O Padre Ivo de Evreux e as primeiras missões do Maranhão.
No tempo de Luiz XIII, o magnifico Convento dos Capuchinhos da rua de
Santo Honorato contava entre seos Monges dois religiosos com o mesmo
nome—o Padre Ivo de Paris e o Padre Ivo de Evreux. O primeiro, advogado
antigo, verboso, ardente na discussão, muito versado nas ideias do seu
seculo, gosava pela cidade de alta reputação, e as biographias modernas
confirmão ainda sua fama passada: o segundo, amigo reconcentrado do
estudo, e mais ainda da humanidade, espirito observador, alma apaixonada
pelas bellezas da naturesa, prompto a acudir onde o chamava seo zelo,
não se importando da curiosidade que podia despertar, foi completamente
esquecido, e de tal forma, que, apezar de seo reconhecido merito,
decorreram 250 annos sobre seo humilde tumulo sem que uma voz amiga tenha
para elle despertado a attenção publica.
Para que se fallasse n’este obscuro Monge foram necessarias duas cousas,
com que não se contava durante sua vida: a transformação em poderoso
Imperio dos desertos, que elle percorreo, e o amor apaixonado por certos
livros velhos, que se rehabilitam e com razão, pois elles, por si só,
narram factos que, sendo desconhecidos, fariam com que a civilisação
crescente de certos paizes caminhasse na ignorancia de sua origem.
Tinha então o grande Convento de Pariz muitos homens condemnados á
injusto esquecimento.
Fundado em 1575 por Catharina de Medicis,[A] havia em pouco tempo
adquerido fama de conter monges doutos em theologia, zelosos, cheios de
abnegnação e caritativos nas epidemias, a qual, quasi intacta, conservou
durante o decimo sexto seculo.
Era n’elle, que o partido, favoravel aos religiosos regulares, vinha
procurar espiritos activos para luctar com o Bispo de Belley.
Era sobre estes vastos terrenos, possuidos apenas pela Casa de
_Tremouille_, que existia essa immensa officina bem conhecida pelo Corpo
medico de Pariz, onde os cortesãos, assim como os mais humildes burguezes
vinham provêr-se de medicamentos, que só ahi encontravam, ou que se
preparavam com incuria notavel nos outros lugares de tão grande cidade.[B]
Fallemos francamente: não era nem a sciencia, então incontestavel,
d’esses Religiosos, nem os resultados positivos de sua cuidadosa
administração, nem mesmo os beneficios diarios, pelos quaes eram tão
uteis ás classes necessitadas, que lhes grangearam o credito unisono,
que gosavam em Pariz, pois o deviam sobre tudo as brilhantes conversões,
realisadas recentemente no Mosteiro de Santo Honorato.
Foi n’este Convento, que um dos maiores senhores do ultimo reinado, o
conde de Bouchage, mais conhecido depois pelo Padre Angelo de Joyeuse,
veio trocar as grandezas da Côrte, onde voluntariamente demittio-se dos
seos cargos militares, pela vida pobre e obscura que ahi se passava.
Foi n’este sombrio asylo que um dos ramos mais illustres da familia de
Pembroke veio abjurar o calvinismo, e, renunciando vida mais brilhante,
sugeitou-se ás humildes funcções, que desde o principio do seculo lhes
foram impostos, obrigando-se a proseguir sem descanço na missão a que
voluntariamente se impozera.
Facil nos seria abundar agora na citação de nomes celebres, e de causar
talvez admiração fazendo sobresahir os esquecidos: para ser breve devemos
porem cingir-nos ao objecto em questão.[C]
O Padre Ivo d’Evreux e o Padre Ivo de Pariz appareceram, como dissemos,
quase ao mesmo tempo; porem a fama, sempre crescente de um, eclypsou
completamente a lembrança mui fugitiva, que o outro deixou, e até em bons
escriptos são elles confundidos. Tiveram, comtudo, bom é repetir, destino
bem differente.
Ivo de Evreux, como dissemos, fugia em geral do bulicio politico, e
somente tomava parte nas luctas do seculo quando tinha de sustentar
algum ponto de doutrina religiosa: o segundo, muito mais moço na Ordem,
que o seo homonymo, sempre prompto a entrar nos combates, que as Ordens
Regulares sustentavam algumas vezes contra o poder ecclesiastico, tinha
por isto adquirido muita fama, com que bastante se gloriava o Mosteiro.
Era notado não só como orador eloquente, mas tambem como um dos mais
fecundos do seu tempo.
A hyperbole do elogio monastico chegou até o ponto de consideral-o como o
engenho mais poderoso de sua Ordem.
Foi sempre elle quem representou unicamente seos Superiores: eram d’elle
os muitos livros, escriptos quase todos em latim, que foram oppostos,
e victoriosamente, ás publicações violentas atiradas contra as Ordens
mendicantes.
Da sua antiga occupação de advogado se recordava e se aproveitava das
tricas e desordens, proprias da epocha, e até lançava mão da astrologia
judiciaria, pelo que se lhe attribuio a authoria do _Fatum Mundi_, livro
absurdo, mas que durante algum tempo preoccupou a attenção publica.
Declarado por unanimidade o oraculo do seu Convento, nem se quer por
um momento houve a ideia de associar-se á sua lembrança o nome d’um
Religioso, igual ao seo, e que apenas sabia sacrificar-se com o fim de
ganhar algumas almas para Deos! O que fazia o nosso modesto amante da
natureza diante de tal personagem, tão cercada de gloria, diante da
_Phenix_ dos theologos francezes, como então por gosto o appelidavam?[D]
Mas, quem é que se recorda hoje do Padre Ivo de Pariz? Quem cuida hoje
nas discussões, cuja vehemencia lhe attribuiram tão viva admiração?
Colloquemos os homens e os factos nos lugares, que devem occupar.
Ivo d’Evreux poude contemplar em sua grandeza primitiva uma terra
exuberante de vida e de mocidade: dois seculos de esquecimento passaram
sobre sua obra, e hoje em dia brilha elle remoçado, cheio de graça, ao
lado de Lery, de Fernando Cardim, de Anchieta, emfim de todas essas almas
privilegiadas, que uniam a faculdade da observação á apreciação apurada
das bellezas da natureza, e que saudaram, poetas desconhecidos, a aurora
de um grande Imperio.
Ivo d’Evreux, diga-se com pezar, teve o destino de quasi todos os
historiadores primitivos do novo mundo: sua biographia, embora pouco
desenvolvida, ainda está por escrever, e apesar das mais minuciosas e
constantes investigações n’estes ultimos tempos, apenas conhecemos as
circumstancias mais importantes de sua vida, e assim mesmo nada ao certo
saberiamos si não fossem algumas notas colhidas em varios archivos dos
antigos Conventos. Foi geral o esquecimento tanto da sua obra, como do
seo autor. Pensam os escriptores de sua Ordem haverem dito bastante,
lembrando ter elle vivido no seculo XVII, ter sido missionario zeloso, e
autor de um livro, continuação obrigada da viagem do Padre Claudio, e até
se esquecem de mencionar a sua existencia por espaço de dois annos entre
os indios, onde este apenas demorou-se quatro mezes.
Conforme as inducções, que se podem tirar de um folheto manuscripto,
conservado na bibliotheca _Mazarina_, opusculo cheio de datas precisas,
relativas aos Capuchinhos do Convento da rua de Santo Honorato, o nosso
Missionario devia ter nascido em 1577.
Indica por certo seu sobrenome a cidade onde elle nasceo, porem ignoramos
qual foi o nome, que teve no seculo, como então se dizia. Á este respeito
os amadores das viagens antigas foram mais bem succedidos quanto ao seo
companheiro, o Padre Claudio, que se sabe pertencera a uma excellente
familia, a dos Foullon.[E] O que ha de bem averiguado é, que os paes do
Padre Ivo o applicaram á estudos excellentes, e que os seus professores
não se contentaram de ensinarem-lhe só o latim e sim tambem o grego, e
até o hebreu, e inspiraram-lhe tal gosto litterario, sem o qual não ha
escriptor habil.
No convento de Ruão passou o seo noviciado, e ahi entrou em 18 de agosto
de 1595, não existindo a menor duvida a este respeito.[F]
Depois de ter tomado o habito n’essa Caza, ahi provavelmente demorou-se
alguns annos, e devia prégar na maior parte das cidades da alta Normandia.
É provavel, que então se achasse em relações de estudo e de sacerdocio
com o joven Francisco de Bourdemare, como elle natural da Normandia, como
elle Prégador em sua Provincia, e mais tarde designado para succedel-o na
missão do Maranhão.[G]
Distinguido muito cedo pelos seos Superiores, e tendo já o titulo de
Prégador, que então só se dava aos Religiosos notaveis, foi designado o
Padre Ivo para preencher as funcções de Guardião do Convento de Montfort.
Infelizmente os documentos, que temos á vista e que provam este facto,
não dizem qual foi a Cidade onde se passaram a maior parte dos annos de
estudo do nosso bom Missionario.
Ha em França mais de treze localidades com este nome e não nos é
possivel, absolutamente fallando, dizer onde o nosso viajante se
fortaleceu em sua carreira religiosa.
Nos primeiros annos do seculo mudou logo de residencia, e achamol-o no
grande Convento de Santo Honorato, no meiado do anno de 1611, no tempo
em que era Provincial da Ordem o Padre Leonardo de Pariz,[H] quase na
occasião d’este sabio Religioso ter sido pelo Papa nomeado Superior das
missões orientaes.
Teremos ainda occasião de fallar no movimento politico, dado ás
expedições maritimas, quando ja ia em meio o seculo XVI, e que tinha
por fim fazer com que, o nosso comercio partilhasse das vantagens, que
a Hespanha e Portugal haviam para si monopolisado. Cincoenta annos mais
tarde, embora aproveitando-se das vantagens adquiridas pelas exploraçães
dos Varazano, dos Cartier, dos Roberval, e de tantos outros navegantes,
que nos deram o que n’aquelle tempo se chamava _nova França_, todas as
attenções se fixavam nas regiões mais favorecidas, que então se pretendia
colonisar, e as quaes com enthusiasmo se chamava _França equinoccial_.
Ja havia desde 1555 uma _França Antarctica_, a qual, apesar de ter este
nome por tão pouco tempo, não deixou comtudo de grangear para nossos
homens do mar as sympathias calorosas e dedicadas dos povos indigenas,
que então em tribus numerosas occupavam o Brazil em varias partes.
Auxiliava tambem estas conquistas pacificas o movimento protestante, bem
que não devesse deixar vestigios duradouros n’America do Sul, porque os
refugiados e os Missionarios subordinavam a si e procuravam á porfia
converter á suas crenças estas nações barbaras.[I]
Sem tratar dos armadores de Dieppe, cujas primeiras explorações pelas
costas do Maranhão, datam de 1524, sem mencionar as navegações de
Affonso de Xaintongeois até as boccas do Amazonas no anno de 1542,
ser-nos-ia facil provar, que 25 annos mais tarde Henrique IV doara a um
bravo capitão da religião reformada a immensa extensão de territorio,
para a qual devia ir Ivo d’Evreux, sahindo do seu pacifico retiro de
Montfort, afim de cathequisar os selvagens.
Vemos com effeito Daniel de la Touche, senhor de Ravardiere, de posse
d’essas doações tão vagamente definidas pelas Cartas patentes de julho de
1605.[J]
Adquirimos tambem a certeza, que depois de dois annos, após duas viagens
successivas ao norte do Brasil, Ravardiere decidio os Tabajaras e
Tupinambás, propriamente ditos, a mandarem uma especie de embaixada
ao Rei Christianissimo com o fim de solicitar sua protecção contra as
invasões dos portuguezes.
Foi debalde esta missão d’indios, porem como Ravardiere continuasse
a residir por muito tempo entre elles, conseguio em 1610, que lhe
fossem renovadas as doações feitas cinco annos antes, e assim julgou-se
authorisado, logo depois da morte de Henrique IV, a formar uma associação
para a definitiva colonisação d’estas regiões abandonadas.[K]
Não foi comtudo aos partidistas de sua Religião, que se dirigio
Ravardiere para ser bem succedido n’este empenho: pelo contrario sem
hesitar entrou em conferencia com catholicos proeminentes, cuja lealdade
perfeitamente conhecia, como sejam, o almirante Francisco de Razilly,
uma das mais antigas glorias da França, e Niculau de Harlay, uma de suas
summidades financeiras, e elles se lhe associaram para a exploração
d’este previlegio.
Em todo o seculo XVII não conhecemos outra transacção, entre catholicos
e protestantes, mais leal e desinteressada: foi na verdade uma empresa,
digna de contar em si o Padre Ivo d’Evreux, tão sincero como justo.
O titulo de lugar-tenente do Rei, sem a menor questão, foi transferido
á Rasilly, que teve toda a liberdade de acção, não deixando comtudo de
fazer prevalecer as prerogativas da communhão, que professava.
Em todas as praias onde desembarcassem, devia levantar-se uma cruz com
toda a solemnidade, e bem assim missionarios catholicos seriam condusidos
para propagação da fe entre o gentilismo.
Estes contractos foram na verdade pontualmente executados, e nem na obra
de Claudio d’Abbeville, e nem na de Ivo de Evreux se encontra uma só
palavra, que faça suspeitar o menor estremecimento entre os chefes da
expedicção.
Fortalecido com o credito, que de ha muito gosava na Corte, ajudado alem
disto, por soccorros pecuniarios, e pela verdadeira importancia, que lhe
proveio de associar-se com Niculau de Harlay, senhor de Sancy, Barão de
Molle e de Grois Bois, o almirante Razilly com toda a prestesa chegou
ao fim, que tinha em vista, interessando a Regente no bom exito de uma
empreza, ja antecedentemente approvada por Henrique IV.
Por seos rogos escreveo Maria de Medicis ao Padre Leonardo, que n’esse
tempo era Guardião do grande Convento dos Capuchinhos da rua de Santo
Honorato, pedindo-lhe com toda a instancia quatro religiosos, afim de
fundarem um convento da Ordem na Ilha do Maranhão.
Diga-se a verdade: o norte do Brazil que actualmente offerece todos os
recursos da civilisação, então se apresentava, até mesmo aos mais doutos
da Universidade de Pariz, como um paiz entregue a todos os horrores
da vida selvagem; os cosmographos francezes quando d’ella tractavam,
exageravam a rusticidade d’esse paiz, deixando comtudo a imaginação o
campo inteiramente livre, não marcando nenhum limite exacto, e era sobre
essas informações inexactas que Raleigh se deleitava de evocar todos os
monstros do mundo antigo.
Nem um só momento exitaram estes Religiosos quando o Padre Provincial
lhes leo a Carta regia na occasião em que se achavam no refeitorio:
d’entre elles quarenta quizeram ser escolhidos para tão perigosa empresa,
e os documentos officiaes, que temos à vista, nos fizeram até conhecer
a especie de enthusiasmo que d’elles se apoderou quando souberam o
contheudo da mensagem das Tulherias. Offereceram-se a maior parte
dos Padres com expontaneo enthusiasmo para esta nova missão, e sendo
reprimido o zelo dos mais fervorosos, declarou logo o Padre Leonardo, de
accordo com o Definidor da Ordem, que seriam quatro apenas os escolhidos,
de conformidade com o pedido.
Eis a lista destes nomes pela ordem, que devem guardar entre si, e os
raros historiadores, que d’elles tem tratado teriam evitado alguns erros
se, como nós, tivessem consultado os archivos do Convento.