A noite escura desce: o sol de todo
Nos mares se afogou: a luz dos mortos,
Dos brandões o clarão fulgura ao longe,
No cruzeiro somente e em volta da ara:
E pelas naves começou ruído
De compassado andar. Fiéis acodem
A visitar o Eterno, e ouvir queixumes
Do vate de Sion. Em breve os monges
Lamentosas canções aos ceus erguendo,
Sua voz unirão á voz desse orgam,
E os sons e os écchos reboaráõ no templo.
Mudo o côro depois, neste recinto
Dentro em bem pouco reinará silencio,
O silencio dos tumulos, e as trevas
Cubrirão por esta área a luz escassa
Despedida das lampadas, que pendem
Ante os altares, bruxuleando frouxas.
Imagem da existencia!--Em quanto passam
Os dias infantís, as paixões tuas,
Homem, qual então és, são debeis todas:
Cresceste:--ei-las torrente, em cujo dorso
Sobrenadam a dor, e o pranto, e o longo
Gemido do remorso, a qual lançar-se
Vai, com rouco estridor, no antro da morte,
Lá onde é tudo horror, silencio, noite.
Da vida tua instantes florescentes
Foram dous, e não mais: as cãas e rugas,
Breve, rebate de teu fim te deram.
Tu foste apenas som, que o ar ferindo
Se esvaíu pelo espaço immensuravel.
E a casa do Senhor ergueu-se!--o ferro
Cortou a penedia; e o canto enorme.
Polido alveja alli no espesso panno
Do muro collossal, que ha visto as eras
Velhas chegar, e adormecer-lhe ao lado:
A faia e o sobro no caír rangeram
Sob o machado: a trave affeiçoou-se;
Lá na cimo pousou: restruge ao longe
De martellos fragor, e eis ergue o templo,
Por entre as nuvens, bronzeadas grimpas.
Homem, do que és capaz! Tu, cujo alento,
Se esváe, como da cerva a leve pista
No pó se apaga ao respirar da tarde,
Do seio dessa terra em que és estranho
Saír fazes as moles seculares,
Que por ti, morto, fallem: dás na idéa
Eterna duração ás obras tuas!
Tua alma é immortal, e a prova a déste!