IX

Um escasso dia volvido apenas sôbre a festa, Belisário regressou à

metrópole. Seguiu-o no intervalo de mais um dia o Silveira, cuja

existência ali, depois do seu assinalado triunfo hípico, nas últimas

semanas, decorrera tôda batida em alternâncias de cruel incerteza,

assaltada de imprevistas dúvidas, cortada em antíteses absurdas, numa

espectativa mortificante. As flutuações coquetas, incessantes, da sua

«bôa amiga» Maria Mercedes, cujas típicas excelências tam vivamente

haviam sacudido o seu temperamento de fogo e vincado o seu carácter

mulherengo; êsse jôgo caprichoso e perverso entre a frialdade e a

exaltação, entre o espanto e o desdêm, entre o enfado e o carinho,

desconcertavam-no. Inelutávelmente, corrido de vaga humilhação, êle

reconhecia em Belisário um primaz competidor. Por sôbre aquele aspecto

derrancado e turvo, a despeito do podrido descalabro dêsse físico todo

escórias e ruína, o Silveira, forte embora da sua virilidade radiosa e

exuberante, achava-lhe superioridades: era déstro no diálogo, fino e

leve, bem falante, brandia a ironia como um florete, vestia com mais

elegância. Por isso a sua obrigada e constante freqùentação, ali, com

êsse émulo temido, e frente a frente os dois do ídolo do seu comum

cuidado, tornava-se-lhe uma coisa irritante, molesta, dolorosa, por

vezes intolerável. Contudo, retirar antes dêle seria uma deserção, uma

cobardia. Foi suportando... Logo porêm que o afastamento voluntário do

rival arredou a emergência dessa hipótese deprimente, o Silveira abalou

tambêm, na sua incontida ânsia de emancipar-se duma situação por demais

incómoda, violenta, e, perante a pungente ampliação do seu despeito...

porventura ridicula.

Tendo chegado a Buenos-Aires ao entardecer, acolheu-se logo ao hotel,

jantou e nessa noite não saíu. Apreensivo e triste, sentia uma grande

necessidade de isolamento... e cedo se encerrou no quarto e abandonou-se

à tortura voluptuosa das suas íntimas cogitações, cujas mórbidas volutas

o surdo embalo dos vagos rumores da Avenida, em baixo, favorecia. Na

manhã seguinte ergueu-se tarde. Aquele destemperado vibrar dos nervos

impunha-lhe agora um preguiceiro e salutar repouso. Porêm, apenas

terminado o almôço, picou-o um vivo apetite de expansão, de arejo, de

movimento; precisava desabafar... queria falar, mexer-se, descompôr

alguêm, ver caras conhecidas. Acendeu pronto o cigarro, tomou o chapéu e

saíu logo, em demanda do amigo Azeredo, que mudára de pensão e residia

agora ali perto do hotel, na _calle Libertad_, a não mais de quatro

_cuadras_.--Era um pequeno prédio antigo, sem porteiro e sem ascensor. O

Silveira teve que subir uma extensa escada de mármore, em caracól, quáse

às escuras, e encontrou-se súbito num modesto e exíguo _hall_,

pavimentado a baldosas negras e verdes, guarnecido por uma vélha mobília

de vêrga, globos de vidro estanhado, missangas, _crochets_, enredadeiras

e vasitos com plantas. Veio-lhe ao encontro o dono da casa, um aparatoso

andaluz, de alentada envergadura, loiro e obêso, o _pijama_ e calça de

riscado vestidos sumáriamente sôbre a pele, e os felpudos pés nus mal

contidos nas babuchas.

--O sr. Azeredo ainda estava à mesa. _Quiere Usted pasar_?...

Acedendo curioso ao afável convite, o Silveira seguiu o solícito

introdutor ao longo dum corredor tristonho e esguio, com anteparo de

zinco sôbre o saguão, e ao cabo entrou no comedor, uma crepuscular peça

oblonga, tomada quáse totalmente pela mesa, em tôrno da qual, havendo

cessado de comer, os seus seis convivas, guardanapos depostos e

arredadas as cadeiras, em amena chalra, num baralhamento pelintra,

familiarmente se esqueciam. O Azeredo, mal que viu o amigo, ergueu-se de

salto a abraçou-o efusivamente.

--Oh, João! meu grande vadio... Finalmente! Cuidei que te ficavas por

lá...--E numa palmada cordeal sôbre o ombro, indicando a cadeira que, ao

lado dêle, a _mucama_ havia pronto achegado:--Senta-te... Que magnífico

que vens!

Em seguida, com aquele seu invariável ar salteiro e risonho, o Azeredo

fez em globo a apresentação do amigo aos outros comensais, com uma

sublinha especial, é de saber, perante a dona da casa, à direita da qual

êle tinha o honroso privilégio de sentar-se,--e que era uma grossa e bem

fornida vasca, quadrada, ruiva, de epiderme branda e leitosa, viúva

havia ano e meio, e todavia agora ligada maritalmente ao andaluz... por

conveniências domésticas. À direita do Azeredo sentava-se uma joven

corista do _Avenida_, miudita, clara e franzina como um mimo de bazar,

os olhos maquilhados fortemente, esborifado o cabelo, e na morbidez

cansada da expressão saltando em contraste provocador o narizito

petulante. O nariz era tambêm a única feição acentuadamente vincada,

nessoutra vaga e estirada figura espectral que tinha logar à mesa em

frente dêle, à esquerda da dona da casa,--um incompreendido violinista

de café-concerto, a pele como pergaminho, os músculos como arame,

rechupado, lívido, transparente. Mais à esquerda, havia um acomodatício

e bronco pintor de taboletas. Finalmente, com depreciativo orgulho

posta, e sentada como por demais, entre êstes dois últimos, aparecia uma

gorda e casquilha quarentona, com o ar presunçoso e taful, pastosa,

feia, arrogante, que era a mais insensata e hilariante personificação do

burlesco; vestia uma curiosa bata ornitológica, tôda carregada de

passamanarias, vidrilhos, contas e plumagens, bigarrada em côres de

papagaio, em tons berrantes; a testa era rudimentar, e uns desastrados

laivos de água oxigenada sarapintavam cómicamente a maranha abstrusa do

cabelo pegajoso e sujo; pela fartura pendente do colo moreno havia por

igual, às dedadas, a lambugem clara dos cosméticos; e à raíz da face

opada rasgavam-se uns grandes olhos brilhantes mas apáticos, na sua

vítrea imobilidade reflectindo uma fixidez obtusa de sáurio, uma

credulidade estúpida.

O Silveira compreendeu num relance que esta presumida e grotesca

marafona era naquele momento o centro burlão das atenções e o tema

desopilante da conversa. Com efeito, não tardou que o amigo lhe não

dissesse, apontando com solenidade a exibitiva carcassa em frente, numa

irónica reverência:

--Chegas na melhor ocasião. Tenho o prazer e a honra de te apresentar a

_señorita_ Calliope Cernadas, uma joven e distinta cantora, próxima

debutante no _Colón_...--E com um patente ar zombeteiro, num gesto de

solícito apoio aos circunstantes, acentuou:--Em plena primavera da vida,

como vês... Vinte e cinco anos, _no mas_. Um flamante embrião de artista

e um coração inabordável! Não é certo?...

De roda houve um bem simulado cabeceamento de convicta anuência,

enquanto a embaída vítima trejeiteava desvanecidos requebros, em meio do

côro hilariante da assistência. E para ela agora com a mesma urbana

solenidade, o Azeredo, indicando o amigo:

--O meu amigo e patrício João da Silveira, solteiro, rico, poeta... O

homem que lhe convêm... Um grande fidalgo e um grande enamorado.

No mais caricato arremêdo de êxtase, a enxundiosa Calliope revoluteava a

apática inexpressão dos olhos, mordia o lenço, parodiava atitudes

infantís e motêtes ingénuos. Entretanto, na sua apologética parlenda o

Azeredo tornou:

--Uma voz de oiro!

--Dito por todos os mestres,--confirmou Calliope com fatuìdade.

--Cinco anos de Conservatório e dez de lições particulares.

A inocente visada teve um salto de despeito. E a seu lado o violinista,

coçando deliciado a nuca, piscando um ôlho:

--Não se pode dizer um talento muito espontâneo...

Porêm, vagamente apiedado, o Silveira:

--Deve ter começado de muito criança.

--Era tudo fôrça da vocação...--aclarou o Azeredo, no mesmo tom

escarninho:--Quando largou o _biberon_, já solfejava.

Em volta da mesa, agora, o riso estalou sem rebuço. E o avantajado

andaluz, que acendera o cachimbo, fazia, mudo, sorridente e matreiro, o

giro atento da casa.

Mas de repente o Azeredo, consultando o relógio, ergueu-se.--Eram horas

de voltar ao escritório:--E saíu rápido, com o amigo, conduzindo-o

familiarmente ao seu quarto singelo e claro, com varanda sôbre a rua.

Ainda podiam quedar-se uns minutos. Acendeu o cigarro e sentou-se, na

préga trocista dos lábios apagando-se-lhe as derradeiras vibrações por

êsse jôgo desopilante com a _señorita_ Cernadas. O Silveira

perguntou-lhe--que _bolha_ fôra aquela de mudar de pensão? E com ar

enfadado, sucudindo os ombros, o Azeredo explicou:

--Aquilo lá era uma maçada, menino! Imagina: a tal viúva chilena dava-me

uma sorte completa... e que rica mulher! impetuosa, louca, insaciável!

Porêm o lamecha do caixeirola, perdidamente embeiçado por ela e sem

sorte, tudo era voltar-se contra mim, dardejava-me olhares de desafio...

um riso! fazia-me arremessos... E à sua arisca Dulcineia escrevia então

umas cartas lacrimosas e tétricas, tresandando bafio romântico, nas

quais havia desgrenhados apelos ao refúgio amargo da morte, e por entre

cujos rábidos arrancos tremeluziam ameaças de vingança.

--Que te importava a ti?

--Não, mas é que ao mesmo tempo essa pobre rapariga _tanguista_, que era

uma triste lambisgoia, dizia-se apaixonada por mim e daí seringava-me a

todo o momento, metia-me bilhetinhos pelo buraco da fechadura,

espiava-me, com scenas de ciúmes... Uma carraça, uma cataplasma, um

tédio! Uma noite, comeu as cabeças tôdas duma caixa de fósforos e foi

naquela casa um reboliço... vomitórios, fricções, prantos, desmaios...

tivemos que levá-la à Assistência.

--És o terror das pensões baratas.

--De sorte que eu então, p'ra evitar uma dupla tragédia, tive um

iluminado rasgo de prudente decisão e raspei-me. E aqui, estou bem. E

uma casa _reinadía_... O diabo da patroa joga como uma danada nas

carreiras, e de cada vez que ganha, é um deboche de _champagne_ com os

hóspedes e as amigas.--E logo num tom de desafectada cordealidade, todo

dobrado para o amigo:--E tu por lá, meu maganão?...

O Silveira desfiou regaladamente a narrativa entusiasta e louçã da sua

breve estada no campo,--a imensidade lendária da _pampa_, a luz, a côr,

a paìsagem, o inéditismo claro dos aspectos, a rude singeleza dos

costumes. Espraiou-se em gratas referências ao hospitaleiro carinho dos

Saavedras, enaltecendo de preferência, em enternecidas frases, essa doce

e encantadora figura de D. Teresa, na sua aberta simplicidade, na sua

bondade inverosímil.

Com um risinho misterioso, o Azeredo aventurou:

--Sim, sim... Ainda tu não sabes quanto ela é de boa!

--Então?...

--É uma sogra rara, única, paradoxal.

--Como assim?

--Sabes que ela tem uma filha casada, agora em Paris, a qual lhes deu já

um netito, êsse _guapo muchacho_, o Eduardo, que é a exclusiva adoração

do avô. Ora o pai do pequeno é um perdulário, um sem vergonha, um

sensualão, um estroinaço impenitente. Pois esta D. Teresa, na sua louca

dedicação pela filha, tem a santa ingenuidade de assegurar uma mesada ao

genro só p'ra que êle, com as suas _calaveradas_, não dê desgostos à

mulher.

--É bôa! Era uma sogra assim que me servia.

--Não haverá duas na terra.

A seguir, o Silveira, depois duma pausa,--e como quem tímidamente

retarda o defrontar com uma dificuldade, ou voluptuosamente dilata a

fruìção dum prazer,--referiu-se a Maria Mercedes, pastichou-lhe em

tintas de vivo entusiasmo o deslumbramento da beleza física, apontou em

vagas e trémulas linhas de incerteza a complicação desconcertante do seu

perfil moral. E nesta empolgante análise retrospectiva, a despeito do

tom deliberadamente ligeiro dos seus conceitos, a cada momento a comoção

traía-o. Inadvertido e quente, descobria-se. Um sôpro de íntimo incêndio

trazia-lhe a alma aos lábios, ao ensaiar a turbadora evocação dêsses

formidáveis episódios, dessas horas atormentadas e profundas, relâmpagos

de enlêvo, eternidades de dôr, delícias dum instante.

O Azeredo, dando-se grado a grado conta da situação, escutava-o em

silêncio, num crescendo de apiedada estranheza, com aborrecimento, com

quesília, com desgôsto. E por fim, tomando o chapéu para sair, com a

bôca severa e os cílios graves, aconselhou:

--Tem-me conta com essa _gaja_... Começa por te derreter os miolos e

acaba por te fundir a algibeira.

--É rica.

--Não importa. A esta gente aqui está-lhes na massa do sangue:

_estafarem_ o seu e o alheio.

Voltaram naturalmente a juntar-se naquela tarde os dois amigos. Jantaram

na _Rôtisserie Sporstman_, e foram ao teatro _San Martin_, desemborrar

um pouco os nervos na contemplação da mímica petulante e lúbrica da

Pastora Império. No dia seguinte, esperto e ligeiro, deu-se pressa o

Silveira em ir fazer o giro matinal de Palermo, onde já sob a claridade

molhada do ar, na renovação da temporada elegante, um cordão de

deliciosas silhuetas dandinava pela orla escovada das _pelouses_, e a

envernizada frescura do asfalto se emplumava do trotar garboso das

amazonas. Sentia-se bem... Reganhava-o o sugestivo encanto da vida ampla

e fácil da cidade. Naquele doce ambiente de agrados e belezas o seu

estimulado ser tinha um aprumo salutar... a vontade tomava raízes, a sua

galharda juventude frondejava em ímpetos, sentia o pensamento inerte,

embevecida a alma, o coração cativo.--Buenos-Aires, bem se dizia... era

o Paris da América, seguramente!--Vinha-lhe o dulceroso apetite de

quedar-se esquecidamente ali, nesse adorável ninho da felicidade, essa

esplendorosa sucursal do Paraíso, deslumbrante e imensa caravançara onde

à compita, vinha estrelar-se o escol das civilizações, onde émulos se

davam cita os génios de tôdas as raças, o melhor dos progressos, das

grandes conquistas morais e materiais de todo o mundo... ali, o

privilegiado solar da fortuna, da abundância e da harmonia, a terra das

mulheres de lindas bôcas, de rostos de linhas puras e suaves, tendidas

com nobreza.

Duma das vezes, ao desembocar na _Avenida das Palmeiras_, cêrca do lago,

pareceu-lhe distinguir na sua frente, entre o pintalgado baralhamento da

quádrupla fita de veículos, uma figura sua conhecida. Era com efeito o

grosso e ponderado Mafiori, que descia dum aparatoso _Peugeot_, e mal

que reconheceu o Silveira, veio logo adonde a êle, importante mas

afável, a oferecer-lhe as duas mãos e a perguntar-lhe--como ia. Cortês e

solícito por igual, pediu-lhe tambêm o Silveira informações dos seus

negócios. O marquês estava remoçado, parecia feliz. Os olhos flácidos

tinham mais brilho, a vasta e epilada testa desanuviára, e tôda a face

rosada e redonda florescia, erguida pela saúde ou dilatada pelo prazer.

Às interessadas perguntas do amigo, êle sorriu.--Bem! muito bem!--E com

a sua fidalga e resignada bonomia aclarou, encolhendo os ombros,--que

aquela forçada abdicação dos seus fóros nobiliárquicos trouxéra-lhe

sorte, afinal. Estava fazendo bastante negócio. Fizera uma bôa venda aos

Spantuzzi, outra aos Ribolto, estava alcatifando de novo a casa tôda dos

Arriola,--um palácio!--e tinha uma grande encomenda para o

_Jockey-Club_.

E sempre com dignidade, uma ligeira sublinha de irónico desdêm a

encrespar-lhe os lábios:

--A esta hora, já as venerandas ossadas dos meus maiores hão-de haver

estremecido, várias vezes, de indignado horror, nos seus ricos mausoléus

lavrados. Uma indignação de mau gôsto, no fim de contas... Porque outra

coisa não há a fazer nesta terra, que com todo o seu exibitivo

pedantismo não passa duma mercearia colossal. Tudo mais ou menos se

negoceia aqui: é uma questão de rótulo. O segrêdo está na arte de embair

o freguês a encarecer a fazenda.

Depois, num gesto de paternal incitamento:

--Porque não faz o mesmo, meu amigo...?

Súbito, como na onda vaga da multidão descortinasse algo que o

interessava, despediu-se de improviso, embrulhando banais desculpas e

rematando amável:

--Eu continuo no _Plaza_. Venha um dia almoçar comigo.

E êle que segue dissimuladamente na peugada duma mulher grande e loira,

de idade à primeira vista inclassificável, artista lírica em

disponibilidade ou _demi-mondaine_ em decadência.

Certo foi que a prática significação daquele seu conselho calou suasiva

e funda no ânimo inconsistente do Silveira.--Seria realmente uma coisa

acertada, sensata, oportuna, tentar um negóciosito. Porque não?... Já

várias vezes êle o havia pensado: fazer como tôda a gente. Êle trouxéra

consigo uns contitos de réis, p'r'ó que désse e viésse... e porque não

procurar engrossá-los? de preferência a desbaratá-los p'r'aí

estúpidamente, em aventuras banais com mulheres ou jogando à tôa na

roleta e nas carreiras?... E, ainda, mais a dura preocupação dos

interêsses monetários poderia ser quiçá um derivativo salutar, e ter a

virtude de pelo seu áureo deslumbramento dissipar moles inclinações

piégas e furtá-lo a exaltações perigosas, como essa agora da diabólica

_Miquêtas_... Vá feito! Era o caminho a seguir.

Desta forma, o Silveira, sensível ao contágio do mercantilismo ambiente,

perdido, como tantos outros, na embriagadora miragem dum engrandecimento

rápido e retumbante, nos dias subseqùentes dava-se com afinco à leitura

dos anúncios comerciais dos diários, concorria aos leilões, era um

assíduo freqùentador das _vitrines_ dos corretores, onde em taboletas

relumbrantes de emissões de títulos, vendas de lotes de terras e

quejandas alicantinas, se acenava aos incautos com fortunas fabulosas. A

intervalos, as venusinas predilecções do seu carácter reganhavam o

natural ascendente, e êle então pensava em visitar os Wimeyer, que

contudo ainda não haviam regressado do campo. Queria tambêm voltar a ver

os Améglio; porêm aquela cavilosa duplicidade de _Mrs._ Edith

irritava-o... Era porêm evidente que, por momentos, a branca crôsta da

sua alma metalizava-se. Já jogava em fundos e entrára com capital para a

fundação duma _Sociedade Internacional de Seguros_. Êle era o primeiro a

fazer troça de si mesmo, desconhecia-se... e com familiar abandôno

comentava, perante o Azeredo:

--Tem graça! eu tam influido agora com negócios... coisa que não é nada

o meu feitio.

E meio incrédulo, o amigo:

--Não te dura muito!

Contudo, o Azeredo, vagamente scéptico mas no fundo de acôrdo, entendia

que sim, que fazia muito bem! porêm tinha que precaver-se e ter muito

ôlho contra essa imensa praga de _estafadores_ e meliantes... Ao mais

pintado êles faziam o _conto do vigario_, a cada instante! Por isso, que

não tratasse senão com gente bem conhecida. Havia de apresentá-lo no

_Club Progresso_, onde teria ocasião de relacionar-se com importantes

financeiros e industriais, com grandes e autênticos _terratenientes_,

com fazendeiros honestos e firmas garantidas.

Entretanto, tôdas as manhãs, com uma pontualidade de amanuense, o

endurecido Silveira subia a _Avenida de Mayo_ para ir ver as cotações da

Bôlsa e em seguida fazer, por _San Martin e Reconquista_, o interessado

giro do bairro clássico dos negócios, dando-se a acariciadora ilusão de

ser já um grande capitalista ou proprietário. E ao mesmo tempo alguêm

havia que, com solícita antecedência e uma pontualidade igual, em face

mesmo do seu hotel, da esquina oposta da Avenida, em plena rua,

aguardava em suspenso a sua aparição e espiava afincadamente a

realização quotidiana dêste acto banal da sua vida exterior.--Uma

simples e adorável rapariga do campo, verdadeiro diamante em bruto,

miudita, morena, bem calçada mas vestindo pobremente, com o ar um pouco

estranho, desageitada, esquiva, em cabelo. Tinha férvidamente posta a

vida, o apetite, o desejo, na enternecida fixidez dos grandes olhos

negros, incansavelmente apontados ao portão espelhento do hotel; e,

fechada no exclusivismo da sua mordente inquirição, como que buscava

anular-se para tudo o mais, tímida e pequena ante o roce brutal da

multidão, furtando-se aos galanteios, repelindo, assustada e arisca, as

propostas equívocas dos que passavam. Depois, quando a aprumada figura

do Silveira assomava à porta e saía, passeio fóra, a caminhar

distraídamente, a sua encantadora e ignorada espia vibrava ao

imperceptível estímulo dum inefável júbilo interior e seguia-lhe humilde

na peugada, durante uma ou duas _cuadras_, paralelamente; e por fim,

quando se perdia ao longe, na atropelada onda do movimento, aquele

desprevenido alvo do seu cuidado, ela por seu turno, à primeira esquina,

dobrava e desaparecia tambêm num relance.

Mais de uma semana, com inalterável precisão, dia por dia, se prolongou

e repetiu êste jôgo inocente para o inadvertido ânimo do Silveira

absolutamente despercebido. Té que, duma vez, como êle tivesse que

dirigir-se à _calle_ Vitória, apenas saíu do hotel cortou direito a

Avenida e veio assim a cruzar-se, quáse ombro com ombro, com a

interessante figurita anónima que o espiava, e que na sua deliciada

confusão, ao primeiro instante, queria evitá-lo, eliminar-se, fugir...

Impossível deixar de notá-la. E logo súbito, numa expansão de grata

surprêsa, reconhecendo-a:

--Ó Luísa! tu aqui?...

Tolhida numa vergonha, a gentil rapariga torceu as mãos, baixou os

olhos, enquanto a frescura virginal da face tôda se conflagrava em

tintas de incêndio.

Abrindo acolhedor os braços, o Silveira interrogou:

--Então? deixaste a _chacra_ onde trabalhavas?

--_No me pagaban_.

--E teu irmão?

--_Me pegaba_.

--Pobrezita! bem digo eu...--bondadoso o Silveira tornou; e com apiedado

interêsse, a seguir:--Fugiste então e vieste p'ra Buenos-Aires governar

a vida?

Numa tácita aquiescência, muda e indecisa, Luísa sorria vagamente.

--E gostas?--indagou o Silveira, muito afável; e como a sua linda

desconhecida abanasse afirmativamente a cabeça, com o vago sorriso de há

um momento aquecido agora por uma adorável expressão convicta:--E

porquê?

Luísa teve uns segundos de comovido silêncio e por fim, dobrando humilde

o busto, com as abatidas pálpebras seguindo, em baixo, o movimento dos

pés, que em taramelados giros raspavam trémulos na orla do passeio,

murmurou:

--_Porque aqui estoy mas cerca de Usted_...

Pelos arrepiados nervos do Silveira uma branda emoção correu, mixto

fundente de orgulho e de prazer, de fatuidade e de ternura. Sentiu-se

quebrado, preso... Atingiu-o em cheio na alma a ingénua confissão, a

doçura sentimental da rapariga. Naquela tarde havia uma reùnião de

acionistas da tal _Sociedade Internacional de Seguros_, e êle ia agora à

_calle_ Vitória para ter uma conferência prévia com um dos membros da

Comissão Directiva, pois sobravam razões para desconfiar que semelhante

_Sociedade_ não passava duma audaz mistificação, duma burla

descaradíssima, na qual êle via já infelizmente a arder o seu rico

dinheiro! Porêm, num pronto, a aparição de Luísa, ante a inefável magia

daquelas palavritas de oiro, vencido pela singela eloqùência duma

confissão tam espontânea e tam formal, tôda a sua grande preocupação

financeira,--uma preocupação de enxêrto,--se lhe varreu do sentido... Ao

mesmo tempo, numa tristeza de instinto, fitava com demora a sua passiva

interlocutora, olhava-a bem, considerava a sua rudeza inata, o exotismo

da sua figura, a miséria do seu arranjo... e sentia-se vèxado; via-se

que não podia decentemente quedar-se ali assim muito tempo, às claras,

nesse comprometedor _tête-à-tête_ num logar tam público, nem tampouco

acompanhar com ela. Mas tambêm,--que demónio!--esquivar-se agora e

deixá-la, retribuir êsse infantil abandono com a indiferença, seria a

maior das ingratidões, uma desumanidade, uma cobardia. Por isso êle, de

repente, cedendo a um cavalheiresco impulso interior e todo dobrado para

Luísa, olhando-a com carinho:

--Já almoçaste? queres comer?

Por seu turno, Luísa, sem ousar encará-lo, as mãos juntas erguidas aos

lábios e confrangendo o busto, tartamudeou uns monossílabos de embaraço.

E o Silveira então, adivinhando-a, tomou-lhe do braço, e com afectuosa

decisão, familiarmente:

--Anda daí!

Internou-se com ela em Vitória, mandou-a seguir rua abaixo, na sua

frente, um pouco a distância, em direcção ao Congresso; e aí dobraram

rápido para Entre Rios, onde entraram num _bar-restaurant_ de ínfima

classe, velhacouto barato de _menesterosos_, rufiões, cocheiros,

_chauffeurs_, caixeiros sem patrão e _redobloneros_ sem clientela.

Abancaram os dois a uma das mesas mais interiores, numa discreta

penumbra, e, à aproximação solícita do moço, dobrado em interrogativa

atitude depois de haver passado maquinalmente o guardanato sôbre a tábua

encardida, o Silveira insistiu com a suave morenita p'ra que dissesse--o

que queria tomar. E ela, numa deliciosa hesitação, com a face incendida

e os olhos húmidos, sem acabar de ageitar-se na cadeira, não atinava

igualmente com o que havia de escolher.--Não queria comer. Passára-lhe a

vontade...--Contudo, após uma laboriosa inquirição pela hipertrófica

lista dos ágapes em giro, decidiu-se afinal por um chocolate _liviano_ e

_sandwiches_. Êle pediu um _Bilz_. E com familiar naturalidade, num

singelo abandôno, algareira, feliz, Luísa foi então contando:--Ela não

andava por'li assim tam perdida como o seu _querido nenito_ imaginava.

Já estivera por duas outras vezes em Buenos-Aires; a última, quando foi

do centenário. Tinha mesmo aqui uma irmã... E que lá no campo moíam-na

com trabalho e ainda em cima não lhe pagavam. Guilherme, o irmão, era um

desalmado, um bruto. Ela arrastava assim uma vida de negra, era certo...

mas, em suma, como não sabia o que era mundo e não alcançava a mais,

ia-se conformando... A vélha adivinha de Castelli lá dizia: que cada um

nasce com o seu destino já talhado. Que lhe havia de fazer?... Porêm que

depois, de repente, nessa terrível tarde que afinal se volveu p'ra ela

numa aurora, ao vê-lo surgir tam milagrosamente e salvá-la, sentiu que

se lhe abrira qualquer coisa dentro da alma! como ela não sabia

explicar... via e abrangia agora as coisas por uma outra forma,

compreendia como podia _quererse_ a alguêm... e que a sua verdadeira

existência começara naquele momento, que não mais poderia quedar-se ali

onde a querida imagem do seu rico protector, lhe aparecia a todo o

momento, infiltrada de saùdade, reclamando-a com império.

Premindo-lhe a mão com doçura, o Silveira interrogou:

--Mas que te importa a ti?...

E ela, num profundo acento, gravemente:

--_Nada mas me importa en el mundo!_

A seguir, por entre as freqùentes olhadas oblíquas da freguesia equívoca

do _bar_, intrigada pelo estranho _accouplement_ daquele rico

_mozalbete_ com uma tam ordinária _piba_, Luísa continuou

desfiando,--que, resolvida a partir, fôra a socorrer-se com aquela santa

senhora, D. Teresa, a qual lhe deu algum dinheiro e uma carta de

recomendação para êsse _gran comercio de imagenes_ que havia na _calle_

Suipacha, onde a admitiram como caixeira. Tinha graça! todo o dia agora

a lidar com santos, ela que nunca se havia confessado nem comungado na

sua vida.

--Conféssas-te agora a mim.

--_Es que el señor es mi santo preferido. El señor y San Antonio_.

--Mas então, estando aí empregada, como é que?...

--_A las once salgo á almorzar. Y yo iba en una carrera y luego me ponia

en acecho, ya sabe, frente mismo á su hotel. Por suerte algunas veces mi

amor tardaba en salir... Y yo entonces, despues de verlo y seguido un

rato, como ya no tenia tiempo, volvia apurada á la tienda, sin comer_.

--Que disparate!

--_Es la cosa mas natural... Y no se me importa: soy de poco comer_.

--E aqui onde vives?

--_En la calle Tucumán, en una pensión muy cómoda e barata, dirijida por

una espécie de monjas, que ese buen santero de Suipacha me indicó. La

casa es solo para señoras y señoritas. Tengo un lindo cuarto, con el

piso encerado y la camita blanca. Tratan muy bien à la gente. Pero tiene

una cosa fastidiosa: no se permitem visitas y despues de las nueve de la

noche ya nadie puede salir_.

--Se precisares de alguma coisa...

E com crescente animação Luísa, num progressivo abandôno de todo o seu

ser confiado e vibrante:

--_Preciso, si... preciso verlo, oirlo, tenerlo algunos momentos cerca

de mi, asi, bien cerquita! Sus ojos me llenan el corazon de sol, su

simple presencia me infunde valor. Preciso tanto de ella como del aire y

de la luz, para vivir... e con ella me contento, toda vez que no puedo

aspirar á su cariño. Lejos de Usted es como yo ya no podria vivir!

Porque ahora es una cosa tan diferente... Si el señor vise como yo, allá

afuera, vivia solita y triste, sin afectos, sin amparo, sin una pisca de

alegria!... Por eso necesito que se me convierta en un dulce y leal

amigo de siempre, mi generoso protector dun instante. Que cargosa le voy

a ser!... No se acuerda el señor de aquella noche en que la siniestra

lechuza nos seguia todo el camino?... Nos ligó en la vida y en la

muerte. Es la suerte ya vê... Y yo confio en ella y á ella me entrego, y

estoy contenta. Porque decia mi abuelita, que Dios tenga en su gloria,

que cuando la felicidad se pone delante de nosotros á abrirnos un

camino, es como la desgracia,--es por mucho tiempo_.

Vagamente apreensivo, num frio e convencional sorriso, o Silveira

murmurou:

--Bem, está bem...

Luísa agora mudára de expressão, e com adorável infantilidade,

tristemente, olhando-se com desprêzo:

--_Lo peor es que yo, verdaderamente, en esta facha, me averguenzo...

si, reconozco, tengo que confessar que no soy digna de Usted!_--Mas

logo, numa coqueteria ingénua, recobrando-se:--_Ah! pero tambien yo sé

vestirme como las señoritas de la ciudad. Y tengo com qué, gracias al

Señor!_

--Não tens um chapéu?

--_Como no! Y una linda blusa de seda, pollera con pliegues y cordon de

oro_.--Atirava com decisão o guardanapo:--_Vá a ver!_

O Silveira expandiu-se num claro riso, entre trocista e incrédulo; e

após uma pausa, voltando a afagar-lhe com carinho a mão sôbre a mesa,

suavemente:

--Mas, dize-me: então, sério, sério, não te lembra o campo?

--_Que me voy a acordar?_

--Não deixaste por lá nenhuma inclinação? não tens saùdades?

--_Inclinación?... Acaso sé lo que es eso!_

--Era natural...

--_Nadie! nadie!_--E com um sincero calor, beijando os dois indicadores

postos em cruz:--_Juro! por esta... Yo naci sin una flor en el alma. Yo

andaba por ahi como una pelota lanzada al acaso, sin paradero, sin

hogar, sin destino. Quien hacia caso de mi_?...--Depois, comovidamente,

com os antebraços ao alto, as mãos postas em súplica e as pupilas

ardentes num amoroso enlêvo despedidas ao busto atónito do

Silveira:--_Ahora, si! es que yo creo haber finalmente encontrado mi

familia, mi mundo... ahora es que yo compreendo la razón y el fin de mi

vida. Que feliz soy! Cuanto le debo!_

Súbito, como no seu enlevado giro os alarmados olhos de Luísa se

fixassem no grande mostrador circular do relógio da sala, a timorata

rapariga estremeceu, e como quem desperta dum sonho:

--_Ah! pero que tarde es!... Que disculpa voy á dar en la tienda,

valgame Dios?_--E pondo-se de salto em pé, apressurada,

inquieta:--_Disculpe-me, si?... Es forzoso. Voy á tomar el tranvia_.

Arredou a cadeira de golpe, e enquanto o Silveira pagava, sem uma

palavra de despedida mais, sem um agradecimento banal, sem mesmo esperar

por êle, partiu precipitadamente.

O Silveira ficou ainda, uns minutos, como avergado ao pêso dum

inconfessável cuidado. Acendeu um cigarro, saíu morosamente... e

longamente depois, penseroso, inerte, foi subindo a pé a praça do

Congresso.--Em que viria aquilo a dar?... ia vagamente contrariado,

porque sentia que demasiado o preocupava aquele trivial episódio

_callejero_. Increpava-se da sua debilidade. O saboroso desenlace desta

aventura picante seduzia-o, fazia-lhe negaças ao desejo; mas

simultâneamente, perante a turbadora ameaça do contubernal convívio com

essa criatura delicada e simples, o seu epicúrio egoísmo revoltava-se. E

como quem padece dum mal secreto, como se premeditasse algum delituoso

plano ou houvesse cometido alguma acção indigna, guardou-se de contar

qualquer coisa ao Azeredo.

Curioso foi que à hora habitual, na manhã seguinte,--e embora não

houvessem feito nenhum acôrdo prévio,--lá estavam os dois outra vez cada

um no seu posto; dando-se até o caso singular de ser o Silveira quem

apareceu primeiro. Pronto êle havia baixado ao salãosinho de leitura do

hotel e daí, sem mesmo pensar em almoçar, recostado com indolência num

_fauteuil_, junto à janela, seguia espiando em disfarce a aparição, na

esquina defronte, da sua linda e suave companheira.--Nada tinham

combinado, mas de seguro que ela havia de vir!--E, forte nesta

acariciadora evidência, a curtos intervalos êle não despegava de apontar

os olhos codiciosos ao outro lado da rua. Muito não tardou que a sua

femieira impaciência não fôsse satisfeita. E então, mal que o insofrido

galã viu em frente, debuxar-se no torvelinho vago da multidão a fina

silhueta apetecida, ergueu-se, tomou o chapéu, correu à porta... num

momento estava junto dela.--Vinha outra, com efeito, naquela manhã,

conforme anunciára. Já parecia alguêm... Cómicamente travestida em

_señorita_, trajava uma singela blusa em _soyau_ crême, decotada, com

largo cabeção à Tudor, segundo a moda; uma saia negra em sino, muito

curta, com sobre-saia _plissée_, da mesma côr; bota de pelica e verniz,

e meia branca; ao colo um ténue fio de oiro; na cabeça um barato

chapéusito _panier_, de palha castanha, rebatido sôbre os olhos e atrás

em sôlta curva erguido sôbre a mòlhada luzidía do cabelo, pregado à

nuca; e umas luvas triviais de algodão branco, pospontadas de negro,

sujeitavam a rústica aspereza das mãos, donde pendia uma bolsinha de

sêda.

Entalada nesta convencional, e para ela quáse inédita, indumenta urbana,

Luísa aparecia desfigurada. Era uma autocaricatura. Era como uma

estiolada flor trazida do campo. Na sua improvisada encadernação havia o

que quere que fôsse de contrafeito e exótico, que a desfavorecia. Ela

mesmo não se sentia à vontade... os movimentos eram hirtos, a expressão

estranha, não sabia que fazer dos braços. Estava adorável de embaraço e

de ridículo. Mas a tudo sobrelevava sem esfôrço o contôrno picante da

sua figura, e dessa contrafacção irrisória zombava triunfal a sua

mocidade recendente, a sua palidez fresca de flor, a sua graça nativa, a

sua confiança ingénua, o seu viço exuberante.

Saùdaram-se por um cordeal apêrto de mão, e de roda dela o Silveira tudo

era mirá-la de gôsto e aplaudi-la, complacente e risonho festejando-a

por aquele milagre de metamorfose tam sedutora como imprevista. Achava-a

encantadora. Porque de todo aquele ingénuo esfôrço ressaltava a

exclusiva, a ardente preocupação de interessá-lo; todo êsse preparo

coquete era um discreto convite, um desafio evidente, que o enardecia...

Do mesmo passo, a confusa e tímida criança, no íntimo lisonjeada, pedia

mimadamente--_que no le hiciese burla_...-e trejeiteava umas infantís e

humildes expressões que, eram a demanda subtil do seu agrado.

Contudo o Silveira encontrou-a triste. Mantinha-se inconcebivelmeute

perplexa, muda, cabisbaixa. O que quere que fôsse de penoso e molesto

lhe ensombrava a expressão, lhe pesava nos lábios e abatia o vôo

sonhador das pálpebras. Interrogou-a com insistente carinho e ela sempre

no mesmo silêncio embaraçoso e difícil; té que por fim, por muito

instada, balbuciou a custo:--que ao entrar na loja, na véspera, como

chegasse uma hora mais tarde, não quiserem saber de razões nem

desculpas. Pagaram-lhe e despediram-na.

Tomado dum indominável frio egoísta, o Silveira exclamou:

--E agora?...

--_Ahora que sé yo?_--murmurou Luísa mansamente; e na sua resignação

fatalista, encolhendo os ombros:--_Busco otra casa_.

Insensivelmente haviam retomado a andar, rua abaixo, agora já sem

esquivanças, sem hesitações nem dúvidas, mano a mano, como dois iguais,

como dois bons amigos. Mas seguiam sem palavra ferir, silenciosos e

graves, a par um do outro e distanciados pela interposição dêsse

arreliador problema económico, filosofando em comum sôbre a dura

incerteza do futuro. Porêm, súbito, um outro problema bem mais grave

formularam as exigências fisiológicas do Silveira,--a necessidade de

almoçar. E êste era de solução imperativa, imediata. Fez sinal ao

primeiro _taxi_ fechado que passou, empurrou para dentro a rapariga e,

de mão à portinhola e pé no estribo, ordenou ao _chauffeur_ que tomasse

em direcção ao arrabalde, aí para Flores ou Olivos, e que aterrasse

nalgum pequeno _restaurant_, aceado e cómodo, onde pudesse almoçar-se

bem e a bom recato.

E nesse acomodatício bucolismo de fóra de portas foi onde gozaram o seu

primeiro idílio,--breves, fugazes horas de paz e de enlêvo, vividas ao

acalentador abrigo dos muros dum exíguo _patio_ colgado de trepadeiras,

em cujas sombras transparentes os raios do sol vinham quebrar-se,

dançando, como sarabandas de beijos, como boquitas de oiro. Gradualmente

aquecendo, o Silveira, profissional emérito nas práticas da sedução,

envolvia-a em cariciosas espírulas de encantamento e de sonho,

acenava-lhe com promessas, espertava-lhe desejos, insinuava-lhe

desvarios, dizia-lhe coisas audazes e perversas que a deslumbrada

criança recolhia inteiras, num embevecimento ingénuo, com os grandes e

lindos olhos muito abertos, que pareciam escutar. Depois Luísa tambêm,

no progressivo alento da confiança e pelo eflúvio excitante da comida,

tornava-se ligeira, expansiva, fácil, tagarela, e com a sua vozita

límpida e vibrátil, titilando como uma luz ao vento, fazia o enternecido

relato do seu passado, da sua vida de desamparo e miséria... e como

agora sempre o seu pensamento rodava incessante em volta do seu rico

amor... desnudava as mais íntimas prégas do seu sentir, punha da mais

comovedora evidência a intacta virgindade da sua carne e a nívea pureza

da sua alma. Ao cabo, no regresso, quando dentro do auto os dois outra

vez, êle cingiu-lhe a cintura, puxou-a a si, beijou-a sôfregamente... e

ela abandonava-se, poisando-lhe em delíquio a cabeça contra o peito,

encolhidita, humilde, gozando o prazer inefável de sentir-se pequena

junto ao homem que adorava.

Nos dias subseqùentes, é de saber, a embriagadora scena a repetir-se. Um

e outro tinham o dia todo por seu: nem ela nutria agora maior empenho em

buscar nova colocação, nem tampouco êle se interessava demasiado pelos

negócios. Narcotizava-os a tirania mole do instinto, embalava-os,

adormecia-os uma preguiceira onda de prazer. E assim, numa despótica e

mútua sedução, dias pós dias, foram indominávelmente consumindo o tempo

e pelo seu amoroso exclusivismo enchendo as horas, num delicioso

deambular de acaso, alheios ao mundo, perdidos pelas tascas dos bairros

suburbanos, delidos nas orvalhadas sombras do Tigre, extraviados na

quietude vaga e balsâmica do campo. E êste delicioso parêntesis de sonho

engrinaldava-o Luísa com um chancear cristalino e alegre, intervalado de

carícias tam espontâneas e tam ardentes, que o inflamado Silveira não

sabia por vezes a que sobreùmanas fôrças socorrer-se para enfrear a

violência do desejo. Eram as consabidas étapas duma capitulação moral,

gostosa, inevitável, em que a alucinada criança ia deixando a pedaços o

pudor,--essa epiderme da alma,--como antes, pelo campo, a fímbria da

rústica saia esgarçada nas balsas dos caminhos.

Debalde prudencialmente o Azeredo, já ao tempo conhecedor da situação,

buscava conter e dissuadir o amigo. Fazia-lhe ver, dêsse resvalo inobre

em que se obstinava, as responsabilidades, os contras, os alçapões, os

tédios... porventura os perigos.--Que precisão tinha êle? com tanta

mulher por'í e noutras condições, e mais educadas, mais lindas,

melhores, seguramente!--A nada porêm cedia a libidinosa querença do

Silveira. Se êle a princípio hesitára, agora, mercê da garra mansa do

convívio, o domínio, o gôzo, a plena posse de Luísa tornára-se para êle

uma idéa obsidiante. Pressentia-lhe o aroma e o sabor dos frutos

silvestres. Como um cacho ruivo de medronhos, embebedava-o o apetite

acirrante de mais esta aventura, tanto na sua tradição como do seu

agrado. Por fim, lógicamente, amaram-se na cumplicidade mercenária duma

_casa amueblada_. E logo nessa noite o Silveira, quando a sós, no hotel,

com a reflexiva calma do seu leito, sentiu correr-lhe a espinha um frio

de vaga e presága angústia. Inexplicavelmente, e uma vez dissipado

agora, com a posse, o encanto, o devassado mistério dessa criatura

confiada e simples, uma sorte de áspero cuidado espancava-lhe o sono...

remordia-o um amargo e apiedado sentimento, para êle desconhecido. Tinha

supersticiosas apreensões e vinha-lhe uma tristeza. Quereria

retrogradar, increpava-se, arrependia-se... No desfecho tam plausível e

tam humano dêsse vulgar lance de amor, a sua consciência em alarme

futurava qualquer coisa encaminhada a fazer sangrar a sua alma e a pesar

no seu destino.

X

Mais ou menos o mesmo severo aspecto revestiram, no dia seguinte e

quando inteirado do sucedido, os repreensivos comentários do Azeredo,

que duramente increpou o amigo.--Afinal havia caído na mesma estupidez

de sempre! E p'ra quê, no fim de contas?... Porque não soubera

reprimir-se, atalhar o mal a tempo, furtar-se, desertar, reagir? E que

tivesse vergonha! pois aquela premeditada violência era sempre no fundo

uma acção indigna.

Depois, com uma doçura amável a cantar-lhe na expressão, sensatamente

ponderava:

--Sim, porque essa pobre rapariga agora não te larga... tens que

ampará-la no novo caminho que lhe fizeste. Pendura-se-te da vontade,

enrosca-se-te ao desejo. E é bem feito! E vai tu, com o teu bom génio,

com êsse feitio brando e sensualão, deixas-te gradualmente prender,

apiédas-te, habituas-te, condescendes... e acabarás por descer a essa

equívoca situação tam do agrado de todo o bom português: a mancebia.

--Não é mulher p'r'a mim,

--P'r'os homens fracos e lascivos como tu, tôdas as mulheres estão à

altura.--E num gesto nobre e viril, sacudindo os ombros:--Porque não

fazes como eu?... Tentações dessas prefiro que venham adonde a mim.

Fica-se sempre bem... Foi o meu caso com a chilena. O verdadeiro prazer

deve ter asas, ser leve como uma pena e fácil como os frutos maduros.

Até por uma questão de egoísmo. Pois tu não vês? que diabo!... perante a

epicúrea gula dos nossos sentidos, o convidativo saber da mulher feita

vale mais que o espanto semsabor da virgindade.

Confundido e vèxado, o Silveira concedia--que sim... o seu amigo tinha

razão. São destas coisas que acontecem. Já tinha que ser...--Mas logo,

com desdenhosa arrogância, recobrando-se:--O que não valia a pena era

dar ao caso maior importância. O que melhormente agora ali o interessava

era ganhar _plata_. O mais, queria lá saber!--Aproveitando jubiloso a

derivante, logo o Azeredo lhe disse que ainda na véspera, no _Club

Progresso_, o comendador Niatello com todo o interêsse lhe perguntára

por êle.

--Tem estranhado a tua ausência e com razão. Nunca mais apareceste!

O Silveira prometeu que iria naquela noite sem falta. E com efeito,

cêrca das 10 horas, aí entravam os dois a portada banal do _Club_, na

_Avenida de Mayo_. Transporta a modesta escalinata, em mármore branco e

mosaico, e atravessado em cima um esguio vestíbulo envidraçado, cortaram

logo para o primeiro salão, à direita, uma grande e bem esquadrada peça

participando do simultâneo carácter de centro de conversação, _fumoir_,

biblioteca e sala de leitura. O teto, alto e distante, era todo

artezonado em bastos e simétricos caixotões de estuque lavrado, com

abundância de oiros e relêvos; pelo amplo lençol das paredes, forradas

duma espécie de brocado verde, de lã, com filetitos de oiro,

penduravam-se aparatosas taboletas emoldurando recompensas industriais,

oleografias, espelhos, a lista impressa dos sócios e o plano policromo

da cidade; em baixo, sôbre o envernizado _parquet_, havia uma mesa

enorme, pejada de jornais e revistas, e disseminavam-se em profusão as

cadeiras, poltronas, sofás, _causeuses_ e _fauteuils_ de tôda a espécie,

obrigado refúgio à modorrenta inércia dum avultado número de

assistentes, dos quais alguns, raros, em traje de _soirée_ ou _smoking_,

porêm a maior parte encadernados no comodismo plebeu do jaquetão, e

todos com arrastado vagar discorrendo sôbre triviais casos mundanos ou

tricas vulgares de negócios.

Junto a uma janela abancava, com três sócios mais, o comendador

Niatello, um quinquagenário reforçado e grande, de queixo querençoso, de

olhos ladinos, saltando com dominador relêvo da abaçanada flacidez da

larga face curtida e negrusca, inteiramente escanhoada. Mal que êle

descortinou os dois amigos, logo de chamá-los de longe com protectores

acenos familiares, afectuosamente. E à sua aproximação ergueu-se e

adiantou-se a acolhê-los, numa solícita cortesia, convidando-os logo a

tomar _asiento_ e apresentando-os sorridente aos três

companheiros.--Todos vélhos. Vicente Alvear, descendente duma antiga

família colonial e herdeiro duma grossa fortuna, era ainda uma bela

figura marcial, com a sôlta elegância de movimentos que nos dá uma vida

fácil. Recêm-chegára da Europa, dizia as coisas mais triviais com solene

entono, tinha um certo _aplomb_ fidalgo, e o seu rosto liso, afável e

atraente iluminava-se da espelhada abundância e frescura do bigode e

cabelo, totalmente brancos. Não assim José Piétronero, que desbarbado,

esguio, pequenino, era a mais completa e flagrante realização dum dêstes

grilhetas eternos do trabalho, vestindo pobremente, com a arisca

silhueta repregada sôbre si mesma, os olhitos cavilosos, a face

rechupada e o chinó grisalho, recurvo o dorso como um cifrão, as mãos

crispadas como garras. Finalmente, Pedro Urquiza era o mais galhardo e

mocetão dos três. Grosso, moreno, gordote, a cara opada e macia, o

cabelo lustrado de óleos, as mãos moles e brunidas, era bem um tipo de

puro e contumás _porteño_, no córte arrogante do busto, no desempêno

viril dos gestos, na linha imperativa da bôca, entre voraz e insolente,

na dura expressão do olhar, entre altaneiro e cínico. Trajava com

afectação, de calça excessivamente curta, polainas, grande pérola na

gravata e um cravo branco no olhal do jaquetão cintado.

Foi êle quem imediatamente reatou conversa. Fazia a apologética

enumeração das fabulosas riquezas naturais do país, postas agora a

claro: os jazigos petrolíferos de Comodoro Rivadavia, as hulheiras de

Chubut, os incontáveis tesouros em minério da cordilheira. Tanta

maravilha por'í assim a explorar! tanta coisa misteriosa, ignorada,

inédita, imprevista! No mundo não havia melhor.

--Parece-lhe então que todo êsse sul da Rèpública?...--indagou

ingénuamente Vicente Alvear, avançando o busto com interêsse...

--É o nosso futuro Potosi, não há dúvida! Bem vê, o norte para a

exploração intensiva é ainda demasiado selvagem, o centro está dando o

mais que pode dar... de sorte que é para essas caudais de abundância do

sul que deve de preferência voltar-se a nossa atenção e canalizar-se o

nosso dinheiro.

--Parece que essa obra do carvão de Chubut _es un cuento_,--mascou o

cauto Piétronero com frieza, fransindo desconfiado os olhos e apertando

os braços.

--Como, _un cuento_!?

--Sim... eu li algures a opinião do engenheiro Rivoretto, um informe

oficial, que diz que são jazigos demasiado recentes.

--Pelo contrário,--acudiu o Alvear com entusiasmo,--na Europa corre que

é um carvão que pode competir com o melhor de Cardiff.

--Poderá... daqui a mil anos.

--Tudo isso são abomináveis maquinações e intrigas de tanto invejoso,

tanto malfadado empatador que p'r'aí abunda!--contestou indignado Pedro

Urquiza. E com persuadente intimativa:--Não tenham dúvida: o valor das

hulheiras de Chubut, mas o valor actual, imediato, é enorme. Depois, há

ainda os mananciais do Neuquem, há tôda essa imensa e feraz

Patagónia...--E num ardor de patriótica exaltação, pondo-se em pé, com

os lábios imperiosos, com uns olhos de vidente:--Ah, creiam, meus

amigos! por tudo, até pela raça, é no sul que repousa o engrandecimento,

é do sul que há-de avassaladoramente romper e impôr-se o grande futuro

da Rèpública. E o dever de todos nós é, desde já! não só acompanhar, mas

estimular êsse portentoso fenómeno natural com as nossas melhores

reservas de actividade, de inteligência e de numerário.--Rodeou o grupo

em duas passadas nervosas, e por fim, abatendo a mão sôbre o engerido

ombro do Piétronero:--Você que diz?

Este teve um instintivo estremecimento, e naquele gesto tam seu, de como

quem defende a algibeira, encolhendo os braços todo dobrado:

--Eu não sou ambicioso... não digo nada.

--Duvida? tem receio?

--Não sei, não sei... Aquilo que tenho custou-me tanto a ajuntar!...

--Não diga isso! Um homem como você, dos do bom tempo, quando

inesperadamente se acordava rico... Um felizão, que apanhou fortunas de

mão beijada...

--Sim... porêm o meu amigo não atenta agora, com as reviravoltas da

crise, em quantos títulos eu tenho comprometidos... não toma em conta a

imensidade de terrenos que eu comprei a 30 pesos o hectare, e que neste

momento não valem 5... Ninguêm mos quere!

--São injustificadas apreensões. Lá virá seu tempo.

--Virtualmente estou pobre.

Uma girândola de incrédulos risos acolheu êste lamento hipócrita. E a

seguir num generoso arranque de confiança, o Alvear:

--Pois eu cá, não! eu estou meio tentado. O dinheiro que os meus me

legaram, p'ra que o quero eu? senão p'ra pô-lo ao serviço do meu país,

ajudando-o e engrandecendo-me?... Que essas novas empresas consigam do

govêrno, pelo menos, o apoio moral, e o meu capital disponível estará

com elas.

--Bravo! meu nobre amigo. Muito bem!--exclamou com festiva arrogância o

grosso Urquiza, dobrado com esfôrço, sobre a espalda do amigo. E logo

para o Silveira, que, sentado ao lado, seguia num vago deslumbramento o

giro tintinabulante do diálogo:--E que diz a isto o nosso simpático

estrangeiro?

Aqui interveio o ladino comendador, até então silencioso, e que com

dulcerosa expressão, envolvendo protector o Silveira na chispa

traficante do olhar, astutamente:

--Ah, o meu joven amigo não precisa aventurar-se tam longe p'ra fazer

fortuna. Tem um pouco mais perto, já sabe... os meus terrenos da

província de Cordoba. Não é verdade?

Maquinalmente, o Silveira sorriu; enquanto o Azeredo fransia a testa com

desgôsto, o negrusco aliciador continuava:

--Pode ali fazer uma rica exploração agrícola em larga escala. É o mais

simples e o mais seguro.

--Eu gosto muito do campo.

--Aí tem! Que melhor oportunidade que a que eu lhe ofereço agora? E olhe

que poucos lotes me restam já... Um terreno privilegiado, não imagina!

Ainda não viu a exposição dos produtos dessa minha terra, aqui em

Florida?... Faz o assombro de tôda a gente. Vá ver, vá... e eu tenho a

antecipada certeza que de lá o meu amigo correrá ao meu escritório.

--Haveria logar para tudo...--magnânimo o Urquiza aventurou.

--Nada! nada! _Qué esperanza_... Creia, amigo Silveira, nenhum negócio

como êste meu. Garanto-lhe que, em dois anos, tem o valor do seu capital

quintuplicado. Quere ver?

E, dizendo, o acobreado Niatello sacava duma pasta e desdobrava

aparatosamente sôbre a mesa uma grande planta policróma, enquanto de

roda os três vélhos cambiavam entre si um imperceptível olhar

escarninho, e o Azeredo impaciente beliscava o braço ao Silveira.

--Bem! vou ao meu assalto de florete,--anunciou, num sêco gesto de

despedida, o Urquiza. E para o Silveira, com especial predilecção:--Tive

imenso prazer em conhecê-lo, pode crêr... _Calle_ Lavalle, 1391,

inteiramente ao seu dispôr. E fóra disso, pelas tardes, encontra-me

sempre invariávelmente fazendo a _calle_ Florida, no _Jockey Club_ ou aí

pela livraria _Mendeski_, pelo _Wictomb_, à porta do _Lacloche_ ou no

_Rumplmeyer_.

Seguiu, breve e altaneiro, para o interior da casa, tomando-lhe o

exemplo, a poucos minutos passados, Vicente Alvear e o Piétronero, que

deixaram o comendador a desdobrar à vontade a sua estratégia de sedução

perante os dois portugueses. Assentou êle em pêso a negra mão

convincente sôbre uma larga fôlha de papel-tela, onde tentadoramente se

estrelava uma grande mancha trapezoidal, escaqueada por um labirinto de

pequeninos rectângulos, brancos, amarelos, azúis e verdes, que uma

floresta de traços negros definia, e carimbados a algarismos vermelhos.

A toalha esfíngica da fortuna.

--Isto aqui é o melhor que pode haver, notem os srs. bem! Província de

Cordoba, departamento de Iulumba. Dôze horas de ferro-carril; é um

passeio. O lote que eu lhe ofereço é êste, o n.^o 13, um número de

sorte, um verdadeiro _regalo_. Veja: são cêrca de oito mil hectares,

terrenos absolutamente virgens, a dois passos da linha férrea,

abundantes carreteiras, e em condições topográficas excepcionalmente

favoráveis, entre a montanha e o rio.

--Há-de ser caro...

--Quê, caro? objectou com a mais teatral isenção o comendador.--O meu

amigo não me conhece... De tanta soma de terras aqui vendidas já eu

tirei um lucro bastante compensador; de sorte que agora êste resto,--que

não é um refugo, senão um mimo,--ceder-lho hei por nada, quáse de graça.

--E como é que tanta preciosidade--arriscou com impertinência o

Azeredo,--se conservou até agora assim baldia, estéril, ignorada,

inútil?

--E um fenómeno vulgar em tôda esta imensidade.

--Bem, mas em todo o caso este meu amigo, sem ver, sem se informar

melhor... não pode assim de golpe comprometer-se...

--E porque não vão lá primeiro, certificar-se? Eu até estimo.

--Desnecessário!--atalhou, num rasgo de quente decisão, o

Silveira.--Está posta de parte, por descabida entre nós, a questão de

confiança.--Depois a meia voz, para o Azeredo:--Talvez convenha,

hein?--E na hipnose ingénua do oiro, erguendo-se:--Olhe, meu caro

comendador, eu não resolvo nada de pronto; no entanto peço-lhe que me

reserve o lote, que me dê um prazo.

--Só sendo muito curto, já vê...

--Eu àmanhã sem falta vou ver a sua exposição, e em seguida, em qualquer

hipótese, passarei pelo seu escritório.

E com um efusivo apêrto de mão despediu-se e afastou-se, com o Azeredo,

enquanto o comendador dobrava e guardava, num jubiloso vagar, o seu

trapaceiro _dossier_, com a segurança ardilosa do triunfo a bailar-lhe

no olhar astuto.

Não muitos metros andados na direcção dos bilhares, chamou a atenção dos

dois amigos, quáse travando-lhes o passo, um grupo atónito e compacto

que em extátíca suspensão escutava o verbo suasivo e ardente dum

invisível charlatão, sob o domínio empolgante da sua embaìdora parlenda

desdobrando cifras e barafustando enganos.

--É um assunto que eu pensei maduramente, meus senhores!--pregoava êle

na sua ardorosa invocação, convictamente.--É uma grande empresa, um

negócio estupendo!

Cá de fóra e de longe, o Silveira não podia distinguir a figura do

industrioso perorador; mas pareceu-lhe reconhecer aquela voz sacudida e

vibrante, de timbre metálico, saltando no silêncio espectante de em

tôrno como um jôrro de moedas batidas sôbre o balcão. Ergueu-se então em

bicos de pés... e, com efeito! era o seu abortivo Ramón Alvarez quem com

tam compenetrada fúria encarecia as maravilhas dalgum inédito elixir da

sua lavra. E que de repente, ao vê-lo:

--Oh, meu caro Silveira! Que feliz, que providencial acaso! Quanto

estimo! _Pase_, _pase_, venha ouvir... Como chega a propósito!

E tam pronto fez praça ao amigo, logo êle, para não perder o calor

sugestivo do momento, rompeu clamoroso outra vez:

--Trata-se nem mais nem menos que da construção dum grande, um alado, um

colossal e gigantesco pára-sol sôbre tôda a praça de Mayo.

Os paresiados rostos dos circunstantes fulguraram num rasgo de admiração

alarve. E êle, impudente, imperturbável:

--Os senhores compreendem bem a minha idéa, o meu fim essencial:

oferecer um pouco de comodidade ao grosso publico, furtar às

inclemências do calor e ao rigor das intempéries tôda a imensa aluvião

humana que de sol a sol febrilmente circula e se agita nessa túmida

aorta da cidade. Mas de passo eu quero reùnir ao útil o agradável, quero

adornar de atractivos, rodear de fartas e lindas diversões, essa

benéfica estância de repouso. Será um ponto de reùnião forçado, uma

obrigada estação de prazer, _chic_, estética, elegante. Haverá por

exemplo ali assim, logo em baixo, tôda a sorte de _tiendas_,

_restaurants_, bazares, _garages_ de automóveis, que sei eu?... Depois,

em cima, envolvendo o grande suporte central, e suspenso, teremos um

vasto salão de concertos; dos extremos de cada vareta, ao largo de tôda

essa perifería, eu farei igualmente suspender quantidade de teatrinhos,

cinemas, _bars_, estufas, e por fim, no afusado remate do vértice,

rendado e fino como uma agulha de catedral, erguer-se há um lindo

_belvedére_ e flutuará um balão cativo.

--Encantador, grandioso, realmente!

--É uma idéa bem americana!

--Parecer-lhes há estranha, à primeira vista...--ponderou o grotesco

Alvarez, sorridente, pendulando a fenomenal cabeça com modestia.--E no

entanto nada de mais exequível, de mais oportuno, de mais simples, de

mais a propósito.

Mas por entre o côro basbaque dos aplausos algumas birrentas dúvidas

surdiam.

--Acho um plano em demasia arrojado.

--Impraticável talvez...

--Como, impraticável?--de salto o Alvarez acudiu, com o frio cobalto dos

olhos súbito incendido.--Ao contrário, hoje, com o ferro e o cimento, é

tudo quanto há de mais fácil.

--A mim parece-me a renovação da cómica façanha do _homem das botas_...

com a diferença que esta não custou dinheiro,--disse em surdina para o

Silveira o Azeredo.

--E a forma prática de o realizar?--interpelou um ouvinte mais rebelde.

--A municipalidade consentirá? Já obteve a concessão do exclusivo?

--Ainda não... porêm tenho a promessa formal do _édecan_ da

Presidência.--Um crédulo cabeceamento de aplauso acolheu esta animadora

notícia.--O lucro vai ser imediato, enorme, colossal!--tornou dogmático

o Alvarez; e após uma ardilosa pausa, abrindo familiar os braços,

singelamente:--Agora o que há, é que estas coisas, sem dinheiro, sem

muito capital... Eu só não posso... Pensei numa sociedade por acções, de

cem pesos, cobráveis em duas prestações. Está ao alcance de tôdas as

bolsas. Uma coisa de nada! Aqueles dos srs. que me queiram acompanhar...

Entretanto, nas fôlhas do providencial _carnet_ que um solícito

_corredor_ ia fazendo adrede circular pela assistência, choviam

abundantes as adesões e as rubricas dos subscritores. O Silveira

inscreveu-se com cem acções, levado na rútila asa dos seus sonhos de

fortuna.

Na manhã seguinte, tomado de plutonómica impaciência, êle aí ia visitar,

em _calle_ Florida, o tam apregoado mostruário agrícola do comendador. A

distância de mais de meia _cuadra_, já êle distinguiu um grosso grupo de

mirones, na sua curiosa inquirição colados com avidez à montra, tomando

o passeio e daí alastrando ainda em arrelienta cauda pela rua. Tanta

soma de interêsse foi para o hipnotizado Silveira mais um estímulo.

Estugou o passo, e, breve, a poder de firmeza e de decisão, pedindo

vénia, acotovelando, rompendo, atropelando, logrou alcançar o posto de

exame desejado.--Um perfeito deslumbramento! Distribuida com arte e

colmando superabundante a vidreira, havia a mais tentadora profusão de

bulbos, de sementes, de frutos, leguminosas e gramíneas de toda a sorte

e tudo sôltamente luxuriando em côres sadías e brunidas, em túmidas e

aveludadas curvas, em farturas reçumantes, escarolados cofres da

abundância, gordos, frescos, viçosos, grandes como êle nunca vira igual!

Alguns eram duma corpulência descomunal, verdadeiros prodígios da

Natureza.

Havia ali batatas grandes como melões, melões que pareciam abóboras,

abóboras que eram como as tôrres da Senhora dos Remédios ou do Bom

Jesus, na sua terra. Seguramente, na última exposição promovida pelo

Vilarinho de S. Romão no Palácio de Cristal, e que tam falada foi, não

aparecera nada capaz de se comparar com isto. Era uma possança

paradisíaca que metia positivamente num chinelo os afamados feijões e as

couves de S. Cosme, os pêssegos do Varosa ou os calombros de Lamego. Que

portentosa produção e que privilegiada terra!

Nem todos pareciam, entretanto, manter esta corrente ingénua de sentir,

no heterogéneo grupo da assistência. Um que outro dito mordaz passava

dissimulado ou esfusiava escarninho; alguns rodavam num propósito

manifesto de troça, assobiando; e mesmo junto à orelha do indignado

Silveira, alguêm houve que, fransindo o nariz, com implicativo acento

exclamou:

--Hum! A mim parece-me isto um _conto do vigário_.

O Silveira sentiu ganas de contraditar a blasfémia; e sobranceiro a êste

deletério contágio, como um decisivo gesto do seu protesto pessoal a

tanta soma de imbecilidade e ingratidão, súbitamente, deixou por seu

turno a vidreira e seguiu na pressurosa demanda do comendador,--não

fôsse algum mais diligente e esperto antecipar-se-lhe!--e adquiriu para

si o famoso lote n.^o 13. Oito mil hectares de terra virgem, a dez pesos

o hectare. Um ovo por um rial. Um negócio de mão cheia.

Descontado êste dinheiro, mais o capital que arriscára na _Sociedade

Internacional de Seguros_, e o custo das cem acções, do dia anterior,

não lhe restava já do seu parco património, feitas bem as contas, mais

do que com que viver, e bem escassamente, quando muito, por um ano...

Oh, mas que importava isso, se dentro em poucos meses, seguramente, êle

dos seus esplêndidos negócios ia colhêr rios de dinheiro!--Bem bom! bem

bom!--dizia-se, esfregando as mãos, sorridente.--É um dito êste bem

certo: que há males que veem por bem... Afinal, em bôa hora viera. Ia

_fazer a América_, veriam! Ainda havia de mandar depois as brôas ao

Afonso Costa. E que esmagadora lição êle infligia à Laurita!

Arrastado na falaz miragem dêste sonho magnificente, tôda a tarde o

Silveira levou, desocupado e frívolo, em prazenteiros _flirts_ pela

cidade. Começára o delicioso mês de maio, o opulento batedor da

_season_, arrepiado dos primeiros frios e com as suas plácidas manhãs

envôltas vagamente, como por uma peliça cara, nas peroladas franjas da

neblina. Apetecia o confôrto caseiro e lembrava, gratamente, o sôpro

morno dos _calentadores_, o efusivo calor das recepções mundanas, o

tépido e sensual ambiente das veladas, dos concertos, dos bailes, dos

teatros. Haviam-se inaugurado já os selectos _tés_ dominicais do Plaza,

e os aristocráticos cartazes com o _elenco_ do _Colón_ tenorinavam

líricas tentações pelas esquinas. Ao longo da Avenida de Mayo, limpa já

de ruturas, porêm ciscada a trechos pela chuva outoniça da folhagem dos

seus plátanos, várias brigadas de obreiros lidavam regulamentarmente,

desdobrando tubagens, firmando plintos, marchetando escudos, aprumando

postes, bandeiras, mastaréus, pendurando sanefas de lumes e articulando

pórticos de ripado, para as próximas iluminações das festas da

Independência. E tornavam a aparecer as equipagens de preço, e pelas

ourivezarias e casas de modas cruzavam, em vagarosa importância, as

grandes figuras conhecidas. Era _la gente bien_ da grande cidade que, de

novo, condescendia em mostrar-se, era um novo ciclo da sua ostentosa

vida social a definir-se. Opulências, brilhos, vertigens, intrigas,

caprichos, loucuras, traições, amores... Era a lampejante renovação de

mais um dêsses embriagadores remolinhos de fortuna, de engano e de

prazer em que o aturdido Silveira estava disposto agora a deixar-se

envolver, pronta e avassaladoramente.

Ora, justo no dia seguinte, primeira terça-feira do mês, os Wimeyer

recebiam. Às 6 da tarde, lá estava pontualmente o Silveira à portita

discreta e esguia dêsse modesto rés-do-chão da _calle_ Paraguay. Desta

vez a criada, sem hesitar, abriu logo o batente da porta envidraçada,

dando afável o passo ao visitante, que se encontrou num escuro e

enfadonho _hall_, de teto envidraçado, onde êle poisou o chapéu e a

bengala, passando logo, à esquerda, ao salãosinho da frente, que dava

para a rua. Aí, sôbre um coçado sofá, no logar de cerimónia,

espapavam-se duas assaz ponderáveis matronas, amplas e obêsas, de negro,

com muitos bandós e pérolas, atendidas solícitamente pela dona da casa.

E não havia mais senão, um pouco à parte, junto ao piano fechado

prudencialmente, duas raparigas vestidas de claro, ambas dum córte

igual, em pé e com o exíguo ventre em abandôno à frente, os ombros

ladeiros,--cuja frívola atenção Irene e Dolores buscavam maquinalmente

prender, mostrando-lhes num convencional agrado um jornal de modas, que

as duas delambidas olhavam como por demais, de pálpebras froixas, o

longo narizito afilando enjoado no rosto impertinente.

Fez naturalmente sensação a imprevista entrada do Silveira, cortando

assim de improviso a sorna frialdade do pequeno círculo feminino. D.

Catalina festejou-o muito, dando-lhe com marcada alegria as bôas-vindas,

e logo, com o seu ar repousado e lânguido de sempre, apresentando-o às

duas bisarmais amigas. A seguir, o Silveira dirigiu-se a cortejar o

apartado grupo das quatro jovens, que lhe acenavam com sorrisos; e

então, ao defrontar-se com Irene, estremeceu e sentiu que lhe banhava a

espinha um frio de estranheza. Olhava, olhava e não queria crêr...

Estava mais alta, mais dura e mais forte, engrossára deplorávelmente.

Parecia-lhe outra, desagradava-lhe, desconhecia-a... Já D. Catalina o

chamava afectuosamente, ageitando-lhe cadeira a seu lado, e o

desencantado Silveira não conseguia confortar-se do seu desgôsto nem

repôr-se do seu espanto. Sofria a mais amarga e dolorosa decepção! Que

era feito então dessa alada e fugidía figura de há dois meses antes? que

lance cruel do azar ou que tirania estúpida de raça lhe haviam assim

desfeito o encanto ideal dessa visão bemdita, durante a viagem?... Êle

estava a ver! perdera a sua linha fidalga, aquele soberbo ar de

_palmeira imperial_, na sua aérea esbeltez, na sua altívola frescura...

Tinha agora uns ombros quadrados e roliços, um pulso de cavador, uma

anca rotundamente animal, espatinados os seios, a pele ardída, as

feições empastadas e sob o queixo fazia refêgos. Como fôra aquilo, em

tam pouco tempo?!

Entretanto, D. Catalina, sem poder dar-se conta desta arreliadora

surprêsa do Silveira, carinhosamente interpelava-o:--Como tinha êle

passado durante todo aquele tempo? E Buenos-Aires que lhe

parecia?--Impaciente e distraído, o Silveira arrastava quaisquer vagas

banalidades. E logo mui dulcerosa a mãe Wimeyer:--Que êles é que nunca

poderiam esquecer tam bom amigo. Falavam nêle todos os dias... E que

haviam recêm-chegado. Dolores estivera com o pai em Salta. Irene, não!

essa era mais _regalona_, acompanhára a mãe no Tigre.

--Nunca o vimos por lá...--aqui acudiu naturalmente Irene.--Todos os

dias à espera!

Com o ar humilde e contrito, quáse vèxado, o Silveira balbuciou--que,

com efeito, confessava o seu pecado... mas nunca tinha ido ao Tigre.

--Como!? E ainda o diz?--reprimendou, a fazer de agastada, a doutoral

mãe de Irene.--Não podemos perdoar-lhe semelhante falta! A nossa melhor

estância de verão... Nem a Suíça... Dito por todos!

--O Tigre é lindo!--acudiu com ênfase uma das paparretas de junto do

piano, aproximando-se.

--A minha filha deu-se muito bem por lá...--tornou D.

Catalina.--Erguia-se muito cedo, todo o dia ao ar livre... pescava,

montava a cavalo, remava muito. Não vê como lhe fez bem?

Neste preciso momento, Irene aproximava-se do Silveira e vinha

oferecer-lhe uma chávena de chá, còrando ligeiramente, com a sua

habitual singeleza. E posta assim, natural e simples, diante dêle,

revelava numa irrecusável eloqùência êsse subito e passivo avatar

burguês da sua figura.

Não era nada já a esquiva e patrícia silhueta ideal do _Almeria_; antes,

entre tantos, um rebarbativo exemplar mais de fêmea prolífica e segura.

Tomando enguiçado da bandejita a chávena, o Silveira não podia no íntimo

perdoar-lhe... Os seus olhos agora repeliam-na, o seu coração

repudiava-a. Perdera para êle todo o interêsse. Sentia-se roubado.

Contudo, atencioso e galante por instinto, dos lábios frios ia deixando,

com importante pausa e um pouco à tôa, escapar seus lisonjeiros

comentários sôbre a sociedade e a vida _porteña_, frisando a tempo a sua

impressão e déstramente sublinhando de admirativas frases o tiroteio

vago de perguntas com que o pequeno círculo feminino o assediava,--tôdas

agora em interessado grupo rodeando-o, e as raparigas já com desabusada

familiaridade depois que souberam que êle não era casado.

Foi quando pai Wimeyer entrou, e ao divisar o Silveira, os seus olhitos

claros chisparam num guloso raio de alegria. Vinha invariávelmente todo

de negro, e sempre rosado, gordote, apesar de bastante mais avelhentado.

E logo, com o seu ar didático e afável, adiantando-se:

--Oh, o nosso bom e simpático português por cá! Finalmente... Já me

tardava. Quanto gôsto eu tenho!

O Silveira teve um mudo calafrio de terror; e, num aberto

desvanecimento, D. Catalina para o marido:

--Diz que gosta imenso de Buenos-Aires.

--Promete radicar-se na Argentina,--acrescentou Irene.

E dogmaticamente o dr. Justus:

--É o que deve fazer! Em estando mais vinculado aqui, verá como se sente

bem. A Argentina é um país cativante, remunerador. Tem o meu exemplo.

--E então que pode encontrar por'í uma linda noiva...--lisonjeira

interveio uma das arcáicas bisarmas do sofá, em pancaditas suaves de

regalo sôbre o ventre.

--Encontra com certeza!--a mãe Wimeyer sublinhou, num risinho

inteligente.

--E em todo o caso--tornou com dulcerosa intimativa o dr. Justus--as

nossas prometidas lições que não esqueçam.

--Quando vossa excelência quiser...--balbuciou o Silveira com esfôrço,

ante a estopante ameaça empalidecendo.

--Não creia que a ideia inicial seja minha. Não. Tem até graça...

sugeriu-ma um vélho compatriota seu, filho da India, o dr. Gomes, que eu

em Lisboa conheci casualmente. Que homem talentoso, raro, profundo,

subtil! Era uma figura estranha e insinuante, com os seus agudos olhos

de vidente, as suas atitudes estáticas de _fakir_, a sua cútis de bronze

oxidado, a sua longa barba messiânica. Habitávamos a mesma pensão, e aí

sôbre coisas da alma e do espírito nós caturrávamos longamente. E vai

êle então, que era um tuberculoso irremissível, ao morrer legou-me um

precioso manuscrito garatujado de números, fórmulas, símbolos e chavetas

complicadas, que era a embrionária génese do seu plano. Uma teoria

genial! Tenho que pô-la a claro.

--Pois sim...--atalhou benevolente a mãe Wimeyer,--porêm, deves

compreender que o sr. Silveira terá coisas mais agradáveis que o

interessem. Na sua idade...

--Ainda um rapaz...--protectora reforçou a dama suave do regalo.

--Há tempo p'ra tudo. Não é certo?

--Como não?--maquinalmente o Silveira aquiesceu.

E como neste momento uma das grossas figuras do sofá se erguesse para

sair, êle despediu-se tambêm, com a promessa de voltar pronto, e deu-se

pressa em alcançar a rua. Ansiava por ver-se a salvo... dali bem longe.

Ia na resoluta disposição de tam cedo não voltar. Desta aziaga mansão de

desencanto e horror concorriam simultâneamente a distanciá-lo--a birra

pedagógica do pai e o engrossamento prosaico da filha.

Chegado ao hotel, o Silveira encontrou um cartão do conde Améglio, com

duas linhas amáveis reclamando a sua presença.--Pedia-lhe que passasse

pelo local da sua exposição, _calle_ Viamonte, e iriam depois a casa os

dois tomar chá, com a condessa.--A primeira impressão foi de encantado

alvorôço. Num sugestivo instante, o seu insatisfeito apetite evocou,

reviu e enroscou-se à deliciosa imagem da irlandesa, fazendo-lhe saltar

nos nervos chispas lúbricas de desejo. Porêm, ao mesmo tempo quáse,

chamavam-no ao telefone. Era Jorge Saavedra que lhe anunciava o

regresso, dêle e da família, do campo, rogando-lhe por igual que

aparecesse, se, antes, êle mesmo não fôsse visitá-lo.--Finalmente...

Ainda bem!--Nova e mais deliciosa impressão lhe fez correr, pelos

sentidos em alarme, a grata e inesperada notícia.--Sim! porque a volta

dos Saavedras significava que teria vindo tambêm Maria Mercedes. E êle

morria por tornar a vê-la... oh, a esta de preferência a tudo o mais!

Era um vivo e complicado demónio que, pela fórma mais adorávelmente

despótica, se lhe instalára na vontade e lhe monopolizára a existência.

Pois êle poderia lá viver sem ela, ali, próximos e familiares os dois

dentro da mesma cidade, sob o mesmo azul carinhoso, no mesmo ambiente

perturbador, ao mesmo contacto amigo! E, depois, tinha contas que

ajustar com ela... Havia uma deprimente situação que liquidar entre os

seus brios varonis e essa criatura enigmática e divina. Assim duplamente

lho impunham o seu coração machucado e o seu amor-próprio ferido.

Na tarde seguinte, querendo iniciar a sua galante digressão pelo mais

fácil, tomou o Silveira um auto e rodou para Viamonte, onde entrou num

pequenino salão térreo, decorado com ricos móveis Renascença, pelas

paredes verdoengas um profuso mostruário de telas de preço, porêm de

gente deplorávelmente vazio. Na desconfortante solidão daquela

fracassada armadilha artística apenas, lenta e merencóreamente, se movia

o dono da casa,--uma baça figura loira, de olhos claros de porcelana,

barbicha em ponta e lunetas, e o cabotino Améglio, astutamente cingido

ao crítico de arte de _La Nación_, a quem com loquaz intimativa, num

atropelado desbarato de grossos gestos e frases feitas, buscava

alarvemente encaminhar a atenção e subornar o critério. E depois que

êste partiu, o mesmo conde, agora absolutamente só com o Silveira, e no

íntimo vèxado por aquela evidenciação patente do seu rotundo insucesso,

contudo assumia atitudes de importância, e num desvanecido ar superior,

os olhos negligentes na face cínica, passando a mão pelo cabelo,

atribuía, fátuo e altaneiro, o facto a um mesquinho concurso de causas

bem inferiores ao seu alto propósito. E enumerava com desdêm,--o pouco

adiantado da estação, a crise, a incultura geral, o retraímento invejoso

dos artistas, a hostilidade surda da imprensa.

Passado pouco tempo, e ninguem havendo a atender, os dois retiraram e

dirigiram-se ao pensionato pelintra que os Di Paoli ocupavam, na Praça

do Congresso. Aí, das paredes roçadas e encardidas, quáse totalmente

nuas, apenas agora pendiam, destacando sôbre uma medíocre miuçalha

industrial, uma pequena paìsagem de realce e o bárbaro retrato da

condessa. Esta acolheu o Silveira naturalmente, com um risinho afável

mas sem calor, sem a mínima demonstração expansiva, com uma frieza

exasperante, fechada outra vez naquela expressão calma, alheada e

infantil que a bordo, era para o insofrido galã o maior encanto e o

melhor estímulo. Falaram ligeiramente sôbre uma quantidade de coisas

indiferentes e banais, o Silveira fez o pitoresco relato da sua estada

no campo; e por fim, como o diálogo voltasse naturalmente a recair sôbre

a digressão artística do conde e o seu resultado económico, êste num

abandôno de familiar confiança, manifestou ao amigo,--que, devia

dizer-lhe com franqueza, as coisas não lhe corriam nada bem... Estava

por completo desalentado, não tinha vendido nada! Parecia-lhe aquilo um

país de pedantes e impostores.--E numa autorevelação inconsciente:--Tudo

puro charlatanismo. _Parada_, _parada_, conforme êles diziam... porêm no

fundo nada de quantioso, de firme, de sólido. Queria êle saber?... Êsse

belo Corot que êle ali havia visto, mandára-o, a pedido do milionário

Spantuzzi, o célebre coleccionador, a casa dêle, para o estudar devagar,

para se inteirar melhor, para ver...--Cruzava indignado os braços.--Isto

havia dois meses. O tempo fôra passando... Era pr'a considerá-lo

vendido, não era verdade?... Pois que agora lhe devolvera o quadro, com

uma carta muito sêca, dizendo que afinal Corot não era dos pintores da

sua predilecção, e que já tinha três, e que por isso resolvera não

comprar...

Abria numa irritação os braços, e sacudindo a cabeça com dignidade e

erguendo-se, acremente:

--E tudo o mais assim! Há três meses, apenas, em Buenos-Aires e já

gastei quinze mil francos. E lucros nenhuns... Um pavor! Em má hora vim

aqui... Que tremenda desilusão! Vou retirar breve seguramente.

Deplorando-o com sinceridade o Silveira, e num instintivo terror

aproximando a sua sorte da do conde, tentava confortá-lo. Porêm, súbito,

êste, aplacado, risonho e com afável singeleza, a mão interesseira

estendida à parede:

--O seu quadrito ali está... P'ra onde quere que lho mande?

O Silveira estremeceu. Nem êle se lembrava já... E contudo hão havia

meio, agora, de furtar-se decorosamente àquela polida insinuação, que

para o seu carácter valia uma intimação formal. Que enormidade iria êle

cobrar-lhe? Alguns dois ou três mil pêsos, estava a ver... Um rombo

muito sofrível no seu já tam reduzido capital, um saque não previsto que

lhe desequilibrava o orçamento. E é que não havia remédio!... Numa

retracção íntima de terror, êle increpava-se duramente pela sua

imbecilidade, dava ao diabo o azarento acaso dêste conhecimento...

Porêm, breve, a sua proverbial imprevisão a fazer-lhe bailar no espírito

aquela suculenta miragem das abóboras e dos melões do lote n.^o 13.

Providencial compensação! Que importava o resto?... Ele poderia bem, já

agora, ajudar êste pobre diabo e burlar-se da condessa... que a sua

brilhante e áurea desforra estava certa, depois. Questão de tempo...

deixar correr!

E com marcada sobranceria, ao despedir-se, recomendou então ao conde,

sem discutir o preço, que lhe mandasse o quadrito ao hotel, com a conta,

no dia seguinte.

Queria ainda naquela tarde encontrar-se com Jorge. Baldado empenho

porêm, pelo momento; pois que, tendo chegado ao hotel e telefonado

sucessivamente para casa dêle, para o _Circulo de Armas_, para o

_Jockey-Club_ e para o _Plaza_, de parte nenhuma lhe davam notícia dêle

nem sabiam dizer-lhe onde porventura se poderia encontrar.--Estaria

p'r'aí talvez na sessão _vermouth_ dalgum teatro barato. Mas qual?...

Fôssem lá saber!--Ficaria o encontro então para a noite, sôbre o jantar.

Disposto pacientemente a esperar, o Silveira correu a coluna de anúncios

dos espectáculos, na _Prensa_ e viu que naquela noite havia no _Palace

Théâtre_ uma função em benefício de _La Caja Dotal de Obreras_, pia

instituìção patrocinada pelas damas da primeira sociedade. Lá estaria

certo o rapaz. E possívelmente Maria Mercedes...

Alentado por êste desejo e enardecido por esta esperança, logo que

acabou de comer, o Silveira saíu. Mal havia dado porêm, confiado e

quente, os primeiros passos, e logo à esquina da _cuadra_ seguinte,

ei-lo que se defronta súbito com Luísa... a qual buscou simular um

encontro de acaso, mas que, tímida e inexorável, mais uma vez o estava

dali espiando, seguramente.

O Silveira teve um claro sacudimento de arrelia, e brusco e hostíl,

plantado com dureza frente à sua adorável e simples amiguita, fitando-a

com império:

--Que fazes tu aqui!? que quere isto dizer?...--E como a atónita

rapariga se mantivesse muda, numa compungida atitude de assombro, os

olhos baixos, a fria prega dos lábios transida de amargura, êle na mesma

clara dureza tomou:--Não são horas e mais que horas de recolheres a

casa? Como vais agora entrar?

Luísa ergueu para o seu áspero censor os grandes olhos, repassados de

piedade, e após uns segundos de embaraço, naturalmente:

--_Yo cambié de domicilio_.

--O quê!? Deixaste essa bôa casa de Tucumán? Que fizeste tu por lá?

--_Yo nada, señor_.

--Puseram-te na rua?

Ao golpe achincalhante da interpelação, a pobre Luísa fez-se branca,

torceu-se numa contorsão aflitiva, e logo, reagindo, a protestar com

suavidade, as mãos trémulas em magoada cruz sôbre o peito:

--_Nada tienen que reprocharme alli, se lo juro! Al contrario, las

buenas madres eran bien amigas mias_.

--Nesse caso, então?...

Nova pausa, de eloqùente silêncio agora, e logo ela, còrando, a segredar

docemente:

--_Es que yo no podia pasar asi todas las noches, sin verlo_...

--Com efeito!--exclamou o Silveira, numa fatuìdade sorridente.

--_La culpa es toda suya, ya vé_...

Insensível porêm o Silveira à voluntária e total abdicação desta alma:

--De sorte que te encontras agora aqui assim à tuna, sem uma ocupação,

sem família, sem casa nem abrigo?

--_Yo no le pido nada_.

--Pois, meu rico amor, se vinhas co'a idéa de entreter a noite comigo,

perdeste o teu tempo.--E como a desconfortada rapariga o envolvesse numa

fundente expressão de carinho e ensaiasse um tímido gesto

suplicante:--Não! não! Vou com pressa. Tenho um compromisso. Palavra!

--_Que compromiso mayor que el nuestro?_

--És tôla!

E no mesmo instante o Silveira, duro sempre e insensível, jogado ao

ímpeto do seu cobarde egoísmo, voltou costas e seguiu caminho, deixando

a sua amantesita infeliz pregada e fria como uma estátua, os lábios

lívidos, tolhida de dôr e de vergonha, imobilizada de pasmo e de

tristeza.

Cortando logo para Corrientes, o arreliado Silveira caminhava rápido e,

a intervalos, voltava-se, a inquirir se porventura, e a despeito da sua

formal negativa, êle não seria seguido. Enfastiou-o de-véras o episódio.

Incendeu-o num furor pueril, que lhe punha asas nos pés, a insistência

piégas da rapariga.--Tam longe êle estava agora de semelhante

coisa!--Três dias havia que não sabia dela, buscando insensivelmente

furtar-se e fechar impunemente o ciclo de mais esta fugaz aventura com o

sêlo cómodo do olvido.--Por que era uma maçada, no fim de contas, a

peganhice infantil dessa seresma! Bôa rapariga, não havia dúvida... Mas

tambêm as môças que êle, na sua terra, tivera a sorte de arrastar a uma

torpêza igual, eram bôas como esta... e mais dóceis, mais razoáveis.

Sabiam medir distâncias, compreendiam a situação. A breve trecho, eram

elas as primeiras a anular-se... voltavam ao que eram e não o

importunavam mais, conformavam-se sem lamúrias e deixavam-no em

descanso. Ao passo que agora esta carraça... Em má hora lhe tinha

acudido!--E a biltraria recôndita do seu ânimo fortalecia-se. Erguia a

cabeça com jubiloso arreganho e caminhava mais apressado. Porêm a

espaços, não obstante, se num claro de grata recordação a sua alma

evocava a cândida imagem de Luísa, crescia-lhe súbito no íntimo uma onda

de condoída ternura, que o envolvia, que o abrandava, que o fazia

arrepender-se e parar no caminho. E êle revia então, em todo o seu

incondicional abandôno, em tôda a sua rústica simpleza, essa esplêndida

flôr do campo, a tinta ardente da sua epiderme, o alçapão de desejos que

era a sua bôca, o lume de paixão espirrante dos seus olhos cheios de

fogo... e pensava.--Talvez que esta sentisse mais e melhor que as

outras... Valeria mais que tôdas!

Esta quáse palpável evidência perturbava-o. Já perdia a noção exacta do

rumo que levava. Entrou no vestíbulo do _Royal_, tomando-o por o _Palace

Théâtre_; e por êste passou desgarradamente, uma e duas vezes, antes de

reconhecê-lo. Pesava-lhe na alma essa obsidiante luta interior entre o

apiedado alarme da sua consciência e a farta repulsão do seu desejo........

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Amor Crioulo vida argentina · 第 21 / 22 题