Abel Botelho, o artista ilustre que às letras do seu país legou tantas
páginas de inspiração e de beleza, não teve tempo de concluir o romance
_Amor Crioulo_, escrito longe da sua terra e da sua gente mas sempre com
a imaginação e os olhos postos na Pátria distante. A morte colheu-o de
súbito, paralisando para sempre a mão augusta que tam activamente lidou
e a lúcida inteligência que nunca se fatigou de combater, durante meio
século de esfôrço permanente e fecundo, para atingir um ideal de
perfeição suprema.
Analista subtil do coração humano, psicólogo, moralista pelo castigo
áspero do sarcasmo, Abel Botelho desceu a profundidades poucas vezes
exploradas antes dêle, tentando imprimir uma utilidade social à sua
arte. A vasta obra que nos deixou e em que a sua alta personalidade se
perpetuará, tem de ser tomada como uma lição, mesmo nos seus aspectos de
mais cru realismo e na sua mais cruel expressão--que fazem dela um
flagrante documento da época e do meio em que foi elaborada. Vista em
conjunto--que é como deve ser julgada pelos espíritos imparciais--há-de
necessáriamente reconhecer-se-lhe um mérito estético e moral.
Os derradeiros capítulos que compôs, com tanta ternura e tanto relêvo
artístico, foram estes do _Amor Crioulo_, que os seus Editores hoje
lançam aos alaridos da publicidade para que nada se perca de tudo quanto
o romancista excelso produziu. O livro ficou incompleto. Todas as
pacientes buscas encetadas, para se encontrar a parte final, em Lisboa,
onde Abel Botelho tinha a sua casa, e em Buenos-Ayres, onde êle era o
representante diplomático do Governo da Rèpública Portuguesa, foram
infrutíferas. A doença inesperada interrompêra, certamente, o trabalho
do escritor insigne, que a morte não tardaria a eliminar da comédia da
existência. A acção do romance estava em pleno desenvolvimento quando o
braço do seu autor caíu desfalecido. Adivinha-se, no entanto, o desfecho
do _Amor Crioulo_ pela leitura dos coloridos, nervosos e movimentados
episódios em que a sua tessitura se desenha vigorosamente e o conflito
sentimental se estabelece.
Publicando-o tal como lhes foi entregue, os Editores contribuem com
novos e valiosos subsídios para o estudo e para a crítica da
individualidade de Abel Botelho que, na moderna literatura nacional, se
afirmou com nobre superioridade. A Escola realista entre nós poucas
figuras mais elevadas possue. Abel Botelho era um pintor por vastas
massas, dispondo duma paleta muito rica, um minucioso observador da vida
que à sua volta desenrolava maravilhosos scenários e que êle reproduzia
com surpreendente fidelidade e um justo conhecimento dos tons e dos
valores.
Foi, em todo o caso, lamentável que não terminasse êste volume
póstumo--porventura aquele em que pôs mais devotado carinho, mais
emoção, mais orgulho de raça, e que, mesmo fragmentado, o denuncia como
uma entidade representativa. Nem ao menos pôde corrigir as provas em que
os escritores da sua rara estírpe dão sempre os últimos retoques de
graça, de harmonia, de equilíbrio e de luz. A elevada honra dessa tarefa
foi-me confiada a mim, procurando eu desempenhá-la o melhor que me foi
possível e suprindo pela vontade de acertar o que me falta em
competência. Qualquer êrro que no texto apareça terá, portanto, de me
ser imputado, e não ao escritor modelar que tanto dignificou a sua
nacionalidade nos luminosos domínios do pensamento e da arte.
Pôrto, 28 de julho de 1919.
João Grave.
*Lista de erros corrigidos*
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
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| | Original | Correcção |
+----------+------------------------+-------------------------+
|#pág. 9| sna | sua |
|#pág. 43| _Commitee_ | _Committee_ |
|#pág. 118| familiaridadecativante | familiaridade cativante |
|#pág. 118| eru dição | erudição |
|#pág. 124| àtropelada | atropelada |
|#pág. 214| cortornos | contornos |
|#pág. 249| estê | êste |
|#pág. 253| próprior | próprio |
|#pág. 337| Silveíra | Silveira |
|#pág. 377| sóbre | sôbre |
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A pontuação em alguns casos foi substituída (pontos por vírgulas e dois
pontos por ponto&vígula, e vice-versa), conforme se verificava errada a
sua utilização.