VI

Bem disposto e ávido por continuar o seu interessante exame objectivo da

cidade, o Silveira no dia seguinte ergueu-se cedo e desceu pronto a rua.

Andadas não mais de três _cuadras_, ei-lo de novo na Praça do Congresso.

Dez horas da manhã. Fazia um dêstes claros, suaves e incomparáveis dias

de outono de Buenos-Aires, em que do céu alto e límpido, de pura safíra

desce uma luz de oiro vélho a acariciar tranqùilamente as coisas. Os

raros relvados do centro da praça, com a sua rociada lanugem verde,

formavam apetitosos ninhos, e a airosa cúpula do Parlamento, ao fundo,

cortava-se na frescura opalína do ar em figuras de aguarela.--Mas agora

o Silveira notou que logo ao primeiro ângulo do vasto recinto, à sua

esquerda,--junto á base duma estátua que era a consagração ornitológica

dalguma grada personagem, de matacões e labita, desta as abas dançantes

brigando simbólicamente com as asas duma águia,--um joven de lunetas e

gravata branca, desbarbado como um _clergyman_, trepado a um banco,

acenava e arengava com entusiasmo a um hipotético auditório que não

vinha.

Atraídos pelo colchete dos seus dedos suplicantes e pelos seus brados

convictos, acodem primeiro alguns rotos _canillitas_, vendedores de

jornais; vários cocheiros e _chauffeurs_ em repouso vão depois até êle

preguiçosamente arrastando-se; véem ainda, estimulados por êste

comovedor desbarato de eloqùência no vácuo, os poucos desocupados que

pelos bancos próximos amadornavam a sua indolência. Curioso e atento, o

Silveira acercou-se tambêm.--Discreteava sobre política êste improvisado

apóstolo da rua. Falava em civismo, em liberdade, em igualdade, em

consciência, no sagrado exercício do sufrágio, nas inauferíveis regalías

do povo. Figurava enfáticamente o concurso às urnas como a «benéfica

corrente arterial» da vida colectiva, como a maior conquista e o mais

grato dever moderno. A sua persuasiva parlenda rola sempre sôbre a mesma

idéa, torturadamente exibida num laborioso acrobatismo de

logares-comuns; dir-se-ia que êle prolonga deliberadamente o seu

exórdio, a dar tempo a que a assembleia cresça. Agora há já mulheres

tambêm entre os ouvintes. E o glabro orador então aquece, afervora no

entusiasmo. Imagina-se compreendido e ala-se em conceitos galantes, em

primores de frases, desbrida-se em raptos de baixa lisonja sôbre as

reivindicações feministas e a sublime missão social da mulher. Gesticula

como um energúmeno, os desmanes da inspiração e o tom da voz sobem de

ponto, já com jupitereanas fulminações contra os abusos de caudilhismo,

a influência despótica da riqueza e a corrupção sistemática dos «grandes

satrapas» do poder,--inofensivas objurgações abrangidas entretanto pela

alçada coerciva da polícia.--Porêm o Silveira acha êste mandado

charlatão político menos interessante que os seus pitorescos

competidores _callejeros_, os barafustantes pregoeiros de pomadas e

elixires maravilhosos. E o assunto não o prende maiormente. Afasta-se

com tédio.

Segue então percorrendo a pé a esplêndida rua Callao, num regalado

vagar, saborosamente. Fareja com libidinoso apetite as morenas

crioulitas que passam, em cabelo; esmiuça com a vista maravilhada e

cativa tôda essa opulenta sucessão de _magasins_ elegantes, luzidas

_étalages_, soberbos hoteis e palácios sumptuosos. Mas eis que, ao

desembocar na praça Rodriguez Peña,--oh! fastidiosa surprêsa!--_mutatis

mutandis_, ele aí vem encontrar repetida a mesma scena de há pouco.

Igualmente aqui um veemente e fogoso orador bólsa sôbre um auditório

escasso e mesclado, por igual, a mesma encomendada torrente de diatribes

e proclamas. Com a diferença que êste é trigueiro e barbado, de aspecto

façanhudo, tem um _taxiauto_ por pedestal, e à sua ilharga flameja com

triunfante arrogância uma bandeira partidária. O pior foi que numa das

mais impetuosas fugas da sua inflamada homília, um polícia aproxima-se,

intervêm, exige-lhe a apresentação da licença; o interpelado titubeia,

estaca, empalidece, busca em vão um papel salvador nas algibeiras... e

por fim lança mão resoluta ao leme do _auto_, vôa e desaparece, entre os

bonachões aplausos e as casquinadas trocistas dos assistentes.

O Silveira lembrou-se então de ter lido, ou lhe terem dito, que naquele

momento a luta eleitoral _battait son plein_ na grande capital

_porteña_. Estava-se em pleno período eleiçoeiro, para a renovação

parcial de senadores e deputados. Os socialistas, na impetuosidade

juvenil da sua formação, tinham perante os vélhos partidos arreganhos

nunca vistos. Êstes respondiam com uma animação e um calor igual. Daí a

encarniçada vivacidade da luta, e a dispersiva abundância de tôdas essas

arrebatadas prédicas de moral política, cuja copiosa fúria palreira o

Silveira ligou naturalmente à profusão berrante de cartazes com muitos

pontos de exclamação, e de anodínas efígies de bons burgueses,

aspirantes a pais da pátria, que êle via por tôda a parte colados às

paredes,--sôbre todos batendo o _record_ da flamância e do réclame o

busto implicante dum já maduro candidato a senador, de grande flor na

lapela, no redondo carão sensual uns olhitos muito vivos e o grisalho

bigode erguido.

Assim se explicava essa divertida e basta erupção de relâmpagos de

civismo, por conta própria ou encomenda alheia, um pouco à maneira

inglesa. Porêm nada disto podia maiormente interessar quem, como o

Silveira, se expatriára de vontade, muito de indústria para furtar-se ao

galimatías político e não mais ser parte nem presenciar, sequer, as

sujas dissenções e as chinfrineiras brigas em que se esfacelava a sua

querida terra. Tambêm, pelo momento, êle começava a sentir que já

conhecia demasiado, para um hóspede de horas, como êle, os aspectos

exteriores, o ambiente vulgar e comum de Buenos-Aires.--Isto só não lhe

bastava, não era nada. Queria ir mais alêm...--Mordia-o o desejo

veemente, picava-o o apetite agudo de transpôr essas portitas de

sacristia, de franquear essa freirática barreira de inexoráveis

persianas com que êle esbarrava por tôda a parte, tendidas

herméticamente; queria, em suma, desvendar um pouco o pensamento, a alma

da encantadora grande cidade que êle escolhera para refúgio,

surpreendê-la nos castos mistérios do _hogar_, conhecer-lhe as

características morais, penetrar-lhe a vida íntima,--o que êle de

antemão sabia, pelo Azeredo, «ser algo difícil».

Entretanto nessa tarde, para aproveitar o tempo, e, como bom táctico do

galanteio, para não perder o contacto com as áticas perfeições e as

claras promessas de _Mrs._ Edith, decidiu ir de visita aos Di Paoli.

Tinha-os ali assim cêrca do hotel, na mesma Praça do Congresso. Uma

modesta pensão que lhes haviam agenciado, em casa duma «distinta

camarada de arte»,--explicára-lhe o conde pomposamente. Era um simples

rés-do-chão, como tôdas as antigas casas de Buenos-Aires, com a porta e

a seguir duas janelas. No humbral da porta havia um singelo _placard_ de

metal brunido, onde em negros caractéres se lia: _Lady Cowpel,

miniaturista_. Entrava-se, subiam-se três pequenos degraus, e passada

uma estreita porta envidraçada, tinha-se o invariável e minúsculo

vestíbulo, estiradamente continuado por um álgido corredor descoberto,

que uma longa fieira de discretas portas flanqueava, e que era alto,

fechado ao fundo por uma esguia charola de dois andares.--Uma mocita de

touca e avental branco acudiu à entrada do Silveira, a inquirir:

--_Qué desea, señor?_

Os Améglio haviam tomado o primeiro compartimento, logo à direita,--o

melhor da casa,--correspondente às duas únicas janelas dando sôbre a

rua. A esperta _mucamita_ adiantou-se e foi golpear à porta,

melindrosamente blindada de persianas fixas de madeira, como tôdas as

mais. O mesmo conde veio abrir; e logo com expansiva alegria, ao dar com

os olhos no amigo:

--Ah, o meu caro Silveira! Que bela surpresa!--Abriu convidativo a tôda

a largura o batente da porta:--Entre, entre... queira entrar.

O Silveira hesitou, ao ver o conde em mangas de camisa, e do mesmo passo

surpreendendo num relance a atravancada desordem do aposento.

--Venho talvez incomodar...

--Quê! Incomodar?... De modo nenhum. Pelo contrário! Entre... Fez muito

bem!--E para o interior, num altear imperativo da voz, anunciou

afávelmente:--Edith! o snr. João da Silveira.

O recêm-vindo arriscou então alguns tímidos passos no baralhado

pejamento do recinto. Era uma vasta peça, alta e triste, forrada a papel

vulgar, esfarpado a trechos e comido junto ao teto por eczemas de

humidade. Sôbre a lisura de bistre do soalho encerado, arrastavam-se um

pouco por tôda a parte as maletas, as caixas de chapéus, os sacos de

viagem, e havia pulverulências lineares de terra e lixo definindo

geométricamente o bôjo de grossos caixotes de pinho, intactos uns e

outros já eventrados, com as desprendidas tampas postas ao alto e

eriçadas de grandes prégos, hostís e recurvos como garras.

Em meio da sala o conde, sempre convidativo e afável, e depois de haver

cerrado a porta, apressou-se a explicar:

--Não repare neste desarranjo, meu amigo. Eu estava desenfardando e

arrumando p'r'aí assim de qualquer forma os meus ricos quadros. Parece

que não sofreram com a viagem.

--E são muitos?

--Ao contrário. Mas valem pela qualidade. Um tesouro!--E num

convencional arrebite de vaidade:--Oh, que deslumbrante exposição eu vou

fazer aqui!

Passou a mão nervosa pelas negras ondas do cabelo, moveu o tórax numa

leve opressão de cansaço, e mesureiro, abundante, sempre

inalterávelmente pálido, apontou desvanecido ao irracional exame do

Silveira a atramochada distribuìção das suas telas, umas já penduradas,

outras ainda provisóriamente postas de espalda contra o rodapé

surramposo da parede. E tambêm junto a esta um petisito obreiro,

arremangado e trepado a um escadós de tesoura, como que aguardava

ordens, inexpressivo, imóvel, de braços pendentes e o pesado martelo da

mão suspenso.

O Silveira julgou oportuno convidar polidamente:

--Bem, mas porque não continua?... Eu não quero que façam cerimónia

comigo.

--Cerimónia, nenhuma. É muito amável... É que estou um pouco

cansado,--obtemperou naturalmente o conde, enfiando o seu leve jaquetão

cinzento. Fez um sinal ao mocito da escada, que desceu e saíu em

seguida; e tranqùilamente, sentando-se, acendendo um cigarro:--Temos

muito tempo.

Neste momento abria-se uma espécie de envidraçada porta de alcova, no

mais escuso recanto da casa, e por ela fazia a sua apetecida aparição

essa sonhada delícia de _Mrs._ Edith, singelamente vestida,--uma saia

corrida de fina sarja negra, blusa branca de _liberty_,--e o mesmo liso

penteado em bandós à Cléo, o mesmo divino perfil de Madona, o mesmo ar

repousado e ingénuo, a mesma ateniense modelação das formas. Avançou

sorridente ao Silveira, saùdaram-se familiarmente, como dois bons

amigos. Logo ela recolheu pronto a mão, perturbada e esquiva ao beijo

demasiado expressivo do seu admirador; e tudo era depois circunvagar,

perante êle, os confrangidos olhos pela sala, e enconchar e alargar e

mover com vivacidade os braços, em adoráveis gestos de escusa.

O marido solícitamente interveio:--que o seu nobre amigo já sabia...

desculpava tudo. E para o Silveira continuou, desabusado e simples,

aclarando:

--Obtivémos por muito favor esta pequena instalação, que está longe de

ser decente... e muito mais longe de ser barata. Imagine: esta sala e

dois pequenos quartos, interiores, escuros, nada mais... quinhentos

pesos por mês. E a sêco. Uma barbaridade! Temos que ir comer ao

_restaurant_ Santini, que nos fica a cinco _cuadras_, na _calle_

Paraná.--Aqui a condessa fêz notar com repulsivo enfado, que, demais,

tôdas as manhãs a laboriosa preparação dos banhos e abluções «era uma

tragédia». E no mesmo tom o Améglio confirmava:--Uma roubalheira! uma

maçada! Conheço Londres, Viena, Berlim, S. Petersburgo... pois,

senhores, já vejo que não há como Buenos-Aires para fundir dinheiro!

--Não é nada tranqùilizador êsse anúncio para mim.

--Aqui o pretexto para tam alta renda é que as peças estão mobiladas.

Mobiladas!--comentou o conde, com uma desdenhosa mirada em tôrno,

encolhendo os ombros.--Mas de que maneira!

Não se recomendava com efeito o mercenário recheio da vélha sala nem

pelo confôrto nem pelo aceio. De reposteiros, cortinas ou alfombras, não

havia vestígio. Ao meio da principal parede, um aparatoso e ratado

grande contador japonês, ainda com preciosas incrustações de laca e

marfim, mal amparava a poder de cunhas e remendos a sua ruina

claudicante. Havia mais uma meia dúzia de desparelhadas cadeiras,

tamboretes e _fauteuils_, com o estôfo esfiampado e sujo; uma _étagère_

banal com conchas e búzios, um piano; e ao centro uma mesa redonda,

coberta por um coçado e lustroso pano franjado, de lanujem verde, agora

ciscado abominávelmente de pequenas ferramentas.

Com um novo lastimoso dar de ombros, tornou o conde para o Silveira:

--Nem uma chávena de chá lhe podemos oferecer!

--_To morrow_...--acudiu a mulher com adorável carinho.

E muito solícito o conde, interpretando:

--Àmanhan... Oh, àmanhã, certamente, com o maior prazer!--E

obsequiosamente lembrava:--O que podemos agora é preparar-lhe um

_punch_. Vai feito?

O Silveira recusou delicadamente.--Por modo nenhum! bastava-lhe gozar a

sua amável companhia.--_Mrs._ Edith ofereceu-lhe _bonbons_, atalhando

assim gentilmente o previsto fluxo de consabidas frases lisonjeiras que

de seguro ia seguir-se. E levemente ruborizado, o Silveira, a derivar,

com os lábios melados da guloseima e do desejo:

--Diga-me, conde... e a sua exposição onde a vai fazer?

--Ainda não sei... Sei apenas, isso sim! que vou _épater_ tôda esta

gente--rematou com a mais segura ufania, atirando fóra o cigarro, os

olhos muito brilhantes.

E posto súbito em pé, tomando com decisão o braço ao amigo:

--Isto é um mostruário de puras maravilhas. Veja, veja... venha ver!

Comecemos por o que está já aqui assim à vista. Aqui tem mesmo na sua

frente um Hobbena, o maior paisagista holandês depois de Ruysdaelf; a

seguir, um Corot, o grande psicólogo da paisagem; e agora em figura,

note! um dêsses graves e aristocráticos retratos de Gainsboroug, que se

pagam hoje a peso de oiro; outro, do seu émulo e contemporâneo Reynolds;

ali, um belo estudo de Salomon Konink; mais alêm, vá anotando sempre!

uma cabeça de Ticiano, de quem o Tintoreto dizia «que pintava com carne

moída». E por último,--plantava-se com intimativa diante do Silveira

boquiaberto,--por último, nada menos que um Velasquez! um genuino

Velasquez, ouviu?... o maior, o mais assombroso pintor de todos os

tempos.--A seguir, indicando pelo soalho os caixotes intactos:--Fóra o

que está ainda p'r'aí assim...--E sempre na mesma teatral fatuìdade,

dando um giro triunfante pela sala:--Não lhe dizia eu!?... É realmente

uma dôr de alma ter de desfazer-me de coisas tam raras e tam belas...

oh, mas ao menos encontro lenitivo na idéa de que o meu sacrifício há de

dar brado! e de que ficará memorável na grata lembrança dêstes bons

_porteños_ a maravilhosa selecção de obras-primas cuja aquisição eu

venho facilitar-lhes... um relicário de Arte como êles não viram nunca,

como não teem nada que nem de longe se pareça sequér!

_Mrs._ Edith, que depois de cautelosa inspecção acabára por sentar-se no

menos avariado dos tamboretes, seguia esta flamante parada estética,

sorrindo vagamente, numa complacência tranqùila. E do fundo do seu

obtuso espanto o Silveira, para o marido:

--Devem ser telas muito caras?

--Seguramente.

--Próprias talvez melhor para Museus.

--Ah, não... aqui todavia há riquíssimas colecções particulares. Duas ou

três, pelo menos. Eu estou bem _renseigné_... Sei como hei-de

manobrar.--E ladinamente, piscando o ôlho:--A coisa é segura!

Perante tanta soma de glória e de fortuna, uma instintiva dúvida chispou

na pétrea ignorância do Silveira, que aventurou tímidamente:

--E, perdoe o meu amigo, são bem autênticos?

Um claro riso triunfal aqueceu a cínica face do charlatão.

--Ora eis aí precisamente a garantia do meu êxito, a chave do meu

segrêdo! É o caso daquela minha invenção... Eis o ponto onde eu queria

chegar.

Convidou o amigo a sentar-se, sentou-se defronte, e sentencioso,

pausado, dobrando à frente o busto, os cotovelos sôbre os joelhos:

--Oiça... O amigo sabe que tem sido sempre um problema difícil poder

constatar-se com segurança a paternidade dum quadro, especialmente dos

antigos, recorrendo apenas aos meios indutivos e dedutivos até agora em

uso. Vamos a ver...--Contava pelos dedos.--A análise química das côres

empregadas não basta: primeiro, porque os discípulos dos grandes mestres

ficam usando, geralmente, as mesmas pastas e as mesmas tintas, o que já

estabelece confusão; segundo, porque, alêm disso, as melhores ou piores

condições de conservação duma tela, a humidade, o calor, as tropelias

dos vários retocadores e técnicos, e mil outros malefícios, chegam

muitas vezes a pô-la em estado de não ser possível emitir uma opinião

segura sôbre a sua idade e procedência. Bem, mas poderá então

recorrer-se, dir-me hão, ao exame e confronto do estilo, da maneira do

artista. Ora aqui igualmente o bom critério falha, falto de apoio sério,

porque não só, para cada artista, essas variantes no processo pictural

se produzem de ordinário caprichosamente, senão que ainda, quantas

vezes! os adeptos e os continuadores duma escola acabam por apaixonar-se

pelas características de execução do chefe e vão até assimilá-las

maravilhosamente. Aí tem o meu amigo Perugino e Rafael: dois

temperamentos artísticos de bem diversa índole, não é certo? E contudo,

comparados em algumas das suas melhores obras, parecem idênticos.

Contrariado e aborrecido por êste giro erudito do diálogo, o Silveira

esboçou um gesto de impaciência e mandou uma implorativa mirada a _Mrs._

Edith, que folheava uma revista ilustrada, distraídamente. O conde

prosseguiu:

--Há ainda a considerar os testemunhos da época, os chamados documentos

históricos, dum grande auxílio, seguramente. Mas tambêm êstes só por si

não bastam. Porque é por igual freqùente deparar-se uma ou outra tela

atribuida a qualquer dos grandes mestres da pintura, sob cujo nome tal

ou tal quadro foi inscrito nos Catálogos, e afinal vir a averiguar-se

que êle para semelhante obra não contribuira mais do que com a idéa e

déra a firma, tudo o mais tendo sido feito por algum dos seus

discípulos. Olhe, aí tem: o famoso _Retrato do Rabbino_, durante muito

atribuido a Rembrandt, porque em tudo correspondia à _maneira_

consagrada dêste genial pintor, hoje é catalogado como obra de Salomon

Konink. E quantos exemplos mais!

Agora, sim, a condessa, condoída da mortificada expressão e a

confrangida atitude do Silveira, tossicou, ergueu-se e veio de novo

oferecer-lhe _bonbons_, piedosamente. Enquanto, palreiro e implacável,

sempre sentado o marido:

--Esta deplorável deficiência de elementos de _contrôle_ dá como

resultado que a gente percorre os principais Museus da Europa e aí vai

encontrar, ainda hoje, muitas das suas melhores obras registadas e

inscritas sobre designações deficientes ou imprecisas. A célebre

_Visitação_ e a _Ressurreição_, do Museu de Berlim, ainda hoje se não

sabe a que primacial pincel atribui-las. O mesmo acontece com duas

_Madonas_, um _São Lourenço_, um quadro do _Gólgota_, um _Retrato de

Guerreiro_ e vários outros, todos peças de subido valor, no Museu de

Budapesth. O Catálogo contenta-se em nos dizer que são «da Escola

italiana». E semelhantemente em todos os grandes museus do mundo. Pois

bem! amigo Silveira...--acentuou com jubiloso orgulho, abaritonando a

voz, aprumando o busto,--para preencher tam lamentáveis lacunas achei eu

o processo! _Eureka!_ É a minha grande descoberta, a minha glória, o meu

segrêdo. Todos cá virão ter... é infalível! E quere saber onde pela

primeira vez ficou irrefragávelmente provada a eficácia, a importância,

a utilidade mundial do meu invento?... Foi em Londres, na _National

Gallery_. Conhece?... Há ali um grande quadro, _The Old Grey Hunter_,

que andava catalogado como obra original de Paul Potter. Porêm,

recentemente, o dr. Bredius formulára a êsse respeito dúvidas

ponderosas, inclinando-se a atribuí-lo antes ao belga Verboeckoeven.

Grande polémica nos jornais e revistas da especialidade, socorrendo-se

cada um dos contendores às suas melhores razões e argumentos, numa

renhida discussão sem fim... e sem resultado. Vai eu, que me achava

então em Londres, aproveitei... a ocasião era formidável!... propus-lhe

_crânement_ resolver a dificuldade, pôr a limpo a questão, aplicando o

meu processo microfotográfico. Acolheram-me a princípio com um

scepticismo incrédulo, mas acederam por fim. E sabe o que

aconteceu?...--E arrebatadamente, erguendo-se, num fogoso ímpeto de

vaidade:--Provou-se, mas provou-se por uma forma insofismável, entende?

que o quadro fôra realmente executado por Potter... porêm Verboeckoeven

pintára o cavalo.

No manso rosto complacente de _Mrs._ Edith, e ante a estupefacção alarve

do Silveira, perpassou o comentário burlão dum sorriso. Enquanto

doutoralmente o Améglio, em pé diante do amigo:

--Porque êste meu processo não só nos dá a segurança absoluta de saber

se um quadro é antigo ou moderno, mas qual artista, moderno ou antigo,

foi o seu autor.--Sacudiu a cabeça e ergueu as mãos com

encarecimento.--O que então se nos revela é portentoso! Tenho aí

provas... hei-de-lhe mostrar.--E agora modestamente, encolhendo os

ombros:--E contudo é um processo bem simples e ao alcance de qualquer

que tenha uma certa prática de fotografia.--Voltou a sentar-se, e com

dogmatismo pedante, feita uma pausa de importância:--A questão é esta:

cada artista, quando pinta, e considerado êste acto sob o ponto de vista

puramente _mecânico_, poisa as tintas na tábua ou na tela

_inconscientemente_, tem um toque digital invariável, traça

inadvertidamente uma grafia peculiar, que as centenas de pontas do seu

pincel vão de improviso riscando, numa impressiva obediência ao

automatismo nervoso, e naturalmente rítmico, da sua mão. É um movimento

irreflectido, instantâneo, um rasto imperceptível, que ao mesmo artista

escapa, que o seu espírito não dirige, que o seu ôlho não alcança... e

contudo ficará marcando por uma forma incontrovertida, eterna,

insofismável, a genuína autenticidade da sua obra. Qualquer

coisa,--entende?--como o reconhecimento duma assinatura por um perito

calígrafo, visto que a pena pode considerar-se como um pincel de duas

pontas. O certo é que os trabalhos de qualquer pintor,--quere sejam as

tentativas indecisas da primeira mocidade, quere os documentos fortes da

idade madura, quere ainda as já cançadas produções da sua última

maneira,--quando submetidos à prova microfotográfica, e basta ampliá-la

oito a dez vezes, revelam todos um traço, um toque, uma característica

idêntica. Em cada uma dessas minúsculas análises se apura sempre,

invariávelmente, que as sêdas do pincel, uma por uma, vão deixando um

fino sulco, ora retilíneo, ora quebrado, ora curvo, ora mixto, afectando

infinitas formas, porêm _idêntico_ sempre quando se trata do mesmo

artista, e diverso se se comparam artistas diferentes.--E novamente

posto em pé, sem pausa, sem piedade, no seu monopólio sem tréguas da

enfriada atenção do Silveira, que debalde ensaiava um derivativo

inocente da fugitiva contemplação da irlandesa:--Que me diz a isto,

hein?

--Eu acho maravilhoso!--acudiu compenetradamente o Silveira, na sua

ingénua credulidade; e erguendo-se tambêm:--Deve dar-lhe um dinheiral!

--Dinheiro e fama.

--Não precisava deixar a Europa. Tinha a sua fortuna feita.

--Alguma coisa se fez já por lá... Porêm a divulgação de benefícios

dêstes deve estender-se e apregoar-se bem por todo o mundo. Havia que

trazê-la a estas improvisadas organizações sociais da

América.--Esfregava as mãos de contente:--Vou acabar com a perniciosa

oligarquia, com a daninha praga dêsses falsos «peritos de arte»,

verdadeiros criminosos, que por tôdas as grandes cidades enxameiam e

manobram impunemente! E, aqui em Buenos-Aires, conto limpar as galerias

particulares de todos os falsos mamarrachos que uma cabotinagem sem

escrúpulos tem sabido impingir-lhes, a pêso de oiro, como obras primas.

Vai ver! vai ver!

--Uma tarefa benemérita...

--E lucrativa, pode dizer sem escrúpulos.

E os negros olhos ladinos do conde tinham a metalizada expressão duma

voraz confiança, ao atribuir-se por êste modo, com o mais audaz

desplante, o primado da invenção e o exclusivo da aplicação dum processo

que, ao tempo, estava sendo praticado com êxito notável por Laurie nos

Museus inglêses e por Thionville nas Pinacotécas da Bélgica e França.

Por fim o Silveira anunciou que ia retirar-se, desapontado galã, ante o

fracasso formal da sua visita. E solícitamente o conde:

--Então já?...

--São horas.

--Bem, mas volta àmanhã, não é assim? Queremos muito vê-lo aqui.

--_Without fault, to-morrow_,--instou numa sublinha amável a condessa.

--Teremos já então a casa um pouco em ordem e as télas tôdas à

vista,--tornou afável o marido; e persuasivamente, quáse ao ouvido,

batendo-lhe no ombro:--Tenho aí um pequeno Boucher e um Bastien Lepage

que lhe devem convir... Há-de gostar.

O Silveira sentiu frio na espinha e tomou pronto o chapéu, para

despedir-se. Crescia-lhe agora na alma, contra a gananciosa estratégia

dêste charlatão sem igual, um vivo movimento hostil, de tédio e de

repulsa. Pensou vagamente em não voltar... Porêm quando, ao receber as

ordens da condessa, sentiu nos lábios a carícia do veludo tépido daquela

mão pequenina, todos os seus apetites ribaldos espertaram e o reganharam

num instante. Rejubilou, aqueceu... e saíu, leve e ufano, todo já no

fantasioso encanto das delícias da tarde seguinte.

Era uma quinta-feira, dia habitual de _carreras_. Um passeio ao

Hipódromo estava indicado. Para poder obsequiosamente acompanhar o

amigo, o Azeredo obtivera permissão de faltar nessa tarde ao escritório.

À hora própria, tendo antes apalavrado um _taxis_, seguiram alegremente

para Palermo os dois, e em breve se incorporavam e deliam na grossa e

luzida _queue_ interminável, de peões de tôdas as classes e matizes, de

veículos de todos os preços, de meios de condução de tôda a espécie,

que, naquele desapoderado côrso à favorita diversão _bonaerense_, de

tôda a parte afluiam e acudiam avassaladoramente, bolsando gente a monte

do estribo plebeu dos _tramways_, atirando de golpe as portinholas dos

_wagons_ na via-férrea, fazendo pomposamente buzinar e rodar a sua

opulência pelo brunido asfalto das avenidas.

Considerava o Silveira com estranheza tam nutrida e animada concorrência

a um dia de semana, um dia de trabalho. O Azeredo explicou-lhe:--que

todo o mundo ali jogava, moços e vélhos, pobres e ricos, enfermos e

sãos, mortos e vivos... as mulheres e as crianças. Era a tintineira

geral. Quem não podia dar-se ao luxo de vir a Palermo, fazia obra pelos

palpites alviçareiros das gazetas. É que o jôgo, a alicantina, a

exploração, a fraude, o interêsse, a indústria da burla e o recurso ao

azar, eram o vício, a paixão, o móbil dominante, o despótico nervo

propulsor da vida da grande cidade. Os que não apostavam nas carreiras

especulavam em terras, jogavam nas loterias ou na Bôlsa. E ainda havia

os que tudo isto sabiam muito bem fazer, ao mesmo tempo. Da coisa mais

inocente nos surdia um _estafador_, das mesmas pedras da calçada nos

tomava de assalto, a cada passo, um ladrão ou um agiota.--E abrindo

depreciativamente os braços, rematou:

--Uma grande banca ao ar livre, uma batota ao abrigo das leis, é o que é

tudo isto.

--E tu?...--indagou o Silveira, num despreocupado sorriso.

--Ah, eu das corridas gosto. Bem vês... sou de cavalaria. Aos domingos

sou infalível.

Cruzavam ao tempo a aparatosa _grille_ de bronze, da entrada, e

penetravam no largo e luminoso desafôgo do _stand_, que, com as suas

luxuosas tribunas, rústicos palanques, pequeninos rondós, _pelouses_ e

minaretes, recordou ao Silveira Longchamps, porêm mais pobre de paìsagem

e com menos perspectiva. E, de roda, em pintalgados grupos sôbre a

escovada areia sôltamente ondeando e farandunando, a mesma concorrência

habitual a êstes logares, em tôdas as grandes cidades; os homens,

grandes, fortes, serenos, trajando com severa elegância, o tipo do

espanhol com vontade, no inteiro domínio de si mesmos; as mulheres,

desgarraditas e leves, numa harmonia de conjunto impecável aquatintadas

finamente, a airosa silhueta cingida com meticuloso escrúpulo ao córte

dos figurinos parisienses, mas sem afectação, numa _tenue_ de bom-tom,

num _virtuosismo_ ponderado e honesto, a que faltava aqui a nota

_criarde_ das _demi-mondaines_ lançando o estouvado pregão das últimas

extravagâncias.

Era um pouco tarde. Já os primeiros números do Programa haviam passado,

e estava-se num intervalo. Havia um grosso embate mundano junto aos

vários _guichets_ dos côbros e vendas. Cortava a suavidade pacífica do

ar o zangarreio áspero, burlão, de dois aeroplanos. Cêrca do recinto da

pesagem, um rijo mocetão trigueiro, desbarbado, gordote,--de gôrra,

_veston_ de presilha e polainas,--ao defrontar com o Azeredo exclamou

familiarmente:

--Ó amigo Azeredo, _como le va_?

--Bem, _gracias_! meu caro Jorge. E _Usted_?--acudiu, com um cordeal

apêrto de mão, o interpelado. E seguidamente, apontando ao lado o

Silveira:--Permite-me que lhe apresente o meu querido compatriota e

amigo João da Silveira?--E logo para êste, com insinuante expressão,

completava:--O sr. Jorge Saavedra, argentino, cavalheiro muito distinto,

um dos meus melhores amigos.

--_Ah, tanto gusto_...--mastigou entretanto Jorge, numa sublinha

indiferente àquele _shakehands_ banal a um desconhecido. Mas, tomado de

súbita simpatia ao encarar melhor a figura aberta e varonil do Silveira,

tornou com interêsse:--E há muito que se encontra em Buenos-Aires?

--Recêm-chegado apenas... há dias.

--E que impressões tem do meu país? Agrada-lhe?

--Enormemente! Uma linda cidade e um povo cultíssimo. Deve ser

encantadora aqui a vida.

O Saavedra sorriu, num jubiloso estremecimento de vaidade. Enquanto,

tocando-lhe na espalda, o Azeredo:

--E os seus favoritos hoje?... Agora, no _handicap_?

--Não corre nenhum produto de marca... _ché_, cá dos meus. Não me

interessa.

--Bem, e a seguir, no clássico _Montevideo_?

--Oh, bem fácil... A vitória seguramente vai ser de _Packoy_.

--Tambêm vou por êle, sim. Linda estampa, elasticidade, nervos,

magnífico sangue...

--E montado por Arturi. Não há que duvidar! Dá três quilos de vantagem;

é porque está bem seguro da vitória.

Caminhavam agora de manso os três, marginando a pista e sem maior

interêsse pela corrida, pronta e fácilmente acamaradados. Jorge Saavedra

desfazia-se, a um e outro lado, galanteador, afável, em rebuscados

cumprimentos, protectoras miradas e acenos abundantes. Os olhos espertos

do Silveira perdiam-se nas côres berrantes dos _jockeys_, na vivacidade

marulhenta do recinto, na perturbadora abundância de deliciosas figuras

femininas. O Azeredo rejubilava, irrequieto, vivo, sempre aos saltinhos;

e com familiar confiança tornou para o Saavedra:

--Diga-me, amigo Jorge, e para o clássico _Chevalier_ que aposta fez?

--Isso nem se pergunta! Vou por _Canora_.

--Como _Canora_!? É vontade de perder _plata_... Eu aposto por _Chaica_.

--_Chaica?_...--atalhou por sua vez o Saavedra, parando, com um rir

trocista.--Só por _broma_, _vamos_... _Es una cabuleadora_.

--É filha de _Pearl Rivel_!--redarguiu com intimativa o Azeredo,

formalizado.--Ora essa! Cumpridora a mais não poder ser. A sua primeira

prova foi a primeira vitória. Não se lembra? não viu que _performance_

mais distinta?... No tréno desta manhã sei eu que fez os 700^m em 41''.

--Não importa! não importa!--objectou Jorge, reatando a andar,

implicativamente.--_Canora_ é filha de _Old Man_ e procede do _haras San

Jacinto_, é bom não esquecer. É voluntariosa, por vezes, tem um jôgo

irregular, é certo. Oh, mas não há aí uma competidora com _más clase_ e

melhor estampa!

--No domingo perdeu.

--Por meia cabeça, sómente.

--Pois hoje perderá por cabeça e meia.

--_Ya lo veremos_,--pontualizou o Saavedra com arrogância. E de repente,

esperto e firme, agitando imperioso o braço:--O _Montevideo_, agora!

Atenção! Se _levantan las cintas_... A partida! a partida!

Os seis pôtros da escolhida _équipe_ para o clássico _Montevideo_ haviam

largado, com efeito, a tôda a rédea, imponderáveis, distensos, o pescoço

em flecha, disparada a garupa, os jarretes flamejantes fazendo voar a

terra. Com simultâneo gáudio do Saavedra e do Azeredo, _Packoy_ iniciou

galhardamente a direcção do movimento e nesse posto de honra se aguentou

e cumpriu, durante os primeiros 600^{m}; porêm depois, de tranco a

tranco marcando cada vez mais curto, inexplicávelmente, foi-se deixando

levar de vencida por forma que, ao desembocarem na grande recta final, o

seu distanciamento era já sensível. Entretanto, _Grey-Eyes_, um enxuto e

ágil potrito castanho que se estreava nesta corrida, atacando por fóra,

ganhava o posto dianteiro, que manteve até final, vitorioso _leader_, ao

passo que _Packoy_ apenas em quarto logar alcançou a méta.

O Azeredo barafustava e erguia os punhos cerrados, em ganas contra o

_jockey_ duma arremetida justiceira, furioso, saltitando. Enquanto, numa

concordante explosão de cólera, o Saavedra:

--Por culpa daquele _imbécil_ de Arturi! Sempre com a mania de conter as

montadas, a reservar-lhes o maior esfôrço, para efeitos teatrais, no

momento decisivo. E depois dá destas _planchas_! Iam tam bem... O que

êle precisava!

E golpeou desapontado com o chicote a sébe florida da vedação,

deslocando-se em largas e violentas passadas, o ôlho minaz, as narinas

aflantes.

Trouxe-lhe uma compensadora desforra a corrida seguinte, que resultou um

verdadeiro _match_ entre _Chaica_ e _Canora_, a sua ardente favorita, a

qual por mais de meio corpo atingiu primeiro o disco. Porêm desta vez

Jorge, delicado e comedido, não querendo ferir os machucados brios do

Azeredo como prático do _turf_, celebrou com moderado entusiasmo o seu

triunfo.

Faltavam ainda duas corridas; porêm o Silveira de relógio na mão, tomado

dum vago embaraço, arriscou--que não podia demorar-se. O Azeredo, que

estava ao facto do compromisso galante por êle tomado na véspera,

desculpou-o. Mas, sinceramente penalizado, o Saavedra, dando preguiçoso

a mão a êste fulminante captador da sua simpatia:

--Retira já?... _Qué lastima!_

--Eu é que sinto imenso ver-me forçado a privar-me, assim de repente, de

tam amável companhia. Mas... o Azeredo sabe...

--É certo, é... Precisa deixar-nos--confirmou pronto o amigo; e súbito

com um jubiloso relâmpago na pupila insinuante:--Mas eu tenho uma idéa,

amigos! Podemos comer hoje os três juntos. É uma compensação.--Premiu

afávelmente o braço de Jorge:--_Tiene Usted compromiso_?

--Não... para hoje, não...

--Óptimo! Considere-se então convidado, hein?

--_Convenido_.

--Às 8, no _Petit Salon_.--E com vivacidade, para o Silveira:--Tu

espera-me no hotel. Vou-te buscar.

Saùdando ligeiramente, o Silveira partiu logo. Pouco depois das 5 horas

estava em casa dos Di Paoli, tendo antes comprado, na passagem por

Callao, um fino ramo de _muguet_, a flor predilecta da condessa. Fez

retinir fortemente o botão eléctrico. Ia decidido a «atirar-se de vez»,

a arriscar um resoluto golpe de audácia que pronto lhe assegurasse o

triunfo definitivo.--E que auspiciosos prenúncios para o seu intento!

_Mrs._ Edith estava só, e um verdadeiro apetite, arranjada lindamente.

Pela abundância cálida do cabelo uns toques déstros de ferro haviam

passado, ondeando-o ao de leve; não menos déstras pinceladas de _kohl_

haviam engrossado a linha sensual dos cílios, haviam como que incendido

num voluptuoso fogo latente a macerada sombra das olheiras; e daquela

plástica impecável os movimentos rítmicos podiam íntegros surpreender-se

e adivinhar-se, pelas indiscretas lisuras e os denunciadores refegos do

precioso _kimono_ de sêda _grenat_ que os cingia apenas, sôltamente,

deixando por inteiro a nu os antebraços e a alvura do colo deslumbrante,

que nas suas linhas de contacto com a sêda adquiria reflexos duma rosada

e fluida transparência, como se fôra carne feita de pérolas moídas.

Foi um verdadeiro _coup de foudre_ para o Silveira a inopinada fortuna

desta situação e o supernal encanto desta figura. Beijou a mão da

condessa e entregou-lhe o ramo, tremendo ligeiramente, sem palavra

ferir, a língua sêca e os lábios frios. Ela correspondeu deixando fugaz

entrever, num sorriso discreto, a rociada frescura dos dentitos brancos.

Agradeceu o mimo da lembrança em carinhosas palavras, para a rasa

insuficiência linguista do Silveira arreliadoramente intraduzíveis. A

seguir, muito naturalmente, prendeu sôbre o coração dois dêsses cachos

de minúsculas caçoletas perfumadas, e sem perturbações nem pressas, o

olhar vago e repousado, sempre tranqùila, foi acomodar os restantes com

atento esmero numa enfusita de vélha faiança, que trouxe da

alcova.--Veio ao tempo a _mucama_, trazendo numa bandeja o chá e dois

pratitos mais, um com _sandwiches_, outro com bolos secos, sofrivelmente

sédiços. Dispôs em silêncio o serviço sôbre o pano coçado da mesa e

rodou num instante.

Na mente escandecida do Silveira o desejo, o ardor e a fúria erótica

subiam de ponto. A sua incorrigível fatuìdade, os numerosos e fáceis

triunfos que ilustravam a sua larga fôlha de conquistador, debruavam-lhe

das falaciosas côres dum prisma demasiado optimista a singularidade algo

problemática da situação; faziam-lhe tomar por claros propósitos de

sedução, por um convite formal ao galanteio, o que não passava talvez

dum ardiloso laço feminino. Pelo momento, a condessa convidára-o

simplesmente a sentar-se e servia-lhe o chá, com adorável intimidade,

era certo, num abandôno insinuante, avançando para êle o braço nu,

enquanto as amplas prégas do _kimono_, dobrado à frente, desnudavam por

igual, em perturbadores relances, a rósea maravilha do colo erguido em

suaves ondas de pecado. E tentava explicar-lhe:--O conde não estava...

não poderia talvez vir senão tarde.--Quando o Silveira tal chegou a

compreender, sentiu nas orelhas um calor de evidência, e na noite

ardente das pupilas relampeou-lhe um cântico de vitória... Mas aqui o

seu grande embaraço! Queria mostrar-se um galã à altura, dominador

seguro dêste lance de favor; urgia que iniciasse verbalmente o seu

ataque; porêm como?... se êstes soberbões ingleses faziam gala em não

manejar outra língua senão a sua! Como em nenhum idioma os dois podiam

claramente entender-se, as suas abortadas tentativas de diálogo

resultavam assim um desbarato de palavras, confuso e estéril, um

titubeio divertido e por vezes cómico, um atabalhoado duelo de absurdos,

desfechando sempre na mesma burlesca e formal impotência, cortado de

suspensões, sublinhado a risadas. Havia que suprir a deficiência da

frase pela abundância e a vivacidade do gesto, muitas vezes. E

lascarinamente o Silveira aproveitava para desbordar-se em atrevidas

manobras digitais, para arriscar sorrateiros toques sugestivos e

ensaiar, como filhas do acaso, aproximações lascivas,--que _Mrs._ Edith

acolhia entretanto com inalterável singeleza, como que sem dar-se conta,

desprevenidamente, abotoada numa cega inconsciência infantil e numa

frialdade desesperante.

Esta atitude inverosímil da condessa desconcertava o Silveira, punha-o

doido de despeito, de raiva e de desejo.--Que demónio! Voltava a

esbarrar com a mesma diva impassível, a mesma criatura calma,

desentendida e ingénua do começo da viagem... Vão lá entender mulheres!

Essa deliciosa, essa picante doidelas dos dias de Entrudo escapava-lhe

outra vez!--E no desnorteado furor que o aquecia, êle já descia a

processos de mau gôsto, cometia imprudências, roçava-a ombro com ombro,

apertava-lhe o pulso, tocava-lhe o pé debaixo da mesa.--Então,

súbitamente, e como que obedecendo a algum convencionado sinal, fez a

sua inesperada aparição na salinha a dona da casa, Lady Cowper,

sobraçando um paquetito.--Alguns dos trabalhos das suas discípulas, que

ela vinha obsequiosamente mostrar ao recêm-vindo.--O Silveira teve ganas

de lhe morder. Ela era uma quarentona repulsiva e obêsa, vestida de

amarelo, pequena, ruiva, de olhos claros, marcada por abundantes

sarapintas de bistre na face enlagostada. Mesureira, bajulando,

adiantou-se a saùdar, com o seu sorriso verde de criatura falhada, e

logo a sapuda concha das mãos sardentas a semear pela mesa uma parada de

miúdas bugigangas. Eram rebuscadas miniaturitas, medalhas e iluminuras

banais, camafeus, embrechados, pirogravuras e esmaltes, de péssimo

desenho, duma execução vidriosa e dura como o aspecto paleolítico da

professora. Esta porêm, importante e de pé, o ventre contra a mesa, não

despegava de encarecer essas efémeras obritas de _virtuosismo_ barato,

mostrando-as com ufania, uma por uma.--Que visse bem... aquele finíssimo

esmalte _Luís XV_... êsse delicioso retratinho com moldura _Império_...

_uma liseuse_ para um livrinho de Horas... esta preciosa moldura gótica

em cobre rebatido. E aqui... e agora... e isto mais. Verdadeiras peças

de arte, havia de convir. O que não admirava, feitas como eram tôdas por

meninas da primeira sociedade.--Exprimia-se num mau castelhano,

horrivelmente gutural, ora aspirado, ora cortante, como golpes de

machado rasgando lenha. E passava sem cessar a aborrecida miuçalha às

mãos do Silveira, que no propósito inocente de correr breve com a

importuna, tomava fulo cada peça e logo a arrumava, após um exame

sacudido, sumário, quáse agressivo.

Baldo estrategema, porêm, porquanto aquela empatadora inexorável tomava

agora familiarmente assento ao lado dêle, e numa astuciosa derivante,

erguendo a esborifada cabeça e passeando com admiração as pupilas

deliquescentes pela sala:

--Soberba colecção! não haja dúvida. Um verdadeiro museu. Fazia a minha

fortuna... Já reparou bem, sr. Silveira?--E num propósito de baixa

adulação, com intimativa, alongando o braço:--E que fino, que lindo o

retrato da senhora condessa! Que não está favorecida...

Só agora o Silveira notou que, com efeito, uma aparatosa fileira de

télas, em ricas molduras doiradas, remoçava e fazia viver dos brilhos da

sua cantante policromia a tristura pelintra das paredes. A um canto

havia, contrastando deplorávelmente, pela realização e pela factura, com

todo êsse broslamento sábio de figuras, de planos e de tintas, um perfil

a óleo da condessa.

Como já fazia escuro, _Mrs._ Edith dirigiu-se ao prendedor eléctrico, a

soltar a luz; no momento justo em que o marido entrava e vivaracho,

alegre, atirando o chapéu, seguiu direito ao Silveira, a apertar-lhe a

mão. E logo, dando-se conta do ponto onde curiosa a sua atenção incidia:

--Aquilo é um modesto ensaio meu. Não vale nada.

--O modêlo não podia ser melhor...

O conde baixou a cabeça e dobrou-se, num grato desvanecimento.

--É que eu pinto tambêm um pouco, não sabia?... Tôdas as belas

manifestações da arte teem em mim o mais insignificante dos seus

cultores.

A seguir, desatou-se em prolixas e sabujonas desculpas por ter vindo

assim em _retard_, faltando, bem a seu pezar, a um compromisso para êle

tam apreciável. E esfregando as mãos com ruído:

--Mas estou contente! Parece-me que tenho já local para a exposição... e

de graça. O salão dum compatriota meu, que é fotógrafo, na _calle_

Viamonte,--a fotografia mais elegante, mais _smart_, mais _select_ de

Buenos-Aires.

Lady Cowper, sentindo agora a sua presença dispensável, havia deslizado

ignoradamente. Entretanto o Améglio, com o olhar vivo e matreiro, em

presunçosas atitudes tomando a sala tôda:

--E então, agora, vê bem como são preciosas as minhas télas! Que grande

lição estética eu venho trazer a esta gente, que colecção rara, que

magnífico conjunto!--Depois, cabotino, insinuante, travando confiado o

braço do Silveira e pondo-o na frente dum pequeno _estudo_ de paìsagem,

onde uma figurita banal de aldeã se esboçava, perdida numa _aleluia_

primaveril de papoilas e malmequeres:--Aqui tem o seu Bastien Lepage.

--O meu quê?...

--O quadrito, sim, que lhe destino. Uma pequena maravilha, como vê...

Note como ali assim a figura poisa singelamente e sem _ficelles_ de

destaque, tocada simplesmente, com o mesmo valor de todos os mais

acessórios do quadro. Era, como sabe, a característica dominante dêste

grande mestre naturalista.--Encarecia sugestivo a expressão:--Uma

tentação, não é?...--E suasivo, assentando-lhe a mão sôbre o ombro:--Que

me diz?

Cabisbaixo e mudo, vergado ao pêso do fulmíneo ataque, o Silveira

interrogou numa mirada suplicante _Mrs._ Edith, cujos olhos doces

esboçaram uma solicitação de anuência, irresistível... E êle então,

pávido e submisso:

--Bem... mas por quanto?

--Oh, meu caro amigo! Isso é uma questão puramente secundária. Entre

nós, já vê... Qualquer coisa... Nem vale a pena falar... Se as coisas me

correrem bem, terei até muito prazer em lhe fazer presente dêle.

--Não, mas eu é que não quero...

--Depois! depois!

Súbito, numa bem marcada simulação de desinteresse, o conde sentou-se ao

piano, e sôltamente:

--Quere ouvir uma valsa que improvisei esta manhã? Vou tambêm

dedicar-lha.

E, com um ar boémio impagável, bamboando o busto, os olhos em branco e a

cabeça sôbre a nuca, fazia gemer numa batida monótona de compassos

triviais as cordas desafinadas.

Nos nervos em sobressalto do Silveira corria o mesmo frio arrepio da

véspera, agora mais áspero, mais persistente... subsistindo ainda e

vibratilizando-o, minutos depois, já rua fóra, junto com o exaspêro

íntimo pela sua passividade, a sua indecisão, o seu acobardamento

estúpido ante aquele descarado assalto à integridade da sua algibeira.

Numa vergonha instintiva, absteve-se de contar o humilhante episódio ao

Azeredo, que pouco antes das 8 veio demandá-lo ao hotel, conforme se

combinára. Saíram logo depois, a pé, a tomar a _calle_ Esmeralda, e por

esta se internaram até ao ponto onde uns mocitos de libré encarnada

lidavam à porta dum grande barracão, murado de espelhos.

--É aqui, meu vélho. Espera um instante.

Dizendo, o Azeredo entrou ligeiro e atento, a buscar se acaso o Saavedra

já estaria, e a marcar uma mesa; enquanto cá fóra o Silveira seguia

alheadamente o taquinar miudito das _muchachas_ que entravam para o

_cinema_ defronte.

O Saavedra apareceu por fim, às 8 e meia.--Vinha um pouco em atraso...

mas era muito bôa hora, _verdad_?--Acolhido pelo festivo aplauso dos

dois amigos, e num momento estavam todos à mesa. Jorge vestia agora um

_jaqué_ negro irrepreensível, fechando por um só botão e extremamente

cintado, colete de bandas brancas, folgado e muito aberto, uma linda

pérola a prender o nó esguio da gravata, calça raiada de fantasia e bota

de polimento. Foi êle o investido das graves funções da escolha do

_menu_.--_Petits canapés_ de _caviar_ para _hors d'oeuvre_, uma rica

_croûte au pot_, filetes de linguado com môlho de ostras, depois uma

_entrada_, espargos, e por fim um prato crioulo, o coireáceo

_churrasco_, especialidade da casa.--A questão das bebidas foi árdua,

pouco menos de insolúvel. O Silveira lembrou tímidamente o _Colares_,

que não constava da lista, não havia; então Jorge patrióticamente

insistiu que provassem _Trapiche_: porêm o Azeredo opôs-se, com um

depreciativo distender do lábio, e optou-se afinal por um qualquer

_Borgonha_ de duvidosa procedência.

Jorge iniciou a comida com apetite, e agitava-se petulante, ufano,

folgazão, todo ainda no vibrante estímulo das emoções hípicas da tarde.

--Oh, aquela impagável _Canora!_ que _preciosura!_ Viram bem?... Correu

os 1:400 metros em 1',22. É verdadeiramente o _record_ mundial da

velocidade, jámais registado nos anais do _turf_. Eu esperava muito

dela, mas não tanto, palavra! Vale o seu pêso de oiro.

--De quantos quilates?--amolou, trocista, o Azeredo.

--Oiro português, antigo... do tempo dos vossos Brasís,--soube ripostar

pronto o Saavedra, numa lisonjeira evocação que os dois acolheram com um

quebrado sorriso. E sempre contente:--O certo é que esta vitória não só

exaltou os meus brios, como trouxe a mais agradável compensação aos meus

desastres anteriores. Porque, meus caros amigos...--E numa aberta de

intimidade, abatendo a voz, dobrado sôbre a mesa:--Nestas duas semanas

últimas de _carreras_ saíram-me da algibeira ao redor de três mil pesos.

_Un clavo_... Mas a papá direi que perdi trezentos.--Depois, atencioso e

outra vez natural, para o Silveira:--E em Portugal há _aficionamiento_

pelo _sport_ hípico?

--Um pouco...

--Bastante! bastante!--acudiu o Azeredo, num saltinho convicto.--Há

muito bons calções. Tem agora havido, no hipódromo de Palhavã, uns

concursos internacionais muito brilhantes.

--Ah, eu recordo-me de ter visto no _Palace Théâtre_,--obtemperou Jorge,

complacente, atacando a sopa,--um _film_ intitulado _Os Centauros

portugueses_, que era realmente admirável.

--Sim! sim! trabalhos da nossa escola de Cavalaria.

--Que _raids_! que saltos... que segurança, que destreza! Não se pode

exigir mais.

--E pode o amigo dizê-lo sem favor. Superior aos italianos!--jactancioso

o Azeredo rematou.

E serviu cordialmente vinho ao Saavedra, que, daí a momentos:

--Eu p'r'a semana volto ao campo. Tenho tôda a família lá, aqui já

tratei do que tinha a tratar, e papá não abona mais _plata_.--Encarou

numa penhorante afabilidade o Azeredo:--O amigo, já sei, não pode vir...

_qué lastima_!--E para o Silveira, abruptamente:--Porque não vem comigo?

Ante a inesperada oferta, os olhos ladinos do Azeredo dilataram-se de

espanto, quáse incrédulos, e o deslumbrado Silveira aprumou-se, num

estremecimento de grata surprêsa. Com sincera espontaneidade Jorge

insistiu:

--Venha! Digo-lhe isto de vontade.

--Muitíssimo agradecido.

--Não conhece ainda papá nem a minha família. Mas não importa! Fóra da

cidade não há protocolo nem cerimónias. E eu posso levar as pessoas que

me apeteça. Tenho carta branca, _ché_... faço o que quero.

--Vai, vai, meu rapaz!--estimulou, crepitante de júbilo, o Azeredo.

--Bem vê, Buenos-Aires neste tempo é detestável!--tornava entretanto,

com enfatuado ar, o Saavedra.--Não há ninguem, morre-se de tédio. As

famílias com quem se pode tratar, _la gente bien_, está tudo fóra...

veraneiam pelas _estancias_, como nós, pelo Tigre, Montevideo e Mar del

Plata. Bastantes deitam té à Europa. E quem não tem _mosca_, _ché_...

para dar-se qualquer dêstes inocentes regalos, encurrala-se

herméticamente em casa.

--Pouco mais ou menos como em tôdas as grandes cidades.

--_Si pues_... Porêm o sr. escolheu realmente para a sua digressão à

America uma época aborrecida. Não há _recibos_, festas, não ha

_Colón_... _Nada ni nadie_. _Que va uno á hacer_?...--Encolhia os ombros

com enfado; e a seguir, alegre, fanfarrão, abanando promissoramente a

cabeça:--Mais tarde, no inverno, sim! é a grande animação... teatros,

bailes _farras_, _clubs_...--Franzia brèjeiro os olhos:--E há então

por'í assim umas _tertulias_ de concorrência mesclada, que são

deliciosas... onde _uno afila_ à vontade e onde não faltam _mujeres

guapas_ entre as quais se pode mesmo, manobrando com discrição, _sacar

una bolita_...

Passava junto dos três, neste momento, um curioso tipo de vélho

precoce,--desbarbado, pequeno, os lábios sensuais, longo nariz rebatido,

na préga froixa das pálpebras a marca lívida das vigílias. O Saavedra

premiu-lhe familiar o antebraço:

--Meu caro Belisário, como vais tu?... Senta-te um pouco. Queres comer?

--Ainda agora eu almocei...

E com um arrastado ar _blasé_, sem mesmo olhar os convivas, molemente,

afastou-se, dandinando. Jorge aclarou:

--É Belisário Ruíz, grande amigo meu... um incorrigível _guarango_, um

_picaro redomado_. Aparece lá pela _estancia_, algumas vezes.

Depois, na mesma cativante afabilidade para o Silveira, reatando:

--Espero que se resolva e me dê o prazer de acompanhar-me.--Que eu nada

mais posso oferecer-lhe, lá baixo, que uma casa de campo modesta e mais

modesta ainda a companhia. Papá, mamã e _mi hermana mayor_... _Nadie

más_... Que eu tenho uma outra irmã, casada; porêm vive em Paris. Tem um

filho, de 16 anos, que é um rico amor de sobrinho. São os encantos de

papá... Mas, já digo, estão longe. Aqui na _estancia_ o amigo sentir-se

há um pouco só... porêm o que lhe vai faltar em atracções de convívio

caseiro, sobrar-lhe há em hospitaleira franqueza, em pitoresco, em

inédito, em sol, em liberdade.

--Estou positivamente encantado...

--Mamã é uma santa.

--É certo,--corroborou com amável convicção o Azeredo.

--Passa os dias pelos _ranchos_ da redondeza, a mitigar dores e adoçar

misérias... Agora minha rabugenta irmã, a pobre Célia--tornou Jorge com

uma afectuosidade tolerante,--essa aparece pouco e anda sempre de mau

humor, porque lhe faltam as igrejas.--Depois, com mal contida

ternura:--Resta papá... Êste é um caturra adorável, um moralista, um

filósofo, um sonhador... mas à moda antiga. E então que morre por

conversar! Em êle apanhando uma vítima a geito, nunca mais acaba. Um

_latero_ muito sofrível, já o sr. fica sabendo... Mas há que

desculpá-lo: é homem doutra época, conhece a história com'os seus dedos,

foi contemporâneo de tôdas as grandes figuras da nossa brilhante

renovação social e intelectual, de há quarenta anos. De sorte que,

assim, na sua ronceira opinião, tudo o actual é mau... não há nada como

os homens, os sentimentos, os costumes e as coisas do seu tempo. Até a

nossa mesma casa aqui em Buenos-Aires, há-de ver... é como que uma

flagrante exumação do passado. Escura, desconfortável, triste, cheia de

coisas vélhas... parece um túmulo.

E imediatamente, a desvanecer a impressão de enfriamento que por ventura

a sinceridade juvenil da sua exposição houvera feito alastrar no

simpatismo espectante do amigo:

--Agora tambêm devo dizer-lhe: se acaso a minha prima Maria Mercedes se

resolve a aparecer, como prometeu, então tudo aquilo toma outra vida,

outra animação... é como a passagem da noite ao dia, torna-se a

_estancia_ um paraíso.

--Com efeito!

--Ela é uma criatura preciosa, rara, singular! dito por todos...

deslumbrante como uma deusa e perigosa como um demónio.

--Não tenho a honra de a conhecer,--acudiu ladino o Azeredo; e todo

vibrante, num gesto cómico de defesa:--Nem quero!

Jorge sorriu; e com intimativa crescente, comprazendo-se na sua galante

e calorosa apologia:

--P'ra mim não, que temos demasiada intimidade, mas p'r'a grande maioria

dos homens esta minha prima é o que se pode dizer uma verdadeira

tentação.--E insinuante, jovial, quáse orgulhoso, detalhava:--Viúva,

rica, com 25 anos e sem filhos, fresca, novinha em fôlha; pode

dizer-se... apetitosa; e numa terra como os srs. dizem que é esta nossa,

de mulheres bonitas, passando por ser das mais formosas. Imaginem! _una

monada_.

O Silveira escutava, silencioso e cabisbaixo, sob a tirania voluptuosa

dos sentidos. Jorge completou:

--Depois, ilustrada, viva, inteligente. Que ditos finos, que conceitos

subtís, que mordacidade, que espírito, que respostas a tempo! E o que

aquilo vai buscar p'ra têma de conversa! Só ouvindo-a... Aqui há uns

dias, o dr. Farmin Gonzáles, um dos nossos homens de mais _verve_ e

maior prestígio intelectual, quis medir fôrças com ela. Pois, senhores!

a fôlhas tantas declarava-se vencido.

--Nessa contingência me não verei eu... juro!--tornou o Azeredo, no seu

gesto gaiato.

De sua banda o Silveira, estimulado, baboso, aventurou:

--Deve ter muitos admiradores?

--Seguramente! São aos centos. Como por exemplo, êste _imbécil_

Belisário. Porêm, ela _no les lleva el apunte, ché_... Não há um que se

possa gabar! É mais indomável e arisca que uma _potranca perdedora_.

Terá ocasião de ver...

Servia o moço, ao tempo, o clássico _churrasco_,--uma pantagruélica

montanha, cebácea e sangrante, de carnes laceradas em bruto, de

gorduras, ossos, tendões, coirama chamuscada e encorreadas fêveras. Numa

instintiva náusea, o Silveira arredou a travessa, desviando os olhos.

--Deus me livre! Isto é alimento para estômagos blindados.

--Tudo vai do hábito...--compôs o Azeredo docemente.

Ao passo que Jorge, com um ademan desdenhoso e implicante, voraz,

servindo-se com abundância:

--Eu acho delicioso!

E uns breves minutos mais passaram os três amigos nesta charla

despreocupada e alegre, espontânea exteriorização da mútua simpatia, da

íntima conformidade de sentir que tam auspiciosamente parecia ligá-los,

e que a esticada munificência do Azeredo quis que fôsse selada a

_Champagne_. À despedida, depois, por seu turno Jorge intimou que

voltassem a reùnir-se, domingo próximo, no Hipódromo.--E que nessa noite

comeriam com êle no _grill-room do Plaza_.

--Será a despedida. Retiro terça ou quarta-feira; porêm não descanso sem

colhêr a certeza de que não irei sòzinho...

E, na solicitação gentil duma anuência, cravava os olhos expressivos no

Silveira, que, gulosamente, com a perturbadora visão dessa misteriosa

prima a incender-lhe a fantasia e a arranhar-lhe o desejo:

--Estou quáse resolvido...

No domingo seguinte, pela tarde, ao entrar o Azeredo, no hotel, pelo

quarto do Silveira, encontrou-o de mau humor. Amadornado no _fauteuil_,

junto à janela, lia distraídamente um jornal, que atirou longe, mal

sentiu o amigo, num movimento brusco e fransindo a testa.

--Que tens, amigo João, que é isso?...

--Nada...

--Não... algo tens que te contraria ou aborrece.

O Silveira permanecia bisonhamente mudo. Até que, a novas instâncias do

amigo, e com mal contido despeito, num sacudido gesto de desgôsto:

--É que, francamente, não compreendo esta gente!

O Azeredo sentou-se-lhe defronte, e meio curioso, meio trocista:

--Que mal te fizeram?... conta lá.

--Por várias vezes te tenho falado no meu delicioso convívio a bordo com

os Wimeyer, sabes?... Eu ingénuamente supus que se tratava duma

espontânea e lial amizade, que nos ligaria o que quere que fôsse de

sincero, de íntimo, de cordeal, não é verdade?... alguma coisa mais do

que essas mentidas e efémeras relações contraídas em viagem, e que, uma

vez terminada esta, logo esquecem, como se largam as malas. Pois imagina

tu que ontem, como era natural, fui visitá-los. Vem-me à porta uma

criadita espevitada e com cara de fastío, que me recebe desconfiada,

arisca, quáse hostil, mal amostrando a cabeça pela porta entreaberta.

Depois, apenas eu declino o meu nome e anuncio ao que ia, retruca-me

logo com uma grande secatura:--As senhoras não recebem.--E, zás! tam

pronto colheu na mão os meus cartões de visita, sem dar mais cavaco,

dá-me com a porta na cara.

O Azeredo torcia-se em esgares trocistas e ria, ria, gaiatamente.

--Ah! ah! É então por isso tanta arrelía?

--Tu ris?...

--Sem dúvida.

--Achas pouco?

--Acho que não tens motivo nenhum para tam saloia indignação, e que o

que te aconteceu é tudo quanto há de mais natural.--E doutoralmente

explanou:--Pois então tu pensas que isto aqui assim é como lá na nossa

_parvónia_, onde estamos sempre de braços abertos para acolher quanto

importuno se lembre de nos ir moer a paciência e estragar as horas?...

Annh! aqui fia mais fino... Aqui tudo anda cerimoniosamente regulado,

pautado e medido; as relações e os negócios, os ódios e as afeições, o

sentimento e o interêsse.

--Um pouco como em tôda a parte.

--Aqui mais do que em parte nenhuma... Cultiva-se a sociabilidade a

distância. Famílias que se dizem íntimas, vêem-se duas vezes por ano.

Olha, sabes que mais? tens que comprar um livrinho que aí há, de

marroquim azul e fôlhas doiradas,--custa-te dez pesos, o equivalente a

quatro escudos,--barato não é... mas, alma piedosa como tu és, deves

dá-los por muito bem empregados, porque essa _massa_ destina-se ao

custeio duma obra pia qualquer, privativa função do _high-life_: a

Associação _del Divino Rostro_. É uma coisa do tom.--E, reatando:--Ora

nessa espécie de mundano florilégio tu vais encontrar, metódicamente

distribuidos por ordem alfabética e púdicamente apartados segundo os

sexos, todos os nomes, sobrenomes, apelidos, moradas, e a direcção

telefónica mail'a indicação dos dias de receber, das famílias que se

prézam, tôda a graúda gente. É um código inviolável, sabes? um índice de

elegância, um complicado e melindroso calendário social, cujas

efemérides são infalíveis... São dogmas, são escrituras. Por isso o seu

conhecimento, o seu uso se torna imprescindível _à los muchachos

distinguidos_ como tu.--Ao ameno afago destas leves humoradas, o rosto

cenhudo do Silveira desanuviára; e prazenteiro e cáustico, o amigo:--Já

sabes pois que fóra de tais prazos rituais da etiqueta, nenhuma dessas

meticulosas figuras é acessível. Não são criaturas reais, são

abstracções, são símbolos... sobretudo agora. De sorte que, realmente,

demandá-los nos dias dos seus convencionais eclipses, conforme tu

fizeste, é um triste documento de plebeismo, uma _gaffe_ imperdoável.

--Quéro lá saber!--atalhou de ímpeto o Silveira, num sobranceiro dar de

ombros, mas no íntimo vèxado, erguendo-se.

--Que remédio tens tu! se quiseres tratar com gente limpa,--contestou,

numa ironia amável, o amigo; e rápidamente, tendo consultado o relógio,

erguendo-se tambêm:--Vamos, que são horas.

Depois, já fóra no _hall_ os dois, e enquanto esperavam o descensor:

--Tu deves mas é aproveitar e ir até ao campo. Repara bem que êste

convite do Saavedra foi um rasgo positivamente imprevisto, raro,

excepcional... eu ainda não quero crêr. És um burro de sorte! Porque não

está nada isto no carácter argentino. São amáveis e hospitaleiros êstes

bons _porteños_, é certo... porêm morosos sempre e difíceis na

exteriorização do seu agrado.--Bateu-lhe no ombro com

entusiasmo:--Caíste-lhe em graça, não há duvida!

--Sei lá...

--E depois, êstes Saavedras são das poucas famílias autênticas de antiga

linhagem, que, com os Vicente Lopez, os Lastra, os Alvear ou os Acosta,

ainda aí figuram e manteem as nobres tradições do vélho tempo colonial.

São óptimas relações, já vês... e a melhor chave pr'a te franquear no

inverno o ingresso à bôa sociedade, como desejas.

Atingiam, em baixo, a rua; e então o Silveira com os lábios crêspos e

uma vaga onda lúbrica a empanar-lhe o esmalte dominador dos olhos,

aventurou docemente:

--Aquela prima...

--Aí está! P'ra mais, com o lascivo apetite da prima já a aquecer-te os

miolos... E mais, quem sabe? talvez que a ela lhe quadres. Marcha!

marcha, homem! Que mais queres?

O Silveira atirou-se de golpe, apreensivo, sonhador, para o fôfo recanto

do _taxi_ que haviam tomado, e enquanto faziam o caminho de Palermo,

poucas palavras trocou com o amigo. Ia alheadamente escrutando os

indecisos aspectos morais da sua situação. Repugnava-lhe aquela fria

subalternisação, aquele anonimato estéril do presente; vinham vagamente

acariciar-lhe a fantasia miragens promissoras do futuro.--A coisa afinal

estava bem clara: essa ideal Irene aparecia-lhe uma criatura

inabordável... a amizade desbordante dos Améglio não passava do verniz

caviloso duma descarada exploração. E dos mais... disse! Nem

conhecimentos, nem apetites. Que demónio fazia êle então com tal gente,

ali assim?... Seria perder o seu rico tempo. Pouco menos que um

achincalho. Soberanamente ridículo... Não era p'r'o seu feitio!--Assim,

quando os três, já noite feita, regressaram do Hipódromo, estava justo

que o Silveira acompanharia Jorge à _estancia Amália_. Belisário Ruiz

tambêm por lá devia aparecer. Lialmente, o Azeredo lamentava não poder

«fazer parte do rancho», e aplaudia-se de haver sido o espontâneo e

gostoso interventor daquelas duas abertas simpatias juvenís. E numa

efusiva e sincera mutuação de impressões, os três foram seguindo,

chalrando à compita, deblaterando anecdotas, concertando planos,

visionando fortunas, soprando projectos irisados dos cambiantes

esplendores da mocidade.

Passada porêm a avenida Santa Fé, o _auto_ teve que ralentar súbito a

marcha, e qualquer coisa de anormalmente pejorativo e tumultuário lhes

travou com fôrça a atenção.

É que na sua frente, agora, uma formidável e pesada barreira, uma

barricada estrepitosa e farfalhante, se fechava, de _tramways_, de

cavaleiros, ciclistas, coches e _autos_; de meios de condução de tôda a

casta, cada um vibrante e álerte na ância de adiantar-se aos demais, e o

seu arrastado travamento paralisando o trânsito, tomando de lés a lés a

rua tôda. Não era sómente a luzida afluência dos que de Palermo

regressavam, como êles; era algo mais que o grosso movimento

domingueiro, habitual da rua: era qualquer coisa de deliberadamente

chocarreiro, de impetuoso, de trocista, de hilare e audaz ao mesmo

tempo, cujo atropelado escoamento se fazia com dificuldade e de cuja

turbulenta acumulação expluiam risos, motejos, apupos, estraladas fulvas

de ridículo.

Quando, a poder de paciência e tempo, os três amigos conseguiram atingir

a praça Rodriguez Peña, tiveram por fim a noção clara da grotesca

realidade.--O amplo recinto estava tomado e abarbado literalmente pela

multidão, que, parada e compacta, desbordando a areia rubra das

alamedas, pendurada das árvores em cachos, posta em pinha sôbre as

tenras _pelouses_ machucadas, escutava e recolhia em êxtase a

torrentuosa eloqùência dos vários oradores fantochando de riba dos

bancos a sua mímica redentora.

Jorge avançou, impaciente, a cabeça, despediu o seu inquiritivo olhar ao

largo, e logo, retraíndo-se novamente e com mal contido desdêm:

--Negócio de eleições... logo vi. É um comício dos radicais.

Ao mesmo tempo, porêm, e fazendo o ruidoso circuìto da praça, uma

_queue_ por igual cerrada de veículos se lhe enrolava em tôrno,

atulhados por uma turbamulta de rapazolas que, chinfrineiros,

implicantes, chasqueando, assobiando, berrando, buscavam por meio dum

alarido infernal amesquinhar e abafar as iluminadas vozes cívicas dos

apóstolos do centro.

--Êstes são os socialistas,--tornou aclarando Jorge; e num crescente mau

humor:--O alargamento do sufrágio deu nisto!

De roda crescia tambêm naturalmente a onda dos _mirones_, atraídos pelo

inéditismo do espectáculo. Porque parecia uma esporádica prolongação do

Entrudo, formava o mais canalhesco e adorável dos contrastes, esta

palinódia colossal,--a solene gravidade e a impertérrita coragem dos

meetingueiros fieis, parados e atentos tomando em massa o vasto recinto,

com a algareira sublinha daquele rodeio impudente dos contrários,

afogando-os numa implacável cinta de arruaças, de burlonas apóstrofes,

vaias, chistes plebeus e guisalhadas de troca. E nenhum dos dois bravos

campos se dava por intimidado ou vencido, nenhum queria ceder. Nesta

inofensiva e gritada briga mantinham-se testarudamente rivais; os de

fora na sua truanesca assuada, os de dentro na sua caturra perseverança.

O Silveira e o Azeredo seguiam a scena sorridentes, num maligno regalo;

ao passo que Jorge, sem perder a sua linha de pretenso aristocrata,

enfastiado e severo:

--Parece um bando de _patoteros_! Súcia de _gringos_... A culpa é da

polícia.

Amor Crioulo vida argentina · 第 18 / 22 题