O muito veneravel Padre Ivo d’Evreux, superior.[L]

O muito veneravel Padre Claudio d’Abbeville.

O muito veneravel Padre Arsenio de Paris.

O muito veneravel Padre Ambrosio de Amiens.

Ajoelharam-se os escolhidos diante do Padre Leonardo, e humildemente lhes

agradeceram tal honra; foi-lhes annunciada a proximidade da viagem, e

desde esse momento para ella se acharam promptos.

Não ha a menor duvida á respeito da qualidade do Religioso, a quem se

confiou a direcção das missões do Maranhão, e não se comprehende como

Berredo, antigo Governador da Provincia, que foi autoridade no Brazil,

deo o titulo de Superior á Claudio d’Abbeville, que occupa na ordem

hierarchica o lugar immediato ao digno Missionario director dos trabalhos.

Certamente era necessario que o Padre Ivo ja tivesse adquirido na Ordem

credito inabalavel para que fosse preferido aos tres religiosos, seos

adjuntos. Eram sacerdotes todos tres; como elle deram provas de possuirem

solida instrucção, e o terceiro até, ja muito adiántado na carreira, por

varias vezes tinha occupado certos empregos honrosos, signaes evidentes

da consideração de seos superiores. O Padre Ambrosio éra alem d’isto

dedicado com ardor á todas as obras de caridade, durante as calamidades

dos ultimos annos do seculo, sendo muito conhecida sua bondade sempre em

acção: suas prédicas fervorosas, bem acolhidas pelo povo, lhe grangearam

o apellido de «_Apostolo da França_.»[M]

Tem a data de 12 de agosto de 1611 as _Cartas de obediencia_, que os

Superiores deram ao Padre Ivo d’Evreux, e lhe ordenaram, que fosse

embarcar-se no porto de Caucale n’um navio sob o commando de Rzailly,

lugar-tenente do Rei.

Não devemos repetir aqui o que em termos percisos e apropriados contou

Claudio d’Abbeville na primeira parte de sua narração a respeito dos

pormenores da longa viagem dos missionarios até o Brazil, da separação

forçada da flotilha, que os conduzia, e das peripecias d’esta navegação,

que durou cinco mezes. O que porem podemos affirmar é que o Padre

Ivo não soffreu somente o aborrecimento de uma viagem maritima, cujas

difficuldades não se pode agora imaginar, e que aos cuidados de uma

installação penosa vieram reunir-se fadigas imprevistas, e depois de

desembarcado, dores pungentes, como fossem as que elle experimentou pela

morte do digno Padre Ambrosio, e em seguida os soffrimentos provenientes

de uma molestia, que o forçou a regressar, e da qual foi victima afinal.

Tudo isto foi narrado com simplicidade e dignidade por tão zeloso

missionario, e sem duvida muito melhor do que o fariamos.

O que não disse o pobre Monge, cuja exquisita sensibilidade e admiravel

resignação se revelam tantas vezes, foi o pezar, que experimentou quando

vio, que da coragem imprudente de Pésieux resultou a morte d’este seo

amigo, sem que o valor de Ravardiere podesse ser bastante para sustentar

a Colonia; o que tambem não poude contar foi a perda das funcções de

Superior da missão, que devia assumir antes do triumpho das armas de

Jeronymo d’Albuquerque, e da expulsão definitiva dos francezes. Para

explicar essas circumstancias, não mencionadas de forma alguma pelo digno

missionario, é indispensavel fallar-se da situação administrativa em que

então se achava o grande Convento da rua de Santo Honorato.

O Padre Leonardo, tão afamado entre seos irmãos de habito, em 1614

deixou de ser Provincial, e só poderia ser reeleito no anno de 1615.

Foi substituido pelo veneravel Honorato de Champigny,[N] e com razão

elogiam-se os melhoramentos de toda a natureza, a actividade, e

especialmente a distribuição de soccorros caridosos, postos em pratica

durante a sua administração.

N’esta epocha, um Religioso estrangeiro, natural da Escossia, e

descendente de uma boa familia, attrahia a si os olhares de seos irmãos,

e póde dizer-se até os da propria França, o Padre Archanjo de Pembroke,

que veio substituir de alguma forma o Padre Angelo de Joyeuse.

Eleito Provincial em 1609, e não deixando depois d’isto d’exercer

importantes encargos, foi este Capuchinho, logo depois da partida

do Padre Ivo, nomeiado director dos missões _nas Indias orientaes e

occidentaes_. Os motivos, que fizeram abandonar mais tarde a missão do

Maranhão, não foram declarados, ou para melhor dizer, não existiam.

Archanjo de Pembroke resolveo ir pessoalmente ao Brasil dar consideravel

impulso á pequena missão, que alguns mezes antes havia sido derigida por

Francisco de Razilly.

Para este fim escolheo onze religiosos, de cujo zelo podia confiar:

infelizmente ignoram-se os seos nomes, e apenas se sabe que entre elles

havia um historiador, cuja _Narração_, nos parece de facto perdida, por

não ter sido possivel encontral-a, apezar de todas as pesquizas feitas

com constancia e perseverança por muitos mezes em Pariz, Ruão e Madrid.[O]

O Padre Francisco de Bourdemare pertenceo á classe d’esses ricos

gentis-homens, que após á saciedade de todas as superfluidades da

fortuna, de repente suffocam n’um carcere o que se chama orgulho do

seculo e lembranças mundanas.

Havia ja alguns annos, que era viuvo: á seo filho entregou todas as suas

herdades, e depois foi sepultar-se nos Mosteiros de Orleans e de Ruão,

e d’ahi mudou-se para o Convento da rua de Santo Honorato em Pariz, onde

exhibio diariamente, dizem, provas de humildade muito alem da exigida

pelos membros da Communidade.

Gentil-homem notavel, não havia muito, pela sua elegancia, na epocha da

grandeza, anterior ao fausto de Luiz XIV, então somente trazia vestidos

remendados, e ainda á sua pobreza juntava o habito de Capuchinho.

Completar o seu martyrio dedicando-se fervorosamente á conversão dos

selvagens, pareceo-lhe coisa tão natural como invejavel; este homem, cuja

sociedade tinha sido tão procurada, e cuja instrucção era tão solida

á ponto de poder escrever em latim uma obra volumosa, encarou como

beneficio dos Definidores da sua Ordem o ser mandado a um paiz deserto,

onde faltassem todos os recursos na vida: elle e Archanjo de Pembroke,

cuja existencia tinha sido ainda mais brilhante que a sua, embarcaram-se

com outros dez Monges n’um navio commandado pelo bravo Pratz, que com

tresentos colonos novos ia soccorrer Ravardiere, cuja situação sem duvida

era prevista em Pariz como difficil.

Cheios de presentes pelos senhores da Córte de Luiz XIII com os quaes

ainda bem recentemente elles entretinham relações diarias, e sobretudo

satisfeitos por levarem ao modesto Convento do Maranhão os bellos

ornamentos feitos pelas proprias mãos da Duqueza de Guise, partiram

do Havre, e pode dizer-se, que para aquelle tempo foi por certo um

phenomeno, pois apenas gastaram dois mezes e meio para chegarem á costa

do norte do Brazil, porem apenas vellejavam ainda na bahia de Guaxenduba

souberam logo do estado lastimoso, em que se achavam os negocios da

França n’aquelles lugares.

Não ignoravam os Missionarios, que pelo seo Instituto se achavam ao

abrigo das eventualidades politicas, que o resto da expedição podia

temer (por exemplo não podiam ser prisioneiros): foram, como que com

pompa, para o seo Convento em S. Luiz, e comsigo levaram os presentes

da Duqueza de Guise, porem apenas acharam ahi um só religioso, o Padre

Arsenio de Pariz,[P] e esse mesmo muito doente.

Mais doente ainda, que seo unico companheiro se achava o Padre Ivo

d’Evreux, quando soube, estar substituido como Superior do nascente

Mosteiro, e é provavel, que elle embarcasse a bordo d’algum dos navios da

esquadra.

Dizem os documentos que temos á vista, que n’esse tempo elle se achava

em inacção, victima d’uma paralysia geral, consequencia provavel das

fadigas, a que diariamente se entregava no _Fórte_.

Para explicar a invasão lenta, porem continua, de tão triste molestia,

basta recordar agora o que era então a nascente cidade de S. Luiz.

Embora seja hoje, e com razão, esta risonha Capital considerada uma das

cidades mais saudaveis do Imperio do Brasil, então apenas surgia do seio

das florestas: os miasmas deleterios, que constantemente se desprendiam

dos logares recentemente desbravados, a falta absoluta de certos

medicamentos energicos, apropriados a combater com decidida vantagem

essas influencias paludosas: tudo isto explica como o Padre Ivo d’Evreux

não poude esperar pelo resultado da guerra começada, e como se vio

coagido a regressar para a Europa, receiando ser pesado á missão depois

de haver sido o seu agente mais activo e o seu sustentaculo mais dedicado.

Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e

nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos

Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.

Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem

relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do

acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se

suspeita.

O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão,

completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não

nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á

Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]

Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que

cantaram um _Te-Deum_ no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento

principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos

hoje, que elles previram o máo exito da missão.

Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem

quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux

e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até

appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a

chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»

O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo

Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo,

que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis

á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega

a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte

meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e

de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da

Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam

narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro,

se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de

Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas,

que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um

extracto do seo contheudo.[S]

Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos

confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que

regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou

á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido

d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.

Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o

Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos

acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades

da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que

Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.

Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com

interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve

compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não

se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o

Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.

A _Historia Geral do Brasil_, publicada ultimamente pelo veridico

Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do

que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas,

expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo

estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de

1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde

combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição

sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.

De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23

d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de

novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500

indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se

ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as

ordens do seu chefe mais experiente do que elle.

Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar

da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado

o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace

seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes

appellaram ambas as partes belligerantes.

Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens

mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi

a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então

ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força

é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em

3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o

_Forte de São Luiz_ á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade

manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o

Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde

partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no _Forte de Belem_ soffreo

rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]

Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a

florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma

Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim

felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir

das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com

isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de

bom gosto.[V]

Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a

sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o

bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.

Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o

appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15

annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio

completa e absolutamente.

Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio

d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por

Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo

companheiro, foi inteiramente dilacerado.

Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e

esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em

ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.

É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no _Forte de

Belem_, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São

Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade

as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.

Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é

sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.

Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa

hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar

qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.

Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio,

e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um

projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha,

chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos

incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com

toda a calma e conveniencia.

Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava

muito interesse á obra e ao seo auctor.

Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava

todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo

de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de

uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que

hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso

inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar:

ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado

começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por

si ou por _meios_ subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram

a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão

importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o

Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas

da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo,

tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de

Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.

O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres

pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações

eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos

ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas

paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo

o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha,

e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas

navegações.

O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes

da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.

Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta

noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o

feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão

sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis

noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso

bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro

apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma

serie de artigos, que publicava a _Revista de Pariz_ a respeito dos

_antigos viajantes francezes_, e na verdade sem desvantagem, ao lado do

Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de

Sant’Pierre do 16º seculo.

Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco

desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em

casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.

Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos

amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos

de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo.

Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas,

e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante,

e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser

consultados quando se tracta dos tempos primitivos.

O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais

illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas,

que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio,

mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!

O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi

lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que

exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de

suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor

do _Timon_, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre

as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios,

e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.

Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima

para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la

Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude

o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria

na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O

Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.

Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que

sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco

para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se

baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]

Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos

um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os

principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não

aconteceo. _Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos

os illustres religiosos da Provincia de Pariz_ infelizmente só dão

noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S.

Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal

d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia

procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em

Pariz.

Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se

experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros,

que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes

apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais

ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas

primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.

D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em

algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga

brasileira.

Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e

comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular

attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados

com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a

tranquillidade de suas existencias.

Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo,

percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que

não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]

Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto

Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em

imital-os.

Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis

artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito

agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]

Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela

independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que

habitam.

Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é

n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro

quasi a exhaurir-se.

Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos

durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais

alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a

singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os

grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções

os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela

verdade.

Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim

tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer

extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.

Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta

dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados

em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.

Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á

respeito do culto do _maracá_, guardam silencio relativamente ao que

então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem

duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo

servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle

o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se

pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo

companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança

dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não

sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a

ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas

ideias religiosas do grande povo da costa.

Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas,

que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa

facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham

representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas.

Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e

embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos,

é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em

varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio

das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados

que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham

das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de

que entre elles encontraram se tão curiosos _especimens_. Note-se, que

estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos

escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa

litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão

observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.

Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio

do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante

portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de

Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]

Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou

os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as

aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela

importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se

deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos

indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha

pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens,

e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a

saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.

A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de

grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de

provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim

para os francezes tem outro genero de merecimento.

Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida

de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem

dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o

seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores

da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo

d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos

antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão

bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que

elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.

Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter

sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o

Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se

teria entristecido profundamente.

Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado

capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco

designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do

Pará.

Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da

risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.

Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da

parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos

para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official

chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas

riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal

expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.

Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e

viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador;

mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos

alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no

districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo

ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns

indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um

Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da

passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.

Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos

chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma

abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido,

atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.

Terrivel carnificina, onde pereceram todos os brancos, foi o resultado

d’esta astucia do indio, bem facil de ser acreditada á vista dos

acontecimentos precedentes.

Espalhou-se pelo littoral a noticia d’este facto. Mathias de Albuquerque

promptamente regressou ao campo onde se deram scenas tão tristes, e

vingou seos compatriotas exterminando sem piedade os Tupinambás.

As tribus, que moravam mais longe, insurgiram-se, e formaram entre si

indissoluvel alliança, animando-as implacavel vingança, apezar de serem á

principio tão pacificas, e de se acharem tão dispostas á abraçar a nova

fé, que lhe tinha prégado o Padre Ivo d’Evreux. Levantaram-se tambem, e

espontaneamente, aldeias mui longinquas.

Jeronymo d’Albuquerque expedio contra ellas tropas aguerridas, e em

breve o incendio e a morte substituio as festas, que faziam com toda a

segurança e boa fé.

Tinham apenas passado tres annos depois da partida dos capuchinhos

francezes, e por isso era no principio do anno de 1617. A Cidade de S.

Luiz do Maranhão, activamente edificada, começou a tomar o aspecto de uma

Cidade européa.

Este progresso inquietava os selvagens, que á custa de seos soffrimentos

tornaram-se previdentes; forçados á deixar o sul do Brazil procuraram

grandes florestas, e abrigados em seos seios esperavam recobrar sua

independencia, e para isto só tinham um pensamento—a destruição completa

de uma raça invasora, que não poude ser expellida pelos seos antepassados.

Formaram os chefes Tupinambás uma liga desde os desertos de Cumã até ás

margens do Amazonas: pretendiam assaltar de surpreza a nova colonia,

e n’um dia convencionado matariam todos os habitantes. N’esse tempo

não havia quasi indio, que não arrostasse sem medo as descargas de

mosquetaria.

Em quanto se ouvia este plano, e se trabalhava na sua execução, estava

em Tapuitapera Mathias d’Albuquerque, com pequeno numero de soldados,

descuidado de si e dos seos: entre os indios appareceu um trahidor, que

descobrio o projecto dos chefes dos selvagens ao commandante portuguez,

que não se assustando com o numero dos seos terriveis inimigos, travou-se

com elles no primeiro combate, e levou-os de vencida até á distancia de

50 legoas, ajudado em tão atrevida acção pelo bravo official Manoel Pires.

Ainda vivia, porem bem proximo do termo de sua existencia o antagonista

de Razilly e de la Ravardière: sem sahir da nova Cidade de S. Luiz muito

ajudou seo filho com seos conselhos e com remessa de soldados que tinha

em reserva.

Não se assustou Mathias de Albuquerque com as difficuldades de todo o

genero, que encontrava seo pequeno exercito n’esses immensos desertos;

foi batendo os indios pouco á pouco até que em 3 de Fevereiro de 1617

derrotou-os completamente, e obrigou-os a procurar refugio no seio das

florestas. Só então, depois de exterminadas as tribus mais temiveis, é

que o velho general se recolheo á Cidade de S. Luiz, e o que elle havia

feito nos desertos do Maranhão tinha tambem posto em pratica Francisco

Caldeira nas solidões do Pará, onde se edificava a Cidade de Belem.

Não eram estes, por certo, os sonhos de Ivo de Evreux e de seos tres

companheiros para com o Maranhão: em suas almas haviam imaginado a

fundação de uma Cidade nova, onde os corações innocentes dos indios se

lhes reuniriam para em commum louvar o Deos da paz. Ordens de exterminio,

em vez de orações, faziam em redor dos colonos um deserto que causava

terror. Seriamos injustos, se não dissesemos, que os Religiosos trasidos

por Jeronimo d’Albuquerque continuaram a missão dos Padres francezes.

Como Ivo d’Evreux e Claudio d’Abbeville, os Padres portuguezes Frei Cosme

de São Damião e Frei Manoel da Piedade, eram da Ordem dos Capuchinhos

desde 1617, isto é, desde o momento em que a guerra se tornou mais

cruel, e Bourdemare publicou seo livro: á Corte de Madrid pediram

religiosos activos, acostumados a todas as fadigas, e por isso capazes

de affrontal-as e de os ajudar. No dia 22 de julho chegaram mais quatro

religiosos a essas terras, não para o pequeno Convento de São Luiz, e sim

foram residir nas circumvisinhanças da Cidade de Belem, e d’ahi começou a

cathequese no Pará.[AJ]

Não se sabe com certesa, se estes factos historicos, que de ora em diante

terão lugar importante nos _Annaes do Brasil_, chegaram aos ouvidos dos

missionarios dedicados que tantas fadigas soffreram para a conversão

dos indios; a Europa gastou mais de dois seculos olhando para elles

com indifferença, e ainda passaram mais vinte annos depois d’elles

terminados, para então ver-se a continuação corajosa da obra dos seos

antecessores[AK] por alguns Capuchinhos do Convento de Pariz: n’esse

tempo estava Ivo d’Evreux bem proximo do termo de sua existencia, se é

que ja não se tinha acabado tão dura perigrinação para elle.

Tudo emfim estava acabado para os povos, nossos fieis alliados por algum

tempo, e aos quaes procuramos fazer comprehender as luzes do Evangelho.

Achavam-se ja embrenhados nas margens desertas do Xingù, do Tocantins, e

do Araguaya: ahi, bem longe dos colonos europeos se perpetuaram sob os

nomes de _Apiacas_, de _Gés_ e de _Mundurucus_, outrora tão temidos e

hoje tão pouco, e até pelo contrario favorecidos por uma administração

humana.[AL]

Estes primitivos senhores do Brasil fallam ainda o idioma puro dos

Tupys, cujos vestigios nos foram conservados por Ivo d’Evreux e Thevet,

e especialmente por João de Lery, antes de ter reunido por meio de

laboriosas fadigas os elementos do seo livro.

Foi nas margens destes grandes rios, ja citados, que ha quarenta annos o

illustre Martius observou tantas tribus desimadas.

Ainda agora se lastimaria muito o sabio viajante sabendo, que até hoje

ninguem colheo as ultimas lembranças, guardadas como legado por esses

indios. Quando o governo brasileiro pensou, ha pouco tempo, na creação

d’uma commissão scientifica, composta de sabios nacionaes, encarregada de

visitar os pontos mais longinquos d’esse immenso Imperio, que não conta

menos de 36° do Oriente ao Ocidente, forão o Ceará, o Maranhão, o Pará

e o Rio de Janeiro os primeiros lugares designados para a exploração.

Comprehendeo muito bem, que se havia nestas terras virgens admiraveis

productos da natureza a colher, tambem existia uma mythologia e uma serie

de tradicções historicas á salvar-se do esquecimento, em quanto Freire

Allemão, Capanema e Gabaglia faziam collecções de preciosos materiaes

sobre historia natural, geographia e meteorologia, que formaram o objecto

d’uma vasta publicação.[AM]

Um poeta historiador, estimado pelo seo paiz, corajosamente embrenhava-se

n’essas solidões incognitas para conhecer os segredos da vida intima

dos indios. Antonio Gonçalves Dias, nascido no interior da provincia do

Maranhão, familiarisado desde a infancia com as legendas americanas,

fallando a _lingoa geral_, incumbia-se de alguma forma da execução do

programma de Martius.

Bem cedo as legendas americanas, não nos animamos a dizer os mythos

religiosos dos grandes povos do littoral, nos appareceram, taes quaes tem

sido perpetuadas no interior, (graças talvez ao exilio) e quando chegar o

momento de estudar-se com afinco a ethnographia, então se comprehenderá

todo o valor das narrações sinceras de Lery, de Hans Staden, e de Ivo

d’Evreux.

Seria injustiça muito censuravel o negar-se as antigas tentativas feitas

pelos Religiosos portuguezes para a cathequese dos povos selvagens,

habitantes das regiões do Amazonas: graças a elles, em 1607, principiou

a exploração do Maranhão por essas viagens, corajosamente emprehendidas

por Missionarios vindos dos Conventos de Pernambuco. Estas tentativas

não foram perdidas para a geographia, mas quanto ao proveito do

Christianismo, ellas se terminaram em um martyrio inutil. Mais tarde, sem

duvida, a obra dos Figueiras e dos Pintos produsio seos fructos, assim

como os grandes trabalhos evangelicos suavisaram a posição dos indios do

Maranhão.[AN]

Foi ainda um escriptor francez, quase desconhecido, contemporaneo dos

nossos bons missionarios, que com muito zelo, e pode até dizer-se com

cuidado verdadeiramente piedoso, traçou o _itinerario_ seguido por estes

homens corajosos, de tempo do Padre Ivo, e sem duvida seos conhecidos,

mas que não possuiam nem a bondade e nem a sinceridade d’elle.[AO]

Conta-nos Pedro du Jarric como as immensas regiões do Brasil, cubiçadas

pela França, foram percorridas por dois Religiosos de sua Ordem, quase no

mesmo tempo, em que Ravardiere pela primeira vez explorava o littoral.

N’essa occasião Francisco Pinto e Luiz Figueira tinham grande vantagem

moral sobre os francezes, porque sabiam muito bem a lingoa dos povos, que

buscavam converter.

Muito mais moço do que o seo companheiro, martyr no apostolado, o Padre

Luiz Figueira iniciou-se, então mais do que nunca, nos segredos de uma

lingoa, já visivelmente alterada no littoral, porem pura no seio das

florestas.

Cinco annos após a impressão do volume do Padre Ivo, elle publicou a

sua _Arte de Grammatica_, e pela primeira vez depois de alguns ensaios

incompletos do seculo XVI conheceu-se os principios de um idioma, que

ainda fallava um povo corajoso, porem prestes a morrer.[AP]

Voltemos ao nosso piedoso viajante.

Se vivesse ainda, como é bem provavel, alem da epocha em que se deram

estes acontecimentos, em 1619 por exemplo, Ivo d’Evreux certamente não

fazia mais parte do grande Mosteiro d’onde outrora sahio com destino ao

novo mundo.

Póde suppôr-se, que o seo homonimo de Pariz principiava a eclipsal-o, e

por isso vivia elle longe da grande Communidade: se residisse no Convento

da rua de Santo Honorato, não é provavel que fosse de todo esquecido

nas pequenas biographias, escriptas tão liberalmente á respeito de

Religiosos, que nada escreveram, como seja, entre outros, Ivo de Corbeil,

simples irmão leigo, fallescido em 1623, apenas conhecido na Ordem pelo

seo amor á humanidade.

Temos alem d’isto a certesa de ter se recolhido o Padre Ivo d’Evreux

ao modesto Convento de sua terra natal: em 1620 estava elle em Santo

Eloy,[AQ] e suppomos ter escolhido esta residencia por ser proxima ao

Convento de Andelys.

N’estas ferteis campinas, onde se despertou o genio de Poussin, ainda o

nosso bom Missionario teve descanço bastante para admirar os risos da

natureza e a frescura das paisagens.

É possivel que em outra occasião tivesse elle oportunidade para

conservar-nos suas minuciosas observações, que hoje talvez o fizessem

distincto naturalista, mas depois da emoção impressa em seo pensamento

pela magestosa solidão das florestas seculares do Brasil, somente se

deixou captivar pelas calorosas discussões da theologia.

Um livro ainda difficil de ser obtido (a cada momento topamos com

raridades tão difficeis de serem alcançadas como a _Viagem_) nos prova,

que no seo retiro não poude resistir ao espirito do seculo.

Não tendo mais indios a converter se pôz a discutir com protestantes, e

coisa estranha, foi um dos seos compatriotas, personagem muito estimado

pelos seos correligionarios, a quem elle atacou ou talvez a quem

respondeu somente.

Ignoramos o titulo do primeiro opusculo, que elle arremessou ao seu

adversario, porem um sabio bibliographo da Normandia, o Sr. Frére, nos

deo o segundo, para nós uma especie de revelação.

É este o titulo do folheto «_Supplemento necessario ao escripto que o

Capuchinho Ivo fez imprimir relativamente as conferencias entre elle e

João Maximiliano Delangle_.» Ruão, David Jeuffroy. 1618 em 8.º[AR]

Este escripto, attribuido pelo douto bibliographo ao nosso missionario,

bem puderia não ser devido á sua propria penna, porem prova o

apparecimento de outra obra mais desenvolvida, e a existencia de serias

discussões oraes entre elle e os dissidentes. Mais agradaveis sem duvida

lhe foram sinceras discussões, que havia pouco tempo teve com Japi-Açu na

Ilha do Maranhão, onde as continuas predicas feitas no Forte de S. Luiz,

em presença de grande assembleia de indios, somente eram interrompidas

pela severa polidez, que lhes prescrevia escutar o orador em quanto

quizessem que elle fallasse, circumstancia, diga-se de passagem, que bem

poderia em algumas occasiões enganar um zeloso missionario sobre o exito

de seos esforços.

Ivo d’Evreux então achava-se a braços com um dos homens mais firmes e

mais estimados entre os protestantes, e o escripto do Religioso foi

denunciado ao parlamento.

João Maximiliano de Baux, senhor de Langle, era um ministro, joven,

ardente, natural de Evreux como o Padre Ivo, morador em Quevilly, pequena

Cidade de 1:500 a 1:600 habitantes á pequena distancia de Ruão.[AS]

Ignoramos qual o objecto da discussão, e embora todas as nossas

deligencias não vimos uma só peça do processo, porem é certo que o ultimo

escripto, revelado pelo Sr. Frère, excitou de maneira notavel a attenção

da autoridade, porque em 8 d’Abril de 1620 proferio o parlamento uma

sentença a esse respeito condemnando David Jeuffroy a pagar uma multa de

50 libras por haver publicado sem licença previa o livro denunciado.[AT]

Como se vê, não alcançou esta decisão o nosso Missionario, e sim

limitou-se ao impressor, por elle escolhido, embora contenha uma censura

indirecta ao livro suppondo-se, que o nosso bom Missionario, pelo ardor

da questão, se deixasse arrebatar a ponto de fazer allusões pessoaes

dignas de censura.

Á este respeito havia pouco escrupulo em 1618, e afinal se pensava que

seria interrompida a carreira do joven ministro, atacado pelo Padre Ivo:

bem longe d’isto, porque em 1623 foi pelos seos correligionarios nomeado

deputado ao synodo nacional de Charenton, e quatro annos depois tambem

fez parte do da Normandia, na villa de Alençon.

De 1620 em diante perdemos todos os vestigios do Padre Ivo d’Evreux;

comtudo muitos escriptores ecclesiasticos depois d’isto registaram seo

nome em seos vastos obituarios, multiplicando erros, e assim provando que

nunca viram a obra do Padre Ivo.

Boverio de Salluzo,[AU] Marcellino de Piza,[AV] Wading,[AW]

ordinariamente tão exacto, o Padre Diniz de Gênes,[AX] ou só dão

particularidades geraes, mui approximadas relativamente á sua obra, sem

mencionar a data d’ella, ou grosseiramente alteram o millesimo do anno da

impressão. Este ultimo, por exemplo, diz que foi em 1654, erro bem claro,

proveniente d’um primeiro erro typographico, repetido por Masseville,[AY]

e até por Moreri Normando.[AZ] O Padre Francisco Martin, da Ordem dos

Franciscanos, cujo manuscripto se guarda em Caen, por seo motu proprio a

colloca no anno de 1659, dando sempre como lugar da impressão a cidade de

Ruão.

O _Epithome da la bibliotheca oriental y occidental_ de Leon Pinello,

livro reeditado por Barcia no seculo XVIII, é o unico, que n’aquelle

tempo mencionou com exactidão a _Viagem_, que reimprimimos, embora o seo

titulo fosse tão alterado pelo bibliographo hespanhol a ponto de por

elle ser difficil reconhecer-se o habil continuador do Padre Claudio

d’Abbeville, devido isto a influencia de Diniz de Gênes.[BA]

Quasi que temos certesa, á vista dos manuscriptos doados pelo grande

Convento da rua de Santo Honorato, de ter vivido o Padre Ivo d’Evreux

alem de 1629, já esquecido porque n’aquelle tempo havia firme proposito

de desviar o Rei de Hespanha das tentativas feitas, não havia muito, á

respeito do Maranhão.

É verdade, que os antigos chefes da expedição não poderam renovar tão

vasta empreza, onde se achavam seos maiores interesses.

Embora a estima, que parecia gosar na corte o Almirante Rasilly, foi mal

succedido em todos os seos projectos com este fim, e depois que o bravo

Ravardiere, preso no Castello de Belem, recobrou a sua liberdade, nunca

mais regressou á America do sul.

Apparecem ainda estes dois nomes na historia da nossa marinha[BB] e de

maneira gloriosa, porem na Africa, n’essas praias doentias, onde para

segurança do commercio deviam ser castigados de vez em quando atrevidos

piratas.

Ravardiere, como acabamos de vêr, empregou gloriosamente os ultimos annos

de sua vida tão activa em favor do Christianismo, assim como já o tinha

feito em prol de sua patria, faltando-lhe apenas tempo para redigir a

Narração de suas viagens pela America do sul.

Sabemos com certesa ter ordenado, que se escrevesse em 1614 um Relatorio

minucioso de sua expedição pelo Amazonas. Até nós não chegou esta

especie de jornal, que alem de esclarecer muitas coisas, seria tambem de

muito interesse para ser comparado com os documentos fornecidos n’essa

epocha por um francez, cujas viagens mereceo as honras da impressão.

Na verdade, dez annos antes, no meiado de 1604, João Mocquet, o guarda

das curiosidades de Henrique IV e de Luiz XIII, percorreo as margens do

Amazonas, e exforçou-se para fazer conhecer aos seos compatriotas este

grande rio. Infelizmente este pobre cirurgião d’aldeia tinha mais zelo do

que luzes, e por isso não podiam ser suas observações confrontadas com as

de um homem, tão conhecido pela sua instrucção, como pela sua lealdade.

A viagem de Ravardiere pelo Amazonas e Maranhão deve estar minuciosamente

descripta na grande chronica dos Padres da Companhia, existente em Evora.

Consultando os sabios trabalhos bibliographicos do Sr. Rivara, n’elles

adquirimos esta certesa, pois o Cap. 111 d’este vasto _Cathalogo_ tracta

especialmente do dominio dos francezes n’essas regiões. Não podemos

pessoalmente examinal-o. Graças ao espirito investigador de tantos sabios

historiadores, ainda não perdemos de todo a esperança de encontrar o

escripto em questão.

Diariamente emprega o Brazil os mais louvaveis exforços para colligir

documentos inedictos, fontes da sua historia, e se em alguma livraria por

ahi algures fosse descuberta a _Viagem_ de Ravardiere, serviria, com os

escriptos de Claudio d’Abbeville e de Ivo d’Evreux, de guia seguro para

se consultar relativamente a estas Provincias do norte, das quaes só se

conhecem as explendidas solidões, e cujo passado nos foi, para assim

dizer, revelado pelo nosso Missionario.

Viagem ao norte do Brazil feita nos annos 1613 a 1614, pelo Padre Ivo D'Evreux · 第 6 / 277 题