--Lá volta esta minha filha às suas originalidades... Por mais que o pai
a corrija...
--_Mamita!_ original, eu?... quando exponho coisas que os outros podem
observar por igual?
--Os outros, não!--objectou Dolores, com mal contido azedume:--Eu pelo
menos encontrei, e creio que encontraria sempre, o contraste mais formal
entre os nevoeiros sujos de Londres, por exemplo, as imaculadas neves
alpinas e as escarpas sangrantes da Sicília.
Mas, na mesma dogmática singeleza, Irene, de mão estendida, fechando com
o polegar o indicador e abatendo as pálpebras:
--Tudo a mesma coisa! No dia em que tu tenhas o coração destroçado, essa
corôa alvíssima dos Alpes aparece-te suja como um trapo servido. O
chamado esplendor do Mundo é tudo quanto há de mais convencional.
Depende de nós... de nós exclusivamente. Êsse consagrado chavão do
deslumbramento pagão das coisas não é, no fundo, mais que o espelho da
nossa sensibilidade, o reflexo exterior dos nossos estados de alma.--A
irmã e a mãe sorriam, com um ar incrédulo; e ela, persuasivamente:--É
certo! Tal a sensibilidade no nosso íntimo braveja ou esplende, tal
vemos de roda de nós a vida. São as mais das vezes as vibrações
cantantes do nosso mundo interior que ao mundo exterior emprestam todo
êsse decantado brilho objectivo. É um esplendor de empréstimo. Sem nós
não valeria nada.
--Está bem, está bem...--comentou D. Catarina, prolongando um risinho
irónico em que havia um mal reprimido brilho de vaidade.
De sua banda, o Silveira, de olhos muito abertos e não sabendo que
contestar, limitava-se a assentir com vagos acenos de cabeça,
idiotamente.
Assim, à medida que o diálogo ganhava interêsse, ia-o Irene esmaltando
de notas originais, de impressões verídicas e frescas que ela extraía e
desdobrava do íntimo, como um perfume que impregnasse o seu sangue,
espontâneas, vivas, palpitantes, e que deixavam o Silveira imerso num
atolondrado mutismo, por serem coisas impenetráveis à sua ignorância e
inacessíveis ao seu critério. Entretanto, o seu temperamento sensual,
agora, acobardava-se... sofria a influência transcendente e dominadora
daquela nobre e espiritual figura. Irene inclinava-se de preferência
para êle, naturalmente, e naturalmente ia desfiando os seus amáveis
paradoxos, sempre com a mesma voz límpida e virginal, em frases breves
como toques de pincel, vincadas pelo acento imperativo das inquietas
mãos, incendidas no lume sideral das grandes pupilas sombrias. E era
como se na espiritualização crescente das frases e dos conceitos a sua
indumenta animal gradualmente se fundisse. Tôda a impressão de matéria
desaparecia... os seus olhos eram reflexos de astros, os seus lábios
eram tintas de emoção, os seus braços eram volutas de sonho; e um nimbo
de harmonia dulcíssima emanava, como um fluído mágico, de todo o seu
atenuado ser, simples e tranqùilo. Não obstante, junto dela o coração do
Silveira, como se aspirasse um ramo de flores de aromas violentos, batia
mais apressado.
Por fim, quando, passado algum tempo, as primeiras velaturas do
crepúsculo começaram a abater sôbre o barco o seu véu de tristeza, D.
Catalina ergueu-se, com as filhas, pedindo vénia para
retirarem-se.--Aproximava-se a hora de comer.--Houve uma afectuosa
saùdação de despedida,--para Irene a última,--e depois o Silveira,
imóvel e em pé no mesmo logar à medida como ia vendo esta fina, longa e
clara figura esfumar-se na luz fugacíssima da tarde e delir-se na
distância, tinha a ilusão de que ela não era mais do que uma pura
abstracção, imaterial, intangível, como êle se lembrava de ter uma vez
lido de Pierrot,--que nascera da projecção de um raio de luar sôbre um
muro branco...
Essa noite levou-a deliciadamente o Silveira, embalado na casta volúpia
dum vago e alado sonho, erguido nas espírulas de oiro dum alheamento
alto e inefável. A ablução espiritual daquele curto diálogo com Irene
afinára-lhe o sentir, infiltrára-se nas mais nobres e puras radículas do
seu ser, e como que alimpára por momentos a sua alma fruste das escórias
brutais do instinto. Na manhã seguinte, ao despertar, notou que o
_Almeria_ ralentára a marcha, e que lhe montava ao coração e lhe toldava
o cérebro o que quer que fôsse de opressivo e cálido. Ganhava-o a
depressiva molenta do aproximar dos trópicos. Pela ventanilha, mesmo da
cama, olhou ao largo e viu que barrava cêrca o horizonte uma espécie de
ciclópico muro negro. Era o arquipélago de Cabo-Verde,--recordou.
Lentamente, com uma delidora quebreira nos músculos dormentes, reagiu,
ergueu-se.--Em cima, na tolda, não havia sol, e a luz diluia-se em
grisáceas e densas toalhas, dispersa como andava no peneiramento molhado
da neblina, cortada como era por êsse formidável circuìto de montanhas
áridas e a prumo, escalando sinistramente o espaço. Não se divisava em
tôda esta imponente massa, de ruína e de sombra, uma nota clara, um
cântico de luz, uma choupana, um rebanho, uma árvore, qualquer perdido
_oasis_ de frescura e de repouso. Era o repúdio formal da Natureza.
Dentro dêste revôlto anfiteatro de maldição e de treva, o mar, fundo,
plácido, dum tom uniforme de pêz com espelhamentos lívidos, parecia
amortalhado, era como um lago dantesco estrangulado na convulsa
paralização dum cataclismo. E tudo falava de desolação e de morte neste
atormentado pórtico do Averno, nesta monstruosa cavalgata petrificada,
paìsagem de pesadelo tôda em pontas ásperas e hostis, em escarpas que
davam vertigens, em agulhas topetando o céu, em rampas escalavradas e
adustas; terra de abominação onde a vida parára por completo... arestas
sôbre arestas, abismos sob abismos... e cuja trágica insensibilidade o
mar, com os seus mansos rolos, buscava em vão comover, mandando-lhe o
acariciamento deslumbrante das suas franças de espuma.
Mal tinha o barco lançado ferro e já era simultâneamente invadido, a
bombordo e a estibordo, por um duplo cordão de negros,--puros bronzes
vivos,--ágeis, luzentes, hercúleos, a maior parte vestidos apenas dum pó
ainda mais negro do que êles, e que trepavam lestos à amurada ou
marinhavam pelas cordas como símeos, para deixar-se escorregar depois
sôbre as várias cobertas, trejeiteando, garatujando, saltando e em
risinhos duros, como de canibais, mostrando o impecável marfim dos
dentes. Eram os carregadores de carvão que acudiam à faina. Porêm,
seguidamente, da ensurdecedora algarada que subia do sem-número de
pequeninas embarcações rodeando, em baixo, o vapor, um outro impúdico
enxame de simiescos truões agora surdia, igualmente ágeis e negros,
igualmente nus, mas êstes na maior parte ainda impúberes, limpos e de
formas delgadas, desdobrando na sua exótica invasão adoráveis linhas de
graça gentílica,--e todos na vibrante impaciência de disputar pelo
mergulho a caça das moedas que de bordo os passageiros lhes atiravam,
por divertir-se. Uns da casca frágil dos botes, outros pelas enxárcias e
mastaréus do vapor suspensos, toda esta coreia juvenil se agitava
sôfrega, todos pediam clamando, cabriolando, encrespando a figura,
erguendo os joelhos, batendo as mãos, desmanchadas nas mais inverosímeis
atitudes, zurrando tôda a classe de ruídos bárbaros; depois, quando a
tentadora rodelita de prata ou de oiro traçava o seu meteórico brilho
pelo espaço, êles atiravam-se a nado, de braços em ponta, como flechas,
havia um abundante chapinhar nas águas, e daí a segundos um dêles
reaparecia, amostrando e apertando a codiciada moeda na ponta do focinho
triunfante.
Com tôda a sua abominável selvajeria, o espectáculo tinha um
impressionante sabor pagão a que o Silveira não pôde manter-se alheio.
Seguiu-o por algum tempo com agrado, vibrando ao contagioso estímulo
daquele torneio brutal de agilidade e de fôrça; e apenas, uma que outra
vez, ao lembrar-se de Irene, olhava receoso em tôrno, tomado por ela dum
instintivo pejo... no apreensivo temor de quanto o seu virginal recato
por aquela impudente exibição animal se sentiria ofendido.
Nem ela, nem ninguêm dos Wimeyer apareceu, felizmente. O Silveira
descortinou porêm, não sem uma certa surprêsa, gozando muito compadres
aquele _sport_ bárbaro, Helena d'Ellery e o Mafiori, ombro com ombro, e
furtados discretamente ao besbelhoteiro rodeio das atenções no mais
escuso ângulo da ré, em cima, sôbre a última coberta.
Um vélho negro, derreado e esquelético, se lhe acercou entretanto,
ofertando produtos da indústria rudimentar do país: colares, anéis e
broches de coral, saquitos de junco, bôlsas de sementes luzidías e duras
como azeviche, grossas gargalheiras policromas tecidas de conchas, de
corais, de pedras polidas, de caroços de plantas indígenas e gomas
aromáticas. Exprimia-se com dificuldade, gaguejando e mascando, num
galimatias gutural todo em monossílabos, adulteração burda do português,
cortada, áspera, intraduzível. De roda, uns tantos mais mercadores
mendigos, como êste, circulavam tambêm, oferecendo laranjas, bananas,
côcos. E, vista assim de perto, a hirsuta e negra turba perdia aquela
nativa selvajeria da sua primeira investida feroz ao vapor; buscavam
suavemente comover a esquiva indiferença dos clientes, em gestos não
isentos de docilidade, dobravam-se tímidos, humildes, e apenas se lhes
traía a braveza inculta da condição no ávido dilatar das chatas narinas,
na escrutadora dureza do olhar astuto.
Entretanto, por efeito do transbôrdo do carvão, ganhava mais e mais a
imobilidade gorda do ar um pó negro finíssimo, imponderável, que tudo
inquinava, que tudo afogava, que tudo invadia, e que levado na asa
fuliginosa do seu irresistível poder emporcalhante, não havia brilho que
êle não apagasse, não havia limpa claridade que êle não pontilhasse de
sombra. Então o Silveira, que começava a ver o seu rico fatinho claro
salpicado e mordido de minúsculas lâminas negras, como coleopteros
daninhos, teve que renunciar a seguir aquela picante aproximação de
Helena e do marquês, e resolveu deixar a tolda e internar-se no salão,
seguindo o exemplo do maior número. Mas aí logo, do canto duma mesa, o
pequenino Ramón Alvarez a chamá-lo em grandes gestos, com uma intimativa
insistente, quáse aflita.--Queria em primeiro logar felicitá-lo... Que
bem dirigido assalto, que sorte fulminante! Estava um outro Júlio
César... Maganão!--Depois, ao notar a expressão de desagrado do
Silveira, numa brusca reviravolta, com um tom insinuante e outra vez
aflito:--Que estava muito atrapalhado... Uma andaluza, que era um vivo
demónio, pedira-lhe para escrever um pensamento no leque. E êle,
embaraçado na escolha, não sabia bem por que decidir-se...
--Tenho aqui tantas, tantas coisas!
E estrangulava nas mãos nodosas a cabeça descomunal, nesta hora crítica
por fôrça ardendo em plena gestação de baboseiras.
Daí a umas horas, no _bar_, juntavam-se os parceiros habituais do
_bridge_, faltando apenas o marquês, que num estranhável desmentido à
sua habitual correcção, já ia tardando. Faltava tambêm _M._^{me}
d'Ellery, e o seu imprescindível assessor, o vélho bonzo, fazia maçaneta
com as mãos sôbre o paninho verde e franzia a bôca exangue, em mal
reprimidos sinais de impaciência.
Então, manhosamente o Silveira tomou o Mackenna de parte, e por entre um
risinho cheio de reticências, cujo significado exacto êste não podia
apreender, perguntou-lhe «como ia a coisa?» E logo, todo jactancioso, o
outro segredava-lhe que ia lindamente! era uma conquista segura...
O intrometido Contreras, que viera familiarmente imiscuir-se na
conversa, tossicou, amolou, coçou as barbas, incrédulo. E, com ar
ofendido, o chileno:
--Parece que o amigo duvida?
--É que o vejo tornar as coisas fáceis... Não se caminha assim. Devagar,
devagar... Entre o pensar e o fazer, _hay que tomar el tranvia_.
--Se queria apostar?
Porêm o Silveira, que tinha dançando-lhe pícaramente diante dos olhos o
inopinado grupo do tópe da ré, naquela manhã, encolheu os ombros numa
ironia mansa:
--Eu já não digo nada...
Havia agora cinco longos dias a passar antes que volvessem a avistar
terra firme. Uma larguíssima sucessão de horas, sempre as mesmas, que
seriam vividas inevitávelmente sôbre a cálida opressão daquela atmosfera
pesada e espessa, que haviam de arrastar-se numa monotonia sem fim entre
o proceloso encapotamento do céu e a opacidade revôlta das águas. Então,
tôda esta grande família que o acaso improvisára ali, sôbre o piso
encerado das várias pontes e cobertas, naturalmente, a iludir a
anestesia morna do tédio, vinculava-se, cingia-se mais, buscava a cada
momento pretextos novos de aproximação, lances de mútua intimidade;
teciam-se correntes súbitas de simpatia, havia um efusivo desborde de
galanteios, atenções, franquezas; concertavam-se negócios e
associavam-se interêsses;--como se no precário âmbito daquela enorme
jaula ambulante êles constituissem um universo novo, como se dentro
dêsse frágil circuìto de madeira e aço coubessem tôdas as suas
preocupações, planos, sonhos, febres, ambições, desejos... o concêrto do
seu futuro e a incógnita do seu destino. Contudo, sobrelevando a
irresistível sugestão dêste acercamento crescente de relações e
intimidades, o Silveira teve ocasião de notar que as senhoras Wimeyer,
coerentes e imutáveis na sua linha de inviolada isenção, não se davam
senão com êle.
_Mrs._ Edith, que se havia despido sensivelmente da sua dignidade
senhoril, andava agora tôda entregue à divertida seriação dos jogos. O
ardente sôpro panteísta da desgarrada vida de bordo acendêra-lhe a
repousada candura infantil em espontâneos ímpetos; e a cada passo ela
vinha e interrogava com vivacidade o Silveira, na sua qualidade de
membro do _Committee_, sôbre horas, datas e mais circunstâncias e
pormenores, que a redonda ignorância do interpelado tinha que deixar
invariávelmente sem resposta. Ela reptava-o amavelmente, em graciosos
chistes e coquetonas burlas, a que servia de intérprete a complacência
cínica do marido.--Estranhava realmente não o ver inscrito em nenhum dos
números do Programa. Já não dizia, em suma, no _Passo entre as garrafas_
ou na _Luta dos travesseiros_, que requeriam predicados especiais de
agilidade e de fôrça; mas em qualquer outra coisa... por exemplo, na
_Corrida das batatas_, tam fácil... ou então no _Combate dos galos_.--Ao
desenho grotesco desta idea, tôda a patrícia figura da irlandesa
estremeceu num júbilo: e arrebatadamente, batendo as mãos:
--Ah, sim! sim! aí está... Queria vê-lo de galo... Seria tam
interessante!
Redondamente, o Silveira, entre bisonho e indignado, escusou-se. Ela
então, num procurado ar inocente e um fiosinho meigo de voz, cheio de
promessas:
--Bem, mas promete-me que vai ao menos inscrever-se no _Enfiar da
agulha_. É fino! é lindo!
E com um risinho provocador a erguer-lhe a púrpura sensual dos
lábios:--Que fôsse, que fôsse... que ela lhe procuraria a vitória.
Avizinhava-se a passagem do Equador, que seria celebrada a bordo por um
grande baile de fantasia, antecipação muito a propósito do Carnaval, que
vinha próximo, pois terça-feira gorda era já cinco dias depois da
«passagem da linha», por alturas do Rio de Janeiro. Prometia vir a ser
êste Baile o número mais brilhante do Programa das festas, e, dois dias
antes, já a população feminina de bordo quáse se não preocupava de outra
coisa. Haveria prémios, adjudicados por votação geral; e admitiam-se
duas classes de trajes de disfarce,--os improvisados a bordo e os
trazidos já entre a bagagem. De família para família, de grupo para
grupo, fantasistas, curiosas, insistentes, as interrogações cruzavam-se;
porêm, naturalmente, cada um furtava-se, guardando absoluta reserva, e
então as mais aventurosas hipóteses, as mais abstrusas e sôltas
imaginações cresciam e batiam asas, como borboletas demandando a luz, de
roda dêste fechado círculo de mistério. Boquejava-se apenas que o
Alvarez preparava um número de sensação; que Pilarita Gomez, a
desenvolta _morenucha_ que êle cortejava, figuraria, a conselho seu, num
_travesti_ algo picante; _Mrs._ Edith resistia inflexível às inquirições
dulcerosas do Silveira, que apenas conseguiu registar a renovação
freqùente das conferências dela com o cabeleireiro; e sabia-se que a
petulante d'Ellery ostentaria um primoroso traje de odalisca. Por sinal
que, como ela, uma noite, na pequenina tertúlia habitual do _bar_, se
lastimasse de que lhe faltava um adôrno a condizer, para a cabeça, logo
todo solícito e importante o Mackenna prometteu arranjar-lhe uma linda
peça a propósito, meio turbante, meio diadema, havia de ver... qualquer
coisa de abracadabrante, de sumamente artístico e grandemente
extraordinário. E o caso foi que, na manhã seguinte, êle aí vinha
instalar-se afanoso a uma das mesas do salão, munido de tesoura,
compasso, régua, esquadro e um frasco de cola, e sobraçando um volumoso
fardo; e convertia abusivamente êste liso rincão do _Social Hall_ em
oficina, logo extraíndo dessa boceta de Pandora pelintra a mais
desconcertante, a mais imprevista miuçalha, rodeando-se por um abundoso
aparato de fôlhas de lata, de cartão, de vélhos retalhos de cachemiras,
sêdas, veludos, de lantejoulas, sequins, rolos sujos de algodão e tiras
de papel doirado. E dois dias pegados levou ali assim, riscando,
talhando, cortando, ageitando, unindo, compondo prègas, chumaçando
relevos... enquanto limpava açodado o suor e arredava a melena, nos
intervalos de pausa benefica que raro lhe concedia a congeminação febril
dos dedos; e sempre espargindo uma nuvem impertinente de ciscalhos, de
trapos, de escórias fulvas, perante a admiração trocista dos passageiros
e a muda indignação do _steward_ da sala, chocado por esta suja
infracção dos regulamentos.
Por fim, naquela «quinta-feira de compadres», logo na antemanhã, o amplo
convés de bombordo sofria uma transformação completa. As cadeiras de
repouso haviam sido recolhidas aos flancos, e agora a marinhagem fazia
àquele largo recinto um emparedamento vistoso, colgando-lhe em tôrno
bandeiras e flâmulas de tôdas as nações, sujeitas de alto a baixo por
argolas e cordagens, batendo multicolores ao vento. Até aconteceu que,
por um lapso aliás fácil de explicar, dada a mudança tam recente das
instituìções portuguesas, a respectiva insígnia que aparecia desdobrada
ao contôrno drapejante do improvisado salão, era ainda a bandeira
monárquica. Não escapou êste inocente anacronismo ao Silveira, que,
radiante mas cauto, se limitou a esfregar as mãos num raivoso júbilo,
felicitando-se no íntimo por êste como que público e espontâneo
desagravo que aos seus fidalgos brios o acaso, ali assim, vingadoramente
lhe oferecia. Mas o pior foi que daí a instantes passaram tambêm dois
outros compatriotas seus,--um caixeiro da firma Brandão Gomes, de
Espinho, e um agente da «Camisaria Confiança», do Pôrto--adoradores
incondicionais do Basílio Teles e antigos revolucionários do 31 de
Janeiro, os quais, tomando por uma deliberada afronta internacional
aquela inofensiva exibição da bandeira azul e branca, logo protestaram
indignados e, de caminho passando palavra aos correligionários que iam
encontrando, breve foram todos levar exibitivamente perante o Comissário
de bordo a expressão do seu _veto_ colectivo, em termos que o
escandaloso símbolo teve de ser retirado. Enquanto a reparadora
desmontagem se fazia, aqueles dois primeiros estrénuos zeladores da
verdade histórica miravam de soslaio, trocistamente, o Silveira, com a
pupila triunfante. E êste então, como não havia a nova bandeira
rèpublicana a bordo, monogolava com tristeza:--Afinal, aí se fica o meu
pobre país sem representação!--E depois, num soberano ar de desdêm, com
um risinho perverso:--Que realmente era como estava bem... que aquilo
agora, com a rèpublica, não era nação, não era nada.
Fechado assim por essa improvisada cinta internacional o recinto, a
mesma marinhagem com uma vivaz e alegre solicitude, festoava-o em
abundância de renques de flores de papel, aplicava-lhe, a multiplicar a
iluminação, pêras eléctricas policromas. Por último, o piso encerado foi
passado a gis, para garantir a integridade corporal dos bailarinos. E
durante todo o dia pode dizer-se que nesta parte reduzida do convés se
resumiu o melhor da vida de bordo. Os que não trabalhavam, vinham ver. A
certa altura, desceu mesmo a inspeccionar amávelmente o andamento dos
preparativos, a sêcca figura esquiva do comandante. Tambêm os Wimeyer
vieram, num rápido giro, ver todo aquele arranjo, ao que êles chamavam
uma diversão _cursi_, mantendo-se altivamente alheios. Ao almôço, no
comedor, foi sensível a ausência das senhoras. E, fechados como se
mantinham nas respectivas _cabines_, uma bôa parte dos passageiros, no
vivo empenho de ultimarem a tempo os seus disfarces, resultava assim
que, por momentos, e a não ser a mancha arrogante de um ou outro
contumaz grupo _sportivo_, o dilatado _stand_ do tombadilho aparecia
deserto.
Ao anoitecer, mal a corneta deu o primeiro sinal para o jantar, logo o
comedor foi assaltado e invadido com uma grossa presteza, como até
àquela noite, em tôda a viagem, não havia memória. É que a direcção do
_Committee_ rogára aos senhores mascarados a fineza de descerem a comer,
trajando já os seus disfarces; e assim os simples _mirones_ davam-se
pressa em ir ocupar os seus postos de observação, na ânsia natural de
gozarem bem, desde o começo, a aparição picante das figuras. Daí a
minutos, os primeiros máscaras, logo acolhidos com palmas, desciam leves
os cinco envernizados degraus da escada. A seguir, outros e outros,
aquecendo de passo o ambiente do salão, que estimulado por esta ronda
bufona de côres estrídulas, de silhuetas, formas, gestos, símbolos e
brilhos imprevistos, vibrava e estralava de notas alegres, de
comentários patuscos, de aplausos, vaias, interjeições, pilhérias,
burletas e volatas de risos. E é que havia de tudo nesse desfile
bigarrado e inédito: traços ingénuos e arripios bárbaros, a trivialidade
e o inédito, a brutalidade e a elegância. Ora, eram selvagens negruscos
que vinham aos saltos, guinchando e rolando, e _boy-scouts_, zuavos,
marujos, _pierrots_, fazendeiros, _gauchos_, tangedores de gaita de
foles; ora, insulsas meninas de bôas famílias, que, ao amparo discreto
de consabidas e recatadas formas, vestiam apagadamente de _Fada_, de
_Noite_, de _Minerva_, de cigana ou ledora da _buena-dicha_.
Na mesa do Silveira, só se mascarava o Mafiori, que não acabava de
aparecer. Não aparecia tambêm, por igual, o Alvarez. A sua endiabrada
Pilarita, numa _louche_ figuração de _apache_, estava lindamente,
adorável de canalhismo galante e desinvôlta graça. _M._^{me} d'Ellery
ostentava uma riquíssima túnica oriental, tôda oiros e sêdas, a cabeça
sumia-se-lhe estrangulada no turbante birsamal do Mackenna, e vinha pelo
braço passivo e solene do seu derreado protector, de laço branco e
_frac_, tendo na lapela uma palma de esmalte verde. Tambêm vinha em
grande _toilette_, com a espalda provocadoramente nua e altos tacões
doirados, a jovem multimilionária Nora Scott, uma histérica mordida de
zelos pela irredutível esquivança do Silveira. _Mrs._ Edith foi das
últimas a descer, tôda grave e senhoril, a par com a complacência
orgulhosa do marido. Trajava um elegantíssimo _costume_ Pompadour, que
como que a aligeirava, lhe adelgaçava a redondeza helénica das formas e
lhe punha asas na figura,--e que era todo êle do mais puro bom-gôsto e
do mais escrupuloso rigor, desde a maranha luxuriante do penteado, desde
as miuditas flores e as prèguinhas leves da saia e _corset_, até às
leves _mouches_ do rosto, à fina pinturilha do leque picado de oiro, e à
ténue e espumosa renda do lenço minúsculo, amarrotado entre os
dedos.--Oh, que esplêndida!--rompeu extático, sacudido de admirativa
gula, o Silveira, mal que a viu aparecer e batendo palmas:--Bravo!
bravo! Aquilo sim!...--E com a face congestionada, num cotovelão
persuasivo ao Contreras:--Há-de ter o primeiro prémio!
Quando, por fim, uma redonda e rija morenita apareceu, com o busto
saltante envolto na bandeira brasileira, os seus compatriotas, postos
súbito em pé, aclamaram-na num brado unísono, ao tempo que de todos os
pontos da sala os aplausos estrugiam com delírio. E no atropelado
desdobramento desta sôlta feira animal, o vasto recinto perdera o seu
frio e composto aspecto habitual, na sua disciplinada ordenança um
tolerante parêntesis folião se abrira. Por entre o estrilante chocalhar
das loiças e talheres, a cada momento os comensais paravam de comer e os
moços cessavam de servir, cortados e suspensos no contágio truanesco
dêste concertante bárbaro, fustigado a espaços por frémitos de loucura.
Pouco depois, em cima, ao compasso dum _two-step_ sofrivelmente
semsaborão, _a quêu_ cabriolante dos máscaras, desfilando marcialmente,
fez o circuìto do tarraco salão de baile. Apareceu então o Mafiori, que
vinha soberbo, encadernado em mandarim. Porêm agora o grande êxito da
noite foi para Ramón Alvarez, que ideára realmente uma improvisação
feliz,--montado em andas e rodeado por uma espécie de grande roca
cilíndrica, feita em madeira leve e de cima a baixo encoberta por uma
túnica de chita roçagante, à maneira dos santos de aldeia, na sua terra.
Assim realizava um picaresco _gigantón_, que êle animava procazmente, ao
alto, com a autêntica enormidade da cabeça, prazenteira e afável
oscilando, tôda em mesuras. E nenhuma sorte de máscara ou atenuador
disfarce nesta estadeação impudente da figura. Apenas êle avivára a
sépia e nankin a dura projecção das feições, e asperisára a poder de
caio e zarcão a macieza juvenil da face, tornada assim a raíz lógica,
natural, da adusta rubefacção do cránio. Era um prodígio de bom humor
esta valente ampliação caricatural, êste autocomentário alegre à própria
disformidade.
Entretanto, de roda, à parede drapejante das bandeiras viera cingido e
compacto inscrever-se o muralhão dos curiosos. Grupos surrateiros
conseguiam vir de fóra e insinuar-se, impávidos e de pé, avivados pelos
rostitos frescos das _midinettes_ da 2.^a classe, trazidas arteiramente
pelos oficiais de bordo a gozar o espectáculo. O Silveira não teve
descanço enquanto não abordou a irlandesa, para lhe enaltecer numa
mímica eloqùente a impecável distinção da _toilette_. E ela,
infantilmente:
--_You like_?
Êle, incendido e vibrante, confirmava,--que sim,--e sentindo um
desvanecimento ingénuo em acompanhá-la, procurava fazer-se compreender,
num desbarato exultante de admirativas olhadas, galanteios, vénias e
lisonjas, que só cessaram quando o impróvido galã notou que as Wimeyer
tinham vindo plácidamente tomar, num reservado cantinho, as suas
cadeiras. Êle então desligou-se da irlandeza, e mudando de tática, forte
no seu propósito de fazer triunfar aquela deliciosa figura, digna de
fixar amorosamente as prodigiosas faculdades de realização dum Boucher
ou dum Latour, tudo era chamar para ela as atenções, encarecer-lhe a
propriedade impecável do disfarce, a beleza galante do arranjo, e onde
quer que êle visse alguma pessoa do seu trato, na disposição de
preencher a respectiva lista,--fôsse embora um quáse desconhecido,--aí
corria logo a tentar persuadi-lo, a pressioná-lo com vivacidade, a
suborná-lo pela lisonja, no implacável desígnio de fazer vingar o seu
desejo.
Grado e grado, porêm, a pressão sufocante do ar, a aglomeração, o calor,
o contágio erótico das danças, iam determinando na foliona turba um
começo de enervamento que se exteriorizava em sensíveis mostras de
enfado, em estases mórbidos de cansaço. Já os homens passavam os lenços
pelo pescoço, arejavam o nariz, enxugavam a testa; as ventarolas e os
leques andavam abundantes de mão em mão, sempre na sua palpitação
tremulante de passaritos assustados; e aos compassos convidativos da
orquestra a ronda flamante dos pares ia rareando. _M._^{me} d'Ellery
tinha calor, afogada no largo e fulvo amplexo da sua rica túnica
oriental, molestada sobretudo por essa desgraciosa bisarma que lhe
oprimia a cabeça,--uma obstrusa composição da qual, para mais, ela
notava que todos em roda mais ou menos claramente se burlavam. Porque
nesta criação infeliz o Mackenna, fiel aos seus ideais cubistas,
realizara, não o canto harmonioso de curvas que seria a condizer com o
voluptuoso coleamento e as lânguidas suavidades daquele traje magnífico
de sensualidade e de sonho, mas uma desconforme tôrre de pesadelo, tôda
em ásperas e duras linhas, em rasos planos, em projecções maciças, em
cruas e vivas oposições, em ângulos que se penetravam, em pontas que se
hostilizavam, em arestas que ofendiam a vista. Era a cabeça do Alvarez
estilizada. Um retalho de pagode primitivo incrustado num ângulo da
muralha da China. Por fim, num gesto de definitiva emancipação, a
insofrida Ellery atirou com o molesto diadema para trás do piano, despiu
a túnica, e provocadora e ardente, com a frescura roliça do busto
bailando agora sob a branca blusa transparente, como lobrigasse perto o
Alvarez,--que tambêm se desembaraçara do rodapé de chita e das andas,
ficando em mangas de camisa,--travou-lhe súbito do braço e rompeu com
êle num desenfreado _can-can_, que foi um escândalo para a porção grave
e burguesa da assistência.
As Wimeyer haviam-se retirado antes; propícia eventualidade que o
Silveira aproveitou para ir valsar com a irlandeza. Depois, como o
momento das votações se aproximava, ei-lo aí de volta na sua furiosa, na
sua amoruda galopinagem, de grupo a grupo mendigando votos, captando
adesões, forçando vontades. E o caso foi que logrou o apetecido êxito; o
primeiro prémio para os trajes já de antemão preparados foi com efeito
conferido a _Mrs._ Edith, por maioria enorme. Dos homens, alcançaram
naturalmente a primeira votação o Mafiori e o Alvarez. O prémio para o
melhor disfarce feminino, improvisado a bordo, fê-lo adjudicar a colónia
dos saxões e _yankees_, por um sufrágio esmagador, a uma inglesa
esnalgada e longa como uma chaminé de fábrica, a qual tivera a suculenta
idéa de se mascarar, figurando uma espécie de cozinha ambulante,--para o
que se deu ao trabalho infantil de semear e pendurar pródigamente,
doidamente, ao acaso, pela sua vestimenta servil, cortada em grossa
sarapilheira, uma heteroclita profusão de caçarolas, tachos, cafeteiras,
abanos, tenazes, pás, colheres, ramos de cebolas, toros de couves,
mólhos de rabanetes, nabos e cenouras.
Entretanto, o Silveira, querendo tirar partido da situação, havia
passado com _Mrs._ Edith ao _restaurant_ improvisado no convés de
estibordo, para celebrar com ela, a _champagne_, o seu triunfo. Breve
apareceu porêm o conde a cortar-lhes a efusiva comunhão dos _toasts_,
ponderando--que era tarde, tinha sono... e ela tambêm devia estar
fatigada.--Bebeu ainda uma taça de _champagne_, brindando pelo Silveira,
e, em grossos bocejos, despediu-se e partiu, amparado em pêso ao busto
airoso e leve da mulher.
Os outros comensais, de momento ali, foram tambêm passo e passo
desertando; de sorte que, em breves minutos, o Silveira surpreendia-se
quáse só e como que restando o único assistente ainda aos últimos
acordes da festa agonizante. Sem embargo, não se sentia em disposição de
descer à _cabine_. Aquecia-o uma instintiva febre de movimento; carecia
do róce fresco do ar e do embalo manso das vagas, que lhe mitigassem a
mordente excitação, derivada das múltìplas e opostas comoções da noite.
Fazendo então o giro distraído do barco e erguendo ao alto a espertinada
cabeça, fixou naturalmente o seu perdido olhar na imensidade calma do
céu e da sua eterna abóbada constelada. Liberta por agora da forte
evaporação do dia, a atmosfera alimpára e despojára-se do véu cendrado
da neblina. Apenas a diafaneidade imponderável do éter se baloiçava
entre as sombras vagas do mar e o vago luaceiro do Infinito. Eram sempre
as mesmas constelações fulgurantes, a mesma pregaría de fogo, o mesmo
brilho orgíaco, aqui semeado ao acaso por entre flócos de neve ardente,
ali afirmando aladamente no espaço o seu fulgor solitário. Contudo, era
êste um céu diferente do que êle estava habituado a ver na sua terra,
era um céu menos povoado, menos esplendente, menos loução, e que por
isso mesmo lhe parecia mais amplo, mais distante, mais solene, mais
profundo. Não tam densos e brilhantes se desparramavam aqui, e
distribuidos por outra forma, os pregos de oiro dessa incontável poalha
sideral, esparsa pelo espaço. Seguramente era êste o cósmico scenário
próprio, a divina cúpula de protecção adequada às ignoradas regiões
aonde êle se dirigia, de mudas solidões intérminas e imensas extensões
desertas.
Dentro, porêm, da relativa parcimónia e o discreto brilho dêsse caminho
dos deuses, alguns sóis se afirmavam potencialmente em fulgurações
vibrantes. Um dêles, principalmente, que bastante acima do horisonte se
erguia tremulante, faíscando, ardendo... Um grande diamante azul,
prodigioso altar tendido ao fogo entre os astros e mantido pelas vestais
incoercíveis da Via Láctea,--suspenso pomo de luz viva, como que prestes
a desprender-se da abóbada celeste, atraído pela noite insondável do mar
e ancioso por descer a traspassá-la com o dardo deslumbrante da sua
claridade, para decifrar-lhe o mistério e desvendar-lhe os segredos.