III

Na manhã seguinte, ao _lunch_, já ao lado de cada talher, no comedor,

havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel

assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of

games and sports_ para durante a viagem. A primeira sessão,--jogos sôbre

a tolda,--realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira

havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no

_Social Hall_, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e

que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias

exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira

demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela

composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais

admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim

caminhava.

A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o

guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente

Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e

irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro

olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:

--Como o nosso Euclides está hoje contente!

O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito,

com um cocegante ar de mistério:

--Tenho uma grande novidade a dar-lhe!

--Coisa bôa?

--Bem agradável, creio, lhe deve ser...

--Homem, diga lá! desembuche,--comandou, já tambêm interessado, o

Contreras dando um murro na mesa.

Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:

--Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode

ser...

O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso

por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção,

levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a

alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve

impenetrável.

Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência,

voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:

--Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!

--De-veras!?... Falou com êle?

--Sim! falei...

--E com as filhas?

--Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.

--Então? então?...

E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do

Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas

em tôrno, espaçadamente,--que se tratava, não dum argentino de nascença,

mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos

estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda,

exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo,

sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande

proprietário no norte e homem de fortuna.

--Como diabo soube você tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o

Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.

--Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou

singelamente.

--E que santo fez êsse milagre?

--Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos;

conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação

scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e

sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.

E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o

Silveira:

--E depois? e depois?...

Que, depois,--continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,--depois,

a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua

engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para

se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo,

escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle,

Silveira, como um chavão na matéria.

--O quê!?--bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.

--Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas você é

considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E

levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja lá como se porta.

Olhe que eu disse que você era um grande professor.

--Quere não que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira,

rascando a testa.--Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que

isso é! Estou bem aviado!

--Ande, vamos!

Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente

a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e

gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em

fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o

seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a

dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o

escutavam.

Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave

perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber

urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação

feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos

mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a

sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar

doutoral, num francês correctíssimo:

--Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia

secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente,

racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar

a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que

puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das

relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos

dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.

--Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de

tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vélhos

ouvintes.

--Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das

latitudes, dos climas,--aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria

pupila azul momentâneamente acesa.--Nada há aí de arbitrário. Tudo

obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o

segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que

se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente

opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente

diferenciados, na _tessitura_ incomovível dos quais se vão manifestando

e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no

estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o

celta e o latim, entre o mosárabe e o português...--E aqui, enviando uma

terna olhada ao Silveira:--É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à

sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.

O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.

Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal,

que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:

--Poderias conceder-me um momento, papásinho?...--E logo, um pouco

perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:--Ah, perdão... mas eu

não queria desarranjá-los.

Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé,

aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em

branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e

cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com

simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe

interpusera no caminho.--Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora

da casa»,--sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes

seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo,

onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste

o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a

família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de

abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha,

Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em

repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso

protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira,

entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propósito...--E,

trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o

salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.

O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam

apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro

calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família

_tout-à-fait distinguée_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se

logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha _à outrance_

insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D.

Catalina corroborava, explicava então,--que era argentina, aparentada

ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica

que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de

_chacareiros_ sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma

viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propósito, iam

preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos

comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre

os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da

Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho

Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês,

acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo

aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um

critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por

vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do

espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.--Que

ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente

lançado e superiormente belo.

--É certo. Até as mulheres...--arriscou, com instintivo acêrto, o

Silveira.

--É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua

arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do

mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua

tímida reserva habitual, singelamente:--Mas tambêm, a propósito de arte,

deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido

estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado

sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado

de _savoir-faire_ em que os rasgos de génio são espontados como se

castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a

espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá

voltar a restituir-lhe.

--O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana,

_ché_?--acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.

--Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.

O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna.

E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e

travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que

os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a

presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre

os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e

desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o

Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú

e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.

No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas,

falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia,

na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas

perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e

espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na

mesma toada modesta e simples:

--Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a

deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que

discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.--E com a expressão

sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:--Eu não sei...

talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e

monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário

dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão

de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de

iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos

invariáveis _coups de théâtre_ e os mesmos cansados e gastos

espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada

passo.

Amor Crioulo vida argentina · 第 15 / 22 题