Na manhã seguinte, ao _lunch_, já ao lado de cada talher, no comedor,
havia a lista dos passageiros e do pessoal de bordo, em papel
assetinado, impressa lindamente, e, junto, o Programa detalhado _of
games and sports_ para durante a viagem. A primeira sessão,--jogos sôbre
a tolda,--realizar-se-ia já nessa mesma tarde. Por isso, o Silveira
havia visto, logo de manhã, um grande quadro negro posto a prumo no
_Social Hall_, o qual era destinado à inscrição geral dos jogadores, e
que em menos duma hora aparecia abundantemente garatujado de caligrafias
exóticas, hieroglifando nomes bárbaros. Agora, no comedor, o Silveira
demorava com particular agrado a atenção sôbre a beleza daquela
composição tipográfica feita a bordo, e no íntimo rendia o seu mais
admirativo preito à celeridade e à limpeza como tudo ali assim
caminhava.
A seguir, e quando, postos de lado a Lista e Programa, desdobrava o
guardanapo para principiar a comer, o Silveira notou que o tenente
Euclides o mirava com uma expressão singular, entre alviçareira e
irónica, alegremente. E como a insistência maliciosa dêste prazenteiro
olhar se prolongasse, levemente intrigado êle então aventurou:
--Como o nosso Euclides está hoje contente!
O brasileirito fez uma pausa de importância, e depois olhando-o fito,
com um cocegante ar de mistério:
--Tenho uma grande novidade a dar-lhe!
--Coisa bôa?
--Bem agradável, creio, lhe deve ser...
--Homem, diga lá! desembuche,--comandou, já tambêm interessado, o
Contreras dando um murro na mesa.
Porêm, numa suave negativa de cabeça, o tenente Euclides:
--Nada! O meu amigo perdoará... mas é assunto só p'r'os dois. Não pode
ser...
O Silveira, razoávelmente intrigado, reptava-o a que falasse. Curioso
por igual mas comedido, o nobre Mafiori, num protesto mudo de discreção,
levou a mão ao peito, fazendo luzir as unhas. Porêm, a tudo resistiu a
alviçareira e enigmática expressão do brasileiro, que se manteve
impenetrável.
Por fim, quando em cima, no salão, o Silveira, devorado de impaciência,
voltou a interpelá-lo, o bom Euclides aclarou:
--Não sabe você?... Já sei quem é o nosso misterioso argentino!
--De-veras!?... Falou com êle?
--Sim! falei...
--E com as filhas?
--Tanto, não. Mas poderá você fazê-lo... Está aplanado o caminho.
--Então? então?...
E ante os olhos interrogativamente abertos e a bôca espectante do
Silveira, o amigo Euclides segredou-lhe então, por entre cautas miradas
em tôrno, espaçadamente,--que se tratava, não dum argentino de nascença,
mas dum vélho escandinavo, o dr. Justus Wimeyer, há trinta anos
estabelecido no formoso país Del Plata, para onde viera, moço ainda,
exercer a advocacía, e onde fôra cumulativamente jornalista e pedagogo,
sendo agora professor jubilado da Universidade de La Plata, grande
proprietário no norte e homem de fortuna.
--Como diabo soube você tantas coisas?--exclamou, maravilhado, o
Silveira, sacudindo a cabeça numa comoção de espanto.
--Pelo comandante do vapor, que mo apresentou,--o Euclides aclarou
singelamente.
--E que santo fez êsse milagre?
--Milagre nenhum... É que o homem é um grande filólogo, pelos modos;
conhecedor profundo da especialidade e tendo a mania da derivação
scientífica das línguas. Quere obter certas indicações prosódicas e
sintáxicas sôbre o português. Uma madureza como outra qualquer.
E, dizendo, Euclides Pereira ria bonachonamente. Mas, sôbre brasas, o
Silveira:
--E depois? e depois?...
Que, depois,--continuou, aprazivelmente irónico, o brasileiro,--depois,
a pretexto de êle falar português, aquele celebrão, rompendo com a sua
engomada reserva, pedira para ser-lhe apresentado. E vai então êle, para
se descartar da estopada e simultâneamente fazer um serviço a um amigo,
escusára-se, alegando a própria incompetência, e inculcára-o a êle,
Silveira, como um chavão na matéria.
--O quê!?--bradou êste, num salto de pavor, mas no íntimo radiante.
--Assim mesmo!--confirmou jubilosamente o amigo.--A estas horas você é
considerado pelo homem como um verdadeiro achado. Que mais quere?...--E
levemente mordaz, batendo-lhe no ombro:--Agora, veja lá como se porta.
Olhe que eu disse que você era um grande professor.
--Quere não que a fez fresca!--lamuriou, atarantado, o Silveira,
rascando a testa.--Indicações prosódicas, sintáxicas... sei lá o que
isso é! Estou bem aviado!
--Ande, vamos!
Foram encontrar o dr. Wimeyer no mais discreto recanto do salão, frente
a uma mesa, sentado gravemente. No seu invariável traje negro, e
gordote, rosado, o sulco devastador das múltiplas rugas cortando em
fundas ranhuras a descaída oval do rosto totalmente escanhoado, com o
seu ar didáctico e tranqùilo êle parecia desfiar coisas transcendentes a
dois desconhecidos, igualmente vélhos, que num religioso êxtase o
escutavam.
Mal que viu aproximar-se o tenente Euclides com o amigo, o grave
perorador interrompeu a douta parlenda e ergueu-se, a receber
urbanamente os recêm-vindos. Houve uma ligeira tremura de aproximação
feliz no seu primeiro apêrto de mão ao Silveira. E, depois de todos
mútuamente apresentados, e convidados o Silveira e Euclides a
sentarem-se, retomando a palavra, o dr. Wimeyer explanou com grave ar
doutoral, num francês correctíssimo:
--Eu estava expondo a êstes srs. a minha teoria sôbre a morfologia
secular das línguas. É a química do pensamento. É uma coisa evidente,
racional, matemática, infalível. Falta-lhe um novo Lavoisier a consagrar
a sua axiomática divulgação pelo mundo... As línguas não são mais do que
puros agregados... atómicos, por assim dizer. Creiam nisto... É das
relativas combinações e reacções dos elementos radicais e fonéticos
dumas e outras que deriva a seriação fatal do seu parcelamento.
--Mas, como se explica então a formação caprichosa, arbitrária, de
tantos idiomas e dialectos?--aventurou, com timidez, um dos vélhos
ouvintes.
--Ora essa! São as migrações, são os embates dos povos, é a acção das
latitudes, dos climas,--aclarou o vélho pedagogo com decisão, a fria
pupila azul momentâneamente acesa.--Nada há aí de arbitrário. Tudo
obedece ao jugo imutável de grandes leis de que ando perseguindo o
segrêdo. São afinidades que se exteriorizam, são electrons étnicos que
se expandem. E são êstes biológicos reagentes que lenta e fatalmente
opéram o desdobramento das raízes primitivas em grupos progressivamente
diferenciados, na _tessitura_ incomovível dos quais se vão manifestando
e impondo então modismos e qualidades peculiares, que lá residiam já no
estado latente. Vejam, por exemplo, entre o sanscrito e o grego, entre o
celta e o latim, entre o mosárabe e o português...--E aqui, enviando uma
terna olhada ao Silveira:--É sôbre o que eu tenho que pedir bastante à
sua amabilidade, meu confrade ilustre, meu nobre amigo.
O Silveira fez-se pálido e tartamudeou um vago assentimento.
Veio tirá-lo do embaraço uma cantante voz feminina, clara e virginal,
que junto do dr. Wimeyer e no mais puro francês, aventurou com meiguice:
--Poderias conceder-me um momento, papásinho?...--E logo, um pouco
perturbada e dobrando-se, ao notar a assistência:--Ah, perdão... mas eu
não queria desarranjá-los.
Perante a deslumbrante aparição, o Silveira pôs-se de salto em pé,
aturdido, louco de prazer. As fontes latejavam-lhe, via tudo em
branco... Mas já o encadernado professor estava de pé tambêm e
cortêsmente solicitava vénia para ausentar-se. Apresentou com
simplicidade à filha o Silveira, que, mudamente implorativo, se lhe
interpusera no caminho.--Era Iréne, a mais nova das duas... «A doutora
da casa»,--sublinhou o pai com afável desvanecimento. E daí a instantes
seguiam os três, fácilmente acamaradados, para a coberta de bombordo,
onde o dr. Wimeyer, na sua experiência de vélho viajeiro e por ser êste
o flanco menos batido do sol, havia sensatamente marcado cadeiras para a
família. Aí estavam, reclinadas molemente numa atitude elegante de
abandôno, a espôsa do professor, D. Catalina, e a filha mais vélha,
Dolores,--esta lendo uma qualquer Revista ilustrada, aquela imersa em
repousada beatitude. Pai Wimeyer apresentou-lhes com um sorriso
protector o Silveira, a quem fez mesmo depois sentar na sua cadeira,
entre D. Catalina e Irene.--Que sorte!... nem de propósito...--E,
trocadas algumas palavras a meia voz com a mulher, pronto voltou para o
salão, a reatar a sua voluntária catequése interrompida.
O Silveira ficou então só e inteiro senhor do campo, na sua tam
apetecida situação junto das três senhoras. Encareceu com lisonjeiro
calor o seu inexprimível prazer de travar conhecimento com uma família
_tout-à-fait distinguée_ como aquela: assim lho haviam afirmado e via-se
logo... Na mais amável solicitude, buscava pela louvaminha _à outrance_
insinuar-se. E com um desvanecimento entre altaneiro e ingénuo, D.
Catalina corroborava, explicava então,--que era argentina, aparentada
ainda com os Alvear, uma das raras famílias de aristocracia autêntica
que podiam contar-se no seu embrionário, no seu mesclado país de
_chacareiros_ sem passado e adventícios sem escrúpulos. Regressavam duma
viagem de recreio, de seis meses, pela Europa.--E, a propósito, iam
preguiçosamente arrastando êsse mais ou menos sabido travamento de vagos
comentários, de estribilhos banais, tôda a sorte de frases feitas, sôbre
os encantos de Paris, as maravilhas da Suíça, as preciosas coisas da
Itália. Neste terreno fácil de consabidas baboseiras, o tacanho
Silveira, que tinha viajado algo e não era de todo alheio ao francês,
acompanhava as três senhoras lindamente. Mas, à medida que o diálogo
aquecia, o espírito vivo e original de Irene estremava-se, tinha um
critério seu, lampejava em pontos de vista pessoais, em contornos por
vezes imprevistos. Discreteava com elevação sôbre coisas da arte e do
espírito. Em tôda a Itália, nada a cativára tanto como Florença.--Que
ambiente divino! Ali tudo era fino, harmonioso, tocante, puramente
lançado e superiormente belo.
--É certo. Até as mulheres...--arriscou, com instintivo acêrto, o
Silveira.
--É a cidade de mais deslumbrante e copiosa tradição espiritual. Da sua
arte divina a mesma Natureza é tributária. É o coração do
mundo!--epilogou Irene com brio; e depois, voltando a fechar-se na sua
tímida reserva habitual, singelamente:--Mas tambêm, a propósito de arte,
deixe-me dizer-lhe que admiro muito, que aprendi imenso neste rápido
estudo da arte europeia, não há duvida. Oh, mas é uma arte demasiado
sábia, uma arte tôda facturada e etiquetada de antemão, um curso forçado
de _savoir-faire_ em que os rasgos de génio são espontados como se
castigam as diabruras dum menino mal educado. Falta-lhe a
espontaneidade, que sómente o viço criador dos países novos poderá
voltar a restituir-lhe.
--O quê! tu crês na possivel afirmação duma arte americana,
_ché_?--acudiu a irmã de Irene, parando de lêr, num desdem incrédulo.
--Tanto como creio em Deus! É uma questão de tempo.
O Silveira prometeu-se interiormente consultar sôbre o caso o Mackenna.
E grado e grado a conversa do grupo tomava vida, côr, interêsse, e
travava-se mais quente e familiar agora, no relativo isolamento em que
os ia deixando a debandada geral; pois tudo correra a estibordo, a
presenciar o primeiro número dos jogos sportivos. E é de saber que entre
os mais entusiastas e ligeiros _aficionados_ passou a pequenina e
desmanchada figura de Ramón Alvarez, o qual, ao ver assim de súbito o
Silveira já mano a mano com as três sechoras, teve um saltinho de angurú
e fechou num piscar de olhos patusco a parópsia do seu espanto.
No pequenino grupo amigo de bombordo, depois de arte e de modas,
falou-se na variedade, na magnificência e beleza da paisagem europeia,
na doirada opulência da sua luz, nas carícias infinitas do mar, nas
perspectivas majestosas da montanha. Mas tambêm aqui a longa e
espiritual Irene discordou, e erguendo froixamente o braço, sempre na
mesma toada modesta e simples:
--Aí está outra coisa... Quanto a esplendores de paisagem, a
deslumbramentos e pontos de vista inéditos, hão-de-me permitir que
discorde; porêm tenho minhas restrições a fazer.--E com a expressão
sincera e calma, sob o olhar atento da assistência:--Eu não sei...
talvez seja por efeito de haver nascido num país horrivelmente chato e
monótono, mas a verdade é que no meu conceito a Natureza, ao contrário
dessa apregoada opulência, dessa mirabolante fecundidade e viva sucessão
de aspectos que tôda a gente lhe atribui, é duma indigência manifesta de
iniciativa e invenção, não consegue renovar mais que os mesmos
invariáveis _coups de théâtre_ e os mesmos cansados e gastos
espectáculos, seja qual fôr a altitude ou o clima. Repete-se a cada
passo.