Anoiteceu:--nos claustros resoando
As pisadas dos monges ouço: eis entram;
Eis se curvaram para o chão beijando
O pavimento, a pedra: oh sim, beijai-a!
Igual vos cubrirá a cinza um dia,
Talvez em breve--e a mim. Consolo ao morto
É a pedra do tumulo. Se-lo-ia
Mais se do justo só a herança fora;
Mas tambem ao malvado é dada a campa.
E o criminoso dormirá quieto
Entre os bons sotterrado!--Oh não! em quanto
No templo ondeam silenciosas turbas,
Exultarão do abysmo os moradores,
Vendo o hypocrita vil, mais ímpio que elles,
Que escarnece do Eterno, e a si se engana;
Vendo o que julga que orações apagam
Vicios e crimes, e o motejo e o riso
Dado em resposta ás lagrymas do pobre;
Vendo os que nunca ao infeliz soltaram
De consolo palavra, ou de esperança:
Sim:--malvados tambem hão-de pisar-lhes
Os frios restos que separa a terra,
Um punhado de terra, a qual os ossos
Destes ha-de cubrir em tempo breve,
Como cubriu os seus, qual vai sumindo
Nos mysterios da campa a humanidade.
Porém a turba esvae-se: ermam bem poucos
Do templo na amplidão: só lá no fundo
De affumada capella, o justo as preces
Ergue pio ao Senhor, as preces puras
De um coração que espera, e não mentidas
De labios de impostor, que engana as turbas
Com seu meneio hypocrita, calcando
Na alma lodosa da blasphemia o grito.
Então exultarão os bons, e o ímpio,
Que passou, tremerá. Em fim, de vivos,
Da voz, do respirar o som confuso
Vem-se verter no sussurrar das praças,
E pela galilé só ruge o vento.
Em trevas não ficou silenciosas
O sagrado recinto: os candieiros,
No gelado ambiente ardendo a custo,
Espalham debeis raios que reflectem
Das pedras pela alvura; o negro mocho,
Companheiro do morto, horrido pio
Solta lá da cornija; pelas fendas
Dos sepulchros deslisa um fumo espesso,
Ondêa pela nave--esvái-se: um longo
Suspiro não se ouviu!--Olhai! lá se erguem
De umas espectros palidos, medonhos,
A quem baço clarão da luz dos mortos
Ainda custa a soffrer:--eis de outras surgem
Radiosos espiritos que o premio
Da virtude, nos ceus, hão recebido:
Alli treme ante o pobre o rico, e o forte
Ante o humilde, que nelle os olhos fita
Severo:--oh que tormento! infernaes dores
São doces para o máu, a par do aspecto
Do bom, que mudo lhe recorda os crimes.
Ai!--nem paz cabe nos mortos! Entre as campas
Ainda habita o remorso. Embalde, espectro,
Te curvas ante as aras que insultaste:
Debalde imploras o perdão celeste.
Expiraste: o perdão morreu comtigo.
Infeliz para sempre, a mão levanta
A essa fronte gelada; entre teus olhos
De azulado fulgor ampla rajada
Toca--eterno signal que no perverso
Do cherubim da morte a dextra estampa:
Toca-a... Deus reprovou-te; a herança tua
Volveu-se em maldicção: luz de esperança
Para ti apagou-se: o abysmo evoca
O filho seu; despenha-te no abysmo!