizemos edificar a _Capella de São Francisco do

Maranhão_ em um bello e agradavel lugar, junto do mar, proximo de uma

bella e inexgotavel fonte, e ahi escolhi minha moradia, que um dia tinha

de servir de Convento aos Religiosos, que eu esperava para me ajudarem.

Acabou-se esta Capella na vespera de Natal e muito a proposito pela

devoção, que sempre teve o Seraphico Padre São Francisco, a quem era

dedicada.

Alem de todas as festas do anno celebrava a noite, estrellada e sem

trevas, do nascimento do verdadeiro Sol, Jesus-Christo, e tinha este

santo Padre o costume de fazer um presepio, a cujo lado passava toda a

noite contemplando o profundo mysterio da Encarnação, e da vinda tão

estranha do Altissimo á terra.

Na verdade enchia-me de immenso prazer vendo n’esta capellinha, feita

de madeira, coberta de folhas de palmeiras, mais similhante ao presepio

de Belem do que esses grandes e preciosos templos da Europa, os nossos

compatriotas francezes cantarem os psalmos e matinas d’esta noite, e

depois de purificados pelo Sacramento da penitencia receberem o mesmo

Filho de Deos no presepio dos seos corações, envolvido nas faixas do

Santissimo Sacramento do altar.

Festejamos tambem o dia de natal; a noite prégamos, o que sempre fizemos

depois das festas e nos domingos, e com prazer, embora muito soffressemos

no principio: em quanto durou esta devoção corria o tempo tão depressa,

que o dia parecia ter somente duas horas; e assim achando-se o nosso

espirito preoccupado com obras piedosas sentia a morte vir tão depressa.

Não fui eu só que senti isto, muitas outras pessoas depois me disseram o

mesmo, e em quanto me permittio a saude, observou-se, e sem enfado, este

uso.

Augmentou-se ainda mais esta devoção quando se edificou no _Forte_ a

_Capella de São Luiz_,[4] á imitação das Igrejas dos nossos Conventos,

com madeira, cercada e cuberta de ramos fortes, cortados das arvores

chamadas _Acaiukantin_.

Ahi celebrei missas, cantei vesperas, préguei e baptisei os cathecumenos.

A tarde tocava o sino, todos se reuniam n’esta capella, onde se cantava a

saudação angelica, implorava-se a graça divina, e depois cada um ia para

onde queria.

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 26 / 277 题