Imaginem o espanto da pobre mulher, quando a pequena se agarra a ella a

chorar:--que a escondesse, que ella não era cigana! Tinha sido roubada

lá muito longe, n'uma povoação da raia. Seus paes eram ricos--o que

elles a não teriam chorado e procurado por toda a parte!... Havia dois

annos que andava com os ciganos pelo mundo, sem ter podido fugir! Era

raro que elles acampassem em povoado e quando assim acontecia não a

perdiam de vista nem uma hora. N'esse dia a festa do casamento, com a

assistencia do conde, puzera tudo em confusão e ella pudera escapar-se

n'uma aberta. Que a não abandonasse, a senhora Angelica!...--O que lhe

fazia mais horror era o seu proximo casamento com um dos mais lindos

rapazes da tribu! Dois annos a viver com aquella gente e ainda não

pudera vencer a repugnancia que a affastava d'elle cada dia mais! A

inferioridade de raça enchia-a d'um instinctivo tedio, quasi aversão,

por esse sadio rapaz que a escolhera, sem duvida o mais amado das outras

raparigas.

A senhora Angelica era mulher de expediente. Consolou-a como pôde e

levou-a a um sitio isolado, um cabeço árido, cemiterio dos velhos

cavallos lazarentos que os corvos vêem comer deixando os ossos a

branquejar ao sol, tristemente apertado entre pinhaes, onde só ella

conhecia uma gruta formada pelos rochedos sobrepostos--que decerto era a

_Cova da Moira_.

É que uma vez, ainda em solteira, fôra para alli ao matto e descobrira a

caverna. Calára-se com aquillo porque é uma tradição velhissima na

terra: _que entre modorno e modorninho ha sete cargas d'oiro fino,--que

uma moira encantada as guarda, tecendo n'um tear de marfim e chamando

alta noite de luar, por quem a vá desencantar!_... E ella não quizera

dizer a ninguem a sua descoberta, esperando talvez que a moira lhe desse

um dia os thezoiros.

Metteu lá a sua protegida e foi levar-lhe comida á boquinha da noite.

Tres dias a teve escondida alli, com medo dos ciganos. Elles é que,

postos em rebate pela fuga da prisioneira, foram-se andando sem dizerem

nada e sem ninguem lhes pôr estorvos.

Só então a senhora Angelica tomou ânimo, e lá foi, mais medrosa do que

vaidosa da sua obra, sem ter grande consciencia de ter andado bem,

contar o caso ao administrador...

Foi um alvoroto na terra! Toda a gente quiz ir ver a menina, que veio em

triumpho para a villa. Todos lhe queriam fallar e tocar,

perguntando-lhe, cada um por sua vez, a historia, que ella repetia

sempre, contente por poder desabafar as suas máguas. Os que não

conseguiam chegar até junto d'ella abraçavam a senhora Angelica,

davam-lhe os parabens, tinham-n'a já como uma gloria patria, quasi uma

padeira d'Aljubarrota. Ella andava radiante, contando e recontando o

caso.

Nova e maior alegria foi ainda quando chegaram os paes da menina, no

louco enthusiasmo de quem chora uma filha morta e a encontra cheia de

vida e saude.

A senhora Angelica foi bem recompensada, mas sempre me dizia: «que

dinheiro nenhum lhe pagaria o susto em que andára muito tempo,

parecendo-lhe ver ciganos em todos os cantos, punhaes e navalhas

reluzentes que de todos os lados lhe dirigiam ao coração!...

Não era mentira! Tão certo como haver Deus, que aquelle rapaz, que devia

casar com a menina, rondára por alli muito tempo!... Um medo assim! Nem

ella sabia em que se mettera!...»

Esta era a historia da velha. Depois, o que eu compunha e

arredondava!... Muitas vezes visitei a _Cova da Moira_ e não era essa

com os seus lamentos de triste encantada, com os seus cabellos d'oiro,

com o seu tear de marfim, a que me enchia a imaginação. Era a pobre

rapariga fugida aos ciganos, alli sósinha, temendo ser descoberta,

temendo o silencio da noite, a sombra dos pinhaes, os gritos lugubres

dos corvos!... Punha-me no seu logar e pensava: Senhor, como pôde ella

não morrer de susto?!...

Depois, como os amantes infelizes me fizeram sempre muita pena, acabava

por ter dó do cigano que queria casar com a menina e que no dizer da

senhora Angelica por alli rondára muitos annos, como alma penada.

Agosto de 1896.

ALGARVE

ALGARVE

Algarve era o seu nome. Tinha nos olhos leaes uma tal expressão de

bondade, que inspirava logo confiança aos timidos, aos pobres, ás

criancinhas.

Era muito distincto, com seu ar de grande senhor dos tempos passados. Ao

atravessar o corredor para vir deitar-se aos meus pés, dir-se-hia um

velho diplomata acostumado ás etiquetas palacianas.

Não fazia barulho; apparecia junto de nós como uma sombra. Nunca lhe vi

aquella alegria ruidosa que faz bem ver, mesmo nos cães. Era silencioso,

meigo, taciturno--como se uma saudade ou um remorso lhe pesasse na alma.

Ás vezes, quando a dormir, tinha sonhos afflictivos, gemia baixinho, com

estremecimentos bruscos em todo o corpo--como se quizesse lançar-se

n'uma corrida para salvar alguem que visse em perigo...

Todas as tardes sahia. Fechava-se-lhe a porta, saltava pela janella. Era

a unica occasião em que mostrava a energia da sua vontade decidida e

teimosa. Voltava ás dez horas, impassivel e sereno, tal qual como se

tivesse ido ao _club_ fazer dois dedos de conversa.

Um dia quiz segui-lo; presentiu-me e veiu ter commigo fazendo-me festas,

como a pedir que voltasse para traz. Não quiz comprehender e elle então

acompanhou-me disfarçadamente, algum tempo, e logo que me viu distrahida

fugiu a bom correr.

E ás dez horas, inalteravelmente, voltava, sereno e grave, como homem

elegante que atira o charuto e descalça a luva da mão direita, antes

d'entrar em casa.

Mas--coitadinho!--era já muito velho e a sua mocidade parece ter sido um

tanto aventurosa. Á mão me veiu elle ter, já cansado, quasi sem dentes,

o pello a cahir.

Nos olhos do pobre _Algarve_ queria eu ler toda a sua historia. E, quem

sabe, talvez que me não engane muito contando o que li, tudo o que

adivinhei nos olhos bons do meu pobre amigo--que um genio altivo e

independente levou a uma triste morte.

Veria pela primeira vez a luz n'um paiz branco, todo branco de neve.

Grandes montanhas, d'uma transparencia ligeiramente rosada quando o sol

muito pallido as illumina, avançam lentamente, n'um deslizar de fadas em

doce ronda nocturna... e lenta, mas seguramente, caminham para o seu

fim--o grande leito amargo do Oceano.

Muitos navios vinham todos os annos á pesca; então, lembrava-se de ver

homens que, de quando em quando, vinham a terra e tristissimamente iam

depositar o corpo d'um companheiro, no cemiterio branco picado de

cruzinhas negras que lá em cima se via... E a mãe, uma famosa cadella

preta de pello luzidio ligeiramente ondeado, acostumára-o a seguir

aquelles cortejos funebres, com respeito, quasi com magua...

Depois, ao primeiro annuncio do inverno, os navios fugiam, como as

andorinhas vôam ligeiras para a dôce paz dos seus ninhos de lá

baixo--andorinhas aventureiras que todos os annos voltam, mas á custa de

quantos sacrificios! Quantos ficarão perdidos por esse mar sem fim! E

esses homens rudes, que tanto e tanto trabalham por um pedaço de pão,

seriam a melhor lembrança do meu pobre _Algarve_...

Quando maior, levaram-no um dia esses mesmos pescadores que elle se

habituára a amar e a seguir humildemente. E então foi uma vida de

sobresaltos e perigos, passada sobre as quatro tabuas d'um navio, tal

qual um velho marinheiro muito affeito a perigos e tempestades.

D'um naufragio se salvou, salvando o capitão. Appareceu não sei como em

Setubal. Depois, de mão em mão, chegou á minha.

Que nostalgia profunda a do seu olhar, quando se fitava n'essa bahia

etherealmente e incomparavelmente azul! Com quanta saudade elle

recordaria esses mares tão differentes, por onde a sua mocidade se

passeára, sobre a tolda dos navios?!...

Nas longuissimas tardes de maio, sempre as mesmas, sempre doiradas e

tepidas, eu gostava de me ir com elle até á praia. Alli, na aureola

d'oiro fulvo com que o céo santifica o mar, ficava-me sonhando, os olhos

fitos no pharol do Outão, que era um ponto mais brilhante na gloria do

poente.

Oh! as lindas tardes, as lindas manhãs, as lindas paysagens que nós

contemplâmos em extasi; veem-nos passar com a mesma serena indefferença

e assim continuarão a encantar os homens na sua rapida passagem pela

terra. E mais rapida ainda a d'esses pobres animaes tão intelligentes,

tão bons, tão dedicados--e que tão poucos d'entre nós teem alma para

comprehender e amar!

Uma noite o _Algarve_ não appareceu ás dez horas regulamentares. Um

palpite de tristeza me annuviou o espirito... Faltou essa noite e faltou

em todas d'ahi em deante. Um bebedo tinha-se posto deante do seu

caminho, n'uma estupida e humana graça. O cão voltou, para seguir por

outra rua, e o homem, n'uma selvageria que envergonhava o animal,

agarrou-o, entre as gargalhadas dos espectadores que da taverna proxima

assistiam ao espectaculo--que na verdade devia ser d'uma infinita graça!

O cão filou-o rijamente, sacudiu-o com os dentes e passou.

Mas a injustiça e o odio dos homens torna-os mais ferozes do que os

proprios animaes. A alma--se homens como aquelle a teem--apenas lhes

serve para mais conscientemente fazerem o mal.

Ao outro dia o meu pobre _Algarve_ tinha desapparecido para sempre,

levado para a suprema ignominia da _sepultura_ dos cães vadios.

Junho de 97.

CÚMULO

CÚMULO

Trabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão

debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as

compras...

De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de

rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de

porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas

ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a

carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha--como

ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as

cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras

e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e

explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais

insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer

de fome qualquer dia!...

Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito.

Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por

entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão

que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os

sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo

fazia comedidamente, sem nenhum exagero.

Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá

a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho

mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro,

aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma

velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.

As filhitas andaram sempre muito arranjadinhas. Emquanto pequenas, era

mesmo um encanto. Fatos velhos talvez, mas tão gentilmente postos, que

ao vê-las dir-se-hia que eram duas meninas ricas. No collegio não se

confundiam com as mais pobres, não. Mal ficára viuva deixára a renda na

almofada encher-se de pó, amarellar com o tempo e confundirem-se os

bilros n'uma indesmanchavel meada.

Viuva?!...

Se ella acaso o era!... Que o marido embarcára e ha dezeseis annos que

não sabiam d'elle. Tantas vezes navegára n'aquelle navio mercante e

sempre voltara tão alegre, trazendo tanta coisa estranha de paizes

distantes, que ella nem comprehendia que podessem existir!.. O que o

pobre homem ria de gosto com os espantos da sua mulhersinha! Porque a

amava muito, apezar do seu feitio rude, das suas maneiras largas

d'embarcadiço; morria por ella e pelas pequenas. Não pensava em mais

nada, nas longas viagens trabalhosas por esses mares fóra.

E dezeseis annos sem dar conta de si--decerto que tinha morrido!... Mas

sem o confessar, no fundo do coração alimentava ainda uma esperança...

Custa tanto acreditar na morte das pessoas amadas, mesmo quando deixam

de soffrer deante dos nossos olhos!... Que fará, assim?!...

As raparigas eram bonitinhas, belleza da mocidade, uma certa finura da

mãe, com os instinctos aventurosos do pae, talvez. Queriam luxo, muito

fato, como as outras. Côres claras, leques, fitas, plumas, rendas...

coisas tão caras, mesmo quando ordinarias, para uma pobre mulher que mal

ganha para a comida. Quantos recados era preciso fazer; quantas casas

esfregar! Por mais que se estafasse não chegava a nada. Sempre as outras

melhor do que ellas; sempre as raparigas a grazinar.

Um dia, furtivamente, tirou uma renda de sobre o mostrador d'uma loja de

modas, onde comprava para outros o que tanto desejava para as filhas. E

que linda golla fizeram! D'ahi em deante, nas casas que servia, ia

tirando sempre, sempre, na tentação que crescia como serena maré n'um

mar feito de lama amornada. Abria as gavetas, desapparecia dinheiro...

desconfiavam e despediam-na. E as raparigas que desejavam blusas novas,

casacos, lenços!... Por fim, até chapeo. A pobre mulher, que não tinha

remedio a dar-lhe, dobrava-se sobre si mesma, compungida da sua

desgraça. Não era remorso; era pena de não ter a quem roubar,

devagarinho, sem haver escandalo.

Um dia, cançadas de não terem o luxo que desejavam, abalaram as duas

deixando a mãe a governar-se sósinha. E ella--nunca mais tirou nada a

ninguem! É tão fiel, tão honesta, que não haveria perigo em lhe confiar

uma fortuna.

«Que as filhas são muito boas...--murmura a pobre, muito

convencida,--dizem por ahi mal d'ellas; mas tudo é inveja. Coitadinhas,

andam bem vestidas, andam, mas isso o que tem? A mais velha hade casar

em morrendo a mulher do homem que a sustenta... E Deus hade fazer esse

milagre!--Sinceramente o pede nas suas fervorosas orações.--A outra casa

para a paschoa, com um empregado publico. Vive como senhora.»

E ha quantos annos que ella espera essas boas festas!...

Setembro de 96.

A AMA

A AMA

Quando a Rosita do Simão casou, foi um desconsolo pela rapaziada.

Pudera, se ella e a irmã eram das mais bonitas caras da aldeia! Claro

que não se poderiam chamar bellezas em qualquer terra de formosuras, mas

alli, entre a fealdade quasi geral, pareciam duas flôres. Decerto que

era pena ve-la casar com o bruto do Antonio Marques!

A Mariquinhas estava a servir em Lisboa, n'uma bella casa arranjada pelo

sr. vigario, e vinha á terra d'annos a annos, toda senhora, toda posta

no seu serio--boas mantilhas, bons fatos, uma _figurona_! E á Rosa, a

ter que casar com o Marques, mais lhe valêra ir tambem servir...

Ella é que se não importou com os commentarios, e lá foi toda contente,

com o seu vestido preto, o lenço de seda, o chale de vêr a Deus, dar a

mão de esposa ao sr. Antonio Marques, que ia todo taful, de capote ás

costas e chapéo novo. Foi uma festa.

No poente rubro, tepido, da primavera que ia no fim, a passarada cantava

umas alegres canções--coisas d'elles, d'esses vadios sem futuro. Umas

pessimas cabeças, as da passarada!

E o Leandro, amigalhaço do Antonio Marques e convidado para o arroz

doce, tocava os sinos todos n'um desaforo de repiques.

O velho campanario tremia entre os braços da hera. A pobre igrejita

enchia-se do oiro mordente que o sol enfiava pela rosacea do côro. A

vinha do passal perfumava a atmosphera como uma enorme corbêlha de

reseda e os pinhaes, os soutos e os olivedos reviveciam n'uma vida

fresca, novinha em folha. Errava no ar uma tal expressão de vida

natural, que inconscientemente todas as boccas se abriam em risos. O sr.

vigario, muito solemne, fez uma bella prédica á Rosita; as palavras

cahiam-lhe dos labios, sérias, claras e precisas como se viessem

classificadas, numeradas, sabendo d'antemão o logar que occupariam na

vida. O latim era tão explicado, que fazia gosto ouvi-lo... «Ser casada

por elle--dizia a Rosita--até dá felicidade. Parece que fica a gente

mais bem casada!...»

Passados tempos, já não dizia o mesmo. O Antonio era um bruto, um

avarento; tudo o que ganhava enterrava na fazenda. Em casa, a Rosa

mortificava-se, com tres criancitas intanguidas de frio e fome--dizia

mal da sua cabeça tonta. Ir casar com um trabalhador d'enxada já fôra

uma tolice--e sahir-lhe elle assim!... Louvado seja Deus, que tão pouco

juizo dá ás raparigas! Porque não fizera ella como a Mariquinhas, que

vinha á terra tão bem vestida, que era a inveja de todos?!...

No baptisado do terceiro sobrinho foi ella ser madrinha, com incumbencia

d'uma ama para Lisboa. O ordenado era bom e o Antonio Marques, muito

avarento, lembrou a mulher. Lá por saudavel e bonita não havia outra nos

arredores. Os pequenos ficavam com a avó e haviam de se crear como os

mais, á graça de Deus!

Fallou-se ao sr. vigario--que dissesse elle a sua opinião. A Mariquinhas

explicava--que era para casa da sr.ª viscondessa, prima da sua senhora,

o sr. vigario sabia...

--«Óra se sabia! Perfeitamente. Ia muito bem; que fosse, que fosse!...»

Custou-lhe muito separar-se dos filhos, á pobre da Rosita. Chorava

inconsolavel pedindo á mãe que lh'os tratasse bem, que ella mandaria

dinheiro para isso; nada de o entregar ao homem que tudo iria enterrar

na fazenda e deixaria morrer os pobres anjinhos.

Dois annos que a Rosa esteve por lá, mandou sempre bom dinheiro, que o

marido guardava. Os garotos iam-se creando pelas portas, negros e sujos,

tristonhos--uns selvagens. Acabada a creação chegou ella, esperada em

triumpho por todos os parentes, que de fóra da _gare_ lhe acenavam com

os lenços chamando-a alegremente. Nem parecia a mesma! Mais bonita que

nunca, a rapariga. Os filhos fugiam d'ella, enrodilhavam-se na saia da

avó, choravam confundidos por se verem acariciados por mãe tão de grande

gala. E ella olhava-os lacrimejante, sem grandes esforços de ternura,

que os conquistasse. Achava-os tão feios no fim de contas!... Mostrava o

retrato do seu menino--recostado entre almofadas e rendas, risonho e

expressivo como se da photographia fosse estender os braços roliços á

boa ama.

--«Que lindo menino, se vissem! Uma gracinha de criança, que tudo lhe

ficava bem. Quando o levava pela rua toda a gente se voltava enlevada na

sua belleza. Um amôr! Nunca poderia esquecer o seu menino, o querido

anjo que criára ao peito...

Aprendera a fallar, a Rosita. Estava outra. Até já sabia escrever e

passava horas a rabiscar umas cartas inintelligiveis, que mandava á sua

senhora. «Não podia esquecer o menino, o seu querido menino! O seu

lindissimo Gut, tão branco e rosado como uma flôr...»

Com a vinda da mãe os pequenos andavam mais limpinhos, isso andavam. A

casa estava outra--alteada, janellas abertas, branca de cal. Um palacio.

Mas, dizia-lhe um dia o sr. vigario:--«andas tão triste, Rosa! Parece

que tens saudades de Lisboa...»

Desatou a chorar.

«Oh! muitas, muitas, do meu menino! Tinha-lhe um amôr... Não lhe passava

d'alli!»--E apontava para a garganta entumecida pelos soluços.

--«Cá, tens os teus filhos, Rosa. Hade dizer-se que não gostas

d'elles!... Isso é tentar a Deus, rapariga!»

--O sr. vigario que perdoasse; ella gostava dos filhos--pois se eram

seus filhos, não havia de gostar!--mas o seu menino era outra coisa! Tão

lindo, tão esperto, tão bem vestido!... Que Deus lhe perdoasse, mas

tinha-lhe tanta affeição, que o não podia esquecer!... E beijava o seu

retrato, chorando.

O vigario, depois de dar os seus conselhos, affastou-se resmungando:--«o

démo da mulher! Se não conhecesse a casa onde esteve e não soubesse que

foi sempre uma boa rapariga, até desconfiava d'aquellas lagrimas!

Emfim... Decerto que o filho da viscondessa é bem mais bonito do que os

negritos do Antonio Marques, mas são filhos, afinal!...»--E rematava

sentencioso--o demonio são as mulheres! Umas adoram os filhos mais do

que ao proprio Deus; outras até os matam; esta quer mais aos alheios que

aos d'ella!... Ha de tudo cá por este mundo!»--E lá se ia á missa

primeira, esfregando as mãos geladas pelo nordeste, levantando, a golla

de pelles do casaco, batendo com as botas-tamancos na calçada, para

aquecer os pés.

Outubro de 96.

ENTARDECER

ENTARDECER

Uma tarde tristissima.

Desde manhã que uma chuva miudinha e impertinente cahia sem cessar. O

céo, muito pesado, muito baixo, esmagava o meu espirito, fazia-me

soffrer de quantas maguas inconfessadas existem na vida--tão cruel, tão

absurda ás vezes!

A lama na estrada chegava ao passeio; as arvores lamentavam-se

desoladamente, todas gottejantes e trémulas, chorando a primavera que

tanto, tanto custava a chegar esse anno!

Bandos d'andorinhas passavam _arrevoando_ junto á terra, piando,

friorentas, saudades do sol, que deixaram _lá em_ _baixo_ a doirar

minaretes agudos, a acariciar palmeiras, que ondulam brandamente as suas

folhas em leque, e graves mulheres que passam envolvidas em brancas

musselinas transparentes.

Encostada aos vidros da minha janella, eu olhava distrahida... Quem

passaria por uma tarde assim?... A lama viscosa e pardacenta parecia

querer subir, em maré cheia de tedio, a engolfar o mundo na sua molleza

repugnante. Tardes ennodoadas e longas que ennoitam o nosso espirito,

fazendo-nos perder a esperança de que jamais um raio de sol ou uma nesga

de céo azul venha alvoroçar-nos em sonoridades de risos!

Uma rapariguinha passava, tão magra, tão pallidasita... A saia, muito

fina, a cingir-se-lhe ao pobre corpo d'anemica; agasalhava-se tremendo

n'um pedaço de velho chale esfarrapado e nas mãositas roxas segurava um

pequeno embrulho.

Talvez seis annos...

E as botinas cambadas, maiores do que os pés, a enterrarem-se na lama, a

não a deixarem andar depressa...

E a noite cahindo silenciosamente, e ella sósinha, no campo sombrio,

áquella hora e n'aquella tarde tão abandonado e triste como um

cemiterio.

Seguindo-a com o olhar, abstracta, quasi inconsciente, pensei: quantas

crianças da mesma edade brincariam alegres e palreiras, em casas

confortaveis, bem vestidas, quentes?... Quantas, n'essa hora vaga do

cair da tarde, não correriam, sobraçando os arcos, rindo da chuva e do

frio, por entre moitas verdejantes de lindos jardins, seguidas por

loiras mestras altas e sérias? Bibes brancos a esvoaçar como azas de

borboletas; finos cabellos encaracolados cahindo em maciezas de luz, a

nimbar d'oiro Varezo cabecinhas graciosas... Bellas crianças feitas de

mimos e de beijos, rosadas e fortes, promptas para a vida sem maguas nem

canceiras.

E aquella! Uma infancia miseravel, a prepara-la para o longo e obscuro

martyrio que termina na valla commum passando pela fabrica e pelo

hospital.

E a pequenita caminhava vagarosamente, com uma precoce gravidade

destoante dos seus poucos annos. Mas...

Uma carroça vinha em doida desfilada, com barulho irritante de velhas

molas ferrugentas e guisos casquinando sarcasmos na tarde chuvosa.

Assustada, querendo fugir, a criança deixou cahir o embrulho. O papel

rasgou-se e todo o milho que levava se espalhou no chão lamacento. Nada

mais pungente de ver; nada que mais esgarçasse a alma n'uma

angustia--que a pallida figurinha da pequena contemplando aquelle

desastre!...

A carroça passou e ella foi apanhando, grão aqui, grão além, aquelles

que a lama não tinha completamente perdido. Depois affastou-se

lentamente, com um sorriso d'infinita resignação na sua boquinha já

soffredora.

Seis annos apenas--como ella aprendeu cedo a resignação amargurada da

vida! Uma immensa piedade, uma dolorosa impressão d'irremediavel

soffrimento, me invadiu o espirito, pensando em todas as anonymas

desventuras que se acotevelam na vida.

A noite vinha descendo lentamente. Pezava como chumbo a tristeza

arreliante d'esse fim de dia...

Março de 95

BRETAN

BRETAN

Certamente a mais ninguem acontece ter como eu um medo atroz, um

respeito fetichista, pelo correio.

Um comboio que passa, com a sua cabelleira ao vento; os seus gritos

agudos, o seu _tamtam_ monotono, não me traz á ideia a alegria

descuidosa dos que partem para recreadas viagens, não! Eu penso que

n'aquella caixinha, estreita como um esquife, vae amortalhado muito

coração, vae muita lagrima alastrada em tinta, levar a todos os cantos

do mundo a magua que a fez sangrar.

Infelizes: Historias Vividas · 第 2 / 4 段