Com a atenção dispersa e a alma prendida nesta viva e inédita sucessão
de impressões, dos últimos dias, o Silveira esquecera fácilmente os seus
humildes vizinhos de bordo, e nunca mais a sua grata sensibilidade
estremecera no interrogativo anseio de conhecer bem na essência, de
palpar mais de perto, os sentimentos, opiniões, tristezas, projectos,
angústias, condições e desígnios daquela corda fruste dos seus
presumíveis correligionários, que ali assim seguiam, mesmo a seu lado,
promíscuamente esmagados, baralhados, baldeados, delidos no empilhamento
sórdido da desgraça. Agora, porêm, o vago amadornamento em que a
temperatura tropical como que ensopava as vontades, e as tranqùilas
solicitações que à batida brava dos vários jogos e diversões
naturalmente se seguiam, déram azo a que na alma dolente do Silveira a
imagem saùdosa da Pátria esfumadamente esvoaçasse, e, junto, a sacudisse
o comovido cuidado pela sorte daqueles tantos ignorados irmãos seus,
atirados, sabia Deus por que duros e encontrados azares, ao traiçoeiro
baloiço da Fortuna.
Por isso, numa linda manhã serena e cálida, logo a seguir ao _lunch_,
ei-lo que transpõe a portinhola gradeada do termo do seu corredor, e se
aventura curioso pela suja e triste coberta da prôa.--O mesmo mesquinho
e sórdido espectáculo de sempre. No seu passivo abandôno às ignotas
flutuações do destino, aquela caravana compacta de obscuros ilotas da
Dôr ia e vinha, anudava-se e distribuía-se em formações de acaso, era
como um grosso formigueiro humano, incansávelmente montando e sumindo-se
pelo negro óculo que dava ao porão, cavado a um canto, fundo e
insondável como um abismo.--Porêm a inesperada aparição do Silveira
causou ali geral estranheza. A descida dêste importante, dêste flamante
e feliz desconhecido, té as patentes e repulsivas angústias daquela
densa colónia eventual do infortúnio, fazia que as suas desprotegidas
camadas, dando-se um instintivo alarme, se repregassem,--uns por uma
vaga e hostil desconfiança, outros como que pelo pejo da própria
miséria. E o Silveira ia passando, ia seguindo compassadamente, manso e
afável, nos forçados torcicólos a que o obrigava o atravancamento
pelintra do recinto; ia cruzando os grupos, com o ouvido colhendo,
atento, os cortados trechos do diálogo, com o olhar mirando fito o
desenho e o arranjo das figuras; e, por sentir-se ali o alvo admirativo
das atenções, no íntimo contente. Até que, por fim, se acercou
familiarmente dum reduzido círculo de rudes gentes do campo, quáse todos
de pés nus, que se lhe afiguraram portugueses, pela linha, pelos trajes,
pela expressão, pelos gestos tacanhos, pelo olhar ingénuo. Eram
patrícios seus, com efeito. E êle então, protector, insinuante:--Que era
tambêm português e ia para Buenos-Aires. Muito estimava conhecê-los... E
àqueles que seguiam por igual para a Argentina, muito prazer teria em
vê-los e servi-los por lá...
--_Agardecido_, muito _agardecido_, senhor!--balbuciou, de lábios
confusos, um meio ancião vestido de saragoça, rapado e calvo,
descobrindo-se.
Dulcerosamente o Silveira completou:
--Em fazer-lhes todo o bem que possa.
--Ai, que palavras de anjo! que rico senhor!--exclamou, com a voz
molhada, uma trigueira e rude quarentona, de saia de fólhos, cabeção de
morim branco e uns pequeninos olhos doces, perdidos na aspereza da face
enrugada e curtida. E num cotovelão entusiasta ao companheiro:--Ouviste?
Êste arrastou meladamente, dobrado numa mesura e parando de rilhar uma
banana:
--Não faltará ocasião.
Procurando gradualmente insinuar-se, o Silveira tornou:
--Vêem então procurar fortuna?
--Se aquilo por lá está tam mau... senhor!
--Então?--o Silveira logo comentou, com um risinho perverso:--É o que
vocês ganharam com a rèpública.
--Eu cá nisso, senhor, não sei falar...
--Êle a coisa já lá vinha detrás...--aqui se permitiu arteiro observar,
adiantando-se um rapagão amplo e forte, de calça de bombasina, camisola
e grande chapéu cinzento, enquanto raspava um fósforo no quadril, para
acender o cachimbo.
O Silveira teve uma azêda, imperceptível contracção dos labios.
--Parece-te?
--Sim, que isto é com'o outro que diz...--retrucou, sempre no mesmo ar
intencional e altivo, o marmanjão.--Com rei ou com roque, nós cá, os
pobres, ficamos sempre com'o o carrapato na lama.
E aspirava voluptuosamente as primeiras fumaças do tabaco ardendo.
O Silveira, despeitado, manteve uns segundos de arreliativo silêncio;
mas logo, dominando-se:
--Bem! pois, repito, naquilo em que eu os possa servir... Interessam-me
todos muito. Já vêem que vim de propósito para conhecê-los.--E num
refinamento interesseiro da sua amável solicitude:--Qual de vocemecês é
o que canta tam bem o fado?
Houve de roda uma vibração unânime de envaidecimento alegre.
--O guitarrista? Ah, isso há-de ser ali assim o Matias _gingão_.
--Matias! ó Matias!
--_Adrega_ aqui, demónio!
Dirigiam-se a um pobre rapaz, delgado, pequenino e doente, que junto dum
outro grupo, de pernas cruzadas, no chão, estava vendo jogar as cartas;
e que ao ouvir que chamavam pelo seu nome com tam empenhada intimativa,
rolou moroso os olhos, primeiro, depois ergueu-se com dificuldade,
indeciso, e veio por fim avançando, a cabeça nua, arremangado, descalço,
derreado e inerte, preguiçosamente.
Acolheu-o o Silveira numa efusiva expansão de agrado, ameigando a voz,
erguendo os braços.
--Ora viva lá! meu caro Matias.
--Em bem o diga e bem lhe vá tambêm, senhor,--murmurou com humildade o
recêm-vindo.
--Algarvio?
--De Fornos de Algodres, fidalgo.
--E p'ra onde se dirige vocemecê? Argentina ou Brasil?
--Com sua licença, vou-me até à Argentina, senhor.
--Bem, muito bem! Palpita-me que ainda lá havemos de ser dois bons
amigos.--E ante o olhar oblíquo e a bôca de espanto do Matias,
batendo-lhe afável no ombro:--Eu queria felicitá-lo pela sua rica voz,
por aquelas tam lindas trovas... cantadas realmente com uma intenção,
com uma expressão, com um mimo e uma fé que querem dizer muito...
--Nada, senhor.
--Ora! não me diga você que as não escolhe, que não exprime nelas o seu
verdadeiro, o seu íntimo sentir...
Mas simplóriamente o Matias, de braços pendentes, como um môno,
encolhendo os ombros:
--Eu não sinto coisa nenhuma.
--Então, aquela _piada_ ao Afonso Costa, na outra noite?
--Sei lá! Aquilo é uma moda que anda lá na minha terra. Que seja essa ou
que seja outra, que minga faz?
O Silveira estremeceu e os olhos chisparam-lhe furiosos, num repelão de
contrariedade. Os demais sorriam.
--O quê!? pois, verdade, você não liga maior sentido aos versos? não é
contrário à rèpública?
--Ó fidalgo, é que a minha pobre guitarra está um chanfalho vélho, e eu
_mesmamente_ de políticas nada entendo...--E, estimulado pela olhada
atrevida que o homem do cachimbo lhe mandava, o Matias acentuou com
firmeza:--E é como está certo, sim! Que essa gente graúda, com o devido
respeito, faz tam pouco caso de nós, que ainda o menos que nós podemos
fazer é pagar-lhe na mesma moeda.
Desconcertado, nervoso, o Silveira mendigava de roda, com o olhar
imperioso e intranqùilo, uma simpatia, uma adesão, um qualquer
desmentido a estas descabidas e arreliantes afirmações, tam longe da sua
espectativa como fóra do seu desejo; e como fixasse com particular
insistência um aldeão alto, espadaúdo e sêco, logo êste, singelamente, o
destroçado chapéu de palha girando na concha das mãos calosas:
--Eu cá, meu senhor, a minha política é ver se alcanço a juntar uns
cobres com que possa depois viver tranqùilo no meu torrãosinho, mal'a
mulher e os filhos. E já que me não fui à África, malhar nos pretos,
resolvi deitar té ao Brasil, em cata da famosa árvore das patacas. O que
a sorte quiser...
--Quere então dizer que tambêm você se conforma com essa usurpação tôrpe
da rèpública?
--Se ela está, já agora deixá-la estar.
No íntimo vèxado por mais êste desengano, renitia entretanto o Silveira
na sua raivosa inquirição.--E você?... E tu?... E tu que dizes?--Todos
se fechavam porêm no seu invariável obstinamento humilde; e foi ainda o
mocetão do cachimbo quem pôs termo ao inquérito, sentenciando
implicativamente:
--Está muito bem! O que é que se ganha agora com mudanças?
E atirava, arrogante, o chapéu para a nuca, as narinas e os lábios
fumarando num regalo.
--Súcia de palermas!--não se pôde o Silveira conter que não exclamasse,
na insofrida explosão do seu despeito.--Por isso haveis de ser sempre os
eternamente explorados.--Deu de roda umas passadas curtas, arrepelou o
bigode, coçou a nuca; e depois, conciliadoramente:--Mas, em suma, não
vale zangar... Sou aqui vosso vizinho, e amigo, repito, apesar de
tudo.--Deu dinheiro ao Matias para uma guitarra nova; depois, num largo
gesto altaneiro, ao grupo:--Bem! adeus! Ainda vos hei-de fazer abrir os
olhos.
E desandou bruscamente, perante a indiferença burlona da assistência.
Daí a minutos, em cima, e amarfanhado numa das espêssas poltronas do
_Social Hall_, ruminava em desalento êste propagandista infeliz o
imprevisto e burlesco insucesso do seu inquérito, quando se lhe
dirigiram Euclides Pereira e o conde de Horrowby, que precisamente o
andavam buscando. Tinha que descer com êles à _peluqueria_, a escolherem
as prendas para os prémios ganhos nos diferentes jogos, e cuja
distribuìção solene estava marcada para antes do grande Concêrto final,
naquela noite. Era uma diversão a propósito, à quebrantada pressão do
seu desânimo. Não se fez rogar; e aí descem os três a internar-se na
_cabine_ inimaginável do barbeiro de bordo,--um cubículo acanhado e
abafadiço, batido àquela hora ardente pelo sol, com duas exíguas
lucarnas apenas sôbre o mar, e que alêm do mobiliário e utensílios
indispensáveis ao completo exercício da profissão, era todo riscado em
prateleiras, e oprimido, atravancado, estrangulado, povoado de lés a
lés, tomado de alto a baixo, por uma aluvião inverosímil de tôda a sorte
de pequenos artigos para negócio, desde as jóias, as mil luxuosas
bugigangas de perfumaria e _toilette_, até às peças mais comuns de
vestuário e adôrno, e um perfeito arsenal de brinquedos infantís. Havia
espaço para tudo, menos para o ar, neste pequeno recinto aplastador que
realizava um paradoxal desmentido à impenetrabilidade da matéria. Uma
temperatura de fogo e um arranjo de _casa de prego_.
A bonachona espôsa do conde chegou ao mesmo tempo. E logo o
mestre-barbeiro,--um francês ruivo e claro como um cacho da
Champagne,--a saltitar vivo e ligeiro em tôrno dela, pedindo indicações,
apontando, mostrando, trazendo coisas. A cada nova oferta, que o
meliante sabia alertemente encarecer, a bondadosa e imperturbável
senhora, sossegadamente, examinava rejeitava ou escolhia, e solicitava
gentilmente o parecer dos seus três colegas, que se limitavam a baixar
num assentimento cortês a cabeça. Então, logo o esperto _figaro_
apartava contente a mercadoria, anotava qualquer coisa no seu _carnet_ e
passava a impingir outro artigo. E assim monótona, infindável, secante
se foi prolongando a tarefa, êste duelo picante de aplicação ferido
entre a esperta indústria do barbeiro e a solicitude impávida da
condessa, insensível ao calor, refractária à impaciência. Não assim o
Silveira, que enjaulado naquela inacção e enervado pela temperatura
asfixiante, mudava de posição a cada momento, tressuava, sentia
tonturas, e ia buscar a incidência mais favorável do ventilador ou
abanava-se com duas ventarolas ao mesmo tempo, increpando-se íntimamente
por ter vindo. E neste abrasador suplício passou uma hora que lhe
pareceu um século.
Por fim, à noite, realizou-se no _Social Hall_ a solene distribuìção dos
prémios, rodeada dum cerimonial quáse diria litúrgico, atenta a
dignidade, a seriedade, a compostura, a _tenue_ escrupulosa e as
compenetradas atitudes por todos ali invariávelmente mantidas, desde as
primeiras às ultimas figuras. O mostruário faíscante das prendas
pompeava as suas gulosas tentações esparso em abundância sôbre uma
grande mesa, colgada de veludo-cereja, no tôpo do salão, sôbre um
estrado; à roda, exibia-se o grupo esfíngico dos membros do _Committee_,
de _frac_ e laço branco, e a condessa de Horrowby, em grande _toilette_,
sentados todos gravemente. Posto em pé o conde de Horrowby e feito um
grande silêncio, êle então, arqueando numa atenta _reverence_ o peitilho
reluzente, mordiscou por entre dentes _for the select assembly_ um
pequeno _speech_, quáse inaudível,--dobrado e pregado sempre no mesmo
ademân cortês, inexpressivo e imóvel, os braços longos e hirtos, de
punhos sôbre a mesa. A seguir, sentou-se, e simultâneamente, como que
impelidos pela mesma mola, erguiam-se a condessa e o capitão Stayton;
passando êste a chamar em voz alta os premiados, cada um dos quais, em
traje de cerimonia tambem, avançava, franqueava em respeito o
majestático recinto do estrado, colhia das palmoiras enormes da condessa
a bugiaria que lhe fôra destinada, e retirava mudo e feliz, num vago
atordoamento de prazer, ante as palmas convencionais e os _hurrahs_
complacentes da assistência.
Seguiu-se o concêrto, cujo programa houvera, em bôa verdade, um certo
embaraço para organizar. Não abundavam a bordo os _virtuosi_ nem os
amadores, tornando-se assim deveras árduo o problema de reùnir e
combinar alguns números mais, alêm do chirroteio mercenário da
orquestra. Prestou o Silveira na apertada emergência um assinalado
serviço, pois conseguiu o concurso difícil das meninas Wimeyer, que
condescenderam graciosamente em exibir-se, por uma atenção muito
especial para com êle, executando Dolores ao violino uma melodia de
Schumann, acompanhada ao piano pela irmã. Por isso lhes couberam a bem
dizer as honras da noite; assim como ao Alvarez, que recitou uma
desgrenhada elegia sentimental,--_Corações famintos_,--composta,
informava o Programa, expressamente para aquela noite; e tambêm a um
vélho inglês, todo branco, de olhar menineiro e afável, que se
distinguiu improvisando um humorístico monólogo todo obrigado a
contracções faciais, trocadilhos ingénuos e risíveis infantilidades, com
que os seus conacionais gozaram imensamente.
O _God save the King_, pela orquestra, e por tôda a sala, de pé,
escutado religiosamente, pôs o termo de rigor a esta escovada tertúlia
da noite.
E foi a última diversão do Programa de festas. No dia seguinte ia
começar o progressivo êxodo dos passageiros, atingida como seria então a
costa das primeiras terras do Brasil. Foi, primeiro, Pernambuco,--a
lucilante Veneza tropical,--luminosa e tranqùila emergindo, como uma
evocação de balada, da brava fúria impotente das ondas, incansavelmente
erguidas, roladas e desfeitas contra a ruiva muralha irredutível dos
seus recifes; e prolongada depois suavemente, para léste, por uma
fresca, macia e tenuíssima restinga de terra que pelo mar fóra se
estirava indefinidamente em ponta, como uma imensa piroga verde,
empenachada pela umbela grácil das palmeiras, salpicadas de chacaritas
brancas. Foi, trinta horas depois, a esbelta Baía,--o vélho empório
tradicional do tempo das lusas descobertas,--reclinada molemente sôbre
uma luxuriante alfombra de mato e flores, esmagada de tôrres, pletórica
de igrejas, e àquela hora matinal batida e incendiada em cheio pela
carícia gloriosa do sol nascente. Tôda a clara cidade assim palpitava,
fulgurava, ardia numa crepitação paroxísmica de côr que emprestava a
êsse quente deslumbramento panorâmico o mais antitético relêvo, na crua
passagem do verde espêsso e sombrio dos ásperos taludes, a seus pés
tendidos, para a policromía bárbara dos trajes da multidão formigando ao
longo dos cais e para as tintas berrantes saltando, ladeira acima, no
anfiteatro loução da casaria.
Dois dias depois,--justo em terça-feira gorda,--já devia o _Almeria_
lançar ferro na incomparável baía do Guanabara. Era um dos grandes
acontecimentos da viagem. Reganhára agora uma inquiritiva animação a
vida de bordo, onde todos mais ou menos expressivamente manifestam o seu
interêsse, todos aguardavam com vivacidade crescente o recorte feérico e
deslumbrante, na linha molhada do horizonte, dessa esplendorosa, dessa
surpreendente e colossal orquestração de luz, de côr, de exuberância e
de relêvo, que era Rio de Janeiro, a maravilha do mundo. Os nacionais
tinham um legítimo sentimento de vaidade, os estranhos nutriam uma não
menos legítima sofreguidão do inédito.
Entre os mais interessados e inquietos, era de notar a vibrante
impaciência do joven Mackenna. Porêm certo que não era própriamente a
antecipada visionação das pinturescas maravilhas do Rio que num alvorôço
idealista lhe sacudia os nervos de artista; uma outra oculta
determinante havia, mais prosaica, mais animal, a acender-lhe no olhar e
a fazer-lhe correr nos gestos esta sôfrega palpitação de todo o seu ser,
irrequieto e ávido. É que precisamente no Rio de Janeiro a formosa e
esquiva _M._^{me} d'Ellery ia desembarcar; iam os dois ali separar-se,
talvez para sempre, neste limite fatal posto ao seu ameno convívio; e
assim êle tinha forçosamente que precipitar a solução ao seu assédio
galante, nesse apertado prazo de dois dias. Com uma assiduidade, uma
persistência incansável, com um calor por vezes audaz, nos últimos
tempos o jactancioso galã fôra apertando gradualmente o seu amavioso
cêrco, e segundo as mais ostensivas indicações, com o melhor êxito;
porêm não obtivera ainda a rendição definitiva. Ao mesmo tempo,
acontecia que o seu feitio demonstrativo e pomposo fizera com que êste
singelo episódio de cortesanía banal désse bastante nas vistas. Havia um
pequeno grupo de besbelhoteiros trocistas que o espiavam; e os mais
íntimos a cada momento lhe disparavam chistes, o estimulavam com
depreciativas alusões, celebravam antecipadamente o seu fracasso,
assediavam-no de burlas molestas e sátiras importunas. Não havia pois um
minuto a perder. Na prova, ruidosa e fulminante, do seu triunfo estavam
igualmente empenhados a linha do seu amor-próprio e o fogo do seu
desejo.
Foi o motivo pelo qual, na noite dêste domingo, o Mackenna impôs um
implacável bloqueio sentimental aos domínios afectivos da francesa.
Havia no convés de bombordo o costumado baile semanal; e o meliante tôda
a noite dançou com ela, e nos intervalos levava-a ao _bar_, a beber, e
insinuava-lhe coisas cálidas e perversas, despedia-lhe frases
imperativas, aventurava proposições equívocas, a tudo o que a ladina
respondia com sorrisos que eram incitamentos, com evasivas que eram
provocações, com abandonos que eram capitulações, com estremecimentos
que eram promessas. Mas nada de lhe conceder a aquiescência nítida,
formal, a uma entrevista. Exasperado então, mas sempre optimista e
fátuo, o Mackenna deliberou recorrer ao assalto. Seria o supremo recurso
salvador. E filosofava convicto:--Serem tomadas à viva fôrça era, com
efeito, o melhor prazer para estas taboletas avariadas duma menos que
problemática virtude. Era o que aquela bêbeda queria... Era o mais
seguro caminho. Mas tomá-la de surprêsa, com êxito, como?... Naquele
meio acanhado e bulhento, sem a tácita anuência dela, era difícil. Só se
fôsse de manhã... O derrancado Sganarello levantava-se tarde; os seus
pêrros movimentos de tabético e a indolência filha do tédio retinham-no
de ordinário na _cabine_, até muito por êsse dia dentro; por êste lado
estava seguro. Se êle então, nessa propícia hora matutina, pudésse
surpreender Helena! mas surpreendê-la bem de-veras, apanhá-la de
improviso, em condições morais e materiais de não poder oferecer-lhe
maior resistência...--Inflamado, enardecido, espremia a inventiva,
planizava, rebuscava. E súbito, batendo na testa, com um relâmpago
genial na noite ardente dos grandes olhos negros:--Ah, aí está! No
banho...--Passou imediatamente ao _deck_ da sua imaginada vítima;
abordou com discreção o _steward_, cuja cumplicidade concluiu por obter
a trôco duma bôa gorgeta; e recolhendo depois à _cabine_, todo o resto
da noite levou embalado, aquecido na regalada antevisão do saboroso
triunfo que para êle seguramente ia marcar o delicioso alvorecer do dia
seguinte.
Na primeira manhã ei-lo logo a pé, lésto e pimpante, procedendo às
habituais abluções, fazendo uma _toilette_ minuciosa. Depois,
mansamente, deixou a _cabine_ e escoou-se para o corredor, tendo vestido
um garrido _pijama_ todo em borlas, alamares e viézes de sêda, a cabeça
nua e a perfumada melena ondeando. Sem perda de tempo estava em cima, no
_deck_ de Helena, e aventurava-se afoito ao recinto dos banhos
destinados ás senhoras. Aí trocou um breve e furtivo olhar com o
_steward_, que lhe fez um sinal afirmativo de cabeça; avançou ágil uns
passos, relanceou em tôrno os olhos cautos, e tendo-se certificado de
que ninguêm passava cêrca, arpoou o botão duma determinada porta com os
dedos trémulos, entreabriu-a... e ia entrar de salto, quando de dentro
estrugiu um grito de pavor, um argênteo e agudo grito feminino, ao passo
que de dentro tambêm, acudia súbita e inesperadamente, ante a mirada
atónita do Mackenna, o sobrecenho grave e a mão rosada do Mafiori, a
cerrar a porta.
Foi a bordo um pequenino escândalo. Apesar da sua relativa presteza e
moderado ruído, esta scena picante não passou de todo despercebida. Ao
partir para a sua _donjuanêsca_ investida, não se deu conta o Mackenna
de que dois dos seus alegres espias, atraídos por não sei que
divinatório instinto, o foram seguindo. E êstes, naturalmente, da
esquina do exíguo corredor, mal assomando as cabeças, haviam saboreado o
burlesco fracasso da desastrada aventura; ao tempo que, simultâneamente,
das portas dos banhos contíguos alguns interrogativos bustos surdiam
tambêm, ao aflitivo alarme daquele agudo brado feminino. Nem uns nem
outros alcançaram contudo divisar a ponderada silhueta do Mafiori,
dentro da _cabine_,--o que teria sido para a sua curiosidade doentia o
cúmulo do regalo. Mas haviam visto o bastante para a nítida compreensão
do sucedido. De sorte que, daí a minutos, já a notícia do truanesco
sucesso havia feito o giro alegre de bordo, com fulminante rapidez
solicitada ávidamente, de grupo para grupo, e logo passada e acolhida em
acres segredinhos, vivas chamadas e perversas reticências. E de bôca em
bôca, êste singelo episódio ia tomando vulto, agrandava, complicava-se;
por último, já afiançavam a vingadora intervenção do marido, falava-se
em vias de facto. Daqui, uma notoriedade bem pouco invejável para o
desabusado Mackenna, que arrastava agora pelos recantos mais escusos a
sua vaidade amarfanhada, como um sátiro batido, e já não sabia por fim
onde meter-se, certo como era que por tôda a parte um malicioso
interêsse acolhia a sua aparição, logo farto sublinhada de bisbisoteios
de risos, facécias e burletas. As mulheres olhavam-no com piedade
indulgente, os homens com humilhante mordacidade, não isenta de inveja.
E agora a leve e adoidada _Pilarita_, mais do que ninguêm intrigada e
impaciente, querendo à fina fôrça saber _lo que pasara_, batia os
pésitos e golpeava com os punhos a pequena mesa onde abancava o Alvarez,
o qual se mantinha impenetrável, enquanto zombeteiro e veloz anotava o
episódio nos seus inseparáveis linguados, desorbitado em trejeitos
loucos.
Nesta divertida manhã, à hora do almôço, nem _M._^{me} d'Ellery baixou
ao comedor, nem o Mackenna. Entretanto à mesa dêste, o picaresco assalto
matinal foi o têma obrigado da conversa, apreciado com jocosa vivacidade
por todos, à excepção do Mafiori, que se manteve mudo, bonachão e
plácido como nunca, nos intervalos de comer fazendo bolinhas de pão e
mirando desvanecido as unhas.
Pouco tempo depois, em cima, e de pé contra um ângulo da amurada,
reùniam-se em íntimo grupo o Silveira e o Contreras, com o tenente
Euclides e mais dois amigos. Aí veio naturalmente à balha o
caso-Mackenna.
--_Picarón!_--comentou ruidosamente o Contreras, desmanchado em grossas
gargalhadas.
O brasileirito, vendo o magno acontecimento pelo seu cândido prisma de
noivo, fulminava-o com sincera indignação, taxando de «imperdoável
desafôro» um desacato assim, àquela hora do dia.
--Eu acho imensa graça... É cá dos meus!--acudiu, tolerante, o Silveira,
esfregando as mãos de contente.
O conde Améglio, que chegára justo ao tempo de recolher as homílias
ingénuas do brasileiro, rugiu então ameaçadoramente.
--Havia de ser comigo.
Todos se voltaram, a encará-lo com fixidez espectante. E êle, num
sobrecênho de arrogante desdêm:
--Conheço de sobra os processos e os ardís dêsses pulhastras.
--Ó conde...--murmurou baixinho o Contreras, mirando cauteloso de roda e
puxando-lhe do braço.
Améglio porêm, de olhar duro, alteando a voz, minaz e insensível ao
aviso:
--Mas conheço-lhes tambêm a grande cobardia essencial. Sei que êsses
bandalhões não são fortes senão diante de saias.
--Ah, sim?...--interveio o Silveira, picado de interêsse,
adiantando-se.--Ó conde, amigo conde, se não é indiscreção, conte-nos
lá...
--Bem simples! Tenho mulher, sabem... Pois nunca hesitei um momento em
lavar com sangue, no campo da honra, tentativas de ultraje semelhantes.
Era agora o Contreras que pávidamente, apurando o ouvido, se acercava;
ao passo que o Silveira, positivamente desconcertado por esta súbita
revelação, no conde, de inimaginados brios, inquiria, em dúvida:
--Algum duelo?
--Cinco. Nada menos de cinco.
--De morte?
--Não! nunca chegamos a tanto...--aclarou o conde com moderada
importância; e num assômo quixotesco, arredando as bandas do jaquetão e
enfiando os polegares nos sovacos:--Mas a todos tive a sorte de aplicar
o merecido castigo.
O tenente Euclides voltou-se discretamente, a dissimular um risinho
incrédulo. O Contreras afastou-se, manso e humilde, coçando compenetrado
a cabeça. De sua banda, o Silveira rejubilava. Êle desconhecia o conde
neste seu intempestivo disfarce cavalheiresco e brigão; aquelas teatrais
bravatas de espadachim pareciam-lhe uma contrafacção absurda, não as
tomava a sério, não cria nelas.--Minotauro travestido de Othelo, podia
lá ser!--E contudo a pundonorosa explosão do conde estimulava-o. Ante a
ameaça cocegante de perigo, um lume de reacção viril lhe afogueou o
rosto ardente, e o seu carácter amorudo e ribaldo espertava, vibrava de
belicosos ímpetos, latía de energias novas.--Agora sim! é que êle ia
afervorar nos seus pérfidos galanteios junto da irlandesa. Até à
provocação! até ao escândalo!--A ver se conseguia fornecer ao marido o
pretexto para mais um lance de honra que lhe permitisse, porêm desta vez
com sorte adversa, contar a meia dúzia.
A chegada ao Rio de Janeiro realizou-se infelizmente de noite. Um pouco
de marejada e o vento contrário haviam ralentado a marcha do _Almeria_,
que assim, quando lançou ferro, da formosíssima capital brasileira
apenas deixava entrever vagas formas de relêvo, manchando, amplas e
azúis, a imensa téla diáfana da sua claridade deslumbrante. Muita gente
desembarcava aqui; de sorte que, já horas antes, eram algo de
inabordável as imediações do portaló, onde se acotovelavam e prensavam
duramente, numa gerarquia bárbara, as famílias impacientes por chegar; e
onde, tambêm, sôbre improvisadas alfombras de lona, se amontoavam, num
grosso empilhamento inverosímil, fardos, malas, caixotes e baús de tôda
a espécie, mantas, chapéus, paráguas, papagaios, cachorros, saguís,
cêstos de flores e cabazes com fruta. Por tôda a parte havia câmbios
cerimoniosos de cartões de visita, ou efusivos apertos de mão, amáveis
oferecimentos, beijos, abraços, risos, tristezas, miradas saùdosas,
lágrimas furtivas. Mas aos felizes que tocavam então o termo da viagem,
havia que agregar ainda os que se propunham desembarcar como simples
turistas, para verem alguma coisa, para gozarem, movendo-se um pouco,
estas quantas horas de paragem benéfica do vapor ali; e sobretudo,
sentindo-se dominados pela ardente baforada de loucura que lhes vinha de
terra, para irem ali passar uma bôa noite _de garufa_.
Apesar de bastante instado para baixar tambêm, o Silveira resolveu
ficar. O tenente Euclides oferecera-se amavelmente a ser-lhe companhia e
guia na cidade, mas por aquela noite sómente;--êle bem devia
compreender,--a noiva esperava-o com ansiedade, e tinha que seguir no
primeiro trem para S. Paulo, logo na manhã seguinte. Por igual os
Wymeyer, tímidamente sondados, redarguiram, com mal contido desdêm, «que
não desciam... que para quem, como êles, vinha da Europa, não valia a
pena». Para mais, a colónia inglesa de bordo, ponderando muito
sensatamente o horror de bérrata, confusão e desordem que devia ser,
para um recêm-chegado, aquela noite de Entrudo, no Rio, resolvera, em
vez de desembarcar, fretar antes um vaporsito onde passasse
despreocupada e íntimamente, ela só, algumas horas, bordejando a baía,
fazendo o suave e demorado contôrno daquela fantástica decoração,
vogando plácidamente ao voluptuoso embalo daquele mar de sonho. Era uma
idéa deliciosa. _Miss_ Nora Scott convidára o Silveira para a
encantadora excursão. Os Améglio iam tambêm.--Que mais queria êle?...
Para ver o Rio tinha o dia seguinte.--Resolveu, pois, ficar; e, depois
de jantar, sem fazer maior caso da estrepitosa festa carnavalesca que a
criadagem de bordo organizára na ponte da 2.^a classe, tomou ao portaló
e desceu ligeiro ao vaporsito, cuja silhueta coqueta se desenhava em
baixo, convidativa e luzente, no regaço manso das águas trepidando,
fumarando, bailando alegremente. Daí a minutos, punha-se em marcha, e
sobre o seu minúsculo convés, escassamente alumiado, foi difícil nos
primeiros momentos a identificação das figuras. A infeliz Nora Scott foi
a primeira a fazer-se reconhecer pelo Silveira, abordando-o e
abandonando-se-lhe com carinhos, incendida como ela vinha nos seus
propósitos firmes de seducção, provocante, amorável, tôda tules e
rendas. Porêm, ao primeiro pretexto decente, o Silveira afastou-se; e
pronto aí estava êle já ao lado da sua apetecida irlandesa, trepados,
muito amigos e compadres, os dois à mesma clara-bóia que dava luz às
câmaras interiores, à falta de mais cómodo assento. O conde mantinha-se
longe e a velatura crepuscular do ambiente era o mais discreto cúmplice,
agora, a esta doce e inefável aproximação, sem testemunhas e sem
peias.--O ar estava tépido, tranqùilo e na sua morna quietação o crespo
afago da brisa passava como a carícia dum leque de plumas. De roda, pelo
caprichoso e largo desdobramento da cidade, as avenidas e os cais da
beira-mar, iluminados profusamente, eram um colar faíscante de pedraria
e oiro, riscavam rútilas e esplendorosas curvas. E não tinha fim, não
tinha limite esta invasão delirante da claridade. As suas imensas linhas
de fogo sinuosavam, penetravam-se, contrapunham-se, prolongavam-se,
cortavam-se, profusas, ondeantes, e por fim seguiam sôltamente ao largo,
pontilhando a vaga opacidade da tréva, densas, vivas e espertas sempre,
embora grado a grado amortecidas e apequenando, na distância. Se o vapor
se aproximava da terra, junto com os jorros da luz branca, que davam uma
nítida visão fragmentária das coisas, vinha então o grosso éco da
foliona febre da multidão, em lufadas alucinantes.--_Mrs._ Edith e o
Silveira seguiam muito amigos e unidos, sentados sempre a par,--e
isolados no seu mútuo embevecimento, alheios ao tempo e ao logar, a
favor da parcimoniosa luz postos a seguro de vistas importunas,--gozavam
juntos, mudamente, a infinita delícia daquela hora incomparável,
admiravam enleados, pela borda sinuosa dos cais, aquela parada inflamada
e ardente, essa corda, êsse rosário interminável de sóis, mais rubros,
mais claros e mais firmes que os sóis do alto... esplendente barra de
oiro cravada no dôrso glauco do mar por alfinetes de prata, aguada
mágica de luz esparsa, no insondável mistério da noite subindo e
indefinidamente alastrando, diluindo-se, esbatendo-se, perdendo-se, a
dançar anamórfica pelo espaço.
A certa altura da noite começaram as libações. O estalar das primeiras
rôlhas de cerveja e de _champagne_ foi o apetecido sinal para o fácil
repúdio das fórmulas coercivas da etiqueta. Gradualmente agora iam sendo
postas de banda as peias, as convenções banais da cortesia, para
deixarem um pouco de campo ao exercício livre do instinto. Muitas das
senhoras então soltavam os _voiles_ ou deslaçavam as blusas, afogueadas;
os homens arremangavam-se. Num progressivo calor, e numa contagiosa e
audaz alacridade, dentro de cada grupo os movimentos, os gestos
abastardavam-se, e subia o diapasão delirante das saùdações e dos
_hurrahs_. Veio mais tarde o momento em que, por uma adaptação
condizente ao epicúreo abandôno desta hora libertina, alguns deixavam-se
resvalar das suas _cadeiras_ e tamboretes para as tábuas rasas do
convés, onde se quedavam molemente estirados, numa beatitude inerte, a
cabeça pesada oscilando, o dorso contra a amurada. O Conde Améglio,
esquecido da mulher e dando ao démo os seus brios postiços, divagava de
grupo para grupo, abundante e palreiro, feliz, o olhar empanado e a taça
vazia na ponta dos braços froixos, cambaleando. Havia uma única nota de
excepção, um absurdo protesto passional, em todo este côro vibrante de
alegria; era a longa figura trági-cómica da desgrenhada Nora, hirta e de
pé, amparada ao mastro de pôpa, mirando com decisão o mar, num pendor
teatral ao suicídio... Ao passo que não muito longe, o Silveira e a
irlandesa, cada vez mais cingidos, trocavam, amorosos, as taças, afim de
penetrarem-se mútuamente os segredos, e êle, não podendo, em linguagem
compreensível para a sua amada, expressar tôda a veemência do fogo que
lhe abrasava a alma, substituia com vantagem o calor sugestivo da frase
pela eloqùência muda dos contactos.
Na manhã seguinte, sim, deu-se pressa o Silveira em demandar a terra. E
ao avançar, curioso, os primeiros passos pelo liso empedrado do cais
Pharoux, sentia-se bem, o coração dilatava-se-lhe, estimulado e contente
ao reconhecer-se num ambiente amigo. Tudo ali, com efeito, lhe avivava
impressões flagrantes, lhe evocava de Portugal a lembrança próxima e
querida, tudo,--desde a analogia cantante da linguagem aos traços e
ademanes conhecidos das figuras, desde o tipo sóbrio e maciço das
construções à brita miúda e ao desenho do mosaico dos passeios. Tomou um
automóvel e mandou bater ao acaso, num giro de reconhecimento rápido às
mais celebradas coisas da cidade. O _chauffeur_ era português, tomou
familiarmente assento ao lado dêle. A bôa disposição do ânimo fazia-o
mais acessível, o simpatismo sugerente do meio tornára-o jovial, aquecia
em frémitos de fraterna expansão a sua sensibilidade agradecida. Por
isso, a cada momento, naquela vertiginosa abalada, o feliz viajante ia
cortando os esclarecimentos fugazes do condutor por admirativas
exclamações e brados entusiastas, quando não descia a indagações mais
íntimas, inquirindo com afectuoso interêsse o _chauffeur_ na sua
filiação, antecedentes e condições morais e materiais de vida.--«Se
viera para a América havia muito tempo? Se estava contente? se tinha
valido a pena?»
--Alguma coisa se faz, meu amo...--contestou afável, num risinho
esperto, o interpelado.
--E muita família lá em Portugal?
--Mulher e três filhos. Quanta _mosca_ posso forrar, p'ra lá vai
inteirinha.
--E saùdades da pátria, não tem?
--Que pátria, senhor?...--acudiu com amarga resignação o _chauffeur_,
olhando de espaço o Silveira.--A gente, em vindo p'r'aqui assim, não
temos mais pátria. Por cá chamam-nos _galegos_; se volvemos a Portugal,
somos _brasileiros_.
E encolheu os hombros com tristeza. Assim mano a mano chalrando,
indagando e informando, mutuando fugazes impressões, colhendo notas
inéditas, percorreram os dois o amplo coleamento áureo-verde da avenida
Beira-mar, visitaram Botafogo, fizeram o rodeio dêsse retalho
paradisíaco que são as praias do Leme, Copacabana e Ipanema,
internaram-se pelo delicioso dédalo de sombras, palacetes, _parterres_ e
jardins do bairro das Laranjeiras, deitaram ainda ao Jardim Botânico, e
foram por fim almoçar ao morro de Santa Teresa. Larga e formosíssima
jornada. O Silveira estava encantado, aturdia-o a cálida vitalidade do
ambiente, sentia-se bêbedo de magnificência, de luz, de côr, de
movimento e de ruído. Feria-lhe com agrado a atenção o escrupuloso aceio
das ruas, a variegada tinta das construções, o abundante luxo decorativo
das árvores e das flores, e, por uma estranha anomalía dêste scenário
mole de prazer, o tom sempre atarefado, o côrso afadigado e ligeiro da
multidão, palpitando, tumultuando, fervendo numerosa e incessante, como
uma grossa onda de renovação a correr, generosa e fecunda, por essa
densa rêde de artérias da abundância e da fortuna. Bem mais porêm que a
obra magnífica do homem o impressionou o esplêndido vigor da
Natureza,--as colossais dimensões e o atormentado aspecto dessa grande
paìsagem eruptiva tôda em bruscas oposições e em arrancadas titânicas;
prodigiosa armadura cujo torso arfante, rompida, aqui, ali, a sua
espêssa crôsta verde, fôra atirado vertiginosamente a prumo, formando
atrevidos minaretes naturais donde se abrangiam panoramas maravilhosos;
estonteadora ronda de montanhas fechando zelosamente na concha dos seus
flancos viridentes, como entre mãos de gigantes um brinquedo, o
formigueiro policromo e frágil da casaria. Mas era demasiado grandioso e
solene. Perante a melindrosa sensibilidade de europeu, do Silveira,
tanta soma de majestade raiava já pela tristeza; sobrelevando à sua
extática admiração por tam desconcertante e caprichosa exuberância,
havia o que quere que fôsse de vagamente constritivo e grave, que o
esmagava, que lhe pesava na alma, como um fatídico prenúncio de
desgraça. Porque êle não encontrava aqui, nesta luz crua, nestes
mamelões adustos, a vegetação suave e amiga, as delicadas e múltiplas
nuanças, o brando afago, as acariciadoras sombras do torrão bemdito que
lhe embalára a infância. Aqui, na sua fechada monotonia, a sombria capa
verde do sólo áspero e convulso tinha um não sei quê de opressivo, de
hostil, de trágico; na impenetrável noite do seu mato torcido e hirsuto
pressentia-se tôda a sorte de quimeras ruins, de reptís, de feras, de
monstros, espiando-nos. Era um Éden traiçoeiro... inadaptável
seguramente à poesia dos contos de fadas, à simplicidade ingénua das
bucólicas tangidas melancólicamente, na grave e dulcerosa paz dos
campos, pelos contemplativos pastores da sua terra.
Horas depois, à noite, e quando outra vez a bordo, o temperamento
vibrátil do Silveira ardia por expandir-se, debatia-se no vivo empenho
de transmitir impressões aos companheiros. Os Améglio acolheram-no com
frieza, fortemente ressentida como estava _Mrs._ Edith por não haver ido
com êles. Ramón Alvarez, envernizado e rubro como um tomate, tambêm
pouco o atendeu:--«não estava de acôrdo, ia morrendo assado... tinha
achado uma estopada!»--Voltando-se para o Mackenna, êste não o deixava
falar, porque, no seu fátuo egoísmo, tudo era por sua vez encarecer-lhe
os surpreendentes _motivos_ que esquissára para um soberbo quadro
simbolista.--Havia de ver!--Valeu-lhe por fim a sua grande amiga
espiritual, a loura e tímida Irene, que com amável complacência o
escutou longamente.
No dia seguinte tocavam em Santos; e enquanto o Silveira se debruçava
atento sôbre o aparatoso e sólido desdobramento e o tráfego colossal do
pôrto,--bem comparável ao de Liverpool, lhe haviam dito, e via que com
razão,--aí de acercar-se-lhe o pai Wimeyer, que, sempre no antegôsto
falaz do seu tam almejado inquérito gramatical, todo o oportuno ensejo
aproveitava para lisonjeá-lo. E com familiaridade cativante, numa
erudição muito a propósito:--que êle, como bom português, devia
sentir-se orgulhoso e contente, ali... vendo, e pisando podia dizer-se,
terra da celebrada baía, pitoresca e tranqùila, onde, quatro séculos
antes, aproára a primeira expedição enviada de Portugal para colonizar o
Brasil; e que era ali a outrora ilha de _Enguáguassú_, sabia bem...
assim como foi dali que partiu breve para o interior, nesse tempo,
trepando e transpondo épicamente a abrupta Serra do Mar, a expedição que
havia de fundar a legendária _Piratininga_,--a encantadora S. Paulo de
hoje.--Confundido por esta exótica demonstração de tanto saber, o
Silveira aplaudia, num risinho envaidecido; e quanto à embaraçosa
iniciação dessa prometida sabatina gramatical, o aterrado argùente ia
engenhosamente iludindo--que já agora, por poucos dias, seria melhor,
com outro descanço... em Buenos-Aires.
Bastantes passageiros mais desembarcaram aqui; gradas figuras da finança
e da indústria, ricos fazendeiros do interior, caixeiros-viajantes,
mulheres de prazer, artífices, obreiros, peões, representantes de
empresas estrangeiras. Assim, aquele reduzido mundo que o berço
reluzente do _Almeria_ sôbre as águas baloiçava alegremente, ia em
repetidas golfadas rareando; e ali dentro a vida fechára-se em pequenos
círculos de discreta intimidade, cada vez mais singela, mais suave, mais
familiar, à medida como o termo da viagem se acercava.
Amiudavam-se agora e edulcoravam-se, naturalmente, aqueles almos e
fraternais colóquios de Irene com o Silveira,--o que não era para êste,
aliás, empresa fácil, apetecido alvo como êle se sentia, a cada momento,
do _contrôle_ implacável de _Mrs._ Edith, ávida por igual da sua
presença e ciosa do seu convívio. Ele porêm sabia, sempre que isso lhe
convinha, desembaraçar-se dela, invocando déstramente os seus
compromissos gramaticais para com o pai Wimeyer; depois, uma vez junto
dêste, difícil lhe não era tambêm deixá-lo, na improvisada simulação de
qualquer solícita _démarche_ junto da filha; por fim, quando, de longe,
a querençosa mirada de _Mrs._ Edith lhe significava a impossibilidade
formal de manter-se mais tempo, sem escândalo, junto da linda argentina,
êle aí expressava pezaroso, perante esta, o seu inadiável dever de
cumprir para com os Améglio uma qualquer obrigação de cortesia, e partia
imediatamente. E assim neste divertido círculo vicioso de inofensivas
invenções ia salvando com arte as dificuldades e preenchendo
saborosamente as horas. O certo era que a doce freqùentação espiritual
de Irene fornecia ao Silveira uma derivante deliciosa cada vez mais
dominadora e mais atraente, aos desafíos sensuais da irlandesa. Não raro
passavam agora horas seguidas sós os dois, já caminhando mui camaradas,
par a par, a fazer uma e muitas vezes o giro completo do convés,
discorrendo com interêsse juvenil sôbre coisas de nada, ligeiros,
felizes, a frase sôlta e leve no ar cortante; já imobilizando-se sôbre
um ponto ao acaso da amurada e aí, sonhadores e mansos, balbuciando a
sua mútua emoção em termos vagos, imprecisos, como a dança incoerente
dessas fugazes _libélulas_ do mar, os peixes-voadores, que êles viam em
baixo mergulhando e saltando atoadamente na imensidade azul das ondas. E
momentos havia em que o espírito subtil de Irene, ao calor desta casta
intimidade, se alava em sublimados conceitos, desatava-se em coisas
transcendentes, soltava palavras raras e profundas. Uma que outra vez
sucedia o temperamento másculo do Silveira aquecer e inflamar em
arroubados ímpetos a sua alma enamorada... Porêm então, invariavelmente,
a cada discreto ensaio de galanteio, a alma timorata e nobre de Irene
fechava-se como em março um botão de rosa; se êle permitia, com um pouco
mais de vivacidade, ao coração pronunciar-se, ela acolhia-se a um
mutismo impenetrável, não perdia o ensejo de levemente lhe fazer sentir
quanto a trivialidade mesquinha do amor à hora era insofrível para a sua
sensibilidade e ofensiva para o seu orgulho.--Queria ver nêle um amigo,
nunca um adulador.--Contrito e humilde, o Silveira resignava-se... e a
figura melindrosa e isenta de Irene aparecia-lhe então como um dêstes
tipos de virtude sólida e doce que nos reconciliam com a existência e
nos fazem tomar em respeito a vida.
Em breves dias, uma linda manhã veio em que, no balanceio perpétuo do
mar, a translucidez movediça das águas agora engrossava,--embaciava-se,
parecia coberta por uma bostelosa máscara de lama. Eram as infinitas
aluviões terrunhosas do Plata, cuja foz incomensurável, avassaladora e
ampla como um mar, a prôa arrogante do vapor atingia neste momento. Já
por estibordo se descortinava a airosa silhueta do _Cêrro de
Montevideo_.--Um outro nome bem português...--voltava a observar-lhe o
pai Wimeyer com amável solicitude.--Corrupção de _monte vi eu_, não era
assim?... Perpetuava a primasia na descoberta e acusava sintáxicamente
uma linda transposição, como tantas havia na formosa língua de Camões.
Tinham muito que conversar...--E batia-lhe no ombro afávelmente. Mas o
Silveira mal o ouvia. Neste feliz momento, os seus brios patrióticos
empolgavam-no, sobrelevando aos quiméricos terrores pela ameaça das
doutas interrogações do pedagogo. O coração dilatava-se-lhe envaidecido,
porque êle notava como durante a sua viagem, no decurso de todo êste
largo roteiro abarcando dois hemisférios, desde a largada inicial das
bôcas de luz e oiro, do Tejo, té à embocadura brumosa e intérmina do
Plata, êle viera medindo, reconhecendo, verificando, palpando sempre,
ininterrompido e eterno, o traço, a marca indelével dêsse temerário
arranque das descobertas... viera seguindo as aladas fugas do sonhador
espírito português, tivera a prova constante do seu génio marítimo
afirmada e selada épicamente, cruzára o imperecível sulco aventureiro do
seu caminho de glória.--Que outro povo podia vangloriar-se dum prodígio
igual?...--Perante esta íntima evidência, sacudia a cabeça com arreganho
e atirava uma depreciativa mirada de desdêm a essa humanidade inferior
que o rodeava... a êle, senhor do Universo.
Passada a encantadora capital uruguaia, não restavam agora ao _Almeria_
mais que oito escassas horas de viagem. Todos tinham pressa de chegar e
afanosos seguravam o tempo, compondo, cerrando as malas, dando
instruções aos _stewards_, buscando e preparando a continuìdade das
relações ocasionalmente entaboladas.--Os Wimeyer ofereceram ao Silveira
a sua casa de Buenos-Aires, _calle_ Paraguay. O Mafiori a todos
anunciava bem alto que ia hospedar-se no _Plaza-Hotel_. Mas os mais,
pelo geral,--como o Mackenna e o Alvarez,--não sabiam; iam confiados ao
acaso ou haviam-se entregado ao solícito critério dalgum amigo. Os
mesmos Améglio não haviam tambêm escolhido domicílio. Assim, para
poderem depois vir a saber uns dos outros, concertaram reùnir-se ou
enviar o seu _adresse_ ao _Café da Paris_, na noite seguinte. E ainda,
da suja promiscuìdade da 3.^a classe, não deixou de vir humildemente o
Matias, na companhia confortante de mais dois patrícios, a demandarem
interesseiros o Silveira, confiados na sua espontânea promessa de
protecção, para lhe pedirem numa lacrimosa lamúria que não os olvidasse,
e desejando saber onde haviam de procurá-lo.
A cada momento, espontâneos, vivazes, por entre a atramochada barafunda
das bagagens, formavam-se grupos e travavam-se furtivos diálogos,
palpitando da inquieta indecisão daquele instante. Mas diálogos eram
êstes que na sua impaciência mordente, no seu vôo fantasista, em vez de
aproximarem os interlocutores, distanciavam-nos. Cada um íntimamente se
perguntava--que sorte iria ser a sua?... Aquelas quentes e efusivas
palavras ninguêm as apreciava maiormente, ninguêm lhes dava inteira
atenção, porque elas mesmas logo em cada um dêsses insatisfeitos
espíritos sugeriam e despertavam, para alêm do seu significado real,
outros planos, idéas, desejos, ambições e projectos que os levavam para
muito longe... Porque é assim neste vertiginoso e dissolvente
aturdimento que nós vivemos hoje a vida. Ninguêm se instala nela com
permanência,--nem nas casas que alugamos agora, já com o antecipado
desígnio de as largar àmanhã, nem nas dedutivas evidências da nossa
razão, nem na voz instintiva da nossa consciência, nas nossas paixões,
apetites, ódios, amores, interêsses. Nada para nós é hoje santo, grande,
estável, firme, definitivo. Mudamos com uma rapidez assustadora e uma
lamentável inconsciência, de ocupação, de família, de ideal, de
carácter. Nada há duradoiro. A febril obsessão de «edificar o futuro»
furta-nos ao gôzo tranqùilo e salutar da hora presente. A glória duma
invenção feliz, o lucrativo êxito dum negócio, o aplauso por uma obra
benemérita,--que foram o produto de longo e persistente labor, as mais
das vezes,--contudo, apenas conseguidos e já não nos satisfazem, não nos
arrebatam, não nos empolgam; raro a compensadora embriaguez do seu
triunfo nos senhoreia por completo a alma. Devora-nos o apetite
inquietante, e sem repouso, de novos riscos, lances, emoções, aventuras
novas. O torvelinho trágico da vida desliza e corre sôbre nós sem nos
penetrar, como a água pelas penas dos cisnes. A nossa existência
atropelada e incerta tem a _allure_ constante duma carreira, é um _film_
alucinativo e ardente, cuja precipitada mímica nem nos abonda à vontade,
nem nos cumula o desejo. É uma hiperbólica e vertiginosa curva sem
termo, cujos ramos ideais mergulham no Infinito. Assim, andamos
incessantemente aos cotovelões à felicidade, sem saber vê-la, sem a
apreciar, sem a sentir. Ao cabo, morremos sem haver vivido.
...Quando, seguramente, a base mais sólida, mais coerente e mais lógica
para a plena posse do futuro, seria, à maneira antiga, organizarmos o
presente com serenidade, tratarmos com esmerado carinho as fugitivas
delícias de cada hora que passa, apreciarmos, em suma, e penetrarmo-nos
bem do valor intrínseco de cada dia,--como se o mundo fôsse a acabar
nessa mesma noite.
V
Buenos-Aires, finalmente! O _Almeria_ agora avançava à cautela,
flanqueando devagar as sucessivas bóias distribuidas, como um rosário de
lumes, ao longo do estreito canal que dragagens contínuas mantinham
aberto, cavando um sinuoso sulco de lôdo na chata pastosidade daquele
estuário imenso. Anoitecia. O céu conservava-se nublado, mas calmo, e
nessa infinita tela _gris_ o carvoamento confuso das linhas da costa
adquiria transparência, tinha um encanto singular, banhava-o uma poética
e vaga suavidade. Na bruma indecisa da noite já o Silveira podia
descortinar, convidativa, avançando e crescendo do boleado mistério do
horizonte, uma linha caprichosa de farolitos e de mastaréus, primeiro;
depois uma complicada e imensa teia flutuante, a mais inextricável
maranha de tôda a sorte de embarcações, trechos de docas, atributos
náuticos, pontes-levadiças, guindastes, galpões, bandeiras; a seguir, a
linha quebrada e geométrica, o viveiro apoplético das _azoteas_, das
tôrres, das cúpulas; das agulhas, terraços, chaminés e cornijas
rendilhadas, marcando por uma extensão sem limites, no seu pululamento
proteiforme, o contôrno manso da cidade; e logo, já nítidos, já no
primeiro plano, os alinhados globos eléctricos, a calçada _embadornada_
e os pantagruélicos armazéns marginais da terra firme. Aí a tinha agora,
a célebre, a grande cidade de trabalho e de esperança, de pensamento e
de acção, de labuta e de prazer, de maravilha e de sonho. A Terra da
Promissão actual, o _Eldorado_ mais em voga, o símbolo da abundância
paroxísmica, do homem próspero na terra magnânima! A metrópole ideal da
magnificência e da fortuna, da opulência e da belêza! Emfim...
Buenos-Aires!
O ar, pesado e espêsso, impedia a visão clara, e era como se todo o
espaço se houvesse diluido numa obliteradora meia-tinta, numa suja
mucilagem que delia os contornos e comia o brilho às coisas; contudo,
tanto quanto podia adivinhar-se das condições de desarolo e vida daquela
planura intérmina, o âmbito dêste pôrto modelar era enorme e colossal o
seu movimento. Um enxame, um delírio. Crescia grosso para o alto um como
que resfolegar de opressão, a afirmação potente, a rebeldia sujeita de
fortes energias represas, dessa floresta de chaminés fumarando, dêsse
empilhamento marítimo de monstros de tôdas as idades, de máquinas de
tôdas as formas, dimensões, feitios, côres, que latejavam e arfavam com
veemência, ora premindo-se, ora evitando-se, em risco de se
entrechocarem e que a limosa torrente do Plata no seu gigantesco dorso
embalava brincando, docemente, por uma extensão sem termo e sem medida.
Pela carcassa formidável dêste báratro de enormidades os homens,
iluminados de escape, lidavam como formigas. Saltavam choques brunidos
de metais do alto bôjo flamante dos grandes transatlânticos, havia roces
de cremalheiras, roldanas, cordagens, quedas surdas de fardos, vozes
agudas de comando, tangiam as sinetas de bordo, as sereias apitavam; na
gorda pacificação do ar, saturado de maresia, sentia-se, a quando e
quando, um chapinar de remos, batendo claro no intervalo dalgum trinado
lamento de guitarra; e no fundo humilde de alcatroadas barcaças
fumegavam, a um lume discreto, caldeiradas apetitosas. E agora já, com o
avanço lento e crescente do paquete, aquele primeiro esfumado e negro
bosquejo da cidade povoava-se, tomava volume, aclarava, definia-se a
cada momento; aqui, alêm, bisbilhoteiras luzitas saltavam, riscando
arruamentos, desvendando interiores, trémulas e brancas como estrêlas;
ou eram os grandes rèclames luminosos que no seu relampaguear
interesseiro chispavam súbito, como borboletas de fogo, estremando
planos, talhando duras silhuetas na sombra e em manchas fortes como
_gouaches_ lambendo os panos do muro; esbatidamente. E agora tambêm, a
favor da molhada ressonância que lhe emprestava a proximidade das águas,
vinham acariciar o ouvido atento do Silveira as sonoras trepidações da
vida urbana,--o _tlim_ nervoso dos tranvias, o lento arrasto das
carroças, o pregão dos vendedores de diários, o buzinar dos automóveis,
o trapejar das oficinas.
Atracado ao cais o _Almeria_, e enquanto a marinhagem ajustava a
_passerelle_ para o desembarque, João da Silveira buscava com afã em
baixo, na multidão apinhoada cêrca, sob a _marquise_ monstro da aduana,
a figura pequenina e viva do seu amigo Pedro Azeredo.--Um convicto
monárquico tambêm, igualmente fidalgo, da linhagem seis vezes secular
dos Azeredos, senhores de Penamacôr e redondezas, alferes de cavalaria
ao tempo da revolução, e que naturalmente, incompatível com o salafrário
regímen da Rèpública, seis meses havia que viera para a Argentina, com
licença ilimitada.--Lá estava êle,--via-o agora!--plantado bem na
frente, mesmo na orla do cais, e correndo a amurada com a mão em pala
sôbre os olhos, ao alto erguidos. Soltaram um simultâneo brado de
cordealidade alegre, ao reconhecerem-se; e o Silveira, tam pronto como
pôde, desceu, rompendo em cunha a atropelada impaciência da grossa onda
cosmopolita que jorrava de bordo. Um quente abraço, no cais, de efusiva
ternura; logo o Silveira confia do corretor do hotel e tediosa revisão e
entrega da bagagem; e breva saltam os dois para um automóvel, que, à
indicação dada pelo Azeredo, partiu roncando.
--Então, como vais tu?...--rompeu êste, num claro riso, saltando e
sacudindo a espalda ao amigo com a mão em leque, todo voltado para o
recêm-vindo.
--E tu, meu alma do diabo?--acudiu vivaz o Silveira, fitando, confiado,
o companheiro e premindo-lhe afável os joelhos.
--Menos mal, meu vélho. Ganha-se _plata_. Hei-de-te contar...--E com
desdenhosa arrogância, atirando o palhinha para a nuca:--Bem melhor do
que lá nessa pepineira de rèpública.
Mas o Silveira, que não cessava de mirar a um e outro lado,
interessadamente:
--Parece-me uma grande cidade, esta?
--_Como no!_
--E bela, caramba!
--Grande, grande...--corrigiu com sentencioso ademan o
Azeredo.--Sobretudo grande. Quanto a beleza, _hay que distinguir_.
Com efeito, o Silveira achava tendido sôbre aquela vastidão sem termo um
como que mortiço pano de melancolia... Escasso movimento e pouca luz.
Seria por motivo talvez do enfado da viagem, mas parecia-lhe aquilo
triste.
O automóvel deixára a larga avenida marginal e subia agora uma pequena
rampa, empedrada a paralelipípedos, sulcada de _rails_ e tomada a todo
um lado por um maciço casarão banal, atijolado e de balcões em arcaria,
de comesinho aspecto colonial, sem vôo, sem majestade.
O Azeredo aclarou:
--Aqui tens a chamada Casa do Govêrno... _La Casa Rosada_. Residência do
Presidente e instalação de vários ministérios.
--Não vale o nosso Terreiro do Paço,--com impertinente fatuìdade o
Silveira anotou.
--Foi feito noutra época, noutras condições. Não se comparam.
Seguia-se uma grande praça rectangular, definida pelas cimalhas
caprichosas de imponentes palácios barôcos, e num dos extremos,
longitudinalmente cortando-se, à direita, uma colunata helénica de
templo.
--Ali é a Catedral, vês?--ciceronava entretanto o Azeredo.--Logo ao
lado, a Municipalidade. Aqui à ilharga o _Banco de la Nación_, a Bôlsa.
Tens pois aqui assim, logo por entrada, o coração, o índice político do
país, o centro burocrático da cidade.
O vasto recinto, tirante as ruas periféricas, estava quase totalmente
tomado por uma caótica profusão de materiais em osso, via-se coberto por
um pejamento heteroclito e informe de linhas abstrusas, bárbaras, de
coisas duras, cortantes, agressivas, sujas,--montes de saibro, caliça,
areia, pilhas de beton, caixas de latão, barricas, vagonetes, vigas de
ferro, cabrestantes, escadotes, carretas, arames em puas hostis,
barracas de taipa, casotas de zinco, pastas de lama. E desta hirsuta
barricada, ao centro, sôbre esta aluvião industrial monstruosa, de
destroços de ruína e de tesas projecções suspensas, uma ingénua
figurita, espécie de Palas, no vértice duma pirâmide de _confiture_,
débil e só no espaço, assomava com tristeza.
--Tôda esta confusão é por causa das obras do ferrocarril
subterrâneo,--tornou o Azeredo, solícito.--Como o _Metro_ de Paris... Ou
melhor! muito melhor! Ah, indubitávelmente é um grande melhoramento.--E
enquanto o automóvel rodava à esquerda, passada a Catedral:--Eu queria
levar-te pela Avenida de Maio, a principal artéria da cidade; mas creio
que não será possível.
--Tambêm anda em obras?
--Tambêm... em parte. Mas não é por isso. É que estava defeso, e muito
bem, estender hoje o _côrso_ por aqui; mas, a despeito da proìbição
municipal, a multidão agora à noite conseguiu invadir a Avenida e todo o
campo é pouco para ela. Não ouves?...
Pelo ar gordo e parado montava e alastrava um grosso resbunar pagão, o
relincho orgíaco da multidão em febre, avassalando, acanalhando o
espaço, tomando e prostituindo tôdas as direcções, sobrepujando e
sujando todos os ruídos. Havia um vago clamor sobrenadante, assobios,
gritos, risadas, fanfúrrias desafinadas, canções estúrdias, e a espaços
buzinava áspero pelo ar o trilo irritante das cornamusas de barro. Era a
despedida foliona do Carnaval, retida com ardor, prolongada com delírio.
Eram os últimos arrancos da bruta bambocha anual em que a essa fera
travestida, que é o homem, se permite desdobrar à sôlta as suas
inclinações e regressar à sua origem. Naquela noite dionisíaca, a
pressão cálida do ambiente era engrossada pela onda impúdica dos
desejos. Adivinhava-se a vulgaridade, a brutalidade, a volúpia sórdida,
a fúria erótica, os grotescos desmandos do instinto plebeu, nesse
asfixiante turbilhão animal, brigando, rugindo e tressuando. Como se por
completo se houvessem delido tôda a luminosidade, todo o espiritual
enlêvo, todo o fino ar, tôda a aristocrática leveza da magnífica cidade,
paresiada neste momento por um espasmo vêsgo de loucura.
Na raíz mesmo da Avenida, ao fundo da praça, o automóvel teve que parar.
Dois polícias a cavalo davam-se a pêrros para regular aquela desordem e
facultar o trânsito aos veículos, positivamente bloqueados, na frente,
pelo marulho compacto da multidão, nos flancos, pelo aprumo bisarmal dos
prédios. Num ligeiro estremecimento de contrariedade, disse o Azeredo
para o _chauffeur_:
--Bem, tome aí por Rivadavia e veja se pode dar a volta por Cerrito.
Apeâmo-nos em seguida.--E, com ar enfastiado, para o amigo:--Aqui, o
entrudo é o que tu vês: é uma coisa antipática, vulgar, uma festa do
populacho.
Depois, quando o automóvel, desandando lentamente, conseguiu retomar
caminho:
--Mas que mania foi essa de hotel?
--É o mais prático, meu filho.
--Bem: se chegasses aqui só, absolutamente sem conhecimentos, de acôrdo.
Mas tendo-me a mim... Instalavas-te na minha pensão. Eu até falei à dona
da casa... Estarias mais cómodo e mais barato. Como em família.
--São essas familiaridades que eu detesto, que eu temo,--objectou num
instintivo horror o Silveira.
--Tonto! Ao contrário, é delicioso...--insistiu o Azeredo; e, saltando
sempre, com o seu riso escarninho:--Há lá um matrimónio sério,
provincianos _burgêssos_, que convidam tôda a gente a jogar o quino.
Quando não há _plata_ p'ra gastar fora, compreendes, é excelente... Há
mais duas francesas, muito reinadias, que tem a excentricidade de não
receber visitas senão meia-noite passada. Há uma professora de _tango_,
um estudantito de medicina, um caixeiro da _Ciudad de Londres_ ... e
então uma _gaja_ chilena, menino!--aqui o Azeredo sublinhava o seu
entusiasmo, mirando em alvo, com requebros lúbricos,--uma viúva,
_morenucha_, gordota, com uns olhos assassinos que trespassam a gente!
--Atiras-te?
--Ela parece-me amável, isso é... Tem um filho que é um _pibe_
insuportável... Outro dia, com uma seta, de papel, ia-me vasando um
ôlho. Ah, mas pelas celestiais delícias que se adivinham na mãe,
aturam-se bem as diabruras do filho.
Prudencialmente, ao cabo duma pausa, João da Silveira mascou:
--Bem, tudo isso eu acho detestável... Quero estar independente, livre,
absoluto senhor meu, entendes?--E como fazendo um exame de
consciência:--Não que às vezes, sem querer, prendemo-nos, e é uma maçada
depois para sacudir essas seresmas.
--Ora!--com um desdêm superior objectou o Azeredo.--A gente
defende-se...--E voltando a insistir:--Vê lá, meu vélho, se preferes,
anda. Ainda estás a tempo.
--Não, não... Prometo ir, mas de visita.
Uns minutos depois, junto a uma esquina, apeavam-se; e o Azeredo deixava
o seu amigo no _Cecil Hotel_, onde lhe tomára alojamento. E, ao
despedir-se:--que no dia seguinte não poderia vir logo de manhã, porque
tinha o escritório; mas pela tarde, ás 4, viria buscá-lo para darem uma
volta por Palermo e _fazer_ em seguida a _calle_ Florida.
--Vê lá não te constranjas...
--Qual! Se é o que eu faço habitualmente. É o _chic_...--E com o ôlho
ladino:--_Noblesse oblige_.
--Bem, está direito. Depois jantas comigo.
Na manhã seguinte, o Silveira que dormira como um bispo, levantou-se bem
cedo, banhou-se com deliciada pausa, e enquanto esperava o _desayuno_,
foi abrir os dois largos batentes da porta do seu quarto, rasgada em
balcão sôbre a rua. Era no último andar do hotel, a uma altura onde
chegavam já mortiças num adormecimento lânguido as pulsações fortes do
exterior.--Ele queria ver a cidade com ar de dia, no seu fresco aspecto
matinal, no brio potente da sua vitalidade, erecta e liberta emfim das
vagas figurações da sombra, daquele pesadelo de animalidade e desordem,
da passada noite.--Saíu ao ar livre e avançou o busto com avidez, a
mirar a extensa, a plena toalha de movimento, de vida e de luz que lhe
oferecia, em baixo, o traço imponente da Avenida de Maio. Era um golpe
de vista bem digno duma grande metrópole, não havia dúvida, essa formosa
e ampla linha correndo dum jacto, inflexívelmente, limpa e direita, da
pirâmide rudimentar da Praça de Maio à esbelta cúpula monumental do
Palácio do Congresso. E esbeltos eram por igual os opulentos prédios
marginais, caprichosos, brincados de formas, atirados com arrogância
para o espaço: Traziam-lhe reminiscências de Paris na sua _patine_
cinzenta e monótona, nos seus rendados balcões floridos: e de Paris eram
tambêm a atmosfera velada, o asfalto luzidío, o ar discreto, as filas de
mesitas redondas acaparadas sob os tôldos dos _cafés_ e _restaurants_, a
entestarem, numa disciplina idílica perfeita, com os renques de plátanos
muito escovados, tosquiados com simetria e alinhados marcialmente ao
longo dos passeios.
Contudo, abrangida daquela altura, a magnificente artéria resultava
estreita em relação com o vôo possante, com as maciças dimensões da
casaria; das franças das árvores, dos postes telefónicos, dos colunelos
da luz eléctrica, de tôdas as arestas, de todos os ângulos, de tôdas as
curvas e ressaltos daquela floresta arquitectónica, restos ignóbeis de
serpentinas pendiam esfarrapados, tremulando ao vento; e aqui tambêm, a
intervalos, tomando por vezes a extensão de quarteirões inteiros,
voltava o Silveira a ver com desgôsto o mesmo pejamento industrial com
que, durante o seu breve percurso, esbarrára na véspera,--havia trechos
largos de calçada esventrados de lés a lés, fundidos em abismos de
tréva, rasgados e cavados em boqueirões hiantes, como chagas, que
geométricas vedações de zinco ondulado debruavam, polvilhadas de
purulências de cisco, escoradas por eczemas de barro, e de cujo negro
ventre revôlto subia incessante um bater ciclópico de picaretas e
ferragens, na mais irritante dissonância com a gritada fúria dos
pregões, o compassado chouto das tipóias, todo êsse marulho vago das
ruas. Pelo ladrilho pardo dos amplos passeios marginais farandunava uma
peonagem atarefada e compacta, de tôdas as origens, de tôdas as idades,
feitios, tamanhos, côres,--o mostruário ofegante do universo, o resíduo
aventureiro de tôdas as raças, sôbre cujo movediço plasma, salvando a
onda banal dos jaquetões e dos chapéus de palha, se afirmavam, aqui e
ali, exóticamente, figuritas nervosas e amarelas de _nipons_, o tudesco
sólido e arrogante, _képis_, turbantes, chimarras, _ponchos_; grupos de
homens espadaúdos e arremangados, de avental, a cabeça de boina e o
grosso artelho nu sob o farto _calcetin branco_; tipos refeitos de
mulheres de aspecto arisco, o rosto acobreado e extático, a saia muito
farta tecida em tons berrantes, e descido o cabelo esfíngicamente, à
frente das orelhas, em duas tranças negras. Correndo a parte central da
Avenida que se mantinha viável, pelas suas porções livres, uma dupla
fila de côches e automóveis subia, e outra descia, infindáveis,
incessantes, sem claros e sem trégua, aglomerados e suspensos por vezes,
em nódos de embaraço, ao cruzarem as ruas transversais, donde
perpendicularmente golfavam a jôrro mais automóveis, mais côches, mais
ciclistas, mais cavaleiros, mais pregões, tôda a ordem de obstáculos, na
sua invasão resfolegante engrossados ainda pelo pesado tropear das
galeras, dos _camions_, das carroças e tranvias. E desta forte
trepidação material e espêsso escoamento, o fluxo e refluxo
interminável, era regulado, às esquinas, numa sorte de automatismo
consciente, pelo bastão vigilante dos polícias.
O comedor do hotel era na _planta baja_, furtado às vistas do público
por brancas e discretas _brise-bise_, mas invadido em cheio pelo marulho
atroador da rua. Tudo isto estimulava mais e mais a espertinada atenção
do Silveira, que, apenas findou de almoçar, subiu a tomar a bengala, o
chapéu e as luvas; e num momento aí o temos no pequeno vestíbulo outra
vez esperando que o porteiro lhe tomasse um _taxi_, onde a asa pitoresca
do movimento lhe acalmasse a actividade e lhe désse pasto ao interêsse.
Não tinha fim determinado. Queria ir dar uma volta de aventura, ao
acaso, puramente ao arbítrio do _chauffeur_ e ao sabor do imprevisto.
Mesmo que outra coisa podia êle querer, por agora, não conhecendo nada
da cidade?... Apenas recomendou à silhueta automática do condutor, que,
de mãos ao leme, sem olhar aguardava indiferente,--que não queria estar
a parar constantemente... e então que fôsse por onde houvesse menos
confusão, menos movimento.
O vélho _auto_ partiu logo, tomando a oeste, e pronto desembocou numa
praça amplíssima, desbordante de luz, num aceio irrepreensível as suas
largas avenidas de asfalto reluzente, e orlada apenas, como que
provisóriamente, de casitas abarracadas e construções mesquinhas, na
cimalha _tape à l'oeil_ duma das quais, espécie de mercenário
frontespício de instalação de feira, mugia a toada populacheira e aldeã
dum realejo. A todo o fundo, desdobrava-se e crescia majestoso para o
alto, no seu deslumbramento marmóreo, o Palácio monumental do Congresso,
vaidoso e lindo no estadeamento olímpico das suas colunatas, nos seus
astragalos e florões clássicos, nos seus génios de bronze, nos seus
grupos alegóricos, na linha puríssima e alada da sua cúpula sem par,
traçando suavemente, na mansa tela lilás do céu, uma grande parábola de
arrogância e de sonho. Entretanto, e apesar da nobre e empolgante linha
geral do seu conjunto, esta mole colossal, erguida ali, não suportava a
vastidão da perspectiva, sentia-se esmagada pela imensidade absorvente
do recinto. E êste aparecia-nos tambêm inexoravelmente tomado pela mesma
grossa e incómoda farfalha industrial que, parecia, aqui avassalava
tudo; por tôda a sorte de vedações, de máquinas, de materiais, de
esboços de construção e montes de escórias. Uma como que subversão de
terremoto se produzira, ao centro, protuberado horrivelmente de pequenos
Atlas de ferro e aço, de Himalaias de cascabulho, de Jungfraus de lama.
Apenas, neste estrangulamento de sórdidas durezas, algum triste e
anémico trecho do relvado, mais resistente, conseguia oferecer ainda uma
acariciadora mancha de frescura; e num dêsses perdidos oásis de plácida
harmonia debuxava-se, solitário e nostálgico, o bronze do atlético
_Penseur_, de Rodin, na sua acefalía paradoxal, na sua absurda
corpulência. O mesmo edifício do Congresso, que o Silveira deixára agora
à sua esquerda, estava por concluir, com o poderoso flanco sem epiderme,
amparado em andaimes, esperando o revestimento para as arestas
descarnadas e o tijolo ennegrecido.
Internou-se a seguir o automóvel por uma rua espaçosa e clara, espécie
de _boulevard_, no seu arranjo cuidado e simétrico, na sua dupla fiada
de árvores, no delírio policromo das taboletas, nas artísticas
vidreiras, na sua vida sussurrante. Alongava-se a perder de vista, e na
sua orla barulhenta as _étalages_ comerciais e os tôldos dos
_restaurants_ sucediam-se e disputavam primazias em alternâncias
coruscantes. No letreiro duma esquina, de corrida, o Silveira conseguiu
lêr--_Rivadavia_; e então recordou que esta era talvez a principal
artéria _porteña_, e decerto a mais extensa, a de maior tradição, como
que a coluna vertebral da cidade. Depois, fortuìtamente e a intervalos,
consoante o giro caprichoso do veículo, o Silveira deu-se conta de
passar por uma rua Andes, cruzar aí com um grande edifício pesado e
austero, meio hospital, meio academia; a seguir outros arruamentos,
quáse iguais, todos com lacónicas designações,--Córdoba, Triunvirato,
Santa-Fé, Las Heras, Montevideo... por fim já nem tomava tento por onde
ia e abandonava-se, alheadamente, à incerteza voluptuosa do
desconhecido. Mas eram sempre as mesmas ruas infindáveis, riscadas a
cordel, invariávelmente chatas e implacávelmente direitas. Em vão se
buscava neste taboleiro de xadrez colossal, a adoçar-lhe a hirta algidez
sem termo, o desafôgo verde e livre dum _square_, o perfume sorridente
dum jardim, um refúgio amigo de sombra, a carícia duma curva, o
boleamento duma colina. De onde a onde, algumas tacanhas _plazuelas_ se
riscavam, é certo, porêm submetidas por igual à mesma implacável
esquadria, como que incrustadas na massa barrenta dos prédios, e na sua
tímida penumbra alimentando uma flora de claustro, recolhida e triste. E
por tôda a parte tambêm, mais ou menos, o mesmo pejamento de coisas
tôscas e informes, o mesmo prurido desconcertante de renovação: ou era a
calçada, esburacada em longos trechos e o trânsito impossibilitado pela
aglomeração impertinente de paralelipípedos, em monte, de tubagens em
linha, de rolos de cabos, de maçaricos, paz, alviões, lanternas; ou eram
os primeiros ensaios de _rascacielos_, com seu rodapé de tapumes
lambusados de cartazes irritantes e aprumando hirsutos no vácuo os seus
esqueletos de tijolo e de ferro.--Uma cidade colhida em gestação
flagrante, sacudida num estremeção apoplético de vida, onde tudo estava
por fazer, onde nada se concluíra ainda. No seu subsolo esfarrapado e
arfante, sob a sua carapaça movediça e áspera como o dôrso dum monstro
antediluviano, bravejava uma caudal fremente de energias, reacionava no
mistério a química formidável dos interesses e a impetuosidade brutal
dos instintos. Nada quieto, nada seguro, nada inerte. Havia um eterno
ponto de interrogação suspenso sôbre o seu arranjo definitivo, não se
atinava com o termo a esta sua cavalgada frenética na conquista
delirante do progresso e da fortuna.
Em contraste aberto com os populosos aglomerados das grandes capitais
europeias, aqui em Buenos-Aires as casas, de frente angosta e
profundamente esticadas, não tinham, pelo geral, mais que o andar
térreo. A lisura convidativa da _pampa_, deserta e sem obstáculos,
incitava a esta expansão libérrima, o que explica que Buenos-Aires
abranja hoje uma área superior à de Londres. Alêm disso, como o valor da
terra nas zonas de vida mais intensa sóbe vertiginosamente, por isso
tambêm, na economia do seu lógico desdobramento, as sucessivas
construções tendem a irradiar para a perifería, como os tentáculos dum
aracnídeo colossal, neste seu denso rastejamento sem freio e sem medida.
À proporção que se distanceiam do centro, as edificações apequenam-se,
rustificam-se, vão gradualmente despindo o carácter urbano,
solidarizam-se, confundem-se com a terra, e a sua construção é mais e
mais simples, até descerem às combinações rudimentares do tijolo, da
taipa e do adôbe. E não é fácil fixar o limite a êste encurralamento
galopante para o Infinito.
O Silveira considerava com particular interêsse a fisionomia, tôda
peculiar, das construções principais,--essas altas bisarmas que rompiam
desamparadamente, aprumadas e esguias, do rasteiro cordão habitual da
casaria, e que assim desdobravam no espaço livremente os seus flancos,
não impenetravelmente murados, ao modo de Lisboa, como tumbas, porêm
abertos e entremostrando a trechos a sua estrutura intestina, no
escalonamento paralelo dos vários andares sobrepostos, e, em cada andar,
na sucessão linear dos compartimentos, cujas portadas se entreviam
superando, muito alinhadas, a aresta do parapeito discreto dos
_pasillos_. Tambêm lhe chamou a atenção o decorativo luxo exterior, o
rebuscado adôrno das fachadas. E êste vicio era geral; nos palácios mais
opulentos como nas vivendas mais comesinhas, prevalecia e ressaltava
inalterável uma indumenta excessiva da _pâtisserie_ italiana; em todos
havia, um gongorismo de ornatos desbordante, uma ânsia eruptiva de
contornos, um espolinhamento doido de torcicólos barôcos, de emblemas,
de florões, de amorinhos, cariátides e quimeras. As paredes mais
modestas não dispensavam alguma máscara de fauno ou uma lira entre
malmequeres e rosas; mas eram sempre capas e capas de redundâncias
sobrepostas, era um atropelado derroche de cimentos e argamassas que
retinham a luz, que arranhavam o gôsto e varriam tôda a sobriedade e
pureza de linhas. Não havia arquitectura, mas apenas _albañilería_.
Contudo, esta pesada obsessão do relêvo era vantajosamente resgatada
pela nobre linha geral das construções, elançadas sempre e escalando a
altura com brio, num soberbo arranque de abastança e de fôrça. As
janelas não prescindiam, em geral, do confortável resguardo das
persianas, de madeira ou de ferro, e adiantavam-se em amplos balcões
rendados, muitos dêles picados garridamente de floritas rubras e com
finas enrediças verdes colgando. Mas nem uma vaga silhueta de mulher
neles vinha debruçar-se, ninguêm se via às janelas, cujas persianas
impertinentes, inexoráveis, se mantinham, de alto a baixo,
herméticamente cerradas. E as portas, estreitas, igualmente
impenetráveis, sentinelas fieis da felicidade e do amor... Impossível
surpreender a mais fugidía nuança da vida interior destas esquivas
bocetas, furtadas tam melindrosamente ao róce brutal do mundo. Isto
dava-lhes um tom singular, um ar recatado e discreto, o que quere que
fôsse de aristocrático e isento, contrastando afinadoramente com o
grosso industrialismo plebeu que lhes marulhava em tôrno. E um outro
mundo se adivinhava, com efeito, tecendo o seu manso ambiente inefável
adentro dêstes misteriosos ninhos da paz e da virtude. Como se o
carácter argentino, carinhoso, manso e precavido, cavasse um deliberado
abismo de meticulosa defesa entre a rude guerra aberta dos negócios e a
macieza impenetrável do seu ninho! Como se a feição e o cálculo, numa
trégua prudente do seu antagonismo, o levassem a lançar uma barreira
irredutível entre as doçuras plácidas do _home_ e os atrictos
desgarradores do interêsse, entre o coração e a banca, entre o lar e a
rua! Cá fóra um balcão, ali dentro um altar.--Seria assim?...--A verdade
era que, com tôda a sua pacotilha ornamental, o seu aspecto provisório e
o seu precário arranjo, a grande cidade voltava agora a oferecer e como
que confirmava, ante a sensibilidade esperta do recêm-vindo, o mesmo
inédito e especial encanto, a mesma poética e vaga suavidade daquele
esquissado carvoamento das suas primeiras linhas na calma téla _gris_ do
céu, na passada noite... Um não sei quê de atraente e aprazível, de
afávelmente acolhedor, de harmonioso, de limpo, de fidalgo, que êle, um
hóspede de horas, não sabia ainda se atribuir à claridade essencial das
almas, se ao respiro salutar das coisas.
E sentia-se bem, afinal. Tendo voltado ao hotel, e agora reclinado
molemente numa poltrona modesta do seu quarto, o desabusado morgado de
Mosteirô repassava mentalmente o seu expatriamento voluntário e iludia o
tempo numa saborida evocação retrospectiva de gratas lembranças, de
projectos, de sonhos, de scenas vividas, de prazeres, de desejos
suspensos. Primeiro a Pátria; mas o intervalo ainda curto do seu
distanciamento e o torvelinho de ineditismos ofuscantes que, desde a
partida, o vinham assediando, não permitiam que o vinco nostálgico por
enquanto se afirmasse na vibratilidade demasiado inquieta da sua alma;
depois, aqueles tantos dias de bordo, essa deliciosa bambocha de
pequeninas audácias, desilusões, surprêsas, _flirts_, intrigas, tédios e
ridículos de raiva que era brisas e de gozos que eram espuma,
correra-lhe um pano de olvído sôbre o passado; entre o que êle fôra, e o
que era, haviam marcado uma eternidade e cavado um infinito.--De
Portugal, agora, queria lá saber!--Apenas recordava, num desdêm
superior,--que aquilo lá devia ser uma maçada, com os _carbonários_ a
ditarem a lei, os conventos feitos quarteis, os novos sem religião, os
vélhos sem garantias, e uma mania de escolas por tôda a parte, tudo
muito malcriado e ninguêm conhecido. A seguir, recordou vagamente os
dois irmãos.--O que fariam êles?...--Ainda o mais vélho, o José,
advogadote rábula e manhoso, saberia tirar proveito dos conflitos
jurídicos que, com a Rèpública, eram agora bastos como os cogumelos
depois da chuva; mas o Bernardo, o mais moço, um pateta feito agrónomo à
fôrça de empenhos, um _come-santos_ sempre metido por _lausperenes_ e
romarias, como se aguentaria, agora que o Afonso déra com os santos em
terra?...--Ora! não fôsse _tanso_.--Por fim, ao evocar a visagem chorona
e os ademanes trágicos da noiva quando lêsse a sua carta de despedida, o
lábio varonil ergueu-se-lhe num leve sorriso, entre comiserativo e
trocista, e os olhos fátuos, erguidos ao teto, semicerraram-se, a seguir
a indecisa imagem da pobre Laurita, que em espiralamentos caricaturaes
êle via subir, envôlta na fumarada ténue do charuto, seguida pela ronda
desolada e grotesca da família.
O derivativo patusco da viagem, isso sim... tinha sido bom a valer!--E
já de repente voltava a dançar-lhe, efémera e jovial, pela retina tôda a
divertida sucessão de episódios que durante êsses deliciosos vinte dias
haviam marcado um dos capítulos mais saborosos e interessantes da sua
vida. De tudo um pouco êle havia logrado provar nesses adoráveis
_instantâneos_ breves, e fugazes como _fogos-fátuos_, feitos de
saltantes contradições e antíteses súbitas. De tudo,--desde os trágicos
pavores da tempestade té aos desmanes hilares do ridículo.--Que rico
tipo aquele pedinchão Contreras, com as suas intrujonas promessas e os
seus apetites decorativos... e a cabeça e as piugas do Alvarez, as
fanfarronadas postiças do conde, as doutas madurezas do Wimeyer... o
Mackenna com a sua pomposa inépcia, o Mafiori com a sua astúcia mansa.
E, das mulheres, quanto não valia essa esnalgada e insípida Nora, a
querer teimosamente enredá-lo na tentação paradoxal dos decotes... e que
apetite de formas, que rico amor, a irlandesa... e a formosura alada, o
requintado espírito, a indecifrável isenção de Irene! Esta, sim, que
dava que pensar...--Por uma natural associação de idéas, o Silveira
conjugou mentalmente a púdica absténção, o carácter retraído e tímido da
linda argentina, com o ar recatado e discreto que êle de passagem
surpreendera, por igual, na fisionomia atraente da cidade. E todo êste
ambiente embocetado e austero, longe de o acobardar, estimulava-o, era
um desafio picante ao seu génio enamorado e volteiro, acendia-lhe os
brios varonís em tonadas ardentes de desejo. Na segura antevisão dos
mais belos triunfos, dilatava guloso as pálpebras, movia numa
pregustação sensual os lábios gordos.--Ah, que o seu instinto
adivinhára! Devia por ali assim vir a passar bem bons bocados...
E aplaudia-se de ter vindo.
Pouco depois das 4, fiel ao seu compromisso da véspera, chegou o
Azeredo. A tarde estava um encanto. A luz esbatia-se suavemente na mole
carícia do ar, húmido e tranqùilo. Tomaram pronto um _auto_ os dois
amigos e dirigiram-se ao parque famoso de Palermo, anunciado nobremente,
ao começo da avenida Alvear, pelas faustosas decorações da _Recolêta_,
em cujo preguiçoso declive majestosas linhas arquitetónicas enquadram
harmoniosamente rasos e amplos taboleiros verdes, mosqueados de tintas
policromas, um precioso _bouquet_ de frescos relvados, de minúsculos
jardins, de bosquetes, sébes floridas e tosquiadas sombras. É
aristocrático e é lindo. E a seguir, descendo sempre suavemente, a mesma
sumptuosa e ampla artéria se continua, atirada com arrogância numa
dilatada conquista de espaço, numa extensa projecção rectilínea sôbre
cujo asfalto polido deslizam, rodam e se cruzam alegremente as
equipagens luxuosas e os automóveis de preço. Definindo a todo o
comprimento o eixo da bela avenida, acompanha-a e ergue-se a perder de
vista, no seu fino recorte aéreo, uma floresta linear de esbeltas
lâmpadas ornamentais, da renda brônzea dos braços tendo suspensos
grandes pomos brancos, e a lavrada raíz mergulhando na macieza de
esguias e escovadas _pelouses_, picadas de estatuetas decorativas.
Depois, naturalmente, e fiel aos consabidos dogmas triviais da estética
urbana, o formoso côrso, deixando o largo aprumo inicial, passa a
desdobrar-se e a colear em mesurados lacetes de roda do grande lago, ao
qual por seu turno não faltam as casotas, pontes rústicas, lilipucinas
cascatas, esguichos anémicos, barquinhos, grutas do estilo, e o
gongórico _restaurant_ de rigor. Agora, neste consagrado circuìto da
moda, é de-veras embaraçante, pejorativa, enorme, a afluência de
veículos, cuja marcha se torna grave e cheia de importância. Há um
refinado propósito de ostentação, uma patente fúria exibitiva; a cada
passo, neste afluir compacto da assistência, produzem-se
engorgitamentos, empastes, nódos, que obrigam a paragens sucessivas;
tudo servindo de pretexto amável à mutuação de sorrisos, acenos,
agrados, câmbios de frases familiares entre as pessoas conhecidas. Há
vida, há movimento, há opulência, há ruído; mas tudo cerimoniosamente
espontado, sem espontaneidade e sem brio. De família para família, de
curva para curva, a cada novo cruzamento neste mostruário ambulante de
vaidades, as vêsgas miradas perscrutadoras, os desapontados gestos, a
raivosa estupefacção, as bôcas sumidas de inveja, impõem-se ao brando
rodar das equipagens e ao bisbisoteio da chalra sobrenadante. E em tam
pomposa parada de atrelagens, alguns vélhos _fiacres_ vão ainda
derivando de escape, ao largo, num repúdio de instinto, humildemente,
como que vèxados no seu anonimato de miséria.
Ao mesmo tempo, uma afluência enorme, desbordante e luzida por igual,
circula e galreja a pé, bordejando abundante as _aceras laterais_,
taquinando com airosa presteza a areia fulva dos passeios. Com
saltitante orgulho o Azeredo vai mostrando ali ao amigo uma que outra
figura conhecida. O Silveira, todo na hora presente intercala com gulosa
vivacidade as sôltas interrogações que lhe acodem a propósito, no
impressivo relato da sua excursão da manhã. Nota com espanto como, aqui,
adoráveis grupos de _señoritas_ se permitem deambular, rir, volitar
livremente, fóra do ôlho suspicaz das mamãs, desenvôltas, seguras, num
confiado aprumo e em plena independência. Nota igualmente que os homens
vestem em geral com desafectada elegância, e que as mulheres teem uma
_allure_ cheia de graça, uma linha de conjunto harmoniosa e fina.--Mas a
moldura que a Natureza oferece a êste palpitante quadro social é
tristemente desataviada e mesquinha. A vegetação é pobre. Abunda a
mancha verde-sujo dos _eucaliptus_, formando por vezes tufos
gigantescos, e avultam alguns maciços mais de chorões, de plátanos, de
cedros, de salgueiros; porêm a maior extensão dêste chato parque
embrionário,--meio _square_, meio pântano,--é povoada por uma fruste
vegetação arbustiva, sem brilho, froixa, mal cuidada; e há avenidas
inteiras orladas por pobres palmeiras _dépaysées_, o tronco anão, a
folhagem esfarrapada e lívida, que na sua enfermiça invalidez são um
eloqùente protesto mudo contra a incongruência edílica, arrefecem o
ambiente e tornam a perspectiva dolorosa. E ainda é de notar que, para
alêm dum reduzido perímetro, neste arremêdo incipiente do _Bois_, o
traçado pretencioso dos bons caminhos de rodado, das áleas luxuosas, se
interrompe súbito a cada momento, cortado por tôda a sorte de
obstáculos. Se em qualquer direcção o desprevenido turista pretende um
pouco mais ao largo aventurar-se, logo aí lhe barra arreliativamente a
marcha uma passagem de nível de ferro-carril, a armatura bisarmal de
alguma grande construção em osso, ou os intransponíveis valeiramentos de
charcos, barrancos e atoleiros de tôda a espécie. As rodas dos veículos
afundam-se e peganham impotentes na revôlta viscosidade das argilas
empapadas. Não há continuìdade nem segurança de trânsito nesta
desarticulada rêde de aberturas. E debalde alongamos interrogativamente,
a um e outro lado, a vista morosa e cansada. Por tôda essa monótona
extensão de rústicas _parterres_, a luz rasante do crepúsculo apenas faz
agora saltar o estagnado espelho dos lameiros e aguaçais, que salpicam
bastos, com as suas placas corrosivas, como pústulas, a inevitável
sucessão das lamas de mato ruço e rasteiro estranguladas entre a
via-férrea e o Plata, onde a luz falta e a humidade abunda.
Na volta, já noite fechada, o _boulevard_ aparatoso de Callao flambeava
de côr e regorgitava de vida. Outra das grandes e opulentas nervuras da
cidade. Tudo brilha, tudo vibra, tudo reluz neste largo e inquieto
diorama. Na mesma sombra há movimento. Sôbre o piso esmerado, de madeira
em paralelipípedos, os numerosos veículos teem um rodar suave e
acariciador, sem estrépitos e sem sobressaltos, como se corressem sôbre
alfombras. Pelos largos passeios marginais, na onda ronronante da
multidão, saltam vivas as arestas e as figuras cortam-se com violência,
surpreendidas em flagrante e trazidas ao máximo relêvo pela modelação
crua em que, do mesmo passo, as envolve o grande jôrro de luz branca,
dos candelabros do alto, e as espadanas de luz doirada golfando dos
_escaparátes_ scintilantes.
O Silveira seguia interessadamente o inédito desdobrar desta cinta
magnífica, com a alma tôda nos olhos e a ventoínheira cabeça passando,
em súbitas e incansáveis alternâncias, dos florões repolhudos dos
palácios à toalha esplendente da rua; quando, de repente, imperativo,
nervoso, arpoando forte o braço ao amigo:
--Ah, ó menino! pronto, pronto... ali! manda parar.
--Aonde?
--Ali! ali!--insistiu, na mesma imperiosa querença, o Silveira.
E apontava um grande letreiro, projectado, à altura dum 2.^o andar,
perpendicular sôbre a rua, onde em flamantes caractéres sucessivamente
brancos e rubros, se lia--*Idiomas Berlitz*.
Mas, incommovível e suspenso, o Azeredo, sem perceber:
--Ora essa! e porquê? Estás doido?...
--Não, filho! manda parar, já te disse... Preciso adestrar-me no inglês,
p'ra me entender com uma criatura deliciosa que conheci a bordo. Se tu a
visses!
Agora o Azeredo ria a perder, sacudindo esperto o busto, espalmando as
mãos sôbre os joelhos.
--Ah! ah! ah! Essa nem parece tua.
--E então?--retrucou, fazendo um mômo de sério, o Silveira, quáse
ofendido.
--Pois tu não vês?... Por mais _apurado_ que quizesses andar, nunca
lograrias arranhar algo, e bem pouco, do inglês, senão passados dois ou
três meses.
--Tanto tempo?
--Seguramente. E entretanto a mulhersinha teria sabido arranjar... quem
melhor a entendesse.
Cabisbaixo e um pouco triste, o Silveira ruminava mentalmente uma
aquiescência. E com o ôlho ladino, o amigo:
--Não me sejas zonzo, rapaz! Em matéria de amor as mulheres não querem
saber de palavreado. Obras, obras...--E com um desprezivel dar de
ombros:--Que diabo! nem pareces português.
O _auto_ seguia sempre, mole e suavemente. Deixada para trás a falaciosa
esperança dêsse letreiro redentor, já os dois amigos atingiam de novo a
Praça do Congresso e seguiam ao longo de Rivadavia, a internar-se no
chamado _centro_ da cidade.--Infindáveis ruas estreitas e banais,
perpendicularmente enastradas, no seu hirto paralelismo e na sua
esquadria inflexível riscadas sempre indefinidamente. A esta hora
ruidosa e opressiva da noite, elas são como que meteóricas fendas
lineares talhadas a prumo, num rectilíneo enfiamento sem termo, ao longo
do ferro e o cimento _recocó_ dos grandes quarteirões maciços. Não há um
desafôgo, uma abertura, uma fuga de espaço livre ou um claro de benéfico
repouso, neste atropelado escoamento de coisas bárbaras e difusas. Foram
ruas bastantemente espaçosas e amplas, há quarenta anos, para suprirem
então ao movimento de duzentos ou trezentos mil habitantes; porêm hoje,
deplorávelmente adstringindo ainda o coração duma cidade cuja população
quintuplicou, tornadas duma lamentável e nociva insuficiência. No seu
estrangulamento arcaico chocam-se, cruzam-se e baralham-se delirantes
tôda a casta de obstáculos e de ruídos. A cada momento há que parar. De
quarteirão para quarteirão, a cada passo o moroso avanço é cortado por
embaraçosas suspensões, em inalteráveis sucessões de minutos que parecem
séculos. Enfastiado e impaciente, o Silveira propôs ao amigo
apearem-se.--Não podia aturar mais aquela maçada! A pé sempre girariam
melhor.--Mas nem por isso a mudança de instrumento locomotor lhe trouxe
a ambicionada largueza de movimentos. Pior agora, talvez... Pelos
passeios laterais, mancos e exiguos, mal podem caminhar duas pessoas a
par; e ainda há que seguir com invariável aprumo e a maior cautela, afim
de evitar o róce brusco dalgum dêsses tilintantes e monstruosos
_tramways_ que teimosos e incessantes lhes passam, com estrepitoso
fragor, rasos mesmo pela aresta, em risco de nos levarem um braço ou
estriçarem uma perna.
Debalde no cruzamento das ruas a polícia, numerosa e atenta, faz
cabalísticas manobras com o seu bastão providencial, no honesto esfôrço
de regular os detalhes da circulação. Resulta sempre uma empresa árdua,
por vezes heróica, a ordenada canalização da túrbida torrente, do atrito
cosmopolita dessas grossas _mangas_ humanas, jorrando em sujas golfadas
por um afunilado labirinto a sua hipertrófica exuberância. Bem queria,
uma por outra vez, o Silveira deter-se um pouco, a analisar uma figura,
a sondar uma perspectiva, a anotar um pormenor, a observar as
_montras_... breve reconhecia ser, ali, tam singelo acto um cometimento
defeso à maior destreza humana; e tinha que arrancar brusco e retomar
caminho, entalado, enovelado entre os cotovelões nervosos do amigo e a
congestiva onda da multidão que o levava por diante. Depois, se êle por
acaso, inadvertido, voltava a abandonar a sua posição de equilíbrio
periclitante para contornar o arreliativo tapume dalgum prédio em obras,
para dar o passo a uma dama, para alcançar o amigo, para atravessar a
rua, logo de chamá-lo à brutal realidade,--e por vezes
simultâneamente,--a busina dum _auto_, as campaínhas das bicicletas ou o
timbre estridente de mais um grande _tramway_, cuja massa atravancadora,
farfalhante, enorme lhe cortava súbito a frente, ringindo, pesadamente,
com a esmagadora fúria dum mastodonte a abrir caminho pela selva.
O Silveira sentia-se enervado, aturdido. Aquele caminhar fatigante à
fôrça de opressivo, o grosso marulho sobrenadante, a profusa luz dos
cafés, dos teatros, _tiendas_ e _cinemas_, entontecia-o. Entretanto,
prendia-lhe a atenção a _étalage_ caprichosa e berrante das numerosas
lojas de engraxador,--peculiares de Buenos-Aires,--com as suas
estravagantes decorações, o seu afanoso saracoteio, e o imprescindível
fonógrafo, ao fundo, sob o relogio, entre arbustos anémicos e
hilariantes cartazes, roncando alegremente. Mas nem aí lhe era permitido
o gôzo inocente dum pouco de exame tranqùilo; porque, se um instante êle
parava à porta dum dêstes interesseiros especímens da fantasia
napolitana, logo de assalto, à altura do ouvido, lhe rompia o tímpano,
fazendo-o estremecer e fugir, a estentórica voz do pregoeiro, tam
nasalada e estrídula como as vibrações do fonógrafo do fundo, para a rua
a sibilar clamorosamente:
--_Gay ass_...
--_Gay asiento, cabayero!_
Teriam os dois caminhado assim pouco mais dum quilómetro, quando muito
prazenteiro o Azeredo, sustando o passo ao amigo:
--Cá estamos em Florida. Uff! Aqui não há trânsito de veículos a esta
hora. É tudo para o belo _flirting_...--E todo aos saltinhos,
tomando-lhe do braço:--Anda ver o _chic_, meu rapaz!
O mesmo alinhamento angosto e banal das demais ruas em tôrno, cujo
inflexível e cerrado travamento forma o clássico sistema vascular desta
parte da cidade. A mesma congestiva afluência, o mesmo côrso embaraçoso
e difícil, o mesmo movimento, o mesmo ruído tambêm; mas tudo isto aqui
constituido apenas pela dissonância de vozes, o afanoso giro e o
formigueiro sussurrante da multidão a pé, que, livre do tropêço
aplastante dos veículos, em plena alegria e em plena expansão,
revoluteia, aflúi, chalra, insinua-se, resvala e afirma-se prepotente,
tomando à vontade a rua tôda, as suas impressivas silhuetas saltando
nítidas e as sombras mordendo em vincos de agua-forte a espelhada
fluìdez do asfalto reluzente. É a hora elegante, a hora preferida.
Sente-se e sôa brando o peganho abundante das passadas, ao longo dêste
grande salão a céu aberto. Ao alto, pela noite nevoenta do céu,
superando o estrangulado limite dos prédios, recortam-se, penduram-se,
cruzam-se e dançam em profusão tôda a sorte de rèclames e adornos
luminosos, formando por vezes, de lado a lado, caprichosos viadutos, ou
suspensos em esplendentes rosários que entornam a sua luz gloriosa sôbre
o boleamento arquejante e febríl desta grande feira gentílica. Em baixo,
a sucessão dos estabelecimentos luxuosos é interminável: é uma dupla
feira, magnífica, deslumbrante, de grandes _magasins_ de modas,
livrarias, floreiros, _bibelotages_, _tea-rooms_, _étalages_
industriais, armazêns de música, adoráveis pequenos salões artísticos,
rijos mostruários de artigos de _sport_ que prendem um momento a atenção
dos homens, cristais de ourivezarias faiscantes que incendem em
pecaminosas tentações o perdido olhar das raparigas.--Qualquer coisa
como a _Rue de la Paix_ ou _Bond Street_, porêm com mais ímpeto, mais
côr, uma vida mais compacta e mais intensa, e sobretudo com uma
percentagem muito superior de mulheres bonitas.
É ver a harmoniosa graça com que elas caminham, no seu passo miudito e
firme, airosas, leves, naturalmente distintas, requintados exemplares da
espécie, felizes pelo segrêdo dêste seu donaire especial, feito de
nobreza, de doçura, de confiança e de vaidade. Os homens marcham com uma
tonada, uma segurança e um garbo igual, pisando ademais como senhores,
no convicto orgulho de si mesmos, incompatíveis, vê-se, com o instinto
da economia, altaneiros e certos na generosidade sem fim do seu torrão
bemdito. E todo o mundo anda ligeiro. Claro que no corriqueiro programa
dêste obrigado passeio elegante, de cada dia, a melhor e mais grata
função é consagrada ao galanteio feminino. À pinturilada porta da
confeitaria _L'Aiglon_ estacionavam grupos de _mirones_, a cada momento
renovados, tam de-pressa sumidos no grosso embate da onda, como logo
refeitos galhardamente; por tôda a parte se disparam frases amáveis e se
despedem olhares gulosos ao venusino apetite das lindas _señoritas_ que
por entre o deslumbramento mágico das lojas desfilam incessantes,--mais
claras que as luzes, mais adoráveis que os _bibelots_, de maior preço
que as jóias; mas tudo isto é expedito, fugaz e feito com sôlta decisão
varonil, em breves pausas de cavalheiresca excepção abertas na febre
geral do movimento, deixando a perder de vista e afundando num abismo de
ridículo a pasmaceira lamecha habitual da nossa Rua Áurea e do Chiado.
--Que tal achas, _ché_?!--indagou o Azeredo vivamente.
E com os olhos extraviados de júbilo, o Silveira:
--É encantador, é divino! Esta é a minha terra!
Assim fizeram os dois o percurso total da formosa rua, desde as
aristocráticas instalações de Harrods, passando pela arte postiça da
_London Gallery_, a arcaria pedante do _Jockey-Club_, a branca portada
do _Charpentier_, as _montras_ suculentas da _Rotîsserie Sportsman_, té
ao grosso amontoamento burguês dos armazens de Gath & Chaves. Ao cabo,
já sôbre a Avenida de Maio, o Azeredo assinalou trocista à curiosidade
ávida do amigo a chamada _esquina de los otarios_,--pascácia aresta de
voluntário suplício onde o amor pelintra dos caixeiros e amanuenses vem
baboso e marruaz aguardar a saída das costureiras. E aqui nêste
estrepitoso cruzamento de duas das suas principais artérias, atinge o
máximo da intensidade e da côr a agitação resfolegante da cidade. Dêsse
compacto torvelinho, da baralhada onda de tôda essa grossa turba em
delírio, ergue-se em quentes lufadas e toma e embebeda o ar uma
clamorosa ressonância, que é a evidenciação triunfante do bem-estar
físico, da fecunda actividade, da pletóra de fortuna e de riqueza desta
moderna Cartago,--a vontade feita moeda, um dos grandes fócos da
capacidade potencial do homem sôbre a terra, portentoso centro de
atracção, empório colossal do trabalho fascinante e criador, caldeado na
protéica ardência das mais válidas esperanças e as energias mais
potentes das raças de todo o mundo.