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INFELIZES
_Anna de Castro Osorio_
INFELIZES
(HISTORIAS VIVIDAS)
LISBOA
Empreza Litteraria Lisbonense
Libanio & Cunha
_145--Rua do Norte--145_
1898
Áquelles que no mundo estimo
Como n'essa noite uma febre intensa me tomasse, uma grande saudade, uma
grande piedade, me invadiu o espirito, por todos os tristes, por todos
os humildes--os infelizes da terra...
No principio da doença, quando o corpo começa de sentir o embate
grosseiro do mal, que o vencerá; quando o frio nos arrepia a carne, n'um
estremecer sangrento, n'um espicaçar de venenosas agulhas; vem-nos um
profundo egoismo, um completo esquecimento dos outros. Na contemplação
das nossas dôres, tudo mais desapparece sem nenhum valor.
Depois, a intensidade da febre espiritualisa-nos, a alma desliga-se do
corpo extenuado e sóbe a mais alto. O proprio soffrimento se desdobra
n'uma vaga e serena piedade por tudo o que existe, por todos os que
choram...
Então, n'uma d'essas horas de sonho e de nitidas recordações, eu lembrei
pobres almas inferiores, tristes desvairamentos em grandes espiritos,
máguas inconfessadas--que a minha alma conheceu ou presente nos
humildes, nos desprezados...
D'alguns me lembrei fallar; outros ficaram na piedosa tristeza da minha
memoria--não porque as suas lagrimas me pareçam menos dignas de serem
recolhidas, não porque sejam menos estimados, mas porque quasi nada
poderia interessar aos outros a repetição d'essas singelas historias de
vidas simples, monotonamente eguaes pelo soffrimento.
Phantasmas sympathicos ao meu espirito, elles vieram todos rodear o
leito, onde, febril, o meu corpo fatigado cahia.
A minha cabeça dorida abysmava-se n'um confuso recordar de cousas
passadas.
E elles vieram, um a um, mostrar as suas pobres figuras empallidecidas
pela distancia ou pela morte, n'um desejo de serem evocados...
Setubal, maio de 96.
DEZOITO ANNOS
DEZOITO ANNOS
A tia Clara, essa adoravel velhinha que fez ha dias cento e quatro
annos, teve tambem os seus dezoito--e por signal encantadores de
frescura e graça.
Mal podemos crêr isto, nós que a vemos hoje tão serena, tão identificada
com a nossa vida, tão egual a nós pela lucidez do espirito, sempre d'uma
intelligencia e d'um interesse perfeitamente juvenil.
Eu adoro essa querida velhinha que não se envolveu nas recordações e
remordimentos egoistas como n'uma antipathica couraça eriçada
d'espinhos.
Não! Ella recorda todo o passado, mas suavemente, sem comparações
desfavoraveis para nós, como os velhos impertinentes costumam!...
Relembra, levemente melancolica, os tempos longinquos da mocidade, tão
distante aos nossos olhos, tão vivos ainda na sua memoria.
A sua alma é um piedoso _Campo Santo_ habitado pela saudade de todos os
seus amigos, de toda a sua familia mais proxima, que a um e um a foram
deixando na velha casa senhorial, já em parte abandonada de grande que
é!... mas o seu coração santissimo vae florindo sempre joven, amando com
egual affecto todos os que de novo chegam á familia...
Ah! Eu não me esqueço, minha boa amiga, da saudade reconhecida que me
ficou na alma quando, a ultima vez que a visitei, a vi affastar-se
lentamente na meia obscuridade do longo corredor. Seguia-a um ligeiro
esvoaçar de recordações, toadas simples vindas de muito longe--os
francezes, guerras, mortes, nascimentos, toda a sua vida singela passada
na hereditaria quinta perdida entre serras, onde os echos do mundo devem
ter chegado sempre esbatidos em meias tintas pallidas.
Tenho ainda no meu ouvido o som inolvidavel da sua vózinha quebrada
dizendo serena e sorridente: «assisti ás ultimas endoenças no convento
de Maceira Dão!...» E tudo morto n'esse passado cheio de poesia, visto
assim de longe, evocado pelo seu espirito bondoso!...
Mas a desvairada fuga aos francezes é que eu, mais do que tudo, gosto de
lhe ouvir contar.
* * * * *
--Era uma tarde de fins de setembro, luminosa, quente ainda. O céo, todo
em fogo no poente, flammejava n'um incendio colossal--toda a alma da
Patria agonisante levantando para Deus a ultima esperança, no ultimo
clarão de tiros ao longe.
«_Os francezes, os francezes!..._» Esse grito estridente como uivos de
animaes apavorados corria de bocca em bocca, era um signal de fuga, de
miseria, d'espanto geral.
O povo ignorante e bom voltava para o céo os punhos cerrados n'uma
desesperada ameaça. Abandonado por todos na sua patria invadida,
agarrava-se á terra como á sua unica defeza, o seu unico amôr, a unica
razão d'existir.
As mães uivavam de dôr pelos caminhos, torciam os braços convulsos vendo
do alto dos montes os filhos que partiam para a guerra. Outras
estarreciam-se n'um silencio medroso...
Toda a alma portugueza fremia n'um anseio de liberdade.
Os reis fugiam despresivelmente covardes; os ricos ainda por vezes
abriam os seus palacios em festa ao passeio triumphal dos invasores; só
no povo era sem treguas o odio. Elle saberia resistir ou morrer!
Miseravel povo que sacudiu n'um impeto de revolta olympica o jugo dos
invasores e acurvou a cabeça humilde ás exigencias dos alliados!
Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas
baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado
nas horas más! Ingenuo povo que todos vão acordar em sobresalto quando o
perigo bate á porta e de que todos se riem depois, quando não é já
precisa a força do seu braço nem a furia da sua coragem!...
Tambem a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia
dever estar esquecido, guardado pelos matagaes e serranias bravas,
chegou o desvariado clamôr, o tremendo grito:
«_Os francezes, os francezes!_...» a pôr em fuga toda a familia da
Clarinha--era assim chamada ha oitenta e seis annos a minha boa tia
Clara.
Ella era a mais nova das irmãs; fina, graciosa, d'uma pallidez de
reclusa, uma grande curiosidade perfulgindo nos seus olhos castanhos.
Ao saber a noticia o coração pulsou-lhe commovido n'uma inconfessada
alegria... Qual de nós aos dezóito annos não comprehenderá essa alegria?
Não ter sahido nunca do seu vetusto solar--salas e salas, quartos
incontaveis, corredores tão compridos que é impossivel conhecer quem vem
ao fundo!... Os santos da capella doirados e ridentes seriam os seus
mais queridos companheiros, aquelles que melhor comprehenderiam a sua
alma inquieta, sedenta de novo!... Se ella não havia d'estar alegre, no
fundo, bem no fundo do seu coração, por essa fuga decidida que a ia
tirar por algum tempo da monotona vida de todos os dias?!...
Era triste a existencia da Clarinha, passada na miseravel aldeia de
casebres colmados, que rodeiam a quinta dos fidalgos como outr'ora as
choupanas dos servos se encostavam medrosas ás fortificações dos
castellos feudaes. As irmãs, casadas; os irmãos, passando a vida dos
fidalgos d'aquelle tempo, caçavam, namoravam as primas de vinte leguas
em redor, estafavam cavallos e corriam as feiras.
De quando em quando, pelas festas do anno, cortavam o fastidioso correr
da vida cavalgadas que chegavam ao pateo, primos e primas que se apeavam
contentes abraçando a Clarinha, que alvoraçada os vinha esperar á porta.
Então, dançava-se, passeava-se e, mais do que tudo, comiam-se jantares
phenomenaes e ceias lucullianas.
Mal os hospedes sahiam, a vida regulava-se tediosamente como de costume
e apezar da familia ser muita, passavam uns pelos outros como sombras na
enormidade da casa. Quantas vezes, pelas agonisantes tardes d'outomno,
não atravessou ella a quinta e subindo o outeiro em frente se foi sentar
nos degraus do _Santo Christo_, phantasiando o mundo, sonhando com
alguma coisa nova que a fizesse soffrer e viver?!...
Já então, como agora, como será d'aqui a muitos annos, a imagem do
Christo era ingenuamente feita d'uma fealdade que espanta, escondendo-se
no seu nicho branco, erguendo na tristeza da paysagem os braços
misericordiosos de Deus moribundo perdoando sempre á humanidade que
chora.
Como agora tambem, a Clarinha ouvia pela quebrada das serras os carros
chiando carregados com as dornas para os lagares... Os bois olhavam'na
pensativos, sacudindo as cabeças phylosophicamente, fazendo retinir as
campainhas das colleiras de coiro que lhes cingem os cachaços
robustos... Primitiva e sempre egual a vida passada n'aquelle recanto de
natureza agreste.
Que admira pois que a Clarinha ficasse intimamente alegre quando o medo
aos francezes a atirou para longe--como um passarito engaiolado a quem
de subito abrissem as portas do carcere e visse diante de si o luminoso
espaço onde á vontade poderia bater as azas!?...
«_Os francezes, os francezes!..._» Era alguma coisa de vivo, e
espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava.
N'essa tarde luminosa de fins de setembro os cavallos esperavam no pateo
desde muito e só a Clarinha, impaciente, estava montada. Toda a familia
partia: quarenta pessoas, entre velhos, mulheres, crianças e
criados--que eram, patriarchalmente, uma continuação menor da familia.
Os homens válidos, os rapazes, esses lá andavam pela guerra, e bastante
invejados pela Clarinha!.. Os velhos despediam-se chorosos.
Arrancavam-se d'alli como quem tirasse d'um peito ainda vivo um coração
sangrento. Fugia-lhes a vida em gemidos. Os cedros da quinta tinham para
elles a maguada significação dos cyprestes da igreja, onde toda a sua
familia, desde seculos, ia dormir descançadamente; mais felizes eram
esses...
Pela madrugada chegaram a Vizeu. Deserta a pequena cidade, de sombrias e
tortuosas ruas. Os cavallos batiam rijamente nas calçadas, pondo em
sobresalto os pacificos habitantes. Abriam-se janellas a medo e caras
enfiadas de susto espreitavam inquerindo: seriam os francezes?!...--Não,
não eram ainda, mas gente que fugia d'elles!...--Então sempre era certo;
vinham, vinham!...--E as janellas fechavam-se rapidamente como se
quizessem espancar assim a visão dos francezes, monstros de pezadello!
Caminhavam sempre. Em São Pedro do Sul, a mais risonha terra da Beira,
um jardim que a natureza cultiva amoravelmente entre as rudes serranias
beirãs, o mesmo pânico estampado em todos os rostos que entreviam--que
raros eram!.. Um deserto que se fazia por toda a parte ao grito
terrificante: «_Os francezes, os francezes!_...»
E esse grito de pavôr perseguia-os sempre, como dobre a finados para os
velhos e medo para as criancitas--que imaginavam o papão formidavel e
negro levando os meninos nas garras aduncas!.. Só as mulheres, com o
espirito mais vivo, mais aventuroso, começavam a achar deliciosa aquella
correria louca diante do desconhecido. Para a Clarinha era sempre a
mesma ideia:--elles seriam alguma coisa de vivo e espirituoso e
brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava!...
A noite cahia muito fria, d'esse frio secco e cortante da serra. As
estrellas brilhavam mais do que nunca, com um nervoso piscar d'olhos
bonitos... Ella olhava-as, sonhando acordada!--Via um cavalleiro vestido
d'oiro que levava pela estrada da via lactea todo um povo conquistador e
bello... E uma aguia enorme, com azas feitas de soes, cobria o mundo
n'uma efabulação de luz!...
Alli tiveram que parar algumas horas. O pequenino irmão da Clarinha, o
mais novo da familia, a criança que ella amava já com entranhas
maternaes, ficou-lhe sem vida nos braços, morto quasi repentinamente
pelo frio e incommodidades da jornada. E esse pequenino corpo que em
circunstancias normaes ella teria chorado desesperada, cobrindo-o de
beijos, sahiu-lhe quasi indifferentemente dos braços fatigados. Era a
propria mãe que lhe dizia que não chorassem; era preciso fugir, fugir,
fugir sempre: «_Os francezes, os francezes!_...» Era a propria mãe, tão
estremosa, tão cheia de cuidados por todos, quem dizia aquillo!...
Pasmava.
Bem certo é que as grandes dores se fazem pequenas quando não ha tempo
para as sentir. O medo é um grande consolador.
Ao sahirem de São Pedro do Sul, entravam os francezes pelo outro lado.
Algum destacamento perdido do grosso do exercito, ou talvez esfomeados
procurando viveres... Em todo o caso levando o pânico até onde chegava o
ruido das suas vozes de commando.
E esse dia passado sem comer, porque apenas tinham levado um pão para
cada um, não contando com o deserto em que tudo se encontrava,
enervava-os, fazia-lhes hallucinações, mal se podiam sustentar sobre os
cavallos.
Chegaram á Trapa. Oh, a horrorosa terra!--Casitas negras e baixas,
feitas de pedras soltas cobertas de colmo e telha vã, sem janellas nem
frestas, uma unica porta para dar luz e para a entrada. Mais pareciam
tócas d'animaes selvagens do que habitações de gente, n'um paiz
civilisado.
O avô da Clarinha, apesar de velho a quasi não poder mexer-se, viera
deitado n'um carro de bois até alli; mas então desanimou:--que o
deixassem, que o deixassem!.. Morria mais descançado. Os francezes não o
descobririam n'aquella terra inculta que se debruça no abysmo das
montanhas e nem de longe se distingue da negrura d'ellas; que fugissem,
que fugissem depressa!...--E no egoismo dos grandes perigos ninguem se
lembrou de contradizer o velho. Elle era um estorvo na viagem; ficarem
todos seria talvez a morte. Só a mãe da Clarinha ficou para acompanhar o
sogro, que n'uma incoercivel lagrima de saudade deliu todas as maguas da
sua ultima hora. Porventura elle revia n'esse momento unico toda a sua
vida passada:--a casa onde nascera e contara morrer, as arvores muito
amadas... Festas de familia, perfis de parentes mortos havia muito,
casamentos, caçadas, presentimentos de desgraça para os filhos e netos,
que andavam na guerra...--Tudo isso se devia confundir, amalgamar, no
aturvado animo do pobre moribundo.
Os outros continuavam a jornada passando por terreolas abandonadas,
d'uma desolação infinita. Essa região montanhosa, largamente bosquejada,
d'uma austeridade de contornos que limita a phantasia, tem sempre uma
estranha belleza selvatica, que intimida os mais alegres. Então,
precipitadamente abandonada pelos seus bizonhos habitadores, devastada
pelos fugitivos que passavam em caravanas, em familias, um a um, como
lobos perseguidos, tinha um aspecto quasi tragico, macabro como um
desenho de Doré, mas para elles tudo era bom, tudo divertia e alegrava
na excitação da fuga. Aqui, tinham todos por cama uma casa terrea cheia
de palha e de manhã acordavam cobertos com um frio e branco lençol de
geada... Alem, comiam feijões cosidos sem nenhum tempero e pão de cevada
negro e pegajoso como o pez... E tudo supportavam alegremente no egoismo
brutal e profundamente humano--de viver e ter saude.
Tias e primas da Clarinha, velhas senhoras habituadas á doce paz do
chásinho conventual, suspiravam, lamentavam-se muito por o não terem
tomado havia uns poucos de dias! Affirmavam--que antes queriam ficar sem
pão. Deu-se volta aos alforges e n'uma algazarra cheia d'alegria cada um
appareceu triumphante com sua coisa, que na precipitação da ultima hora
alli tinha mettido sem saber para quê, sem mais se lembrar de tal. Havia
chá, assucar e agua, até chicaras appareceram; mas onde a chaleira?..
Todos os olhos se dirigiram para a panella de barro negro onde se tinha
cosido o caldo... Era a unica coisa que havia e essa mesmo serviu; sem
que ninguem se lembrasse d'aventar repugnancias... E por essa noite
frigidissima de fins de setembro, n'uma casita negra esburacada, perdida
entre serras e mattas, ellas tomaram o seu chásinho quente, que teve um
sabor particular--nada bom a dizer a verdade--mas que lhes lembrou toda
a vida.
Pela serra da Gralheira fóra era um nunca acabar de risos e gritos
alegres, quando um cahia do cavallo, quando outro escorregava, e
principalmente com as historias do guia, o padre _Manuel da Trapa_. Era
um bom homem rustico, folgasão e fallador como poucos, um montanhez ás
direitas, portuguez velho. Despresava os francezes; não chegava mesmo a
acreditar n'elles. Por sua vontade tinham ficado todos na _residencia_ e
os taes francezes que apparecessem!...
Subito, interrompendo uma historia que elle ia contando aos da frente,
um grito sahiu dilacerante d'uma bocca contorcida. Todos pararam
ânsiados, voltando a cabeça para traz. Aquelle grito tinha vindo tão do
fundo d'alma, revelava uma tal acuidade de soffrer, que a todos fez
pulsar o coração pensando em que alguem tivesse rebolado pela montanha
abaixo despedaçando as carnes pelos fraguedos! Não era isso, mas um
sofrimento maior ainda, que gritava assim desesperado:--uma tia da
Clarinha saltára do cavallo e, pallida de morte, estorcia-se no mais
pavoroso inferno de dôres! Estava grávida no ultimo periodo e todas
aquellas commoções e sustos tinham apressado a crise. Que fazer?
Olhavam-se todos aterrorizados, indecisos... Impossivel parar n'aquelle
descampado, seria mata-la... E os franceses!?...
«Com trezentos diabos, isto não pode ser assim!»--gritava furioso o
padre Manuel, sem nenhuma attenção nem sombra de delicadeza pelo
soffrimento crudelissimo da pobre mulher. Com uma voz que elle se
esforçava por tornar ainda mais rude do que naturalmente era--para
disfarçar o diabo d'um nó que se lhe puzera na garganta, explicava elle
depois--mandou que lhe dessem a senhora que elle a levaria deante de si.
A boa egua podia com tudo e depois--que diabo, já estavam perto da
estalagem das Maçarocas, no caminho do Porto, bem conhecida por aquellas
redondezas.
E lá continuaram a marcha, agora tristemente acompanhada pelos gemidos
da infeliz creatura, que soffria cada vez mais.
Chegaram emfim a Carregal de Monhoce, uma insignificante aldeia quasi
desconhecida de todo. Em frente era o Bussaco; sentiam-se tiros ao
longe; o que iria por lá?...
«_Os francezes, os francezes!_...» E a Clarinha, pondo os olhos na linha
arroxeada e muito nitida da montanha fronteira, pensava n'elles... Nunca
os vira mas sonhára sempre com alguma coisa d'extraordinario e
scintillante, que a não assustava no fim de contas!...
Terminada a guerra, tornaram pacificamente para a grande casa, que ella
encontrou ainda mais sombriamente solitaria. Muitos faltaram á chamada,
no primeiro repasto d'expatriados que reviam o seu lar bem amado!...
E a Clarinha lá continuou a sua vida, a mesma, sempre cortada pelos
mesmos incidentes de visitas e festas.
O Santo Christo era, como hoje é tambem para nós, o seu passeio favorito
nas tardes melancolicas d'outomno--estação de tristezas e desalentos,
que morre lentamente em cada folha que se desprende das arvores,
lagrimas silenciosas da natureza, que em breve será de luto, quando o
inverno vier implacavel... Em frente, a verde cortina dos pinheiros
mansos esconde o antigo convento de Maceira Dão. Triste, bem triste, é
hoje esse convento em ruinas onde a herva cresce em liberdade,
atravessado por todos os ventos, por todas as chuvas; é quasi um milagre
estar ainda em pé! N'esses tempos, que tão remotos nos parecem já, como
elle devia ser bonito! E a tia Clara, sentada nos degraus da capellinha,
ouviria com um doloroso confranger de coração a austeridade do bronze
chamando ao côro os bons frades cistercienses.
Aquelle som lacrimoso devia repercutir-se de serra em serra como um
soluçar de penitencia. Como ia longe, a tarde luminosa de fins de
setembro, quando o grito «_Os francezes, os francezes!_...» afugentou e
confundiu tudo!...
Mais tarde houve ainda um rasgão de luz na sua vida monotona: um novo
clamôr de guerra punha as almas em sobresalto. O grito de _liberdade_
foi um rastilho de fogo que incendiou todas as cabeças. Os frades
fugiram; os irmãos, os homens da familia, foram todos combater por D.
Miguel. Quando elle foi expulso, quando a guerra acabou tão frouxamente
que a esperança continuou por largos annos no ânimo dos legitimistas, os
irmãos da tia Clara recolheram á velha casa de provincia onde por muito
tempo ainda se reuniram todos os fieis partidarios do rei absoluto que
viviam nas Beiras e Traz-os-montes.
Depois, tudo foi passando...
A morte e a vida vieram de mãos dadas terminar muita esperança, muita
alegria, como enxugar muitas lagrimas com novas felicidades!.. Na
memoria dulcissima da nossa adoravel velhinha é que tudo vive intacto.
Principalmente os longinquos factos da sua mocidade, e, entre elles,
essa aventurosa fuga aos francezes--o que eu mais gosto de lhe ouvir
contar.
Recorda a com tantas particularidades, com tal clareza de incidentes,
que me enche d'admiração. Coisas passadas ha menos tempo não as recorda
ella tão nitidamente! Lembra o signal vincado com a unha na passagem
mais interessante d'um romance e que de folha para folha se vae
conhecendo menos até desapparecer de todo.
Um dia perguntei-lhe tambem: «Tia Clara, que ha de verdade no «Retrato
de Ricardina», n'aquelle romance de Camillo passado aqui tão perto?!...»
«Alguma coisa ha!... Bem tristes tempos eram esses!...» E a sua
veneravel cabeça branca inclinou-se umas poucas de vezes n'uma
recordação que lamentava ainda--lagrimas vistas correr ha muitos annos e
nunca esquecidas!..
Agosto de 96.
TIO BARREIROS
TIO BARREIROS
O tio Barreiros:--Óra os senhores vão imaginar talvez que eu tenho para
lhes contar a historia d'algum tio illustre, muito respeitavel na sua
gravidade de conselheiro... Ou ainda d'algum general com o peito cheio
de condecorações, fartos bigodes brancos, respirando nobreza e
altivez... Nada d'isso. Era um simples e humilde criado de lavoura, de
cara rapada, com uns olhos d'um azul luminoso, o _tio_ Antonio
Barreiros.
Encantador o costume patriarchal de viverem as crianças com antigos
criados, quasi da familia, que ellas se acostumam a amar sem o respeito
que enfastia, mas tambem sem a desagradavel auctoridade sobre essas
velhas cabeças embranquecidas, sempre inclinadas para os mais
pequeninos, os ultimos...
Por isso, o tio Barreiros é uma das figuras mais sympathicas que na
minha memoria sorri.
Para criado de lavoura entrou elle em casa, já velho; pouco podia, o
pobresito! Muito corcovado, o fato de saragoça grosseira, o chapéo
braguez um pau na mão--quasi nos pareceu um mendigo.
Mas não; tinha seus brios o tio Antonio. Trabalhava como um rapaz;
rejuvenescia, coitado!
Um risonho ar philosophal dava-lhe á face uma certa finura
aristocratica. E contava-nos:--«Que eu, meninos, dizem que sou filho do
_Deão de Decermillo_. Mas que monta?... Fui pastor em rapazelho; depois
entrei para criado dos fidalgos de S. Thiago e por lá estive até que me
casei. Bons tempos, bons tempos!...»
--«E depois, tio Barreiros?»
Uma lagrima diluia-se no azul dos seus olhos finos.
--«Depois, depois... A mulher morreu para alli, negrinha das bexigas,
que foi uma dôr d'alma!»
--...«A rapariga, essa... Já depois de grande, um dia morreu tambem, que
nem eu sei de quê!... Agora, a minha familia são os meninos, cá esta
casa. Isto é como se fosse meu, pela amizade que lhes criei...»
A nota melancolica da conversa desapparecia por completo do nosso
espirito para só avultar aquella estranha palavra:--_Deão!_--Que seria
aquillo?... Talvez uma coisa escarlate franjada a oiro, como os
_guiões_, que levavam uns pobres homens derreados, na procissão do
_Corpo de Deus_!
E o velho Barreiros, com tal probabilidade de pae, avultava aos nossos
olhos prodigiosamente, tornava-se quasi divino, n'um hieratico esplendor
de festa religiosa.
Por fim, o pobre velho já não se atrevia a sahir ás propriedades de
fóra--honestamente pediu que lhe baixassem a soldada, que elle ficava só
para tratar da horta. E ás tardes, n'aquelles poentes tristissimos das
regiões montanhosas, nós passeavamos sob a parreira da horta: elle de
sacho na mão, parando de quando em quando a apanhar uma folha velha das
enormes couves, que só elle fazia crescer espantosamente. Nunca mais vi
couves assim! Talvez por ser eu muito pequena, tudo me parecesse grande;
talvez porque o tio Barreiros tivesse receita especial para as fazer
crescer!...--«Que isto, meninos, as criadas não devem pôr mão na horta.
Uma desgraça, decepam tudo, uma estragação!»
Claro; nós eramos sempre pelo velho contra ellas.
--«Lá em casa dos fidalgos, havia couves ainda mais altas do que
estas!...»--
--«Mais altas, tio Barreiros?!...»
Que grande coisa ser fidalgo!--pensava. Até a horta se resentia de
tamanha altura heraldica!
Ah tio Barreiros, tio Barreiros, que loucuras risonhas nos mettia na
cabeça a vossa bastardia fidalga! Que saudades, meu amigo!...
Uma vez--ha quanto tempo isso vae!--mal começava a aprender a ler, por
premio assignaram-me um jornal, que devia vir directamente para mim.
Esperava n'uma febre a chegada do carteiro; e nada do jornal apparecer,
para o meu nome, como eu sonhava noite e dia!... Desabafava com o tio
Antonio, aquillo parecia-nos historia...--«Mas o papá pagou isso,
menina?»
--«Pagou, tio Antonio, para vir para o meu nome.»
--«Pois olhe que foi no que elle andou mal. Nunca fiar!...»
E lá esperavamos, consternados, mais vinte e quatro horas. Mas um dia
soube-se:--o jornal tinha vindo logo, mas, como eu tivesse n'uma terra
proxima uma tia com o mesmo nome, os empregados do correio vá de lh'o
remetterem. Eu, muito queixosa, fui ter com o Barreiros ao quintal. Elle
indignou-se:
--«Vou já lá de caminho. Não, que uma coisa assim!... Nem que a minha
ama nova não soubesse já lêr, não fosse capaz de ter um jornal!» Era uma
injuria para nós ambos. E eu ficava consolada, vendo-o atravessar o
pateo, seguido das gallinhas, gallos, perús, marrecos, com o ganso pae á
frente--o Caetano--como lhe chamavamos.
E elle lá ia com toda a pressa que as suas velhas pernas lhe
permittiam--um casaco que lhe tinham dado, arrastando na frente e muito
curto atraz, tão dobrado andava elle, o pobresito, a pender para a
terra!..
E o caso é que fez um discurso no correio. Mas por fim
discutimos:--«Menina, o melhor é mudar de nome. Olhe que hade haver
sempre enganos!»
E esta coisa de haver enganos--tocou-me. Toda a vida a não receber os
meus jornaes...
--«Pois está dito, tio Antonio! É o melhor.» E assim foi.
Mas o velho começou a enfraquecer. De dia para dia o corpo se lhe
dobrava mais para a cova. Já pouco comia, sustentava-se de vinho e
marmellada, nada mais.
E n'um inverno muito rude, em que a neve cahiu mais a miudo e de manhã a
agua dos tanques apparecia gelada--o tio Antonio Barreiros apanhou uma
tossita; levantava-se tarde, já não ia com o sacho para a horta...
Sentiamos que o seu espirito, risonhamente infantil, já andava longe,
n'um meio sonho, quasi desligado da terra...
Fallava na mulher, fallava na filha, com uma grande serenidade e um
redobramento d'affecto--como quem pensava em as encontrar breve. Depois
olhava-nos com uma tal saudade...
E n'uma fria manhã d'inverno, voltado para a parede, embrulhado na manta
de riscas, elle appareceu serenamente adormecido para sempre. A sua
bocca ironica eternamente risonha; fechados os olhos azues d'uma graça
aristocratica... O seu perfil accentuado, desenhava-se muito nitido na
brancura da parede. As glycineas, despidas de folhas, mettiam os braços
hirtos pela abertura da janella, n'uma ultima despedida ao velho amigo
que as tinha plantado... E elle dormindo na manhã brumosa, sem responder
ao nosso chamamento!...
E que falta elle fazia, á noite, na ceia dos criados, contando
historias, oh! lindas historias de feiticeiras e lobishomens--de que o
velho se ria, um poucochinho sceptico, vamos lá!...--Guerras que elle
vira, dramas de familia a que tinha assistido, trovoadas no meio da
serra a quando pastor... Ah! tudo isso nos fazia muita falta, muita
falta!... E nunca mais nós esqueceremos o tio Barreiros, dormindo
socegadamente junto dos patrões, que primeiro nos tinham deixado.
Junho de 96.
SOLTEIRÃO
SOLTEIRÃO
A inesperada morte do velho doutor Mendes fez-me volver os olhos um bom
par d'annos atraz--a quando criancita gulosa lá ia ver passar as
procissões e beber a minha chicara de leite com sopas de biscoitos
caseiros.
Essa morte rastejou-me na alma uma pequena sombra de melancolia, não que
eu amasse muito esse velho nem que a sua falta seja desventura para
alguem,--mas é que os sinos, dobrando n'uma pardacenta tarde de
fevereiro, são d'uma tamanha tristeza!...
Com uma persistencia dolorosa de choro, as badaladas succediam-se
atirando para o espaço os seus pesados lamentos--unicos que acompanharam
o doutor Mendes na sua primeira noite d'além.
Morreu, pobre velho inutil, despertando apenas a ironica piedade que
inspiram aquelles cuja alma subalternisada não soube crear uma familia
nem chegou á consciente bondade dos fortes.
Ninguem o estimava já. Outr'ora havia inspirado medo como mandão
d'aldeia; diziam-no vingativo e cruel nos tempos aureos do seu
poderio... Por fim, esse poder era uma triste caricatura.
... Porque--eu ainda lhes não disse?--fazem-me tristeza as caricaturas.
D. Quixote é para mim mais commovente do que Jocelyn.
Em novo fôra o doutor Mendes um feliz conquistador de creadas e
caseiras, que olhavam agora para os filhos grosseiros e brutaes,
encarquilhando os olhos cúpidos, julgando-os possiveis herdeiros da
bella fortuna do velho. Tudo podia sêr; se elle não tinha herdeiros
forçados!
E lá ia vivendo, certo em todas as festas, imaginando-se imponente á
força de tesura, o bigode branco cortado em escova, a calva luzidia, a
face sanguinea. Dava realce ás festas--diziam rindo chocarreiramente
aquelles que lhe tinham tirado o bastão de commando, deixando-o, mono de
palha, para a imposturice da _figura_.
Estou a ve-lo, o senhor doutor, com a sua casaca prehistorica, lustrosa,
d'um feitio unico; o lenço d'Alcobaça, azul escuro, com pintinhas
brancas, a sahir dos bolsos; comprimentando receoso, estendendo apenas
dois dedos gordos e vermelhos; soprando contente a cada palavra...
Levava a umbella em todas as procissões e na minha poderosa imaginativa
infantil aquillo engrandecia-o a tal ponto que o revia no céo
acompanhando as almas purificadas ante o throno d'oiro do Padre Eterno.
Se cahiu de tão alto no meu conceito, não foi d'elle a culpa, que
impassivel continuou elle a sua vida quasi hieratica entre o incenso dos
thuribulos e o cheiro fresco do rosmaninho--eu é que mudei,
infelizmente!
Porque não detemos nós a vida; porque não conservâmos o nosso espirito
na meia hallucinação dôce da infancia? Se vale a pena isto!... Andar a
primeira parte da vida a construir altares, a enramalheta-los, a
venera-los com todo o nosso enthusiasmo; gastar outro tanto tempo a
destrui-los; e o resto da vida passar a chora-los! Não, não acho que vá
bem assim o mundo! Ou as crianças teem que nascer com a sabedoria dos
velhos ou os velhos ficarem com a ingenuidade das crianças. Quanta
tristeza se pouparia a certos espiritos por demais vibrateis!... Assim,
eu escusava de soffrer vendo a pobre cabeça do velho doutor Mendes, que
diziam intelligente, ser agora uma coisa esteril e ôca.
O seu risito infantil, em _hi, hi, hi_, como dava uma prova dos frageis
juizos humanos! E tinha sido terrivel em vinganças do tempo dos Cabraes,
elle que hoje fazia rir as crianças!
A rodear o idoso doutor Mendes fazia-se uma atmosphera de coisas
envelhecidas e desbotadas. A sala de recepção--forrada a pannos
d'_Arrhas_, com ingenuas scenas da Biblia, onde as côres já murchas se
confundiam e empallideciam suavemente a dar um tom uniforme á filha dos
Pharaós salvando um esperto Moysés e ao seu terrivel pae affogando-se
nas justiceiras aguas do Mar Vermelho--abria-se lá pelas festas ás raras
visitas. Impunha respeito com os seus tectos altos, o delgado friso
doirado a dividir os pannos, as suas doze cadeiras formadas aos lados do
sophá incommodo como um potro inquisitorial, o indispensavel tremó e
espelho a encima-lo.
Logo ao entrar no pateo, á noite sempre illuminado esperando
problematicas visitas, uma gelida impressão de silencio nos envolvia.
Subia-se meio receoso a escadaria de pedra, a abrir-se nobremente em
dois lanços, como um velho amigo que nos recebe de braços abertos. Essas
bellissimas escadas das casas antigas, que dão bem a nota carinhosa do
nosso gosto pela hospitalidade, eram mais uma frisante ironia n'aquelle
interior fechado, esquecido, só de longe em longe visitado por
indifferentes.
Entrava-se a medo na sombria casa e esperava-se, em silencio, que os
donos apparecessem. Passado um tempo, que nos parecia infindavel,
vinham, as quatro manas--miudinhas, desbotadas ellas tambem, muito
parecidas umas com as outras, fallando baixo, repetindo todas o que
dizia a mais nova, sentenciosamente, a módos de oraculo. Muito devotas,
um grande respeito pelo mano doutor, ellas lá iam todos os domingos, em
carreirinho de formigas, á missa pacata da freguezia. Muito velhitas,
com antigos enfeites na cabeça, vestidos de seda passados de modas ha
tempos immemoriaes, lencinhos de renda no pescoço, restos d'antiga
garridice, cheirando a alfazema e a camphora.
Como isto vae longe, perdido no montão de saudades que me enchem a
memoria; e como eu sinto ainda toda a impressão de poeirento, de velhez,
que me tomava toda quando as ia visitar ceremoniosamente!
Porque o tempo já ia longe em que a minha inconsciente criancice ousava
penetrar sem receio n'aquelle tumulo. O tempo das procissões e do leite
frio passára com a minha primeira infancia e com as passeatas á igreja
para ver as mudanças de _toilettes_ que Nossa Senhora soffria de cada
vez que a passeavam procissional e dolorida.
E ainda hoje ellas córam e baixam os olhos admirando a immoralidade que
vae por esse mundo.--«_Tudo perdido, tudo perdido, manas..._»--dizia a
mais nova, fechando os olhos a cada palavra.--«_É verdade, é verdade, é
verdade..._»--respondiam as tres a um tempo.--«_Ainda bem que o mano não
quiz casar!... Nem nós tambem, que fomos bastante pretendidas!..._»--«_É
verdade, é verdade, é verdade!_»--fazia o côro.--«_Que módas, santo
Deus! Os homens cruzam a perna deante das senhoras e apertam as mãos!!
Que gente, que immoralidade!..._»--E as outras abanavam a cabeça
affirmativamente, emquanto o doutor Mendes, á janella, lia a _Nação_,
escondendo das boas irmãs um sorriso velhaco.
E foi elle, tão córado e gorducho, o primeiro a morrer.
A sua morte déra brado. Murmurava-se: «_Afinal não fizera testamento?
Podera! Até na morte fazia partida. Fôra sempre assim._»--E lá iam
seguindo o enterro, bocejantes, sem nenhuma pena, maçados. Enterro de
indifferentes que nenhum respeito contêm no seu aborrecimento.
As pobres irmãs, mirraditas, gemiam frouxos lamentos. Tão velhinhas, tão
longe d'este mundo--nem gritos já tinham para se lamentar. Era um correr
de lagrimas, sem soluços nem febre, um resignado soffrer de pallidos
phantasmas.
Por suprema ironia das coisas humanas, até o enterro foi causa de riso.
Do antigo mandão d'aldeia, que inspirara medo e profundos odios, apenas
restava esse corpo inerte deitado n'uma eça branca, com a fita do caixão
risonhamente branca. Se elle fosse vivo como a levaria imperturbavel!...
Mas os sinos lá ao longe tangiam maguas, que se iam alastrando como
nodoa d'azeite na pardacenta tarde de um fevereiro triste.
Como é enervante pensar na vida assim, sem interesse pelos outros, sem
nenhum grande affecto que nos chore bem alto, a fazer calar todos os
risos!...
N'essa paysagem, paralysada pelo inverno, só eu parecia viver--campos de
vinha estorcendo os braços esqueleticos, pinhaes muito graves no seu
eterno verde, o riacho a correr ao fundo do valle, e como gigantesca
parede as serras violeta, escarpadas e selvagens... Ao fundo,
vaporisando-se no poente, as torres alvas das igrejas lançavam pelo
espaço o seu lamentoso dobre: _dão!... dão!... dão!..._
Uma grande amargura me affogava a alma, vinda d'essa paysagem desolada,
d'esse cahir da tarde sombria, da lembrança de morte que fluctuava no
ar--de qualquer coisa emfim que me segredava desalentos e angustias...
A chuva começou de cahir miudinha, sem ruido, para o fim da tarde... Que
desagradavel noite essa primeira que o velho doutor Mendes passou
solitario no seu tumulo, guardado pelas sentinellas esguias dos
cyprestes!
1895.
HAMLET
HAMLET
Quem o via, embrulhado em flanellas, apoiando-se a um grosso bambú,
sorumbatico, fugindo a todo o convivio, apparecendo só de longe com a
mulher e filhitos, procurando as estradas desertas para passear, tudo
sujeitando á hygiene,--decerto nunca imaginaria que a sua lucida
intelligencia de subtil penetração e réplica prompta nas mais intricadas
questões cahiria n'aquelle phantasmagorico sonho de grandezas, que o
levou á cella d'um hospital de alienados.
Jurisconsulto erudito, advogado eloquente e cuidadoso, tinha sempre que
fazer; mas são poucos os lucros n'uma terra onde a propriedade está
accumulada em meia duzia de felizes e só os pobres se mettem com
_justiças_.
Vivia modestamente, n'um grande orgulho de trabalhador. Não queria
favores de ninguem. Se tivesse muito, muito daria; pedir, nunca!...
E, subito, de volta d'uma estação d'aguas, eis que elle muda
completamente. Luxo, passeios, viagens, projectos de compras, tantos e
taes, descriptos com tal apparencia de logica, com tão ardente
enthusiasmo de phrase, que chegava--não a convencer-nos da realidade de
taes sonhos, mas a fazer nos viver na hallucinante miragem em que o seu
espirito se perdia.
Depois que, no regresso da villegiatura, vira representar o _Hamlet_,
apaixonára-se pela loira e ideal Ophelia, por essa pallida figura tão
intensamente dramatica na sua passividade de amorosa, tão angelicamente
resignada e feminil, que é já uma forma palpavel do ideal... Verdadeiras
e dignas de piedade as suas lagrimas--symbolisando todas as que no mundo
teem vertido olhos de tristes despresados.
E o sympathico doutor, um bom, um sincero, um sentimental, apaixonára-se
por essa irmã da sua alma, que vae desfolhando as niveas flores do seu
dôce amôr, cedo queimado pela ingratidão.
A crueza de Hamlet resgatou-a elle, levantando no seu coração de
romantico um templo auriluzente onde a incensava com a myrrha do seu
talento, que a loucura, parece, exacerbára, requintára, fazendo-o subir
ás etherias regiões onde as mais solidas cabeças sentem vertigens!...
Todas as mulheres passaram a ser para elle suaves Ophelias; n'ellas via
a amada, o seu puro ideal; adorava-as como se essa adoração fosse ainda
uma homenagem rendida á dama dos seus pensamentos--alma de cavalleiro
trovadoresco, vencendo emfim a gelida couraça da materialidade burgueza.
A medicina, o amôr e o delirio das grandezas eram as suas ideias fixas.
E então--vendo uma loira e anemica rapariga de silencioso porte,
obrigava-a a beber aguas de Vidago e gritava com grandes braçadas
enthusiastas: «beba, beba, que eu hei-de fazer d'um pastel de nata um
pastel de carne!...» Logo respondia irado a um primo, que, por troça,
aconselhava uns tamancos e passeios pelas serras como remedio mais
efficaz: «fallou o livro Caixa!... Uma estrella de tamancos!... É uma
blasphemia sideral!...»
Tinha agudezas de ditos que nos punham em duvidas. Doido?!... Se isso
podia ser, fallando elle tão prodigiosamente bem, encontrando com tanta
facilidade a memoria da sua juventude!
A sua palavra quente, d'uma fluencia correntia e d'um enternecimento tão
sincero que pelas lagrimas tinha arrancado muito perdão aos jurados
commovidos--tomára um tom d'inspirado, quasi prophetico!
Doido, doido!?... E que seriamos nós, que o não comprehendiamos? A
imperceptivel linha que separa o juizo da loucura tremia diante da nossa
duvida.
Os seus pobres nervos exacerbados estalavam em ditos faiscantes,
desfaziam-se em lagrimas, espalhavam o seu immenso talento em
estilhaços--e apezar d'isso tão brilhante!--como aerolithos,
atravessando a deprimente vida provinciana. Fazia-nos uma atmosphera de
sonho, de desvairamento e d'exotismo; que a terriola já parecia--_una
casa de locos sin locura_!...
Elle, que só por muito favor pegava d'antes no violão, recordava agora
todas as antigas musicas com uma revivescencia da sua vida bohemia
d'estudante. Cantava, com a mesma alegria da mocidade, a triumphal
recita do quinto anno.
Fazia pena ver o pobre violão dobrar-se todo para gemer trechos de
musica já passados de moda ha mais de vinte annos. E mais pena ainda
ve-lo tão alegre, d'essa alegria que tanta vontade de chorar nos causa!
Ia ao cemiterio conversar com a mãe--affirmava. Narrava, em voz
estrangulada, extraordinarias coisas que, parece, ella lhe dizia
baixinho... Essa familiaridade com o desconhecido fazia errar em torno
de nós as sombras dos bons mortos... uma nevoa revoluteante de estranhos
sonhos...
Que as cabeças não andavam lá muito seguras, não!...
Quando o levaram para o hospital, despediu-se radiante--certo de que ia
ser o director, projectando grandes reformas e esperando encontrar lá a
sua pallida Ophelia, absorvida n'um delicioso sonho feito de sorrisos de
noivos e de camelias idas na corrente de luar...
Com os seus cabellos fluctuantes, as suas mãos translucidas desfolhando
flores, arrastando as alvinitentes vestes--ella o aguardava...
Assim se extinguiu aquelle brilhantissimo espirito! Assim ficou
silenciosa aquella eloquentissima voz, que fazia repuxar lagrimas aos
olhos dos mais ferozes julgadores! Assim morreu aquelle coração de
romanticos arrebatamentos, naufragando na banalidade ultima da vida
material!
Setembro de 96.
A SENHORA ANGELICA
A SENHORA ANGELICA
A senhora Angelica forneira era a cara mais phenomenalmente feia que eu
tenho visto--e verei. Espero esse favor de Deus Nosso Senhor, que nos
fez á sua imagem e semelhança...
Eu nem sei explicar aquella mascara de gente! Não se pode mesmo
comprehender como a face humana perde assim toda a forma macia de carne
e se torna enrugada e musgosa como um velho carvalho--que vae morrendo
aos pedaços e que todas as primaveras enverdece menos, lá para o cimo
dos ramos.
Pois, apesar da horrivel fealdade da senhora Angelica, ella resumiu para
mim, durante a minha infancia, um mundo de sonhos e phantasticas
imaginações.
Mal a via assomar ao cimo do largo; a saia de riscado curta a mostrar um
começo de pernas gretadas e uns pés enormes, deformados e sujos;
saracoteando-se desgraciosa com o taboleiro de brôa cozida á cabeça;
corria logo á cozinha para lhe ouvir recontar pela millesima vez o
estranho caso.
E se dissessemos ainda que ella sabia muitas historias! Não, era só
uma... Mas essa unica, verdadeira, accidentada de peripecias, era
d'effeito. Enchia-me a cabeça e dava até assumpto para um grande romance
rocambolesco.
Todas as semanas, quando a velha trazia a fornada de pão de milho para
os criados, os tres alqueires do costume, era certo eu lá estar na
cozinha á espera d'ella. Fazia-me muito amavel; pedia o meu bolo;
mastigava fastienta em pequenas dentadas de coelho esse pão
grosseirissimo, sabendo a farinha crua, adocicado e peganhento, ao qual
nunca o amôr á terra natal me pôde habituar.
A velha ria parvamente, mettia com as negras mãos encarquilhadas o
cabello frisado, d'um branco sujo, para dentro do lenço de chita, e
contava sempre a mesma coisa, dita com as mesmas palavras, com uma
precisão de phonographo. O bastante porém para fermento da minha
phantasia.
Era no tempo em que os rapazes d'um certo nome imitavam, com mais ou
menos parecença e espirito, as estravagancias do conde de Vimioso.
Por moda, por chic e muito por gosto tambem, faziam sociedade com os
ciganos sem eira nem beira, embriagavam-se pelas tabernas, vestiam-se de
fadistas e pouco ou nada se distinguiam d'elles, moral e
intellectualmente. Aquillo que no Vimioso era um artistico grãosinho de
loucura, nos outros não passava d'uma ridicula imitação, muito grosseira
até.
Como houvesse lá na terra um d'estes esperançosos moços--tambem conde,
por signal--os ciganos passavam frequentemente por alli e assentavam
arraiaes mesmo no interior da villa.
Á noite as barracas illuminavam-se, deixando entrever, n'um clarão de
magica, os finos perfis das _gitanitas_ de cabello negro e olhar
mortifero, envoltas em flammantes trajos; os acobreados ciganos vestidos
de gala, jaqueta curta com alamares de prata; e ao fundo, acocoradas
n'um espasmo de profunda estupidez, velhas repellentes, cobertas de
trapos sujos, fumando por cachimbos de barro.
As forjas onde concertavam caldeiras, tachos, bacias, toda a bateria de
cobre da gente da villa e arredores, abriam-se n'um crepitar
incandescente, mostravam boqueirões de fogo a lembrar infernos
dantescos.
As mulheres vendiam pannos, lenços, contas, tudo que podia seduzir a
garridice feminina das boçaes aldeãs. Elles eram soberbos! O verdadeiro
_zingaro_, com ares de _grande_ de Hespanha e _condottiére_ italiano;
vendendo e trocando cavallos, experimentando-os em correrias pelo largo
sem arvores, com uma maestria e uma elegancia de _gaúchos_.
Nada tinham dos miseraveis ciganos que atravessam os campos,
melancholicos, seguindo-nos n'uma guincharia lamurienta, acompanhada
pelos urros dos pobres ursos espancados e famintos e pelos intoleraveis
macacos com os seus gritos de convulsionar os nervos... Perseguidos
pelas auctoridades e pelo odio do povo, que encontra sempre para contar
arrepiantes historias dos vagabundos--crianças dadas a comer aos
animaes, colheitas devastadas, roubos...--esgueiram-se logo, passam de
largo pelos povoados, com a falsa humildade dos cães batidos.
N'esse dia tratava-se d'um casamento e o arraial estava em grande
animação. O conde era o padrinho; mandára para lá vinho a rodos e leváva
convidados. Promettia ser luzida, fallada por muitos annos, a festa.
Os beirões, de cabeça dura, enraizados na terra como pinheiros
selvagens, olhavam, com um mixto d'espanto e de desprezo, para esses
eternos vadios, instaveis como a areia do deserto. Alguns, mais
entendidos, contavam o que aquillo era:--Nada de padre, nem de pregões,
nem de igreja! Quebrava-se uma bilha e ficariam juntos tantos annos,
quantos os cacos em que ella se fizera.--Horrores!... E as velhas
benziam-se, assustadas.--Credo, Santo nome de Jesus! E viviam assim!
Criaturas que nem eram de Deus!... E o sr. conde mettido com aquella
gente! Oxalá a mãe não andasse aos tombos no outro mundo pela estragação
de mimos em que o criára!...»
A senhora Angelica forneira, n'esse tempo era ainda uma rapariga, casada
de pouco com o seu Joaquim, que sempre fôra bom homem, isso é verdade!
Amigo da _pinguita_, por isso não juntaram vintem; morrendo porque ella
lhe levasse pontas de cigarro para se entreter lá pelo forno; mas bom
homem, no fim de contas, bom homem. Se lhe batia ás vezes, era por
amôr--claro!...
N'esse dia, como toda a gente da terra, embasbacava-se a sr.ª Angelica
deante do acampamento em festa. Como se adeantasse mais, curiosa de vêr
a noiva, depois de ter admirado a gentil figura do noivo, chegou-se a
ella uma rapariga, a sahir da infancia, d'uma brancura de pelle, d'uma
côr de cabello, d'uma reserva de maneiras que accusava uma raça bem
differente. Approximou-se com o disfarce ondulante do gato, que quer
fugir sem ser visto pelo dono; puxou-lhe pela saia e murmurou-lhe ao
ouvido:--que a levasse d'alli, tinha uma coisa importante a dizer...
A senhora Angelica, que tinha todas as virtudes femininas, excedia quasi
o seu sexo na curiosidade. Como pôde lá se metteu com a rapariga por
entre o povo, sem que nem dentro nem fóra do acampamento dessem por
isso, e levou-a para o cimo da villa onde ninguem estava áquella hora.