Longe, na _estancia_, a extraordinária demora do Silveira tinha tôda a
família Saavedra em cuidado. Já eram as 9 horas passadas e ninguêm
pensava em comer, polarizada e anciosa como todos tinham a atenção no
pávido receio de que ao seu simpático hóspede houvesse sucedido alguma
coisa... A conjurar os maus fados, a mística Célia não cessava de
marmotar íntimamente rosários sôbre rosários de intercessoras preces. E
já o irmão havia feito convocar uma dúzia de peões, para que montassem
pronto a cavalo e batessem de roda os caminhos, quando finalmente,
açodado e ofegante, o Silveira apareceu. Entre fatigado e confuso,
desfazendo-se em implorativas frases, em instantes justificações, em
escusas humildes, contou então à mesa a sua romanesca aventura. O
pequeno círculo amigo escutava-o num pique de intêresse crescente, que
subiu de ponto té assumir os contornos duma enternecida piedade, quando
êle, tendo anotado por uma sacudida mímica a rápida e sumária exposição
da luta, se comprazia depois, turbado e quente, na sentida descrição da
sua pequena protegida. Então os aplausos choveram claros, abundantes,
envolvendo o destemido galã no mais propício ambiente de favor, de
agrado, de entusiasmo.--Uma acção de cavalheiro! Parecia mandado pela
Providência ali... Fôra lindo!--E com uns grandes olhos pezarosos, as
duas senhoras:--Pobre _chica_! essa... andar assim exposta... E é como
muitos males acontecem... por'mor da necessidade, tantas vezes!--Sómente
Jorge, fátuo e incrédulo, punha neste ingénuo círculo a nota
discordante.--_Qué chica_! que perigos, que necessidades! _Pura parada,
zonceras, bromas_ ... Fôra um caso trivial aquilo. Êle estava farto de
conhecer essas falsas virtudes do campo: eram umas sabidonas, umas
impostoras, umas ratas sábias da moralidade, réles virgens de
contrabando.--E como, santamente indignada, a irmã protestasse, com
arrogante scepticismo, num risinho chocarreiro o impertérrito censor
desafiava:--Mandassem-na p'ra êle, que logo a desmascararia!
No dia seguinte, de manhã, correio. Pai Saavedra aguardava com
impaciência os jornais, que deviam já trazer o resultado das eleições em
Buenos-Aires. Confirmava-se a vitória dos socialistas. E desgostado o
bom vélho, depois de lêr os nomes dos novos deputados e a crescida cifra
que haviam alcançado no sufrágio popular, disse para o filho e o
hóspede, enquanto depunha as lunetas, abanando a cabeça com tristeza:
--Acho um mau sintoma... Isto é um contrasenso, um absurdo, fértil em
resultados negativos que breve vão dar o seu pernicioso fruto, hão-de
ver... Não faz sentido, não se compreende: uma sociedade minada pelo
socialismo e tôda regida ainda por leis góticas e romanas.
Esperava tambêm notícias da família, de Paris, que havia já tempos que
não vinham. E numa piedosa tristeza, encolhendo os ombros:
--Aquele meu neto! Só escreve quando precisa de dinheiro.
Igualmente o Silveira havia recebido correspondência da Europa, e que de
Buenos-Aires obsequiosamente lhe remeteu o Azeredo. Primeiro, largas
notícias dos seus primos de Tourais, informando-o que aquilo por'li ia
mal... o Douro estava descontente. O vinho todo nas adegas, os preços
arrastados e mesmo assim ninguêm comprava. Efeito em bôa parte da
protecção escandalosa que o govêrno da Rèpública continuava dispensando
aos vinhos do sul, que pelo Pôrto e Gaia entravam descaradamente. E que
os lavradores estavam furiosos, os jornaleiros com fome, os povos na
miséria. A continuarem assim as coisas, muito sangue ia correr!
Falava-se em revolução, e, em último caso, o Norte saberia bem
emancipar-se políticamente dêsses soberbos e egoístas mandões de
Lisboa!--Todo êste inflamado rol de ameaças o Silveira leu breve e
distraídamente, sem dar ao assunto maior atenção, como se se tratasse de
remotas coisas passadas nalgum país desconhecido. Tinha agora uma carta
do seu irmão Bernardo. Lamuriava a sua falta de trabalho, a ignorância
rotineira dos lavradores, a descrença e a impiedade corrompendo tudo...
e pedia-lhe dinheiro. Soltou-a das mãos com indiferença. A seguir, outra
carta. E êle conhecia bem esta letrinha tortuosa e miúda, traslado
flagrante do carácter mimalheiro e vibrátil da sua olvidada noiva.--Umas
dúzias de linhas lacrimosas, desgrenhadas, lúgubres... bagoadas de
nénias e lamentos, amargas recriminações líricamente contornando, como
lianas de queixumes, todo um florilégio veemente de paixão. E exprobrava
ao seu ingrato prometido essa evasiva hipócrita da «sua dignidade em
briga com o seu amor»... e que tal amor por ela nunca êle sentira... por
isso que o verdadeiro amor é um sentimento exclusivo, dominador
absoluto, que com nenhum outro se compara, de nenhum pode aceitar
limitações nem sofrer competências. Vinham ainda solenes protestos duma
vida tôda de isolamento, de abstenção e renúncia, té que o seu amado
voltasse. Aludia-se vagamente ao suicídio...--Porêm, ainda na mesma
alheada e fria disposição de ânimo, a atenção do Silveira correu ligeira
sôbre a enternecida página, desviando logo a vista indiferente e
arrojando-a ao lado com tédio.
Agora, um exemplar de _La Razón_, de Buenos-Aires, com um longo artigo
marcado a lápis azul e um bilhetito dentro. Era daquele seu peripatético
sócio de viagem, o Ramón Alvarez, que com desbordante ufania lhe
noticiava estar contratado para escrever nesse diário umas crónicas
literárias semanais que firmaria com o seu pseudónimo de
guerra,--_Carrasco Bossa_. E sessenta _nacionaes_ por cada uma. Bem bom!
Aí ia a primeira.--O Silveira nem uma linha leu sequér; e vá de tomar
por fim a última carta,--esta sim! que o fez dobrar-se, nuns grandes
olhos espectantes, e foi logo aberta com o maior interêsse. Vinha de
Espanha, tinha o carimbo de Orense. Era um dos seus amigos da fracassada
conspirata monárquica a participar-lhe--que as coisas iam bem agora...
ali trabalhava-se mais à vontade, as autoridades faziam a vista grossa,
êles tinham armamento, dinheiro, quantidade de gente instruida. Desta
vez seria a valer! E que estava por pouco êsse pesadelo tôrpe da
Rèpública!--E na sua confiada antevisão do termo breve do seu exílio, do
advento vingador do seu triunfo, o Silveira lia e relia com demorado
calor o sugerente papel acariciado entre os dedos, e um frémito de
incontido júbilo vinha bailar-lhe na aresta dos lábios trémulos.
Mas seguramente aquele era o dia das novidades, porque à hora do _mate_
um inesperado telegrama chegou, dirigido a D. Teresa.--Era Maria
Mercedes que anunciava a sua visita, para a manhã seguinte.--Foi todo um
gáudio, um encanto, um alvorôço, uma festa. Ao mágico influxo da
prazenteira notícia, a arrastada e monótona vida habitual da _estancia_
ganhou alento, alma, calor, transfigurou-se. Já um sôpro de cordial
eflúvio vibratilizava o ambiente, e as fisionomias tinham um outro ar,
as coisas brilhavam duma claridade nova. E tôda a tarde, depois, para
êsses reservados aposentos do andar superior um carinhoso movimento
convergiu, de solícitos mimos, previsões, atenções, cuidados. Os
serviçaes arrumavam, espanavam, varriam, traziam lençóis e toalhas,
faziam as camas; Célia foi incansável na condução de flores, em sábias
instruções ao pessoal da cozinha; e de sua banda os dois Saavedras, pai
e filho, à porfia volviam a desfiar, cada um por seu modo, os singulares
atributos e as adoráveis perfeições da nova hóspeda, perante a picante
emoção crescente do Silveira. À noite discutiu-se quem havia de ir à
estação recebê-la. Célia e Jorge estavam indicados; porêm o Silveira
desejaria acompanhá-los tambêm, e a dúvida era se teria logar. Porque a
_Miquêtas_ trazia seguramente a inseparável Dorita mail'a _niñera_: eram
assim ao todo seis pessoas, e o auto não comportava mais que cinco.
Contudo, a momentânea dificuldade compôs-se pela desprendida insistência
de Jorge--em que seguiria ao lado do _chauffeur_.
Na manhã seguinte, à hora justa do horário, o trem de ferro parava em
Chascomús. E na obscura mancha _gris_ dos raros viandantes que saltaram,
vá de recortar-se, num forte e eurítmico destaque, a esbelta silhuêta
duma mulher redondita e grande, os olhos negros, loira, aparatosa,
avançando com lentidão, de cabeça erguida e sorriso aberto, na flexuosa
molenta dos movimentos revelando todo um contôrno de divindade pagã, e
ora amplificada em ademanes de raínha, ora quebrada em mimalhices de
criança. Vestia um singelo traje _tailleur_, de miudito xadrez preto e
branco, gorro de fazenda e côr igual, um tenuíssimo véu de _foulard_,
preso em duas largas pontas sob a nuca, e luva e sapato branco. Trazia
ao cólo um delicioso cãosito, de focinho afusado, os olhos como contas
de azeviche e o friorento corpinho por completo forrado no esplêndido
_manchon_ natural do seu longo pêlo, côr de rato. Seguia-a uma criadita
delgada e joven, vestida de negro, com uma menina dos seus 10 anos,
pálida e frágil, pela mão.
Logo Célia e Jorge correram direitos a saùdá-la, e depois das primeiras
acolhedoras demonstrações fizeram-lhe a apresentação amável do Silveira
que Maria Mercedes acolheu com distraída indiferença. Poucos minutos
andados, instalavam-se todos no auto; no logar de honra, é de saber, a
formosa viúva, com um banquinho puxado aos pés e logo uma fôfa almofada
trazida para sob a espalda; depois, ao lado, a pequena Dorita e Célia; e
na frente, de costas ao _chauffeur_, a _niñera_ mail'o Silveira, que
gentilmente Jorge obrigou a tomar assento junto e _vis-à-vis_ da sua tam
encomiada prima. Breve, e uma vez o auto em marcha, o diálogo abriu-se,
animado e impressivo, todo neste cortado e ávido travamento de
monossílabos em girândolas, curtas frases sibilantes, simultâneas e
bruscas exclamações, atoadas perguntas sem resposta e relâmpagos de
inquirições em suspenso, que caracterizam, de ordinário o primeiro
contacto afectivo de pessoas íntimas, há muito separadas pelo tempo ou a
distância. Maria Mercedes, naturalmente, dirigia-se de preferência a
Célia e quando muito, uma que outra vez, ao primo, não se dando conta
absolutamente para nada da presença do Silveira, que frente a ela seguia
apagado e mudo, numa vaga humilhação, o rosto invariávelmente paresiado
numa lôrpa expressão de convencional agrado.
Vieram primeiro solícitas indagações sôbre a preciosa saúde dos tios
Saavedras; e como corria o tempo na _estancia_, a peonada, as flores, a
vizinhança, as colheitas. Depois, a maligna coscovilhice habitual sôbre
o mundo imenso das amigas. Uma viperina reportagem verbal que fazia o
regalo do feitio burlão de Jorge e com que os mesmos piedosos escrúpulos
da irmã gostosamente se acomodavam.--Trazia-lhes um grande _bouquet_ de
novidades, um punhado de revelações inéditas, imprevistas... Incrível!
no breve espaço de dois meses, que de coisas entre trágicas e patuscas,
se haviam passado. E que imaginassem... A Pilarita Flores, sempre era
certo! rompera o casamento... um compromisso tam antigo... e tam a
fundo. E depois do que se dizia! Agora o noivo, furioso, ia-se fartando
de dar à língua e o mal não era senão p'ra ela. O puro do escândalo!
Porêm outra melhor: aquela sonsa da Marta Wilkinson, a casada,
sabiam?... sempre afinal deixou o marido. Tendo um filhito de seis anos!
onde é que se viu isto? E tudo p'ra juntar-se com êsse _farabute_ de
Sottardo... ordinário, feio, pobre, um réles aventureiro. Fugiram p'r'a
Europa, crê-se; enquanto o marido, deixando o filhito à avó, se foi p'ra
Córdoba esconder a vergonha. Porêm tam descarados os dois, que, antes de
abalarem, ainda estiveram no _Hotel Majestic_ uns quinze dias, sem
recato, sem mêdo, sem pudor nenhum, fazendo público alarde da sua
revoltante mancebia... Mas pelos modos aquela gentinha Wilkinson era uma
bem triste família! A outra irmã de Marta, a mais nova, a morfinómana,
lá estava no sanatório de Rivadávia... Apenas dezanove anos e doida de
todo!
--Uma família _cursi!_--sentenceou Jorge com enfado.
E a prima, seguindo árdidamente o seu implacável relatório,
acrescentava,--que sempre se confirmavam as escapadas furtivas da mulher
do Santelmo Martinez à _garçonnière_ do Avellanoso. E que, pelos modos,
no _hogar_ sem mácula dos Perez se descobrira _recién_ um par de
ilegitimos _polluelos_...
--Perdida gente!--lastimou Célia num compungido suspiro, baixando com
beata compunção os olhos.
--Agora quanto a pequenas notas de ridículo,--continuou a viúva, mudando
de tom, num ar mais ligeiro e mais facêto,--tenho tambêm uma cabazada
cheia. Ai! se fôsse a desfiá-las tôdas... Basta só que vos diga: essa
impostora da Anita Castex há mais dum ano que não paga à modista, porêm
manda p'ra lá as amigas tôdas; as tolêtas das Molinas, apertadas pelo
côbro de contas que lhes vieram da Europa, tiveram que vender o melhor
das jóias e da mobília; o mais assim.--E ao cabo dêste regalado _raid_
pelos meandrosos domínios da má-lingua, a aparatosa viúva balbuciou com
ar enjoado:--Mas, em suma, sejamos tolerantes, deixar lá...--E logo, num
imperceptível bocejo, com uma adorável depressão de fadiga:--Mas, ó meu
Deus! esta horrível caminhada não tem fim. Sinto-me fatigada, sabem?
--Como fatigada, _ché?_--levemente trocista acudiu Jorge,--por uma
viagem tam curta? Uma criatura que anda sempre dum lado p'r'o outro...
--Tambêm é verdade, sim, viajo muito.--E com um requebrado
suspiro:--Ainda é a melhor maneira de iludir a triste vacuìdade da minha
vida.
Durante tôda essa deliciada sarabanda de sociais mexericos, continuára a
marcar zero para a assistência aquele anonimato humilhante do Silveira.
Debalde êle a quando a quando demandava, a que lhe désse importância e
valor, o generoso amparo da inocência, nalgum implorativo olhar
despedido com um sorriso a Dorita, a qual, tôda ouvidos às perversas
revelações da viúva, invariávelmente lhe voltava o rosto enfastiado.
Lembrou-se o pobre então, como último recurso, da bondade infinita dos
cães... e tratava, com timidez, de interessar em seu favor a enternecida
atenção do lindo animalito ali enovelado diante dêle, mirando-o com
familiaridade, pedindo-lhe a patita, esboçando no ar com a mão em concha
vagos gestos de carinho.
Bateu certo, desta vez, porque Maria Mercedes, sensível a êsse timorato
ensaio de irracional galanteio, já condescendia em envolver a figura
suplicante do Silveira no amavioso círculo da sua atenção e dos seus
conceitos. E coquetona e lânguida, um pouco teatral, continuava:
--Pareço alegre, muita vez... é certo. Das minhas _abrumadoras_ crises
de desânimo desperto súbito, e esqueço-me de mim mesma a inventar
movimento, a organizar festas, diversões, prazeres... Oh, mas tudo puro
engano! Não são coisas que brotem cá de dentro. É a maneira mundana de
me aturdir... de iludir êste afrontoso tédio do meu viver, entre
sentimentos que me enganam e pensamentos que me aborrecem.
E agora, num atencioso e directo relancear de olhos ao Silveira, com
familiar singeleza:
--Mas eu sou uma criatura feita de contradições... não faça caso do que
eu digo.
Porêm o extático Silveira nem a ouvira, todo preso e incendido na
devoradora contemplação daqueles grandes e divinos olhos, que êle agora
pela primeira vez surpreendeu em tôda a plenitude dos seus belos traços
fulgurantes... uns olhos clássicamente distanciados, negros, profundos,
e que eram como um ardente céu estival: com relâmpagos e sem nuvens.
Ao tempo, do assento da frente, Jorge debruçava-se, torcendo a espalda,
para a prima, e ligeiramente irónico, apontando o cãosito:
--E que nova raridade é essa agora?
--Ah, e bem raridade, _ya lo creo_!--logo a viúva contestou, fazendo de
agastada.--_No lo diga Usted por broma._.--E com intimativa:--É um
autêntico _Pomeranian_. Talvez não haja mais quatro em todo o
mundo!--Passou a mão caridosamente pelo felpudo cêrro do animalito.--Meu
querido _Riddle, verdad_?...--Depois outra vez para Jorge,
naturalmente:--Comprei-o agora, há meses, na minha passagem por Boston.
--Muito caro?
--Cinco mil _dollars_.
--Que coragem!
--Ah, mas fui prática...--apressou-se em aclarar com ladina expressão
Maria Mercedes.--A emprêsa que mo vendeu, segurou-me ao mesmo tempo a
vida dêle em igual quantia, por dez anos.
E já ela novamente, com amável atenção para o Silveira:
--E, diga-me, meu caro, há quanto tempo se encontra na Argentina?
--Há apenas dias.
--E que impressões tem?
--Oh, as melhores do mundo, minha senhora! É um país encantador.
--Cale-se! cale-se!
--E porque hei-de eu calar-me, se digo a verdade?... se eu não vejo por
tôda a parte senão a mais deslumbradora e magnífica expansão de cultura,
de actividade, de progresso, de abundância e de beleza?
--Mau! mau!--tornou graciosa a viúva a atalhar, erguendo o braço com
enfado, fransindo o nariz com tédio.--Aí temos nós que escutar uma vez
mais êsse hipócrita e estafado _cliché_ de quantos génios de exportação,
eméritos vividores e fracassados sociólogos, nos visitam.
--São espécies zoológicas a que eu me orgulho de não pertencer.
--Faço-lhe essa justiça. Mas por isso mesmo lhe peço que, pelo amor de
Deus! não me continue nesse tom incondicionalmente bajulador, que, à
força de falso e gasto, em vez de nos desvanecer, nos irrita e nos
desgosta... Busque antes ver as coisas como elas são realmente. Fale-nos
da pobreza da nossa paìsagem, da monotonia e solidão do nosso campo, do
nosso feitio desbaratador e indolente, da nossa vaidade insolente de
_parvenus_, da nossa penúria de inventiva, a nossa fatuìdade, a nossa
ignorância... a mal alinhavada _pastiche_ da civilização europeia a que
em última análise se reduz tudo isto.
--Como? como?...--acudiu Jorge, voltando-se brusco, num vivo rebate de
orgulho, visivelmente contrariado.
--Parece-me severo em demasia o quadro,--urbanamente entendeu o Silveira
dever contestar.--O que aí vai, minha senhora!
--Ó prima! isso tambêm agora...--ao mesmo tempo protestava Célia com
indignação.
Porêm de sua banda a viúva, serêna, imperturbável, e seguindo na
solícita catequese do Silveira:
--É que eu desejo que venhamos a ser dois bons amigos, e p'ra isso,
condição imprescindível, terá que ser sempre franco comigo, há-de ter
opiniões suas, pintar-me os homens e as coisas sinceramente. Terá que
ser, sobretudo, original... Não lhe quero ouvir baboseiras.
Semierguido e dobrado numa vénia galante, exultante de prazer, com o seu
mais fino sorriso o Silveira aventurou:
--Original?... Numa coisa seguramente eu não poderei sê-lo, minha
senhora...
--E então?
--Na incondicional admiração por si.
Visívelmente lisonjeada, Maria Mercedes cambiou com a prima um
expressivo olhar de agrado; enquanto, num risinho mordaz, o irmão:
--Sempre galantes êstes portugueses.
--Aprenda, aprenda...
--Ora! vélhos modismos piégas de há cem anos...--logo o moço argentino
ripostou com desdêm; e com desenvolta petulância rematou:--E qual a
mulher que os merece?
Nesta sôlta e frívola chalra foram rápido consumindo o tempo; a termos
que já em breve, como de improviso, vinha cortar-se-lhes na frente,
próxima e amiga na infinita rasoira semsabor do horizonte, a torcida e
rugosa carcassa do vélho _ombu_ da _estancia_. Pronto o auto parava
junto ao gasto portão da entrada, onde, comovidamente acudindo, os dois
vélhos Saavedras fizeram à sua hóspeda dilectíssima a mais efusiva e
carinhosa acolhida. Não faltaram cá fóra os curiosos; bem como dentro,
ao longo do jardim e seguindo pelo vestíbulo e pelo _patio_, o grosso
dos serventuários e peões da casa, alviçareiros e contentes,
cerimoniosamente alinhados. E por todo êsse alvoroçado cortejo Maria
Mercedes passou num arrastamento de importância, meiga e solene,
devagar, entornando graças, dadivando sorrisos, naquele seu ar a um
tempo menineiro e senhoril, com aquele precioso dom de atracção a
distância de que ela tinha o segrêdo.
Todo o almôço foi um encanto; e no seguimento festivo da tarde, depois,
aí vinha uma incessante, interminável romaria de bons _paisanos_ dos
arredores, por onde correra boato da chegada da sua «grande e formosa
amiga», e que enternecidamente lhe traziam a homenagem das suas
saùdações humildes, concretamente afirmadas por adoráveis oferendas de
_pan dulce_, ovos, mel, _biscochuelos_, cabritos, leitões, aves e
flores. Sôbre o comer, à noite, naquele repousado salão da frente,
recobrou desusada animação a familiar tertúlia. Nem D. Toríbio pensou no
derivativo soporífero do xadrez, nem tam pouco ao filho acudiu o
emancipador recurso de alguma das insalubres _juergas_ nocturnas. Todos
se sentiam bem, deliciadamente presos na atraente e dominadora presença
de Maria Mercedes, a qual para o jantar fizera grande _toilette_,--com a
farta e ondeada maranha do seu cabelo fulvo contornando-lhe a primor as
têmporas, e contra a nuca aplicada e erguida em roscas petulantes; e
aberto no mais indiscreto decote o ligeiro corpinho, de musselina negra
com vidrilhos, que deixava livre o colo, os braços e as espáduas, sôbre
cuja redonda nudez uma levíssima _écharpe_ sôlta, e negra tambêm, movida
ao artificioso capricho das mãos da viúva, realizava sua tentadora
gimnástica de pecado... ao embevecido Silveira permitindo surpreender,
nos deslumbradores claros dessa mímica perversa, a fluida solidez dos
músculos escorregando, como numa baínha de sêda, sob a quente alvura da
pele, suavemente... E quando não era a carícia ateniense do gesto, era a
graça mórbida das atitudes, era a iluminada vivacidade da expressão, o
enigmático ninho de promessas da bôca suculenta, a espiritual malícia
dos olhos grandes e profundos, despedindo misteriosas flechas de fogo,
que, quando as pálpebras baixavam, parecia que se partiam na aresta
sensual das longas pestanas negras.
A pouco de entrarem no salão, a linda e aparatosa viúva, sentindo-se o
alvo comovente das atenções, com marcada complacência arrastou uns
poucos passos lânguidos, teatralmente, poisando de importância; e logo
de arrojar-se com indolência sôbre um _fauteuil_, e num ar mimalheiro e
infantil, a cabeça froixa, os olhos vagos, achegando ao flanco as
almofadas:
--Ai, mas que bem que eu me sinto aqui! entre pessoas sinceramente
amigas, sem fingimentos, sem peias... e sem cuidados. Como eu vou poder
descansar!
--Ah! ah! Mas descansar de quê?...--cascalhou Jorge familiarmente.
--Com a vida que levas...--ainda a irmã dêste comentou, sorrindo.
--O quê? vocês pensam que eu na cidade não faço nada?
--Claro! Uma perfeita _haragana_.
--Pois enganam-se! Às 7 da manhã já eu estou a pé.--E ante o sorriso
incrédulo da assistência confirmou com ardor:--Palavra de honra! Apesar
de ter confiança na _ama de llaves_, passo logo revista à casa tôda.
Depois, às 8, vem a massagista; ás 9 a cabeleireira e a manicura; às 10
tenho o _desayuno_ e cuido um pouco da _nena_. A seguir, até ao almôço,
encosto-me um pouco, isso sim... É uma grande regra de higiene: conserva
o bom parecer e evita a magreza. Mas durante o resto do dia,
naturalmente, depois, é o meu procurador, quantidade de coisas da
beneficência e uma séca de voltas, compras e visitas. De sorte que assim
à noite, quando acabo de comer, sinto-me fatigada... e aí pelas 10 ou 10
e meia, quáse invariávelmente, deito-me. Já vêem...
--Com efeito!--encareceu D. Teresa com agrado.
--Deito-me logo, é certo. Embora às vezes tenha convidados, que todavia
ficam e me desculpam.--E na espontânea demanda do infalível testemunho
da sua inocente afilhadita, que acabava de entrar, Maria Mercedes
rematou:--Dorita, não é verdade?
A precoce e débil criança dobrou numa ponderosa afirmação a cabeça; e a
seguir, abandonando a boneca sôbre uma cadeira, avançou vagarosamente a
acercar-se da viúva, a cujo lado, tomando-lhe com ternura a mão, se
enovelou, já com um ar composto e grave de pessoa adulta,--o seu rosto
sério e os pequeninos olhos claros, muito abertos, revelando tôda a
acuìdade mordente da atenção para apreender e quanto possível assimilar,
no enunciado e na intenção, o desenho sinuoso do diálogo.
Entretanto, com burlona ironia tornou Jorge:
--Pois aqui, querida primita, já sabes... há tambêm que trabalhar.
--Pronto!--rompeu, saltando de ímpeto, a viúva.--Teem programa?
--Esperávamos por ti,--aclarou D. Teresa.
--O teu _veredictum_ é essencial,--completou pai Saavedra com ternura.
--Bem, pois vamos então a ver... Já pensaram em algo?
De roda abriu-se um claro de silêncio hesitante, e houve um tiroteio
mudo de olhares de incerteza. Apenas Célia ousou então docemente
insinuar:
--Há aí um assunto, de magna importância, quanto a mim... Porêm todos me
_hacen burla_, _me pelean_, opõem-se...
E aquela esquiva e insípida figura desfiou com vivacidade crescente,
perante a atenção tolerante da prima, tôda essa magoada história do seu
desgôsto pelo industrialismo, a irreligiosidade, a chateza, a afrontosa
materialidade pagã que pesava sôbre a _estancia_; e como era vivo, alado
e ardente o seu desejo de ver por fim êste adorado ninho da família
posto sob a invocação duma santa padroeira qualquer, ao místico abrigo
tutelar da divindade. E ainda, por último, esboçou e enalteceu, como o
seu único apoio, a poética idéa do Silveira.
--Ah, mas eu acho óptimo!--acudiu com palpitante animação Maria
Mercedes, avançando o busto com graça e juntando e batendo as mãos,
crêspos de decisão os lábios, os grandes olhos faiscando.--É certo,
sim... Abundo no pensamento do sr. Silveira. Excelente, não há dúvida...
Tens razão, Célia! Tens-me a teu lado.
Num perturbador lume de vaidade, logo o Silveira, dobrado em afável
reverência:
--Sinto-me deveras ufano por essa sua espontânea conformidade de pensar,
minha senhora.
--Ah, mas não vá desvanecer-se demasiado, meu caro amigo! A minha
conformidade não é completa. Um ponto há em que eu peço licença para
divergir...
--E então?
--É nessa coisa gasta e trivial de azulejos pelas paredes e retábulos
pelas esquinas,--no seu expressivo fransir do nariz respondeu morosa a
viúva:--Nada, nada... temos muito melhor!--E ante a suspensa atenção do
pequeno grupo, sacudindo iluminada a cabeça, batendo com fôrça no
joelho:--A santa imagem propiciatória dêste logar hemos de a colocar lá
fóra, no jardim, debaixo do vélho _ombú_.
Um eloqùente alarme de protesto, um calafrio de indignado horror,
acolheu a herética audácia da proposta.
--Ó _Miquêtas_, por favor!--censurou, a primeira, D. Tereza.
--Uma árvore condenada, ôca, podrida, inútil...--comentou o filho com
asco.--Um símbolo de mau agoiro.
--Por isso mesmo!
--A que extremos o prurido da originalidade arrasta por vezes esta minha
bôa sobrinha!--com o seu ar mais bonacheirão interveio, sorridente, D.
Toríbio, e conciliadoramente:--_Este_... Pois tu não conheces o vélho
adágio crioulo: _rancho con ombú acaba en tapera?_... Sabes muito bem
que a _gauchada_ odeia, por tradição e por instinto, quantos raros
exemplares por'í ainda acaso existem dêste torturado e solitário
representante da nossa grande flora secular. Êles teem o _ombú_ por uma
árvore presága, abominável, a cuja sombra sinistra parecem germinar e
medrar a ruína, a desgraça e tantas vezes o crime.
--Uma crendice estúpida.
--Que em todo o caso existe. Quantas dessas vélhas árvores o nosso
_paisano_ pode impunemente alcançar, sabes que as abate logo a machado.
--E fazem muito bem!--implicativo tornou Jorge.--Se é lenha que nem para
o fogo lhes serve!
--Essa antiga sentinela do nosso jardim deve seguramente a vida ao seu
resguardo,--continuou afávelmente D. Toríbio; e com suasiva mansidão
para a sobrinha:--De sorte que... _este_... já vês, se nós vamos agora a
pretender nobilitar, a deificar em certo modo, pela tua peregrina idéa,
êsse precário foragido do deserto, muito possível é que então a bruta
peonada dos arredores, conseqùente no seu ódio medular, seja capaz de,
por extensão, tomar tambêm em aversão toda a _estancia_. Vê lá...
--Certo, certo...--cabecearam Célia e a mãe, num passivo assentimento.
Porêm, serena e insensível, sem se desconcertar, no mesmo convicto ardor
teimou a viúva:
--Pelo contrário!... Essa pobre gente pensa mal? é vítima inconsciente
de íniquos preconceitos e crendices absurdas? Pois o nosso dever é
ensiná-los, educá-los, esclarecê-los... varrer-lhes o intelecto e
aclarar-lhes a consciência.
--Estás bem aviada!
--Claro que sim! Temos a santa obrigação de abrir-lhes os olhos, de
fazer-lhes bem sentir tôda a cega extensão da sua ignorância e o bárbaro
desvio do seu êrro.
--Querem lá saber!
--Em vez de ser um tema de abominação, o vélho _ombú_ argentino merece
bem ser antes um objecto de carinho. Há que reabilitar êsse veterano
simpático do nosso campo, essa relíquia veneranda do passado, testemunha
muda e inocente de tanto sucesso lendário...
--Eu logo vi...--atalhou Jorge com o seu incorrigível ar trocista.--Está
sabido. Todos os _ombús_ são lendáríos.
--Quando não são históricos!--corrigiu pronto, com firme severidade, a
viúva. E posta súbito em pé, sempre com a mesma incisiva veemência
levando de vencida a já froixa resistência do auditório:--Ora imaginem!
Improvisa-se uma peanha, em cima um nicho a carácter, instala-se dentro
o santo ou a santa... e aí temos nós o pretexto para uma interessante
festa nocturna. Verão o efeito. Cai aí tudo... vai ser lindo!
E como de roda todos, vagamente sorrindo, se fechassem num silêncio que
era uma aquiescência, ela comandou com alegria:
--Bem! bem! está combinado. Daqui não há que sair. Amanhã veremos os
detalhes...--E rematou com decisão, segura já do seu triunfo:--Meus
caros amigos, não há tempo a perder! porque a minha demora aqui vai ser
curta.
Uma aluvião de subitâneos protestos choveu da assistência, entre os
quais era de notar a calorosa insistência do Silveira.--Que não! não
podia ser! tinha por fôrça que demorar-se. Adorada por todos como ela
era ali assim! O contrário seria uma crueldade, seria um crime. Nada!
não a deixariam partir...--Mas a despeito de todo êste adulador incenso,
a mimada viúva, com bem dissimulado desgôsto, aventurou--que, emfim, era
forçoso... A estação ia adiantada, e ela tinha ainda forçosamente que
visitar Córdoba, Montevideo, Bahia-Blanca, Mar del Plata.--E
bruscamente, passando a recostar-se numa convidativa e ampla _dormeuse_,
frente a uma janela aberta, e agitando a mão com angústia, queixou-se de
que sentia imenso calor e tinha sêde... queria beber alguma coisa.
Logo de roda o pequeno círculo em solícito movimento. Dorita partiu a
correr, a buscar um leque; Jorge improvisou uma ventarola de papel; pai
Saavedra foi estabelecer corrente de ar, abrindo a porta, enquanto o
Silveira abria tambêm mais a janela; e D. Teresa e a filha, açodadas e
inquietas, batiam, acamavam o estôfo da _dormeuse_, ageitavam a
cabeceira, arredavam as almofadas. Depois, mal o criado de mesa entrava,
trazendo uma bandeja com refrescos, e já era a imediata presença da
_niñera_ que a insatisfeita viúva imperiosamente reclamava, para que lhe
trouxesse o seu _little Riddle_, que ela sôfregamente aninhou no colo,
deliciada a coçar-lhe a nuca e a dar-lhe guloseimas.
Ainda a conversa se prolongou por um tempo mais, bordada sôbre coisas
vazias de interêsse, a termos que por fim Maria Mercedes, erguendo-se e
aconchegando a _écharpe_, pediu licença para retirar-se, com Dorita,
dizendo agora que sentia frio. Todos obsequiosamente a acompanharam, ao
longo do _patio_, té à porta da escada para o andar superior. E aí, na
carinhosa cauda das despedidas, ela disse afectuosamente ao Silveira,
estendendo o braço:
--Então, bons amigos, não é assim?
--E aliados!--confirmou êle, radiante, beijando aquela mão divina.
E, tôda a noite, êste autêntico produto da singela e bronca região
duriense quáse não dormiu. A impressão vincada por Maria Mercedes no seu
temperamento cálido, na sua apoucada inteligência, no seu impetuoso e
límpido carácter, marcára fundo bastante para espancar-lhe o sono e
atear numa viva espertina a arrastada sucessão das horas. Não o
fascinára sómente o deslumbrador cortejo dos encantos físicos da
recêm-vinda, mas tambêm, e de preferência, a linha sinuosa e complexa do
seu perfil moral. Organismo rico de sangue e pobre de nervos, afeito às
aventuras fáceis, esperto e fanfarrão batedor na caça dos simples amores
campesinos, o impressivo desenho desta figura requintada e esfíngica
desnorteava-o. Até àquele momento êle não lidára, mais ou menos, senão
com mulheres dum córte definido, compreensíveis, sinceras, claras como o
azul matutino do céu e a água cantante das ribeiras. Ainda agora aqueles
seus dois últimos conhecimentos, durante a viagem,--a esquiva Irene
dentro do seu espiritual alheamento, a provocante _Mrs._ Edith embiocada
na sua sábia impostura,--mostraram contudo logo o que eram, foram sempre
lisas, coerentes, lógicas consigo mesmas. Porêm Maria Mercedes, não! Era
uma criatura embricada, enigmática, temível... estava a ver. Cheia de
mimalhices, caprichos, alternâncias, brusquerias, entusiasmos, tédios.
Um diabólico e indecifrável novelo, um problema estonteante. Queria
investir com ela e tinha-lhe mêdo! Era um abismo de seduções e um
torvelinho de mistério, que ora lhe inflamava o instinto ora lhe
acobardava o desejo. E--coisa interessante, rara tambêm e para êle
inexplicável,--a cada momento, a cortar suavemente a angustiosa dúvida
do seu querer, nos mais agudos instantes desta sua obstinada devassa
interior e pelo mais adorável dos contrastes, vinha e debuxava-se-lhe na
vaga penumbra do aposento, sobrepondo-se à turbadora imagem da viúva, em
claros benéficos de repouso, a figura mansa e rústica da sua confiada
amiguita da antevéspera, Luísa, a linda morenita, na mesma apostura
silenciosa e humilde, na mesma inércia contemplativa, na mesma frescura
moral de clara fonte, iluminada de ternura ingénua... e na amaviosa
concha do seu olhar, cheio de fogo latente, envolvendo-o, calmando-o,
dominando-o... mercê dêsse irresistível poder das mulheres suaves e
tristes, quando rogam mansamente.
Na rápida sucessão dos dias, depois, não perdia o nosso atolambado galã
o mínimo ensejo em que acercar-se pudésse da viúva, a procurar tornar-se
insinuante, familiar, prendê-la ao seu convívio. E buscava ardilosamente
captar-lhe a atenção, na impossibilidade manifesta de lhe falar ao
desejo. Ao mesmo tempo arriscava tôda a sorte de tímidas, de insidiosas
inquirições sôbre o problema mordente do seu passado.--Uma mulher assim
devia ter crónica!--A cada momento esboçava interrogações e bordava
conjecturas sôbre os ignorados antecedentes, sem dúvida invulgares,
daquela vida. Preocupava-o árdidamente o mistério desta estrangeira
nascida tam longe dêle, e cuja existência,--estava-se a ver,--teria
porventura sido demasiado vaga e errante para que êle jámais pudésse bem
conhecê-la.
Algumas vezes D. Tereza veladamente lhe insinuára,--que a sua pobre
_Miquêtas_ não fôra nada feliz com o casamento. O deslumbrado Silveira
não queria crêr... Jorge, o seu confidente natural, discretamente e de
pausa lhe ia tambêm relatando um que outro pormenor, avançando um
detalhe, sublinhando uma anecdota; e, na crédula cegueira da sua
admiração lamecha, cada nova revelação sempre o Silveira aproveitava
para desatar-se em hiperbólicas fantasias, cuja asa de oiro logo o amigo
prosaicamente lhe cortava, por um episódio trivial ou um comentário
trocista. Foi assim que, uma tarde, sentados os dois naquele aconchegado
rincão do _patio_, junto ao comedor,--e porque, incorrigível, o Silveira
voltasse ao seu panegírico optimista sôbre as sublimadas perfeições
dessa criatura de deslumbramento e de sonho, que merecia mais que um
trono... um altar,--ainda uma vez com inflexível frialdade tornou a
frisar-lhe o amigo:--que todavia ela não era, nem fôra nunca, feliz. E
que poderia bem tê-lo sido... com as paixões loucas que inspirou, com os
belos pretendentes que teve! Pelo desespêro uns levados ao suicídio,
outros à loucura, outros à ruina. Ele já sabia. E que afinal...
--Afinal...--recalcou o Silveira com ardor,--sempre teria sabido
escolher um marido digno dela. Se é que semelhante prodígio era
possível!
--Que prodígio! Nada disso! Pelo contrário... Muito mais vélho...
_camorrista_, devasso e jogador. Comparado com ela, um perfeito
estafermo!
--Bem! mas ao menos morreu... Está livre dêle!
--Morreu... E por que forma?--balbuciou Jorge, fazendo uns olhos de
piedade, com uma cáustica expressão de enfado. E por fim, ante a
suspensa e mortificada atenção do amigo:--Em casa duma amante... duma
apoplexia.
O Silveira fez-se pálido, corrido por um frio interior de nôjo e de
revolta. Porêm Maria Mercedes, que passava na ocasião e aprendera esta
pequena aresta de diálogo, acercou-se, mansa e familiar, dos dois
amigos, e com uma adorável resignação, quáse infantilmente:
--Ah, mas por'mor de Deus! Meu caro amigo, não me lastime. Eu
relativamente estimei... Poupou-me o desgôsto de o ver morrer.--E logo
com desenfastiada naturalidade, derivando:--Mas dispensem-me, sim?...
Vou escrever p'r'a capital, quero ainda aproveitar o correio de hoje.
Vou mandar uma carta cheia de minuciosas instruções a êsse santeiro de
_calle_ Suipacha, sabem?... É a encomendar-lhe uma grande imagem da
nossa futura padroeira, a Senhora da Conceição. Escolhi bem, não lhes
parece?... Ela é o santo símbolo da fecundidade e da pureza, e portanto
o mais condizente escudo e o mais fiel espelho desta mansão exemplar da
abundância e da virtude.
E, feita uma ligeira vénia, ei-la que retoma a andar, naquele seu
estudado ademan de requebrada e ondeante majestade, a fugidía asa dum
sorriso a encrespar-lhe os grandes olhos côr da noite e a adejar nos
lábios nacarinos.
--Divinal mulher!--murmurou, posto em cómico êxtase, o Silveira.--Como
diabo foi ela tomar um animal dêsses p'ra marido!?
--Sei lá!--redarguiu Jorge, num risinho scéptico.--Coisas de mulheres...
Ela diz que foi por amor ao paradoxo e umas tantas _pavadas_ por êste
teor. Mas não! quanto a mim, foi pura questão de vaidade. _Se le ha
puesto entre cojas_ dominar, moralizar, regenerar êsse salafrário. _Pero
se ha embromado_.
--Com o que nada perdeu, no fim de contas.
--Ah, não seguramente! Ao contrário, com mais êsse pequeno escândalo o
seu nome não fez senão ganhar em fascinação, em poder, em comovido
interêsse e mundanal prestígio.
Abroquelada na sua individualidade melindrosa e rebelde, Maria Mercedes
nem a todos os preceitos se amoldava daquele salutar e primitivo viver
da _estancia_. Não lhe importavam passeios, temia as caminhadas,
envolvia no mesmo abandôno de fastidiento desdêm a barulhenta bisarma
das instalações industriais e o manadio disperso da riqueza pecuária.
Substancialmente, a rude movimentação, o giro áspero e forte da vida do
campo, repugnavam-lhe. No seu temperamento subtilizado e mórbido essas
cruas batidas de ar e de luz feriam reacções bruscas, violentas, quáse
dolorosas. Despertava, erguia-se cedo; porêm de ordinário, antes do
meio-dia, ninguêm conseguia vê-la fóra do quarto, sucedendo-lhe repetir
amiúde «que de manhã não era mulher p'ra nada». Antes daquela hora
apenas condescendia em sair dêsse inviolável reduto, quando muito, a
_niñera_, a arejar o _Riddle_ e a passear Dorita. Maria Mercedes apenas
uma vez acedeu a dar um passeio matinal, a cavalo, na companhia de Jorge
e do Silveira. Mas baldadamente êste depois, em várias dulcerosas
investidas, tentou persuadi-la a que lhe fizesse a fineza de repetir, e
desta vez com êle só, o sacrifício... todo na saborida antevisão dum
aventuroso idílio. Nada alcançou. Fôra uma façanha sem exemplo.
Pelas tardes, sim, era a bela viúva a primeira na actividade, no
bom-humor, na alegria. Fazia largos e piedosos percursos, então de
ordinário companheira inseparável e gostosa de D. Tereza no seu
esmolátorio desporte pelas redondezas. E em seguida, às noites, no
salão,--aonde sempre acudia uma ou outra família vizinha,--era ainda ela
o prestigioso centro das atenções, o fulcro espiritual do diálogo, neste
môrno e sossegado ambiente, sentindo-se na posse plena dos seus nervos e
em todo o facetado fulgor do seu espírito.
Ao cabo duma semana, por uma nublada manhã, pesada e ardente, chegou
Belisário Ruiz. Exceptuando por parte de Célia, teve sua consabida
recepção de agrado. Maria Mercedes acolheu-o com afabilidade e
festejava-o, judiava-o, apurava-o muito, mercê desta liberdade inocente
que a intimidade nos traz e um largo conhecimento. De sua banda porêm o
Silveira entristeceu e alarmou-se, por uma apreensiva retracção do
instinto.--Ganharam então em colorido e interêsse as familiares
tertúlias da noite, agora de ordinário bordadas sôbre assuntos mundanos,
em que a desabusada _verve do recêm-vindo_, no seu arrastado ar _blasé_,
intercalava amiúde a nota picaresca ou o comentário equívoco. Era sem
fim o rol que, a propósito, este pândego contumaz se comprazia em
desfiar, de casos escuros, anecdotas picantes e grotescas aventuras,
fruto da própria experiência umas, outras colhidas naquele seu fácil e
sôlto passo pela vida fóra. Então não raro aconteceu, quando o diálogo
assumia um cariz algo _verde_, a meticulosa Célia erguer-se e sair,
dissimuladamente. E uma noite pai Saavedra, bonachão alegre, no seu
adorável espanto infantil, exclamou para Belisário, batendo galhofeiro
os braços, os pequeninos olhos verdes húmidos de riso:
--Mas que coisas com que êste homem nos vem! _Chacotón_! Onde demónio
vai você saber tudo isso?
--Aí teem!--acudiu com intimativa a viúva, súbito erguida da sua
apostura indolente.--É o que se ganha com as viagens. Êste senhor tem
viajado muito, como eu. Faz bem... O que a gente vê, ouve, sente,
adivinha, ausculta e aprende!... São um grande e divertido
ensinamento.--E num suspiro lânguido, recumbida e mole novamente:--Quem
me déra ir já por'í fóra outra vez!
O Silveira esboçou um convicto e mudo assentimento; e carinhosamente D.
Toríbio:
--Sempre viajar! sempre viajar! Nunca te fartas...
--Que querem? sou assim... É da baralhada essência do meu sangue.
Imaginem; minha mãe era uruguaiana, minha avó italiana, meu avô alemão,
meu bisavô norte-americano... Com uma ascendência assim, que outra coisa
poderia eu ser senão uma incorrigível vagabunda?
--Deves ter amor à tua terra.
--A minha terra?... Sei lá qual é!
--Não digas isso!--acudiu a gorda e maciça D. Teresa, estremecendo e
erguendo com horror as grossas palmoiras à tinta industrial do cabelo.
Porêm a viúva, quente, imperturbável:
--Ah, isso é que eu digo, minha querida tia! perdoa-me... Porque não há
razão nenhuma, porque eu não sinto o menor movimento de alma, nem
conheço qualquer forte fundamento exterior que me leve a prender-me ao
torrão onde acidentalmente nasci.
--Deves querer mais do que tudo à tua pátria--severo reprimendou Jorge.
--Lá vem, lá vem o consagrado chavão! a linda e convencional
mentira!--pronto a viúva contestou num alto desdêm burlão; e a seguir,
fransindo o nariz, doutoralmente:--Isso de pátria é uma antiga invenção
dos ambiciosos e dos déspotas, para por meio dela escravizarem ainda
mais a récua desprezível dos humildes; para fazê-los pelo coração
tributários dos seus domínios, e cegos no deslumbramento dessa patranha
sublime, jungi-los e arrastá-los então irracionalmente, como máquinas,
no carro devastador das suas conquistas, aos grandes actos de heroísmo
colectivo e anónimo, à abnegação, à intrepidez, ao sacrifício, à morte.
Sempre assim foi... Neste ponto a estratégia dos grandes mandões é
invariável assim como a passiva estupidez dos que lhes obedecem é
infinita.
--Estás-te excedendo, filha!--atalhou com sincera indignação D.
Toríbio.--Nem pareces argentina!
--Não sei o que pareço, nem me importa! O que eu sei, o que eu sinto
muito bem, é que a noção de pátria é uma concepção tacanha e absurda. Os
mais, num blóco unânime, protestavam; e ela, com vivacidade
persuadente:--Pois se a terra, na origem, na essência e no destino, é
tôda igual! Então os senhores não vêem que tudo quanto há de perdurável
e transcendente neste mundo, as grandes invenções, os grandes ideais, os
grandes sentimentos, são de carácter universal? Pois não é certo, que
para que uma obra da literatura ou da arte alcance a consagração eterna,
ela há-de romper o âmbito estreito do regionalismo e alar-se à
objetivação sintética de algum dos grandes movimentos comuns a tôda a
humanidade?
--Diz muito bem, minha senhora!--apoiou com irónica veemência o
pequenino e glabro Belisário.--A pátria de cada um é onde melhor se
encontre e melhor possa governar a vida.--E logo, com um ar ligeiro e
brincão, a desfazer a chocante heresia do conceito:--Eu cá, por
temperamento e por inclinação... seria turco.
A seguir, volveu a informar-se com mais detalhe das diversões que havia
planeadas. Queria, em suma, saber o que a esperta inventiva de tam
preclara gente havia concertado para colmar um pouco o tedioso vácuo da
prosaica vida do campo. Falaram-lhe na projectada festa ao _ombú_; na
benta iniciação da _estancia_: achou plebeu, pueril, ingénuo. Para o dia
seguinte havia uma _doma de potros_, aguardada com impaciência pelo
Silveira; porêm seguramente as senhoras não iriam. Maria Mercedes não se
conformava, não podia suportar esse espectáculo, que ela reputava em
extremo repugnante e bárbaro, bestial. Redondamente opunha-se. Belisário
pediu licença para discordar,--pois, pelo contrário, essa primeira
brusca e sábia investida do homem com o irracional era a mais linda
lição de coragem, de inteligência, de destreza e de fôrça; era um belo
torneio para cujo completo realce, como em Espanha nas toiradas, se
tornava indispensável a presença e o aplauso da mulher, que é a suprema
encarnação da beleza. E a poder de dulcerosas instâncias, de ardilosas
lisonjas e vivas frases sugerentes, o meliante conseguiu o assinalado
triunfo de conquistar a aquiescência difícil da viúva, a qual por fim,
reptada a que declarasse formalmente se estava, ou não, disposta a
acompanhá-los, prometeu que sim!
No dia seguinte, às primeiras horas da tarde, a alegre caravana em
movimento. Houve que fazer uma longa hora de caminho, sob a pantalha de
oiro do sol, delidos na rasa imensidão implacável da planura. Pela
angosta e rudimentar carreteira, ou triturando aquela imensa alfombra
verde, o auto seguia tombeando e oscilando, numa cautelosa marcha de
incerteza, moderadamente, erguendo rolos de poeira ofegante, ladeado
pelas donairosas figuras do Silveira e Jorge, que galopavam à
estribeira. E agora alcançavam uma larga mancha de terreno pastoso e
lamacento, onde, a um lado, se aglomerava uma encantadora mólhada de
eqùídeos, bravos, garbosos, finos, com o ar surprêso e selvagem, a sua
insofrida dispersão contida pelo disciplinário esfôrço de meia dúzia de
_gauchos_ montados, ásperos e duros de roda circulando. Um outro grupo
interessante se notava, de bruta peonada, de chinerio nativo, de
carripanas, cavaleiros, de rotos, mulheres e crianças, todos num
empilhamento do interêsse contornando daquela arena de acaso o piso
brando e revôlto, o vago e amplo recinto. Fóra, na lisa nudez da campina
e a pequena distância, uma bôa fogueira ardia, chispando estabaredas.
Preparava-se nesta improvisada cozinha rústica o clássico e delicioso
acepipe de _asado con cuero_. À míngua de lenha, o fogo era alimentado
por tôda a sorte de detritos orgânicos: destroços de mobília, fôlhas
sêcas, farrapos, palha, ossos. Pelo espiralado intervalo entre duas
línguas de lume apercebia-se uma caveira oblonga, na rubra ardência do
braseiro luzindo a sua álgida alvura, macabramente. E naquele justo
momento um vélho peão surdia, ajoujado ao pêso duma perna de cavalo, já
em parte putrefeita, e que ao ser arrojada ao fogo, dêsse calcinado
monte de impurezas fez erguer uma labareda de fumo gordo, negro e
nauseante.
Na parte reservada do recinto, havia sido batida à pressa uma tôsca
bancada de honra, destinada aos recêm-vindos. Mas dêste primitivo
instrumento de relativa comodidade apenas Belisário e o vélho Saavedra
se utilizaram. As senhoras preferiram manter-se furtadamente a
distância, empalancadas no seu auto. Jorge e o Silveira haviam-se logo
apeado, e acercaram-se ligeiros da manada.--E já agora a um sinal dado,
um galhardo mocetão no mesmo sentido avança, e, despedindo certeiro o
laço, colhe pelo pescoço e arrasta até meio do terreiro um dos pobres
animais, que daí a instantes, enfurecido e trémulo de espanto, sente
tambêm, por meio de novas voltas de laço, irremissivelmente presos em
nós de cordas os quatro membros. Então, um simples esticão dado às
prisões, sacudido e forte, rompe com o precário equilíbrio da vítima,
que tomba em pêso sôbre o sólo, em risco de se lhe deslocarem as
articulações ou partirem os ossos. E aí se precipitam logo sôbre o
assombrado pôtro, que, louco de terror, se debate froixamente, quatro
espertos matulões, a segurá-lo e a enleá-lo mais forte, por meio de
consabidas travas, té que o imobilizam por completo. Outros lhe sucedem
neste anacrónico e despiedado exercício, e que, ajoelhando e abatendo-se
contra o indefeso quadrúpede, encapuzam-lhe a cabeça, passam-lhe o
bridão e aplicam-lhe num momento a sela (_el recado_) cilhada
déstramente. Já não há receio agora de que o abatido animal possa
escapar-se; a complicada rêde de cordagens desembrulha-se, escorrega,
afroixa e deslaça mansamente; e o pôtro pode, emfim, cego e aturdido,
erguer-se, mal conseguindo firmar os pés naquele terreno falso e mole,
adrede escolhido, e com as duas mãos, à cautela, tomadas ainda por uma
última laçada. E quando o peão destinado a montá-lo intervêm, num pulo
salta para a sela, a derradeira prisão desata-se, e êle aí larga a
montada na sua frente a correr e a coucear desapoderadamente, colado e
cingido com ela como um centauro, tendido o busto em flecha, os olhos em
fogo, e incansável e duro o braço fazendo rodopiar o _rebenque_ em
círculos de ameaça. Flanqueiam-no, a enquadrar a corrida, dois outros
cavaleiros brandindo tambêm chicotes. E os três aventuram-se nessa
desenfreada carreira buzinando uma gritaria doida, descompostos em
pragas, urros, vociferações, soltando uivos de bêstas-feras, que põem o
pêlo em pé aos atónitos poldros da manada e que a rôta chusma dos
assistentes acompanha, delirando, num concertante infernal, num alto
côro selvagem. Corridas assim umas centenas de metros, o estupefacto
cavalo estava cansado. Tolhido de assombro e de pavor, apequenava,
submetia-se. E estacava a intervalos, colhido todo numa atitude de
abandôno e doçura que tímidamente exteriorizava a sua veemente
solicitação de, emfim, parar... Trazido então ao ponto de partida e
renovada a brutal carreira, já êle pronta e resignadamente obedece,
abdica da vontade e está rendido à discrição do algoz.
Entretanto o Silveira, que seguira êste bárbaro entremez com empolgador
interêsse, movia-se nervosamente e dava rebarbativas mostras de
impaciência, de desagrado, quáse de indignação, as quais pela estranheza
alarmaram a atenção de Jorge. Aquele, porêm, rasgadamente
explicou-lhe,--que achava excessivo, desnecessário, estúpido! Animais
nobres e inteligentes como aqueles não se tratavam assim. Não podia ver
semelhante coisa!--E enquanto o amigo, com um risinho azêdo, procurava
aplacá-lo, foi o segundo pôtro trazido ao castigo. Este porêm, altaneiro
e vibrátil, saíu mais rebelde: só ao cabo de quatro corridas se deu por
vencido. Veio depois o terceiro, que teve que ser logo retirado da
arena, porque, abatido sôbre o lôdo desastradamente, rompeu um quadril.
O Silveira não teve mais mão em si. Avançou com decisão e reclamou alto
que lhe permitissem domar êle o pôtro a seguir.--Havia uma outra maneira
de fazer aquilo, mais suave, mais racional, mais humana. Iam ver!--De
roda foi um espanto. Pela grossa corda do populacho passou uma oscilação
de pasmo e de surprêsa; havia burdas interrogações em suspenso,
esboçavam-se atitudes de achincalho, de desdêm, de irritante desafio, de
malícia perversa, e a sua bronca expressão abria-se em risinhos
alvarmente incrédulos. Belisário pôs-se de salto em pé. Pai Saavedra
protestava, em repetidos gestos de negação, agitando com veemência os
braços. Da apartada altura do seu reduto, D. Teresa impava ofegante,
Célia e Maria Mercedes taparam o rosto com os leques, aflitivamente.
Apenas Jorge, por um simpatismo viril, apoiou a atrevida solicitação do
amigo.
E foi o bastante.--O quarto paciente veio então, e, em meio da ansiedade
geral, os peões da manobra permaneciam quietos e a distância, esperando
instruções, de olhos fitos no Silveira, o qual lhes ordenou que,
mantendo por enquanto o prisioneiro enlaçado, apenas, mais, lhe
prendessem as mãos. A seguir, êle mesmo se acercou e investiu, entre
duro e afável, com o animal, que todo ruflando de temor, assombrado e
arisco, reagia a patadas. Ágil e precavido, porêm, o Silveira furtava-se
a tempo e logo voltava, numa polarização empolgante de todo o seu ser, a
defrontar-se com êsse trecho vivo de natureza em bruto; olhava-o firme,
rodeava-o e cingia-o, déstro, incansável, ameaçando, bradando,
rojando-se, saltitando; envolvia-o num mágico círculo de dominadora
astúcia, ora atraíndo-o por interjeições familiares, ora de escape
afagando-lhe o pescoço, ora tocando-lhe a garupa com o chicote
levemente. Feito assim um pouco o conhecimento com a sua indómita
montada, foi êle ainda quem lhe vendou os olhos, o enfreou e lhe atirou
pronto a sela para sôbre os rins, afivelada num relance. Novos afagos
agora, mais permitidos, mais claros, mais seguros; em seguida faz sinal
à peonada que solte as prisões; e num intrépido salto ei-lo arçonado
sólidamente contra o espavorido dôrso do animal em fúria. Há então uns
breves, absorventes minutos de ansiedade e de luta: é a consumada
maestria, a serenidade, a destreza, a forte musculatura e a vontade
indomável do cavaleiro, em decisivo duelo com o desordenado furor do
ginete, que, sob a pressão exasperante daquela formidável tenalha de
aço, se dispersa em esforços inúteis, encabrita-se, escouceia, escarva,
atira upas, sacode a espinha, curveteia, bufa, geme e tressua,
inelutávelmente. Depois, quando o Silveira teve o seu domínio eqùestre
por assegurado, despediu tambêm o pôtro a galope, mas não cega e
irracionalmente, como os dois anteriores, antes forçando-o a seguir, no
mesmo andamento sempre, em dadas direcções, manejando-o e dominando-o a
seu bel-prazer, obrigando-o até ao cansaço... e assim conseguindo por
fim trazê-lo a fazer o vitorioso circuìto do terreiro, ante a
estarrecida imobilidade da assistência. Então, tranqùilamente, apeou-se
e abandonou as rédeas ao cavalo, que, sem o mínimo assômo já de
emancipação ou de revolta, pelo contrário, deu em seguir espontâneamente
na esteira do seu hábil domador, manso e humilde como um podengo, os
flancos molhados, estirado e murcho o pescoço, e o focinho arquejante a
acariciar-lhe a espalda, que ia deixando mosqueada de baba
sanguinolenta.
A tôda a volta estrondeou uma tropeada de aplausos delirantes, que o
Silveira, altaneiro e frio,--e enquanto, tirado o _chambergo_, enxugava
o suor,--agradeceu escassamente. Correu a abraçá-lo com admirativa
efusão o reduzido grupo dos amigos. E, como lídimo arauto da multidão,
um veterano _gaucho_ se adiantou gravemente, batendo os esporões
farfalhantes, de rosetas como sóis, e depois duma rotunda saùdação
estendeu-lhe com solenidade aos pés o _poncho_, por esta rústica
homenagem fiel intérprete da consagração indígena ao seu triunfo. Neste
fremente e alto côro apoteótico Maria Mercedes sómente fez excepção.
Quando, na quente raçaga ainda das últimas ovações, o Silveira demandava
com ingénuo alvorôço o seu aplauso, ela acolheu-o com reserva e
festejou-o parcamente; e insensível a tanto prestígio, num deliberado
propósito de afastamento, de frialdade, de indiferença, todo o resto da
tarde, depois, e ainda ao jantar, e pela noite adiante, foi para o
burlado vencedor, de poucas horas antes, dum cerimonioso alheamento e
duma secatura implacável, naquele seu ar distraído e enfadado mantendo-o
a inexorável distância... Ao passo que, com uma _coquetuela_ vulgar, se
desentranhava em atenções, galanteios, donaires, mímicas de sedução e
adoráveis preferências para com o atónito Belisário, que, exultante e
feliz, na inverosímil radiação do seu espanto, tinha a préga lívida das
pálpebras aquecida por um riso desvanecido e amiúde passava ufano pela
calva precoce os dedos trémulos.
Na breve e jocunda sucessão dos dias, depois, foi preocupação dominante
a preparação dêsse festivo programa para o baptismo religioso da
_estancia_. Maria Mercedes era a incontestada Egéria do movimento.
Tomada de iluminado e impressivo entusiasmo pela realização da sua
grande idéa simbólica, tudo ela ardida e metódicamente concertava,
planizava, distribuía, tudo ordenava e impunha, no inflexível dogmatismo
derivante do seu prestígio, com uma impetuosa tenacidade que fazia o seu
próprio espanto e era o acendrado regosijo do séquito amigo.
Invariávelmente ela agora, com uma pontualidade burocrática, logo às
primeiras horas da manhã descia ao seu escritório de ocasião, instalado
na biblioteca, e aí, mais ou menos, trabalhava indefêssamente o dia
inteiro. Sob a sua imediata inspiração, em grandes fôlhas de cartolina,
Belisário riscava escalas, fazia alçados, córtes, projecções, esquissava
planos. De funções mais modestas, o Silveira secretariava, anotava o rol
das despesas, expedia as requisições, fazia a correspondência. Jorge
comunicava as ordens e distribuía o serviço directamente pela famulagem,
e era a pessoa indigitada para trasladar-se à capital, dada a hipótese
de alguma missão de confiança. Por sua banda pai Saavedra, atenta a
relativa invalidez própria da idade, e bem assim a mulher e a filha,
tinham a incumbência de fazer da estranha e inusitada festa, pelo bronco
populacho dos arredores, uma elucidativa e suave propaganda. E ao
auspicioso gesto e sob o alado impulso dessa fada irresistível, todos
trabalhavam com ardor, acêrto, decisão e entusiasmo igual. E era de ver
como esta imprevista intromissão de trabalho ligeiro e jovial na grossa
labuta habitual da _estancia_, longe de destoar, por inecessária e
fútil, em vez de lhe trazer qualquer ralento dispersivo, antes ao
contrário com ela se enquadrava idealmente, e como que insuflava um
protector alento de consagração espiritual a todo êsse utilitário e
rasteiro desparramar de produção e de vida.
Ficou assente que, na manhã do santo dia aprazado,--um domingo,--se
procederia à bênção da imagem votiva da Virgem, padroeira futura da
_estancia_; pela tarde seria a sua condução processional té ao
estilisado nicho erguido ao abrigo da umbela majestosa do venerando
_ombú_; à noite, iluminações, fogos de artifício, arraial e grande
concurso cosmopolita de canções e danças populares, com prémios em
dinheiro, instrumentos agrícolas, _registo_, _verónicas_, viandas e
guloseimas. A primeira notícia da sagração da _estancia_ tropeçou
naturalmente num ambiente hostil, quando começou de circular pela
redondeza. Contra a sua realização o cego rotineirismo e os atávicos
preconceitos dos naturais ergueram-se em alvorôço, por um supersticioso
alarme sacudidos no seu torpôr de séculos.--Que peregrina idéa era esta
agora de trazer santos de igreja p'r'ali? e pô-los, p'ra mais, ao abrigo
dessa odiosa árvore de desgraça e de ruína? Era uma heresia, um absurdo,
um desafio sacrílego ao Céu. Podia redundar em azar p'ra todo o campo em
roda... Era uma iniqùidade mais dêsses abominados senhores do vélho
tempo, que não podendo já privá-los da liberdade, vinham afrontosos a
derrumbar-lhes as crenças. Seria uma calamidade.--Era assim como às
tardes pelas _pulperias_, nas recolhidas horas da sésta, à roda
vinolenta do balcão e de mesa para mesa, de grupo para grupo cortando a
cada instante o giro vago da conversa, chispavam vivas e inflamadas,
quáse unânimes, as frases de acre censura, os votos de protesto, os
conclamas de revolta. E tambêm pela calada cúmplice da noite, no
ignorado mistério de alguma _tapera_ distante, maus elementos campesinos
havia que, incitados pelos raros _montoneros_ e _churriadores_, corriam
a reùnir-se em clandestinas conspiratas, e ferozes e estúpidos, o pulso
peludo apertando o _machete_ vingador, aí tramavam desforços violentos,
represálias subversivas; por fim, concordes em que uma solução radical
seria assaltarem de golpe o jardim da _estancia_ e abater pela raíz,
destroçar, fazer em fanicos o fatídico e arrogante _ombú_... redonda,
rasamente.
À medida porêm que, na _estancia_ metamorfoseada como por encanto, as
linhas ornamentais se erguiam e no ar doirado se debuxava o anúncio
jovial da próxima festa, paralelamente, todo aquele fermento de rebelião
latente se apagava e se sumia. Vinham os bravios conspiradores da
véspera, e, ante a evidência promissora do facto, grado a grado
capitulavam, imobilizados primeiro numa paspalhice alvar, curiosos e
interessados a seguir, e por fim levados de vencida nessa onda
estonteante de alegria. A realidade sugerente do prazer tinha nas suas
almas rudimentares e famintas maior efeito que a catequese teórica dos
Saavedras. O certo foi que, por virtude do capricho inventivo de Maria
Mercedes, a patriarcal _estancia_ agora perdera todo o seu ordenado e
pacato aspecto antigo. A cada momento ali um afadigado enxame de
obreiros voluteava incessante, não só fóra, pelas imediações, formigando
em manchas de atento e aplicado ardor, como tambêm, do gradeado a
dentro, pisoteando os tenros canteiros do jardim, revolvendo do _patio_
a lisa areia, invadindo os quartos, encostando escadas, verrumando,
parafusando, martelando, encavalados pelas paredes, debruçados da
_azotea_. Esta sua dispersiva ânsia de movimento a cada passo era
cortada pelo pejamento inerte duma abundante farfalha industrial:
tubagens, cordas, arames, pás, alviões, pêras eléctricas, chumbo em
blóco, ferros em brasa, metais luzentes, destroçadas rumas de barricas e
caixas de lata estripadas. Sobrelevando aos prosaicos ruídos habituais
do recinto, de tôda esta batida sonora soltava-se o ritmo sadio e
folgazão dum como cântico de vitória. E do mesmo passo a mãe-terra
aparecia tôda fendida e revôlta, cortada em tôdas as direcções por uma
anastomose de sulcos ridentes e húmidos, aberta com prodigalidade em
ruturas serpeantes,--o que fazia o infantil regalo de Dorita, todo o dia
rojada sôbre a frescura plástica do sólo, embodegada e suja, a «fazer
casitas».
Para a limpa execução dêsse trabalho delicado e novo, tinham vindo da
cidade carpinteiros, sambladores, polidores, torneiros, electricistas. E
a favor do tempo se foi a garrida e abundante decoração gradualmente
definindo.--Uma cerrada fieira de lâmpadas contornava nas suas linhas
essenciais a arquitectura sóbria da residência, correndo em dupla fita
ao longo da cornija, cingida aos relevos terminais do _hangar_,
marinhando em hélice pelas colunas. Uma espelhada cinta idêntica de
vidros coloridos rodeava por inteiro o gradeamento alto do jardim, e
pelo interior dêste, depois, em caprichosa profusão seguia a circuìtar e
a derramar-se em lacetes numerosos, riscando troncos de árvores,
desenhando globos, estrêlas, rendados, franjas, vestindo e pintalgando o
ripado fresco dessoutra floresta de gongóricas pirâmides que em farta
sementeira se escalonavam pelo recinto. Havia mais, ali, de árvore para
árvore, de poste para poste lançados com elegância, grossos festões de
buxo e sanefas berrantes de papel de côr; e na inefável palpitação do ar
batia uma alacre trepidação, compacta e esplendente, de emblemas
religiosos, de laços, flores, _pompons_ e bandeiras. Fóra, pela
intérmina expansão do campo, alinhavam-se extensas fiadas de tarimas
tôscas, feitas em madeira clara e resinosa, adrede improvisadas para que
à epicúrea onda da multidão elas pudéssem ser, cumulativamente, fácil
estendal para a comida e cómoda estância de repouso. E no ponto
culminante, ao alto, protegida pela enramalhada concha, tôda em
torcicólos gigantes, dessa atormentada árvore secular, já nos últimos
dias luzia suas inéditas galas um lindo nicho baldaquinado, em
equilíbrio sôbre um alto lenho prismático, tombado ligeiramente, à moda
veneziana, e entalhado em duro roble, com porta de cristal e um rico
lampadário de bronze à frente suspenso.
Esse aprazado domingo amanheceu, por sorte, um encanto. No azul puro e
diáfano do céu, peneirado duma subtil poalha de oiro que era como uma
alvorada de bênçãos, apenas alguns farrapitos de nuvens, brancas e altas
como asas de anjos, erravam levemente... E desde as primeiras horas que,
algarreira e abundante, a multidão começou afluíndo, todos em salteiros
grupos endomingados,--_con sus trapitos de cristianar_,--fundidos no
guloso ímpeto do mesmo apetite místico e folião, porêm distanciados pelo
traço diorâmico dos costumes e pelo desenho ideal das crenças. Vinham em
alegres volatas, em chireantes golfadas, em cordas de riso uns após
outros vitoriando, cantando e dançando, como se nesse dia de glória a
amplidão ridente da planura se vestisse duma grande e viva alfombra
cosmopolita, realçada em matizes de tôdas as latitudes, de todos os
países, de tôdas as religiões, de tôdas as raças. Assim decorreram entre
festivas e ingénuas pompas as anunciadas cerimónias do dia, cingidas no
atropelado abraço de tôda essa grossa onde espectante. A bênção
comovedora da Santa e a sua processional trasladação, depois, àquele
improvisado altar da selva, foram, a um tempo, duas maviosas sinfonias
de movimento e de côr, e duas tocantes demonstrações de lisa fé e
piedoso entusiasmo. A vitoriosa culminação da festa estava porêm
reservada para mais tarde, quando, ao cerrar da noite, aqueles quantos
milhares de pequeninos globos, serpeando como vermes de fogo, saltando,
faíscando aqui e ali, errantes e vagos como pirilampos, começaram de
acender de roda a sua aleluia policróma. Um outro dia apontava agora,
suave e discreto, não cortado já na prosaica nitidez das evidenciadoras
flamas do astro-rei, porêm pela atenuada sarabanda dessa infinidade de
minúsculos sóis arredondado em claridades de sonho, sôlto e ideal campo
aberto, agora, às fugas da imaginação, aos arroubos do amor e aos vôos
da poesia. Era todo o vasto e bigarrado recinto dos seus fundos de
sombra jorrando esplendentes fontes de luz, palpitando e ardendo numa
estonteadora profusão de lumes caprichosos, que definem linhas
arquitecturais, que festoam silhuetas de árvores, que espirram para o
espaço, que da relva rompem ou no ar se baloiçam em largas figurações de
fantasia, e em que o uso das novas lâmpadas de fio metálico multiculôr
dá motivo às mais deliciosas projecções de côr, às nuanças mais
fantásticas e imprevistas. E por sôbre tôda essa orquestração lampejante
é ainda e sempre a carcassa mégaloide do vélho _ombú_ que mais destaca e
mais realça, todo inflamado em recamos de gala, casquilho, remoçado
agora e como que ufano do seu destino, iluminando afável e protector a
passividade muda do deserto,--o polipo colossal das raízes, que
poderosas esgarçam a terra, mosqueado de tijelinhas de côr, como
tentáculos luminosos, no amplo seio amostrando com orgulho e abrigando
com carinhos de avoengo o nicho tremeluzente, e pelo atormentado e largo
bracejar da ramaria o múltiplo rosário das lâmpadas pingendo, facetadas,
límpidas, fulgurantes como lágrimas de alegria.
Entretanto pela ampla e redonda extensão que êste luaceiro de festa
abrangia, apinhada e confusa a ronda do populacho crescia,
amontoava-se... o vago marulho da sua agitação fanfurriava em ritmos
bárbaros, vibrava em cânticos, era avivado em singelas dolências pela
sublinha sensual das tocatas e descantes... e a quando em quando, sob a
estralada esfusiante dos fogos de artifício, à flor dêsse revôlto mar,
reverberava então cá em baixo, em pinceladas goyescas, por instantes, a
floresta alvar das suas cabeças em delírio.--Fazia aprazívelmente o
Silveira o interessado circuìto do recinto, quando súbito, na compacta
maré montante de figuras que do exterior vinham ávidas colar-se à grade
do jardim, lhe pareceu distinguir um rosto seu conhecido.
Irresistivelmente, adiantou-se... e, com efeito! era Luísa, a linda e
fresca morenita, que na sua adorável rusticidade ali viera poisar, e que
enlevada e imóvel, por um alheamento de indizível beatitude os sentidos
presos e a atenção suspensa, no perfil garboso e enérgico do seu bravo
defensor cravava encantada os grandes olhos negros.
Então o Silveira, entre lisonjeado e surprêso, com uma doçura cantante
na expressão aproximou-se.
--Ó Luísa! A minha querida amiguita tambêm por aqui?... Como vais tu?
Por única resposta, ela teve um breve sorriso de êxtase a encrespar-lhe
os lábios, e logo, còrando ligeiramente, baixou os olhos. O Silveira
tornou:
--Que bôa idéa tiveste! Mas que fazes aí assim? porque não entras?
Sem articular palavra, sem se mover, Luísa manteve a mesma atitude
retraída e humilde.
--Anda!--carinhoso e afável o Silveira insistiu.--Não queres comer?...
não vens dançar?
Luísa movia a cabeça negativamente, fechada sempre na mesma inércia
contemplativa, sem romper o seu mutismo.
--P'ra que vieste então?
Ela agora por fim, com voluptuosa pausa volvendo a abrir as brumas
pálpebras, e na cálida demanda do seu galhardo interlocutor o fogo
latente do olhar chispando, numa velada ternura balbuciou, singelamente:
--_Para verlo_...
O Silveira sorriu e num estremeção de vaidade, medíocremente sensível à
tímida e incontida expansão da rapariga, insinuou a mão pelos ferros e
acariciou-lhe ao de leve a face tostada e redonda.
E partiu a seguir, por que em cima, junto à residência, uma salva de
morteiros anunciava o início do concurso coreográfico, e êle fazia parte
do júri. Então a pintalgada e densa coluna das várias músicas e bailados
que insofrida se achava a postos, começou montando a _ladeira_ suave do
jardim para ir marcialmente desfilar e luzir seus méritos frente ao
estrado posto a meio da galeria,--ante a mirada crítica de Maria
Mercedes, tôda de branco,--e seguindo num grosso e infindável
coleamento, apartados por castas, distintos pelas côres, opostos pelos
ritmos, todos cantando, vibrando, saltitando, numa grande coreia
dionisíaca que era a encantadora revivescência de algum atrevido
_fresco_ pagão, na espontânea impetuosidade e na vida instintiva do seu
movimento afirmando a irmanação genésica do homem com a Natureza, das
almas com as coisas. Foi primeiro o _tango_, êsse gracioso hino da
lascívia, impregnado de malícia picaresca, uma dança de perdição feita
de lânguidos requebros, a um tempo trágicos e sensuais, exprimindo
líricamente a conjunção fatal do amor e da morte; depois as corriqueiras
_vidalitas_, acompanhadas a viola e tamboril, crónica leve e sugerente
de façanhas guerreiras, de zombeteiros chismes e cómicas aventuras; a
seguir, os _tristes_, lembrando os nossos _fados_, gemendo um ritmo
atormentado e dolorido, quáse religioso, que dá a vaga sensação do
mistério, da solidão, do infinito; as _jotas_ e _sevillanas_ no seu
saracotear febricitante, a _tarantela_ no seu académico balanceio, o
_trepák_ no seu simbolismo ingénuo; e o desenvôlto _gato_, o mesurado
_pericón_; as _baturras_, _soleares_, _farandolas_, _chulas_,
_fandangos_... e quantos mais.--Durante horas seguidas, assim na calma
benéfica da noite, sob o jôrro delirante dos aplausos e na sua estúrdia
ronda aquecendo a fria majestade do deserto, se agitou dançando tôda
essa corda guizalhante de rústicas melopeias. E quando já os primeiros
alvores da manhã clareavam o horizonte, ainda, na debandada final, a sua
interminável cola sonora se via impetuosa e louçã, desparramada a
rabejar pelos caminhos.