lavada, riso franco, uma encantadora ingenuidade no seu virgem coração
d'oitenta annos. A outra, sombria, um olhar por vezes desvairado a
fuzilar sob a brancura da toalha de linho, que lhe emmoldurava o rosto
opalescido. Relativamente nova para ser freira professa ao tempo que
acabaram os conventos, fez-me curiosidade. Perguntei á prioreza, e ella,
a santa velhinha,--morreu o outro dia... que pena tive!--ella contou-me
tudo:
--«É que soror Maria fôra mettida no convento aos quatro annos. Para que
o morgado ficasse livre d'encargos? Promessa de paes muito piedosos? Não
se sabia.
Mas a ella não a tinha Deus fadado para santa! O seu coração, nascido
para viver, nunca se podera aclimatar áquella existencia de mortos.
Aos quinze annos, os parentes obrigaram-na a entrar para o noviciado. A
ordem das _bentas_ não reformadas, não era apertada, ao menos...
Pelas grades das janellas via-se a pequena cidade rumorejante e activa
como uma colmeia.
E a gentil noviça tinha prendido os olhos aos olhos d'um lindo moço, que
de fóra a contemplava em extasi...
Á noite, nos outeiros sentimentaes, a conversa corria alegre e facil
como a agua clara que desce das montanhas. Que duvida? Se elles eram
novos e os seus espiritos tinham tenteado o espaço que os separava,
decerto que se haviam de amar!...
Depois, o eterno drama dos amôres contrariados:--espiões, todos os olhos
que a fitavam; criadas compradas; a familia insistindo cada vez mais
pela profissão...
Já vagamente se fallava em liberdade. Da França vinham flammulas de luz.
O namorado pedia-lhe que resistisse... o governo miguelista seria
vencido em breve. Era a sua esperança! E então, ninguem a poderia
obrigar a ser freira, ninguem se opporia a que ella sahisse, noiva
feliz, da prisão fanatica.
Ah! fallar cedo de mais, meu pobresito, é um grande perigo!...
Desappareceu o namorado e a triste da noviça deixou de resistir á
vontade dos paes.
Já quando no sul os liberaes entravam, cantando a victoria que os
atordoava a ponto de quasi duvidarem, d'inesperada que foi,--tomava ella
o habito á pressa, tudo arranjado pela familia, tumultuariamente,
temendo de a verem sahir.
Mas não. Com a morte do seu namorado tudo morrera n'ella! Sempre
silenciosa, aquillo que alli estava!...
Desde esse dia, olhava com um romantico interesse, procurava a antiga
belleza d'esse rosto marmoreo, amortalhado em vida, o capuz do habito
cortado em bico sobre a testa, os labios cerrados n'um silencio
desesperador...
Parece-me ainda estar a vê-la, no côro, na reza da noite, emquanto a bôa
prioreza--acompanhada por duas meninas com vélas na mão--ia lendo o seu
latim e apagando as luzes uma a uma!... Soror Maria abstrahia-se da vida
presente e a sua alma parecia voar para um mundo de recordações e sonhos
tragicos...
A um canto, com o lencinho branco das recolhidas, eu seguia o officio
funebre da prioreza, nos olhos desolados da triste monja.
Depois de lhe saber a historia, dediquei-lhe um grande affecto, que os
meus labios jámais lhe confessaram, atemorisados por um não sei quê
d'altivo que havia na sua dôr! São mais eloquentes, mais verdadeiros, os
discursos que um delicado pudôr espiritual apenas nos deixa balbuciar
com os olhos. Nunca ella comprehendeu esse affecto--porque, almas
despedaçadas como a sua, já nada comprehendem nos sentimentos
alheios!...
O que ha de triste no meio de tudo, é que o quebrar das cadeias tambem
acarretou comsigo muitas e pungentes lagrimas. Companheiras
insubstituidas, deixando um vazio de morte nos casarões sombrios... As
cercas tiradas pelo governo... A miseria, a fome mesmo... Quanta
tristeza na alma devastada das ultimas freiras!...
E as festas d'este novo mundo, vistas das janellas gradeadas, seriam bem
pouco comprehendidas por ellas!
No largo, em frente do convento onde a minha pobre Soror Maria soffreu,
fizeram barulhentas toiradas cheias de pó e gritos selvagens,
espectaculo que dá, a certos espiritos delicados, a mais frigida
impressão de tristeza! Vendo esse divertimento todo material, podia ella
sequer recordar, lá em cima da janella gradeada, os combates de poesia a
que a sua mocidade assistira e onde o seu coração ficára tão mortalmente
ferido?!...
E assim, se alguma freira de Jesus se levantasse da cova e arrastando o
seu habito de franciscana fosse á ultima janella espreitar o largo--que
diria ella ao ver os balões em linhas caprichosas, esboçando
phantasticos desenhos de luz na escuridão da noite?...
E o povo passando em onda, em chusma, por entre a alegria clara dos
vestidos femininos...
Que diriam ellas, que diriam?!...
Julho de 96.
SOMBRAS
SOMBRAS
«_Para a minha rica mana Rosa!_...»
Por acaso, n'uma caixa aromatica de xarão vinda de minha avó, encontrei
um dia, entre pequenas coisas d'outro tempo e cartas de familia, uma que
decerto foi--ha muitos annos já--lida e relida por uns adoraveis olhos
azues que bastante devem ter chorado as tristezas do exilio...
Velha carta amarellecida, quebrada de antigas dobras, n'um antiquissimo
papel--como ella evoca, ao meu espirito historias quasi phantasticas
para nós, d'essas existencias decorridas ha tantos, tantos annos!...
«_Minha querida mana Rosa do meu coração!_...»
São adoraveis essas cartas d'antigamente, feitas com uma simpleza e uma
ingenuidade quasi infantis--como não somos já capazes de fazer! E elles
sentiam tanto como nós sentimos; mais ainda talvez...
Não eram as separações quasi eternas? Quem poderia esperar, ao sahir de
Macau, n'uma longuissima viagem em navio á vela, que decorridos annos
tornaria a ver essa familia muito querida, deixada por outra mais
querida ainda?!
Quanta amargura, quanta tristeza, nos dizem essas pequenas cartas
criancilmente simples, a quasi nos fazer sorrir! É que a alma humana não
tinha chegado ainda á suprema tortura de se sentir pensar, de se saber
despedaçar aos bocadinhos, palavra por palavra, lettra por lettra,
lagrima por lagrima!... Não tinha chegado ainda ao espiritual impudor
com que nós procuramos traduzir em phrases bem redondas, bem nitidas,
bem palpitantes, a amargura que nos cava fundo no coração.
Ao dar com essa singela carta de ha muitos annos, uma grande sympathia,
envolta em uma especie de saudade, me veio por as encantadoras
figurinhas do tempo passado, sorridentes, frageis, movendo-se
musicalmente na graça antiga do minuete passeado...
Vejo-as: com os seus grandes chapeos á directorio, de cintas muito
curtas e leques de plumas, levantando graceis os vestidos
compridos,--mostrando, n'uma _coquetterie_ quasi infantil, a meia de
seda clara arrendada, com fitas a enlaçar, como era a moda.
Têm uma doçura pallida, um encanto murcho d'outros tempos, um perfume
apagado, immaterial,--essas historias tão graciosas e tão puras.
É com meiga tristeza que recordâmos todas as que foram lindas e amadas
ha muitos annos e hoje desapparecem no pó!... Finas _silhouettes_ que os
nossos filhos nem já saberão distinguir no montão de saudades que lhe
vamos accumulando!
É um delicado prazer do espirito relembra-las assim, uma por uma, essas
empallidecidas figuras de mulheres formosas vestidas com antigos
trajos--que eu só posso imaginar bonitas e moças, e tão velhinhas seriam
se ainda podessem existir!
E foram bellas e foram novas e foram amadas--essas que hoje não são mais
do que sombras!
Mas para escrever uma historia d'essas--feita de ligeirissimos esboços,
de recordações muito vagas, quasi de tenuidades de sonho...--quanta
concentração de bondade, e delicadeza e amôr é necessario?!...
Ao olhar, ao tocar um pequenino retalho de seda que serviu outr'ora n'um
vestido de noivado,--toda a nossa alma hade estremecer n'uma saudade
fugitiva, o nosso coração vibrar palpitando, como proprias, as alegrias
e as tristezas de todos aquelles que no mundo passaram...
É como se os vissemos diante de nós, sangrando ainda todo o amargo
soffrimento da vida...
_Minha querida mana Rosa_...
_Rosa_--apesar de se chamar Anna, essa linda irmãsinha, a que o rosado
das faces déra esse nome deliciosamente familiar e perfumadamente
fresco--n'uma calligraphia larga, antiga, n'um portuguez estrangeirado,
ella vae dizendo as saudades e as tristezas que a vinda para Portugal da
irmã mais amada lhe deixára na alma.
Nem um grito, nenhuma revolta. Na rectidão do seu espirito de ingleza
essa partida era um dever sagrado, que não se devia amargurar por
inuteis lagrimas.
E nada litteraria essa ingenua carta d'uma doce e loira inglezinha
nascida lá muito longe, na velha terra de Macau. Conselhos para a
viagem, d'uma graça toda maternal e muito prática:--«Não he bom tomar
caldo de gallinha emquanto está enjoado. Hade fazer muito mal. Eu mando
dôce de laranja. Diz que é muito bom comer quando está enjoada. E um
pouco de gengibre salgado. Deixa ficar um bocado na bocca, sempre...»--E
por fim, quasi n'um soluço: «Adeus minha querida mana, mande noticias
suas sempre, para socegar este afflicto coração.»--Saudades, beijos aos
sobrinhos,--assignado: _Julianna Moor_.
Ao ler este nome eu recordei, quasi involuntariamente, toda essa
historia, bem certa, que minha avó contou aos filhos, que os filhos nos
contaram a nós.
Sim, era ella, foi ella, essa pobre e querida irmã deixada para sempre,
que á despedida lhe disse:--«ai minha rica mana que não nos tornâmos a
ver!... Mas eu irei despedir-me de ti!...»
E veio. É tão sympathica ao meu espirito essa pequena historia, ouvia-a
tanta vez contada por minha mãe--que eu tambem a posso contar como se a
ella assistisse.
Primeiro, eu as imagino, a essas candidas figuras d'inglezitas, vestidas
de seda clara, muito loiras, com a ingenuidade idealista da sua raça,
apaixonadas aos quinze annos por estrangeiros, que as levariam para
longe--o pae bem o previa!.. Mas n'essa idade quem presente as lagrimas
que as alegrias trazem comsigo?!
E tambem a contemplo, á minha linda avósinha, com os seus deliciosos
quinze annos, o cabello muito loiro em bandós encaracolados, uma fita
estreita a fazer a cinta debaixo dos braços, os hombros quasi infantis a
destacarem muito brancos na seda rosa do vestido imperio...
Muito linda, muito linda! Tal qual me sorri na miniatura encantadora que
tenho aqui diante dos meus olhos.
E a outra devia ser parecida--quasi eguaes, como duas pombas sahidas do
mesmo ninho. Alegres e felizes ambas por bastantes annos ainda, na terra
que as vira nascer, crescer e amar. E os filhos da outra, tão amados por
ambas que só na separação distinguiram a verdadeira mãe...
Mas tinha de ser. Uma vinha para Portugal na nova familia que ella
criára; tão estremecidamente amada no dia em que morreu como no dia em
que casou. A outra lá seguiu com o marido para Goa, na logica dos seus
destinos e da sua raça.
Mas uma noite...
Já muitos annos tinham passado; aquella que fôra uma gentil criança era
então uma formosa mulher, ao de leve empallidecida, de sorriso a
murchar, conhecendo já o amargôr das lagrimas... Ella não esquecêra
ainda essa familia querida, deixada tão longe, deixada para sempre!... E
a irmã, que amava mais que a todos, quando a veria?... Pedia-lhe o
coração que fosse bem tarde--porque era uma certeza para o seu espirito
que só á alma, desprendida do corpo para sempre, seria dado esse
infinito prazer...
Uma noite ella dormia serena, junto do marido, quando uma voz a chamou
de manso... Como não acordasse de todo, julgando-se a sonhar,--tres
pancadas dadas muito de leve na cama despertaram-na completamente.
Era ella, a irmã muito querida, n'uma sombra suave, que não assustava
ninguem. Sentava-se-lhe á cabeceira, sorria, dizia-lhe n'uma caricia de
voz ciciada:--«Cumpro a minha promessa, venho despedir-me!...»--E muito
baixo, com uma infinita magua de mãe:--«Ah, custa-me muito deixar a minha
Julianna! É a mais nova... E não lh'a poder entregar!...»--Levantando-se,
desvaneceu-se silenciosamente n'um raio de luar que vinha pela janella
mal fechada.
Ella olhava, olhava ainda, procurando na solidão do quarto a imagem da
irmã, que lhe apparecia tal qual era e tão differente do que fôra! Só a
voz era a mesma. De resto--quasi a não poderia reconhecer n'essa ligeira
sombra vestida á moda do tempo, tão differente d'aquella em que a
deixára: a cinta muito comprida, a saia de largo balão, o _fechu_ de
rendas que aconchegava com a mão esguia, muito fina, ao pescoço nu!
Era ella, bem certo que era ella!... A côr do vestido ficou-lhe bem
nitida na memoria--azul pallido, quasi prateado...
Os soluços suffocavam-na, chorava sem consolação a amada morta que se
viera despedir a tantas leguas de distancia!
Foi em vão que o marido a quiz convencer a esperar noticias. Elle
escreveu logo confiando em que a resposta á sua carta a tiraria
d'aquella tristissima impressão... Para ella é que não havia duvida
possivel!
E a fatal noticia--que a morta viera trazer n'uma noite de luar tão
branca como a santa amizade que as ligára--só passados seis mezes era
confirmada por cartas vindas de Goa.--«E na ultima hora, minha querida
tia, a minha mãe fallava em V. Ex.ª...»
É bem dolorosamente triste essa pequenina carta em lettra miudinha, de
myope, fragil como o coração da pobre orphã abandonada tão longe dos
seus!--Familia talvez em França, de onde era o pae, familia em Macau,
familia em Portugal... Em Goa, elles sós! Como é triste essa carta,
triste a fazer mal! Pobre pequena carta que eu guardarei eternamente--a
relembrar as vagas, esparsas tristezas d'exilada que me andam na alma...
E mais tarde, morta a minha avó rodeada de filhos e netos, feliz na
serenidade do seu lar, que ella soube sempre fazer tão querido,--a que
longinquos paizes iria a sua alma peregrinar em amorosa despedida a
algum dos seus?!...
Fevereiro de 96.
INDICE
INDICE
DEZOITO ANNOS
TIO BARREIROS
SOLTEIRÃO
HAMLET
A SENHORA ANGELICA
ALGARVE
CÚMULO
A AMA
ENTARDECER
BRETAN
VICTORIA
A TERRA
FREIRAS
SOMBRAS
Da mesma auctora:
PARA AS CRIANÇAS
(PUBLICAÇÃO MENSAL)
1.ª serie; 2.ª edição 400 rs.
Por assignatura, cada serie 340 »
AMBIÇÕES
Romance (no prélo).