O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.
O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.
O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.
Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes
agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e
desde esse momento para ella se acharam promptos.
Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se
confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como
Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil,
deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem
hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos.
Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem
credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos
adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem
solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por
varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes
da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto
dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades
dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em
acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam
o apellido de «_Apostolo da França_.»[M]
Tem a data de 12 de agosto de 1611 as _Cartas de obediencia_, que os
Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse
embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly,
lugar-tenente do Rei.
Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou
Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos
pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação
forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação,
que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre
Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas
difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma
installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de
desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela
morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes
de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal.
Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso
missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos.
O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel
resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando
vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo
amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar
a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de
Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de
Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para
explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno
missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que
então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato.
O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614
deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615.
Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão
elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e
especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica
durante a sua administração.
N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e
descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos,
e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke,
que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.
Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer
importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida
do Padre Ivo, nomeiado director dos missões _nas Indias orientaes e
occidentaes_. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do
Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam.
Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel
impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por
Francisco de Razilly.
Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar:
infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles
havia um historiador, cuja _Narração_, nos parece de facto perdida, por
não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas
com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O]
O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos
gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da
fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do
seculo e lembranças mundanas.
Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas
herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão,
e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde
exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida
pelos membros da Communidade.
Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da
grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos
remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho.
Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos
selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja
sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida
á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como
beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto,
onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke,
cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se
com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com
tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida
era prevista em Pariz como difficil.
Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes
ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo
satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos
ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram
do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um
phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa
do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba
souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da
França n’aquelles lugares.
Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao
abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia
temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com
pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes
da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre
Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente.
Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo
d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente
Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da
esquadra.
Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava
em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das
fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_.
Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia,
basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz.
Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das
cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio
das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam
dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos
medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem
essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux
não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio
coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois
de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.
Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e
nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos
Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.
Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem
relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do
acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se
suspeita.
O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão,
completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não
nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á
Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]
Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que
cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento
principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos
hoje, que elles previram o máo exito da missão.
Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem
quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux
e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até
appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a
chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»
O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo
Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo,
que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis
á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega
a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte
meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e
de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da
Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam
narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro,
se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de
Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas,
que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um
extracto do seo contheudo.[S]
Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos
confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que
regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou
á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido
d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.
Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o
Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos
acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades
da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que
Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.
Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com
interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve
compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não
se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o
Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.
A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico
Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do
que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas,
expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo
estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de
1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde
combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição
sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.
De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23
d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de
novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500
indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se
ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as
ordens do seu chefe mais experiente do que elle.
Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar
da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado
o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace
seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes
appellaram ambas as partes belligerantes.
Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens
mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi
a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então
ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força
é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em
3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o
_Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade
manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o
Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde
partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo
rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]
Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a
florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma
Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim
felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir
das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com
isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de
bom gosto.[V]
Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a
sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o
bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.
Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o
appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15
annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio
completa e absolutamente.
Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio
d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por
Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo
companheiro, foi inteiramente dilacerado.
Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e
esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em
ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.
É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de
Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São
Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade
as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.
Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é
sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.
Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa
hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar
qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.
Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio,
e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um
projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha,
chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos
incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com
toda a calma e conveniencia.
Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava
muito interesse á obra e ao seo auctor.
Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava
todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo
de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de
uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que
hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso
inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar:
ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado
começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por
si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram
a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão
importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o
Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas
da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo,
tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de
Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.
O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres
pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações
eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos
ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas
paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo
o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha,
e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas
navegações.
O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes
da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.
Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta
noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o
feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão
sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis
noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso
bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro
apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma
serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos
_antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do
Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de
Sant’Pierre do 16º seculo.
Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco
desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em
casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.
Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos
amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos
de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo.
Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas,
e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante,
e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser
consultados quando se tracta dos tempos primitivos.
O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais
illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas,
que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio,
mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!
O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi
lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que
exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de
suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor
do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre
as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios,
e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.
Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima
para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la
Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude
o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria
na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O
Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.
Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que
sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco
para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se
baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]
Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos
um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os
principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não
aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos
os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão
noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S.
Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal
d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia
procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em
Pariz.
Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se
experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros,
que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes
apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais
ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas
primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.
D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em
algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga
brasileira.
Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e
comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular
attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados
com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a
tranquillidade de suas existencias.
Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo,
percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que
não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]
Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto
Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em
imital-os.
Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis
artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito
agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]
Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela
independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que
habitam.
Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é
n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro
quasi a exhaurir-se.
Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos
durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais
alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a
singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os
grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções
os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela
verdade.
Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim
tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer
extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.
Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta
dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados
em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.
Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á
respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que
então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem
duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo
servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle
o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se
pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo
companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança
dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não
sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a
ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas
ideias religiosas do grande povo da costa.
Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas,
que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa
facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham
representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas.
Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e
embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos,
é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em
varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio
das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados
que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham
das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de
que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que
estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos
escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa
litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão
observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.
Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio
do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante
portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de
Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]
Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou
os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as
aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela
importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se
deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos
indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha
pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens,
e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a
saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.
A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de
grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de
provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim
para os francezes tem outro genero de merecimento.
Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida
de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem
dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o
seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores
da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo
d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos
antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão
bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que
elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.
Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter
sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o
Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se
teria entristecido profundamente.
Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado
capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco
designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do
Pará.
Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da
risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.
Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da
parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos
para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official
chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas
riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal
expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.
Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e
viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador;
mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos
alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no
districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo
ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns
indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um
Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da
passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.
Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos
chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma
abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido,
atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.
Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado
d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos
acontecimentos precedentes.
Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque
promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e
vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás.
As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si
indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á
principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova
fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e
espontaneamente, aldeias mui longinquas.
Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em
breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a
segurança e boa fé.
Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos
francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S.
Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma
Cidade européa.
Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos
tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram
grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua
independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa
de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados.
Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás
margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia,
e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo
não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de
mosquetaria.
Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava
em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados,
descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que
descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez,
que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se
com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de
50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.
Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista
de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito
ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha
em reserva.
Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o
genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos;
foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617
derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das
florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é
que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia
feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco
Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.
Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres
companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a
fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se
lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio,
em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava
terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos
por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes.
Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme
de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos
desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais
cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram
religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes
de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro
religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim
foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a
cathequese no Pará.[AJ]
Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante
terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos
missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão
dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles
com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles
terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos
antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse
tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é
que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.
Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum
tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho.
Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e
do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os
nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e
hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração
humana.[AL]
Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos
Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet,
e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de
laboriosas fadigas os elementos do seo livro.
Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o
illustre Martius observou tantas tribus desimadas.
Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje
ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses
indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação
d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de
visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta
menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará
e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração.
Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis
productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie
de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire
Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes
sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto
d’uma vasta publicação.[AM]
Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se
n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima
dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do
Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas,
fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do
programma de Martius.
Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos
religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem
sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o
momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá
todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo
d’Evreux.
Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas
pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens,
habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou
a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas
por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas
não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do
Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem
duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim
como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do
Maranhão.[AN]
Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos
nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com
cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes
homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos,
mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO]
Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas
pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no
mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.
N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem
moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que
buscavam converter.
Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre
Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma
lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das
florestas.
Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a
sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios
incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que
ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP]
Voltemos ao nosso piedoso viajante.
Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram
estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não
fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao
novo mundo.
Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e
por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento
da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido
nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de
Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil,
simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo
seo amor á humanidade.
Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux
ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo
Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao
Convento de Andelys.
N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o
nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da
natureza e a frescura das paisagens.
É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para
conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem
distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento
pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se
deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia.
Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com
raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova,
que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo.
Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e
coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado
pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem
respondeu somente.
Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu
adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos
deo o segundo, para nós uma especie de revelação.
É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o
Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e
João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR]
Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario,
bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o
apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias
discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida
lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na
Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz,
em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas
pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto
quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem
poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito
de seos esforços.
Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e
mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi
denunciado ao parlamento.
João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven,
ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena
Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS]
Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas
deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo
escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção
da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma
sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de
50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT]
Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim
limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura
indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor
da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes
dignas de censura.
Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que
seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo:
bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado
deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem
fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.
De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux;
comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo
nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que
nunca viram a obra do Padre Ivo.
Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW]
ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão
particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem
mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da
impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro,
proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY]
e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos
Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a
colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de
Ruão.
O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello,
livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle
tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo
titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por
elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio
d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA]
Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande
Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux
alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito
de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á
respeito do Maranhão.
É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão
vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses.
Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal
succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo
Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca
mais regressou á America do sul.
Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de
maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para
segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos
piratas.
Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos
de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha
feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a
Narração de suas viagens pela America do sul.
Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio
minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta
especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de
muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa
epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão.
Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda
das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do
Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este
grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do
que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as
de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade.
A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente
descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora.
Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles
adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta
especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos
pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios
historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o
escripto em questão.
Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir
documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por
ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os
escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para
se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se
conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim
dizer, revelado pelo nosso Missionario.