V.

A noite escura desce: o sol de todo

Nos mares se afogou: a luz dos mortos,

Dos brandões o clarão fulgura ao longe,

No cruzeiro somente e em volta da ara:

E pelas naves começou ruído

De compassado andar. Fiéis acodem

A visitar o Eterno, e ouvir queixumes

Do vate de Sion. Em breve os monges

Lamentosas canções aos ceus erguendo,

Sua voz unirão á voz desse orgam,

E os sons e os écchos reboaráõ no templo.

Mudo o côro depois, neste recinto

Dentro em bem pouco reinará silencio,

O silencio dos tumulos, e as trevas

Cubrirão por esta área a luz escassa

Despedida das lampadas, que pendem

Ante os altares, bruxuleando frouxas.

Imagem da existencia!--Em quanto passam

Os dias infantís, as paixões tuas,

Homem, qual então és, são debeis todas:

Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso

Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo

Gemido do remorso, a qual lançar-se

Vai, com rouco estridor, no antro da morte,

Lá onde é tudo horror, silencio, noite.

Da vida tua instantes florescentes

Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,

Breve, rebate de teu fim te deram.

Tu foste apenas som, que o ar ferindo

Se esvaíu pelo espaço immensuravel.

E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro

Cortou a penedia; e o canto enorme.

Polido alveja alli no espesso panno

Do muro collossal, que ha visto as eras

Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:

A faia e o sobro no caír rangeram

Sob o machado: a trave affeiçoou-se;

Lá na cimo pousou: restruge ao longe

De martellos fragor, e eis ergue o templo,

Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.

Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento,

Se esváe, como da cerva a leve pista

No pó se apaga ao respirar da tarde,

Do seio dessa terra em que és estranho

Saír fazes as moles seculares,

Que por ti, morto, fallem: dás na idéa

Eterna duração ás obras tuas!

Tua alma é immortal, e a prova a déste!

A Harpa do Crente Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta · 第 20 / 76 题