Muita alegria diz tambem aquella pequena chapa com sete lettras a

preto... Diz certamente; mas não a alegria sã e completa dos felizes que

não teem ausentes! Quanta saudade de mãe amargurada, que ao deitar a sua

carta na caixa sentirá a mesma impressão dilacerante de lançar com ella

o coração!... Quanto conselho de pae, martelado a soluços!... Quanto

desespero de namorada confiando ao acaso das viagens o seu pobre amôr

feito em frangalhos!... Quanta tristeza n'uma phrase em que se pergunta

pelo anjinho, que se viu nascer e que longe cresce e se faz _sabio_, sem

que os nossos olhos o envolvam de caricias!... Quanto beijo dado no

vacuo; quantos braços estendidos a pedir soccorro, cahindo inertes sem

ter que abraçar! Quanta mentira, quanto desespero, quanta saudade!...

Tudo isto passa pelo meu espirito annuviado, dando-me a gelida impressão

de temôr!

Até os pobres carteiros, cuja miseria reclama esportula, teem um modo

auctoritario de bater ás nossas portas. Queiras ou não queiras, ahi te

vae a carta de preto que faz refluir todo o sangue ao coração, a phrase

crúa que despedaça amizades, o rendilhado fementido d'um affecto que

sentimos morto.

Sobre uma carta encontrada, toda uma vida se pode refazer; desenhar

justamente um caracter; ter quasi palpavel, diante dos nossos olhos, a

figura sorridente ou lacrimosa, enthusiasta ou fria, resignada ou

inquieta, que ao papel confiou as suas impressões. Mas nenhuma como

esta, que uma piedade estranha roubou á bruta indifferença d'um pae, dá

a flagrancia d'uma alma.

Por delicadissima offerta de quem sente a vida como eu a sinto e

comprehende como eu comprehendo a amargura dos que soffrem, ella me

chegou ás mãos, tal qual a vou copiar:

--«*** (Bretagne) le 8 Fevrier 1892.

_Cher Père_

Je rèponds a ta lettre reçu le 2 Fevrier nous sommes en très bonne santé

nous désirons que toi il en soit de même. Nous avons reçu avec beaucoup

de plaisir les details de ta situation soit sur le passée comme sur le

prèsent. Je s'ai que tu n'est pas en peine pour diriger tous les travaux

comme ils se font en France. Pour faire la cuisine tu n'est pas noice

l'on doit être content d'avoir un aussi bon cuisinier que toi surtout

pour lapin et lievre. Avec 3 jambons et du lard tu en a là pour prépare

beaucoup des liévres.

Je pense que tu dois boire du vin j'ai entendu dire qu'on recolté du vin

très renommé. Je suis très satisfaite que tu ai fait toutes ces

emplettes car elles sont bien utiles. Mais maintenant que tu as toustes

vètements nécessaires, puis qu'il y a beau coup du gibier cela doit

servir pour une bonne parti de ta nourriture alors une personne seule

avec le gage que tu gagne si j'etais a ta place il me semble que je

tacherai moyen de mettre un peu d'argent de côté car si plutard tu en

avant besoin tu aurai là ce qu'il te faudrai car l'argent ne nuie

jamais, je ne pense pas. Cher père de te fâche quoique je te donne ce

petit conseil mais tu s'ai l'argent est bien utile sans cela ou ne peut

rien faire. Comme tu me dis que tu as acheté une couverture de laine

dans ta prochaine lettre tu me dira si tu a un appartement ou tu fait ta

cuisine et si tu couche dans un lit tu me l'expliquera. Tu connais donc

le roi du Portugal? ce serait un grand honneur pour toi si Sa Magésté

venait chasser avec toi ainsi que tu me le dit mais je crois que tu ma

dit cela pour me faire rire mais peut être il n'y a pas beaucoup des

chasseurs en Portugal. Fait-on la chasse aux macreuses comme ici toi qui

aime tant cette chasse lá tu n'en parle pas. Comme tu me parle de la mer

vois-tu la Mer Méditerranée ou l'Ocean Atlantique? Tu me dira aussi si

tu parle Français ou Portugais. Tache moyen de conserver ta bonne place

et du commerce ne m'en parle pas car c'est le commerce qui nous a

occasionné tous nos grands malheurs. J'ai a te dire qu'il y a appeine un

an que j'ai commencé un petit jardin dans la cour du cellier je vai t'en

donner un aperçu a partir du portail jusqu'au 1.er figuier j'ai fait une

palissade, lá j'ai planté 3 rangs d'arbres fruitiers, j'ai fait un petit

chemin qui fait le tour des arbres, et j'ai fait des anglaises, lá j'ai

planté tout éspeces de fleurs ce serait trop long pour te dire tous les

noms des fleurs que j'ai planté, tout cet été qui s'ai les fleurs que

j'ai eu pour porter á l'Eglise. J'y ai mis aussi des fraisiers, des

grosselliers, des souches pour faire grimper en un mot rien n'y manque

que d'avoir un puits. Comme je ne sort jamais pour aller en promenade je

vai passer beaucoup des moments a voir mes plants les arroser lui

enlever les mauvaises herbes et cela me distrait beaucoup. Depuis le

mois de Novembre mon jardin est plein de violettes. Le climat du

Portugal doit être plus chaud qu'ici il ne doit sans doute pas tombé de

neige, mais pour nous il fait un hiver pluvieuse nous n'avons seulement

pas eu le vent du nord nous voyons la neige sur les montagnes mais il ne

fait pas froid. Si tu ne peux pas ecrire pour la fin des mois jusqu'au

mois d'Avril ou Mai c'est trop loin tu peux ecrire vers le millieu de

Mars le plustard. J'ai donnè des nouvelles a ma Tante e mon Cousin. Ton

ami Gilbert vient a la maison de temps en temps il nous demande toujours

de tes nouvelles car il t'aime bien mais Gilbert a été bien éprouvé

comme nous, tu peux penser comme il est desolé il y a plus d'un an qu'il

a pérdu sa pauvre fille.

Je termine ma lettre cher père en t'embrassant du fond du coeur ma mère

et moi.

Ta fille--_Celeste_ ***

Quand même je te parle de Gilbert n'y écrit pas tant a lui comme a

d'autres personnes avec moi il y en a assez.»

Com os seus erros d'orthographia e a sua completa ignorancia de

grammatica, com a maneira simples, natural e humana de dizer o que

sente, é a mais delicada, a mais dôce, a mais sentida nota que uma

obscura alma de rapariga tem feito resoar no meu coração.

Como ella se desvanece, primeiro, com os talentos culinarios do _Cher

Père_. Depois vem o seu instincto economico de _petite mére_, a dar tão

bons conselhos ao pae de má cabeça--que parece elle foi...

O espanto da pobre rapariga, o orgulho que sorri entre duvidas, de que,

elle conheça _Sa Magesté_!... Perdida n'um cantinho da Bretanha, na sua

grande França republicana, essa ideia será para ella qualquer coisa de

grandioso e vago como os radiosos contos de princezas e fadas de que a

sua infancia foi entretecida.

Nem tu sabes, touquinha branca d'azas engommadas, como o sol do

pequenino paiz onde teu pae refaz a sua fortuna desbaratada, engrandece

os humildes e banalisa os grandes!

Ignorante _Gaud_ d'olhos côr da flôr do linho, pondo com grande esforço

de memoria a pena nos dentes, a consultar a sabedoria da escola: _vois

tu la Mer Mediterranée ou l'Océan Atlantique?_

O grande Atlantico, minha querida!--a vastidão do mar que deu ao

insignificante paiz, que mal te lembras de vêr no mappa, a vastidão dos

continentes novos!...

Vem depois o horror ao commercio, como um rebate d'incendio...

Comprehendo o teu medo, o teu grande desgosto, pobresita! Estou a vêr a

tua casa muito arranjadinha, com o «_leito á moda da cidade_», os teus

fatos ricos a fazer inveja,--a bella herdeira que tu eras, a chamar

pretendentes!... E d'um instante para o outro, tudo desfeito, como um

sonho de criança! Sim tremer, tremer das más cabeças, no commercio. _Le

pauvre cher Père!..._

Vem aligeirar a carta a linda descripção do jardim, que ficou o seu

luxo, a consolação dos dias tristes passados com a velha mãe a lembrar o

ausente--fugitivo, criminoso talvez?!...

O adoravel perfume, tão fresco das suas arvores de fructo!... E os ramos

de flôres tão variadas que seria longo ennumerar, como na sua

melancholica egreja devem dizer bem, no altar de Nossa Senhora! Mas o

poço que falta lhe faz, á paciente jardineira!

Parece que toda a carta ficou impregnada d'esse aroma honesto de

violetas, que desde novembro enchem o paraizo da voluntaria reclusa.

A vaga impressão de sol que lhe suggere o clima de Portugal... Como

teria ella aqui formosas flôres para cultivar!

Abre-se deante dos nossos olhos a serenidade da sua vida desfeita e

conformada, lendo esta singela carta toda sahida do coração; o amigo

Gilbert visitando a familia, e tão triste, elle tambem, com a morte da

pobre filha!...

Leva-lhe, Céleste, ao seu coval de virgem, braçadas das tuas flores tão

queridas! Leva-lh'as. E será melhor pedires á boa amiga que te deixou,

um logar ao seu lado, na pacificação do vosso cemiterio raso. Com o teu

coração, Céleste, que farás tu n'este mundo de lama e oiro, pobre

querida?!... Pede--aconselho-t'o eu--á filha do teu amigo Gilbert um

logarsinho doce onde te deites socegadamente, com a touca engommada pela

ultima vez, o teu vestido dos dias felizes, os sapatinhos que nunca

terão uso. É o melhor que tens a fazer, se não queres o teu coração

gelado pela indifferença alheia, como a neve que nas montanhas alveja

deante dos teus olhos sonhadores.

O susto em que vives, sympathica desconhecida, que eu comprehendo e amo.

Nem o teu amigo Gilbert, nem esse mesmo deve saber ao certo onde pára o

filho prodigo!

Que despedaçadores martyrios e desgostos; que mortificantes saudades

curtidas longe!...

Setembro de 96.

VICTORIA

VICTORIA

Victoria.

Tinha este nome triumphante, que suggere ao nosso espirito manhãs claras

de sol a bater nas espadas polidas dos guerreiros, musicas estridulas

que fallam de sangue de heroes e de glorias coroadoras... E comtudo nada

mais triste do que a sua face de quasi idiota, o seu olhar inexpressivo,

o seu rir incolôr!

Ainda aos domingos era boa de vêr: as saias de chita muito rodadas, o

lenço claro, o casaquito novo; o seu riso até era mais infantil e mais

sonoro. Mas nos outros dias fazia pena, mesmo muita pena, vê-la tão

pobresita, quasi miseravel--a saia de riscado muito remendada, o cabello

a sair-lhe do lenço, rôto pelo cantaro sempre em equilibrio sobre a sua

cabeça tão vazia.

Dava agua ás casas ricas, por trez tostões ao mez. Senhor, como se é

infeliz; como póde alguem viver assim, n'um mundo em que outros teem

tanto de sobejo!

A mãe, viuva muito nova, ficára com uma ranchada de filhos, que fôra

creando á custa de muito trabalho. Depois, todos grandes, os rapazes

começaram de morrer tisicos; e as raparigas, as que tinham prestimo,

estavam a servir para Lisboa. Ella, a desditosa, para alli ficára

abandonada no casebre enegrecido, feito de pedra solta e telha vã, onde

todos os seus tinham nascido e morrido.

Fizera-se aguadeira--para que mais poderia servir tão inferior, tão

desageitada? E mesmo isso lhe ia a faltar: os ataques não a poupavam e

os cantaros partiam-se todos os dias, n'um desespero para as donas de

casa que ficariam pobres com tanta despeza.

E a Victoria, vá d'entristecer, já por vezes a encontrava sentada no

pateo, na ansiosa espera d'uma esmola de pão...

Uma manhã--linda manhã que ella era!--na villa muito alegre, muito

branca, passava um bello ar de dia festivo. Manhã domingueira. O sol,

nada quente, no rigor do inverno. Da serra da Estrella vinha uma

reverberação de neve immaculada e uma aragem fininha, aguda, que fazia

bem.

Para a missa passavam as mulheres dos _povos_, vestidas d'escuro, a

capoteira de panno lustroso, o lenço de seda amarello e vermelho. As da

villa afidalgavam-se com os chales de borlas, os lenços de côres mais

finas. E homens e mulheres iam apressados para a missa das onze--a

ultima.

Criança, eu, á janella, olhava com certo prazer o movimento do largo,

quasi deserto áquella hora nos dias de trabalho.

Em frente, a estrada em sombra era toda branca ainda da geada da noite.

Da fonte vinha uma grande alegria de vozes femininas, que riam alto,

n'um bem estar de vida satisfeita.

A Victoria estivera lá, fallara e rira como as outras; com o cantaro á

cabeça, o fato dos domingos bem aceadinho, tinha quasi um ar gentil,

quando ia passando.

Preparava-me para lhe dizer adeus, n'uma alacridade d'amigas velhas. Eu,

que sempre amei os humildes, os infelizes, entendia-me com a pobresinha.

A infantilidade dos meus poucos annos comprehendia bem a eterna

infantilidade da sua alma inferior.

Mas, bruscamente, ella parou, estendeu os braços para a frente...--e não

me esquecerá nunca a curva que o cantaro descreveu, indo despedaçar-se

na terra endurecida, ao mesmo tempo que o corpo, n'uma rigidez

cadaverica, caia para traz... E a cabeça no chão teve uma pancada secca,

d'arrepiar!

Correram de todos os lados a soccorre-la, a levanta-la, mas o ataque

epileptico veio-lhe todo inteiro n'uma loucura estrebuchante de

desarticulações e esgares, n'um desespero de soffrimento que allucinava!

Na cara feiasita e habitualmente tão parada da pobre rapariga, passaram

todas as expressões, as mascaras de todos os nossos sentimentos e

paixões, de todas as nossas alegrias e lagrimas.

Todo um mundo cabe na cabeça d'um pobre doido.

Estarrecida de pavôr, eu ficára-me a olha-la muito fixamente, a seguir o

estranho espectaculo. Agarrava-me ás grades da varanda, como se n'uma

vertigem algum vento de loucura me fosse levar tambem. Que terror

infantil! N'um empedramento de irresolução pela piedade e pelo espanto,

eu permanecia alli, sem gritos na bocca e sem lagrimas nos olhos! O meu

pequeno coração modelava-se dolorosamente n'uma concentração profunda do

soffrimento alheio! É por isso que, olhando para dentro de mim mesma, eu

sempre encontro, nitidas, gravadas a frio, eternas, soffredoras

sempre,--as figuras tragicas dos que vi padecer e chorar...

Quando levaram a Victoria, já sem sentidos, todo o seu fato dos

domingos, cuidadosamente lavado e guardado com tanto amôr, ia em

farrapos!

Miseravel criatura, victima inconsciente, para quem a unica alegria da

vida será a morte redemptora e pacificante!...

Só então ella dormirá em paz, no cemiterio melancolico da terra agreste

e linda que unicamente conheceu na vastidão do mundo!... Os pinheiros

rumorejantes, as pedras, as flores, as coisas inanimadas, comprehenderão

melhor a sua pobre alma inferior.

Ás vozes mudas da natureza juntar-se-ha a sua voz--queixume de triste

desdenhada pelo egoismo dos homens.

18 de junho de 96.

A TERRA

A TERRA

Quando um homem se apega á terra, ella é por vezes d'uma ingratidão que

chega a revoltar. Com a sua impassibilidade de coisa morta irrita o amôr

até ao fanatismo, leva á loucura.

O Manuel Carpinteiro não tinha mulher, nem filhos, nem sobrinhos,

ninguem que lhe ajudasse a levar a vida alegremente, que pelas manhãs o

acordasse com sonoras alvoradas de risos.

Vivia só, n'um casinhoto ao cimo da villa. Elle mesmo fazia o caldo e

cosia umas batatas; a brôa comprava-a de caminho em casa da sr.ª

Candida, quando á noite recolhia d'enxada ao hombro, tristonho,

indifferente, para alli uma coisa sem nada lhe importar. Passava pelas

mulheres com uma completa indifferença de desconhecido. Era um simples

cavador, mas chamavam-lhe _carpinteiro_ porque o pae o tinha sido; já em

garoto alcunhavam-no de _Manél do carpinteiro_; depois, com o tempo, por

abreviatura, ficára com aquelle nome.

Á custa de muita avareza e muita miseria arranjou meia duzia de vintens,

e tanto pediu, tantos empenhos metteu, que na camara lhe emprasaram um

bocado de serra. Mas, como a pobresa é muita n'aquella região, o povo

miseravel toma os maninhos como proprios. Ninguem lhes pode tocar, sob

pena de revoltas e gritos do mulherio, dos _sem eira nem beira_, que por

vezes teem percorrido a villa esbracejando, cabellos desgrenhados,

lenços escarlates a agitarem-se como bandeiras de guerra.

Os invernos são rudes e os desgraçados vivem da serra como animaes

inferiores. Queimam pelas noites bravas d'invernia os sargaços verdes,

que enchem de fumo os casebres e nem ao menos se desfazem crepitando

risos d'oiro. Vendem aos lavradores mólhos de fetos para comprarem o pão

de cada dia e as ovelhas teem o seu magro pasto por essa serraria além,

entre pedreiras e pinhaes.

Temendo um levantamento, os graves senhores da camara emprasaram ao

Manuel carpinteiro uma courella de terreno inculto--aquillo que não

prestava para os outros.

O povo todo explodiu n'uma sonora gargalhada:--que ia fazer aquelle

maluco com um bocado de maninho tão secco? Por mais que se matasse nunca

lhe daria senão uma reles terra centeeira...

O Manuel arreliou-se fortemente com esses ditos e, cabeçudo como um

verdadeiro beirão, arranjou uma cabanita, no meio da belga e alli vivia

como um selvagem.

Trabalhava desde que o sol vinha, irrompente, até que se escondia nos

poentes gloriosos dos dias longos do estio. No inverno apanhava a pé

firme as chuvas, a neve, o vento e o frio. Era um labutar sem descanço,

e ella, a ingrata, pagava-lhe com umas anemicas paveias de centeio, que

ondeavam pallidamente, mostrando a terra branca de seixos como dentes

descarnados de rapariga tysica. Elle mesmo assim a adorava, a essa

belguita que ia fazendo com o seu trabalho, regando com o suor do seu

rosto. Em metade plantou um bacello, mas a uva não amadurava; deu-lhe um

vinho _palhete_ muito leve, muito agradavel, mas para vender era uma

desgraça--nenhum negociante lhe pegava. E no emtanto elle amava-a como

se fosse uma mulher formosa, sempre prompta a pagar-lhe em sorrisos os

cuidados de que a rodeava.

O que lhe falta é só agua,--dizia elle sombriamente--o mais é uma terra

nova, boa de lei. E continuava a revolve-la com a ansia de quem procura

thesouros. Vinham homens entendidos, os _védores_, ensinar o bom sitio

para fazer os poços, mas tinha que os entulhar logo, quasi desanimado.

Agua, onde é que ella apparecia alli?! Só a tal profundidade, que era

absurdo pensar n'isso.

E o povo a rir, a rir perdidamente do desgraçado!..

Picado por esses risos, foi hypothecar a belga e metteu jornaleiros a

cavar, até darem com o sangue da terra. Pedras e só pedras é que

appareciam, depois, rocha viva, que foi preciso despedaçar a tiro. E

elle chorava, o pobre homem!

A face distendeu-se-lhe pela primeira vez, n'um sorriso satisfeito, no

dia em que um delgado fio d'agua borbulhou no fundo do poço. Balbuciava

coisas sem nexo ria por entre lagrimas que lhe avermelhavam os olhos.

Nem parecia o mesmo; a alegria quasi o endoideceu. Depois de ter o poço

completamente forrado, tinha ainda pedra de sobejo para murar a territa;

e elle tudo era pensar em grandezas.

Porque o povo começava a inveja-lo, quiz ir até ao fim, começando pelo

largo portal para carro...

Mas a terra não dava os juros a dez por cento que o triste pagava--ella

que apenas rende, quando muito bôa a cinco. Fallavam-lhe em penhoras,

desgraças... e o rude camponio começou d'andar aturvado de juizo.

Passava dias a olhar o fundo do poço onde a agua se mostrava estagnada,

negra, e ao mesmo tempo fascinante--como a prometter-lhe descanço no

interior da terra bem amada.

A propriedade era tão nova que nem os fetos denticulados em primorosa

renda o revestiam de verdura, nem a avenca delicada lançára ainda entre

o musgo as suas hastes muito finas!...

E horas e horas que elle levava sobre uma fragil tábua, agarrado á

_varella do engenho_ com os seus braços cabelludos e fortes, fazendo

descer o balde ao fundo para o tirar cheio d'agua fria, que, entornada

na piasita ao lado, se ia perder na terra empapada!...

Queria muita, muita agua--era a sua ideia fixa. Parecia-lhe que só assim

ella lhe daria todo o seu dinheiro. Os paus do primivo engenho,

friccionados no balanço compassado, rangiam lugubres soluços, atiravam

para o espaço uns gemidos estertorosos.

O desgraçado até já mettia medo, com os olhos encovados e emfebrecidos,

com a magresa musculosa do seu corpo affeito a trabalhos e fomes.

Levaram-n'o então para a villa; mas os cuidados d'indifferentes servem

de pouco. Ninguem mesmo se atrevia a guarda-lo de noite porque as

passava a gritar--que o diabo estava alli, que um gato preto o queria

afogar, que lhe roubavam a fazenda!...

Mal o sino das ave-marias dava a ultima badalada--que se envolve já nos

murmurios nostalgicos da noite que se avisinha; o chocalhar dos rebanhos

recolhendo ao curral, os carros chiando torturadamente, as cantigas e os

risos das raparigas na fonte, as rãs, os grillos e ralos que dispertam

para a sua faina palreira--fechavam-lhe por fóra a porta do casebre e

deixavam-no sósinho esbravejar e gritar á vontade.

Até que um dia saltando da cama conseguiu arrombar a porta e a correr

chegou á propriedade.

Quando de manhã deram por falta do Manuel, foram procural-o á fazenda.

Decerto que não fugiria para outro sitio. Todo o camponez comprehende

aquella loucura. Foram encontra-lo no fundo do poço. Um rictus medonho

mordia a sua face desvairada--nem a morte conseguira pacificar aquella

physionomia roida de ambições e terriveis desenganos!...

No fim de tudo, quem ganhou foi o uzurario que lhe emprestára o dinheiro

e ficou com a belga, já feita, pela divida pequena do pobresito.

Até faz pena ve-la agora, com o seu portão de ferro pintado de fresco, a

nora cantante, o ar de quinta de ricaço que vae tomando.

Dezembro de 76.

FREIRAS

FREIRAS

Na pallidez do poente, d'um azul cinzento, a igreja destacava-se em

negro na elegancia da sua torre manuelina.

Em baixo, o largo era todo em festa; as luzes começavam a accender-se,

pondo aqui e alli sorrisos d'oiro.

Olhando a massa sombria do convento, uma vaga tristeza me ganhou o

espirito. Lá em cima, na pequena janella gradeada, quantos lindos olhos

terão chorado, vendo o mundo com o tumultuar das suas paixões e risos,

alindado pela ignorancia das suas almas prisioneiras?!...

Por mais artistico e lindo que seja um convento de frades, não me faz

sonhar como os de freiras. Se eu comprehendo tão bem o martyrio das

pobres almas femininas encerradas duplamente pelas grades e pela

ignorancia!...

As que fugiram do mundo, porque n'elle soffreram, essas não me fazem

tanta pena--tinham para companheira da sua soledade a doçura amarga das

lagrimas, que recordam venturas idas...

Mas, pobres entes muitas vezes votados antes de nascer á frieza

claustral, arrepia-se-me a carne só em pensar nas victimas inconscientes

d'esses sacrificios barbaros!

Conta-se que aos quatro annos Santa Margarida d'Hungria tomou habito,

tendo ido para o convento ainda com a ama. Aos seis trazia cilicios e

aos doze professava--«já fadada para santa tinha vindo» accrescenta o

chronista.

Mas as outras, que fossem mulheres verdadeiras, de carne e nervos e

sangue a palpitar vida sadia e humana!... Ah, essas pobres plantas

criadas em subterraneos, cahiriam estioladas na frescura dos annos.

Então--sem mesmo serem choradas--iriam para a terra resgatar a mocidade

em perfume de flores... Outras, affazendo-se á solidão, vivendo na

phantasmagoria luminosa do _flos sanctorum_, iriam de degrau em degrau á

loucura santificada. E, mortas tambem, seriam adoradas sobre os

altares...

Não sei que doçura tristissima encontra o meu espirito em visitar os

conventos de freiras, em piedosa romaria evocativa!

Aquelle de que eu mais gosto pela belleza da sua architectura

rendilhada, acontece ser hoje um hospital servido por irmãs de caridade.

Ao ver passar ao fundo do claustro deserto a mancha negra dos seus

habitos, não sei que lufada d'outro tempo me enche a alma de sombras!

Calcando essas lages desiguaes, onde tantos corações arquejantes de fé

foram descançar para sempre, uma historia me lembrou, que alguem, que

alli viveu trinta annos, piedosamente me contava:

--Era quasi noite; o céo de purpura, onde o sol agonisava, esbatia-se

gradualmente, vindo morrer n'um loiro cendrado, confundindo-se com a lua

que se levantava em crescente. Duas freiras das mais novas passeavam

pelo claustro, onde, já do seu tempo, tantas esposas do Senhor tinham

ido esconder a face macerada, dormindo o eterno somno.

Que diriam ellas, assim juntas, na hora das dôces confidencias,

deslizando como sombras no silencio religioso do velho claustro?... Que

maguas viriam subindo da memoria longinqua dos seus amores mundanos?...

Que sorrisos e que lagrimas?!...

Uma disse:--«Cheira tanto a terra!»--«Breve estarás com

ella!...»--Respondeu-lhe uma voz formidavel vinda do chão, vinda da

noite, das grandes casas desertas!...

E o caso é que a pobre freira entrou d'entristecer, de cahir n'uma

grande e incuravel doença d'alma, que em poucos dias a levou para o

supremo descanço, fazendo certa a prophecia.

Ainda este convento tinha a belleza incolume das suas columnas em

marmore, a alegria dos grandes dormitorios cheios de luz, o encanto do

côro todo em azulejos e atufado d'imagens santas.

Mas, outro lá para a Beira, onde eu estive uns dias, escuro, enorme, sem

belleza nenhuma, pezando sobre a nossa alma com a bruta espessura das

suas paredes mestras... Ah, n'esse, como seria horrivel viver!

Infelizes: Historias Vividas · 第 3 / 4 段