VI.

Anoiteceu:--nos claustros resoando

As pisadas dos monges ouço: eis entram;

Eis se curvaram para o chão beijando

O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!

Igual vos cubrirá a cinza um dia,

Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto

É a pedra do tumulo. Se-lo-ia

Mais se do justo só a herança fora;

Mas tambem ao malvado é dada a campa.

E o criminoso dormirá quieto

Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto

No templo ondeam silenciosas turbas,

Exultarão do abysmo os moradores,

Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles,

Que escarnece do Eterno, e a si se engana;

Vendo o que julga que orações apagam

Vicios e crimes, e o motejo e o riso

Dado em resposta ás lagrymas do pobre;

Vendo os que nunca ao infeliz soltaram

De consolo palavra, ou de esperança:

Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes

Os frios restos que separa a terra,

Um punhado de terra, a qual os ossos

Destes ha-de cubrir em tempo breve,

Como cubriu os seus, qual vai sumindo

Nos mysterios da campa a humanidade.

Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos

Do templo na amplidão: só lá no fundo

De affumada capella, o justo as preces

Ergue pio ao Senhor, as preces puras

De um coração que espera, e não mentidas

De labios de impostor, que engana as turbas

Com seu meneio hypocrita, calcando

Na alma lodosa da blasphemia o grito.

Então exultarão os bons, e o ímpio,

Que passou, tremerá. Em fim, de vivos,

Da voz, do respirar o som confuso

Vem-se verter no sussurrar das praças,

E pela galilé só ruge o vento.

Em trevas não ficou silenciosas

O sagrado recinto: os candieiros,

No gelado ambiente ardendo a custo,

Espalham debeis raios que reflectem

Das pedras pela alvura; o negro mocho,

Companheiro do morto, horrido pio

Solta lá da cornija; pelas fendas

Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,

Ondêa pela nave--esvái-se: um longo

Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem

De umas espectros palidos, medonhos,

A quem baço clarão da luz dos mortos

Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem

Radiosos espiritos que o premio

Da virtude, nos ceus, hão recebido:

Alli treme ante o pobre o rico, e o forte

Ante o humilde, que nelle os olhos fita

Severo:--oh que tormento! infernaes dores

São doces para o máu, a par do aspecto

Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.

Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas

Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,

Te curvas ante as aras que insultaste:

Debalde imploras o perdão celeste.

Expiraste: o perdão morreu comtigo.

Infeliz para sempre, a mão levanta

A essa fronte gelada; entre teus olhos

De azulado fulgor ampla rajada

Toca--eterno signal que no perverso

Do cherubim da morte a dextra estampa:

Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua

Volveu-se em maldicção: luz de esperança

Para ti apagou-se: o abysmo evoca

O filho seu; despenha-te no abysmo!

A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta · 第 21 / 76 题