Por esse tempo resolveu Estacio dar um passo decisivo em sua vida.
Ligado por amor á filha de Camargo, desde antes da morte do
conselheiro, hesitára sempre em pedil-a ao pae, deferindo a resolução
para quando fôsse propício o ensejo. A condição não era facil, por
que o sentimento que elle nutria em relação a Eugenia tinha
alternativas singulares de tibieza e fervor. A causa disso póde crer-se
que estava tambem em seu coração; mas principalmente residia nella.
N'um dos primeiros dias de Agosto, assentira Estacio de ir solicitar de
Eugenia autorisação para fazer officialmente o pedido. Assim disposto,
dirigiu-se á casa de Camargo.
Mal o avistou de longe, desceu Eugenia á porta do jardim. O chapellinho
de palha, de abas largas, que lhe protegia o rosto dos raios do
sol,--eram tres horas da tarde,--tornavam mais bella a figura da moça.
Eugenia era uma das mais brilhantes estrêllas entre as menores do ceu
fluminense. Agora mesmo, se o leitor, lhe descobrir o perfil, em
camarote de theatro, ou se a vir entrar em alguma sala de baile,
comprehenderá,--atravez de um quarto de seculo,--que os contemporaneos
de sua mocidade lhe tivessem louvado, sem contraste, as graças que
então alvoreciam, com o frescor e a pureza das primeiras horas.
Era do pequena estatura; tinha os cabellos de um castanho escuro, e os
olhos grandes e azues,--dous pedacinhos do ceu; abertos em rosto alvo o
corado, os quaes nem sempre lembravam tão alta origem, pois se eram
muita vez quietos e modestos, não poucas os desmaiava tal ou qual
expressão de languidez lasciva. Seu corpo, levemente refeito, era
naturalmente elegante; mas se a dona sabia vestir-se com luxo, e até
com arte, não possuia o dom de alcançar os maximos effeitos com os
meios mais simples, dom preciosissimo, que faz as grandes elegantes, os
grandes artistas e os grandes poetas.
Estacio contemplou-a namorado sem ousar dizer palavra; a primeira que
lhe ia sahir dos labios, era justamente o pedido que o levava alli. Mas
Eugenia deteve-lh'a mostrando o anel que sua madrinha, uma fazendeira de
Cantagallo, lhe remettêra na vespera. Era uma opala magnifica, a tal
ponto que Eugenia dividia os olhos entre o namorado e ella. Ésta
simultaneidade esfriou o mancebo. Entraram ambos em casa, onde D.
Thomasia os esperava. A mãe de Eugenia sabia combinar o decoro com os
desejos de seu coração; não seria obstaculo aos dous namorados,
infelizmente a presença de duas visitas veiu destruir o cálculo dos
tres. Estacio espreitava uma occasião de pedir a Eugenia a
autorisação que desejava; até o jantar não se lhe deparou nenhuma.
Depois do jantar, desceram todos ao jardim. D. Thomasia entreteve uma
das visitas; Camargo foi mostrar á outra a sua collecção de flores.
Estacio e Eugenia affastaram-se cautellosamente dos dous grupos, a
pretexto de não sei que flor aberta na manhã daquelle dia. A flor
existia; Eugenia colheu-a e deu a Estacio.
--Não va perdel-a; hade entregal-a a Helena da minha parte. Diga-lhe
que estou com muitas saudades.
Estacio collocou a flor na casa do paletó.
--Vai cahir! disse Eugenia. Quer que pregue um alfinete?
Estacio não teve tempo de responder, por que a filha de Camargo,
tirando um alfinete do cinto prendeu o pe da flor, gastando muito mais
tempo do que o exigia a operação. A moça não era myope; todavia
approximou de tal modo a cabeça ao peito do mancebo, que este teve
impetos de lhe beijar os cabellos, e seria a primeira vez que seus
labios lhe tocassem. Não o deteve o risco de ser visto; mas o simples
respeito daquella creatura.
--Prompto! disse ella. Diga a Helena que é a flor mais bonita, do nosso
jardim. Sabe que eu gósto muito de sua irmã?
--Acredito.
--Supponho que é minha amiga, hade se-lo com certeza. Oh! eu preciso
muito de uma amiga verdadeira!
--Sim?
--Muito! Tenho tantas que não prestam para nada, e só me dão
desgostos, como Cecilia... Se soubesse o que ella me fez!
--Que foi?
Eugenia desfiou uma historiazinha de toucador, que omitto em suas
particularidades, por não interessar ao nosso caso, bastando saber que
a razão capital da divergencia entre as duas amigas fôra uma opinião
de Cecilia acerca da escolha de um chapeu.
Estacio não escutou a história com a attenção que a moça desejára;
limitou-se a ouvir a voz de Eugenia, que era na verdade angelica. Alguma
cousa porém lhe ficou, e quando ella poz termo ás suas queixas:
--O que me parece, observou o sobrinho de D. Ursula, é que não valia a
pena brigar por tão pouca cousa...
--Pouca cousa! exclamou Eugenia. Parece-lhe pouco chamar-me caprichosa e
de mau gôsto?
--Fez mal se o disse; em todo o caso...
Estacio fez uma pausa e continuou a andar. Eugenia, mollemente recostada
em seu braço, esperou que elle continuasse o que ia dizer; mas o
silêncio prolongou-se mais do que era natural.
--Em todo o caso? repetiu a moça erguendo para elle os seus olhos
limpidos e curiosos.
--Eugenia, disse Estacio, quer saber a verdadeira razão do mau successo
de suas affeições? é deixar-se levar mais pelas apparencias que pela
realidade; é porque dá menos apreço ás qualidades solidas do
coração do que ás frivolas exterioridades da vida. Suas amizades são
das que duram a roda de uma valsa, ou, quando muito, a moda de um
chapeu; podem satisfazer o capricho de um dia, mas são estereis para as
necessidades do coração.
--Jesus! exclamou Eugenia estacando o passo um sermão por tão pouca
cousa! Se tivesse algum pedaço de latim era o mesmo que estar ouvindo o
padre Melchior.
Estacio não respondeu; contentou-se com erguer os hombros, e os dous
continuaram a andar silenciosamente, acanhados e descontentes um do
outro. A differença é que o enfado de Eugenia manifestava-se por um
movimento nervoso de impaciencia e despeito.
--Se o offendi, perdoe-me, disse ella--com um leve tom de ironia.
--Oh! exclamou elle apertando-lhe a mão, como quem só esperava um
pretexto para reatar a conversa interrompida.
--Talvez offendesse, continuou a moça; eu sei dizer as cousas como
ellas me vem á boca, e parece que não são as mais acertadas...
--Não digo que o sejam sempre, replicou Estacio sorrindo. Agora, pelo
menos, foi um pouco precipitada em zombar do que eu lhe dizia, que era
justo e de boa intenção. Francamente, é para lastimar uma amizade,
ganha entre duas quadrilhas e perdida por causa de um chapeu? Não vale
a pena esperdiçar affectos, Eugenia; sentirá mais tarde que essa moeda
do coração não se deve nunca reduzir a trocos miudos nem despender em
quinquilharias.
Eugenia ouviu calada as palavras do moço; não as entendeu muito.
Sabia-lhes a significação; não lhes viu porém nexo nem sentido;
sobretudo não lhes sentiu a applicação. O que a irritou mais foi o
tom pedagogo de Estacio; estouvada e voluntariosa, não admittia que
ninguem lhe falasse sem submissão ou a reprehendesse por actos seus,
que ella julgava legitimos e naturaes. A insistencia do moço foi o
ponto de partida a um desses arrufos, não raros entre amantes, e
communs entre aquelles dous. Os de Eugenia não eram simples silêncios;
seu espirito rebelde e livre não adormecia nesses momentos de enfado;
pelo contrário irritava-se e traduzia a irritação por meio de
pirraças e accessos de mau humor. Estacio viu murmurar, crescer e
desabar a tempestade. A moça deixava-lhe o braço e tornava a apoiar-se
nelle, articulava algumas phrases sôltas, pedia a morte, batia no chão
com o pesinho mimoso que por acaso esmagou uma pobre herva, alheia ás
divergencias moraes daquellas duas creaturas. Ora parava ou desandava o
caminho; mas logo se dirigia para o moço, com as palpebras trémulas de
colera e um remoque nos labios; comprazia-se em torcer a ponta da manga
até dilaceral-a, ou morder a ponta do dedo até imprimir-lhe o signal
de seus dentes, côr de perola. Estacio, affeito a essas explosões,
não lhes sabia remedio proprio, que tanto o silêncio como a réplica
eram alli materias inflamaveis. Contudo, o silêncio era o menor dos
dous perigos. Estacio limitava-se a ouvir calado, olhando á sorrelfa
para a filha de Camargo, cujo rosto parecia mais bello, quando a raiva o
coloria. Uma terceira pessoa era a unica esperança de pacificação;
Estacio alongou o olhar pelo jardim em busca desse _deus ex-machina_.
Appareceu elle enfim sob a forma de um Carlos Barreto,--estudante de
medicina, que cultivava simultaneamente a pathologia e a comedia, mas
promettia ser melhor Esculapio que Aristophanes. Mal os viu de longe,
apertou o passo para o grupo.
--Vem gente, Eugenia,--disse Estacio; não demos expectaculos e...
perdõe-me.
Eugenia ergueu os hombros, procurou com os olhos o intruso, que dahi a
pouco estenda-lhes a mão.
O ceu não ficou logo claro; mas o vento amainou, e era de esperar que o
sol se desfizesse enfim do seu capote de nuvens. Carlos Barreto deu a
Eugenia a agradavel notícia de que trouxera a seu pae um convite para a
_soirée_ que daria no sabbado proximo uma de suas parentas. A
perspectiva da _soirée_ foi uma brisa salutar que dispersou o resto das
nuvens que entenebreciam o ceu; Eugenia sorriu. _J'ai ri; me voilà
desarmée_, como na comedia de Piron. Vinte minutos depois, não havia
em Eugenia vestigio da scena do jardim. Mas a ideia do casamento estava
adiada.
O effeito foi agro e doce para Estacio. Estimando ver dissipada a
colera, doia-lhe que a causa fôsse, não a propria virtude do amor,
mas um motivo comparativamente futil. A resolução de a consultar
sôbre o pedido de casamento esvaiu-se-lhe como de outras vezes. Sahiu
dalli á noite, antes do cha, aborrecido e azedo. Mas esse estado não
durou muito; dez minutos depois de deixar a casa de Camargo sentiu
alguma cousa semelhante á dentada de um remorso. O amor de Estacio
tinha a particularidade de crescer e affirmar-se na ausencia e diminuir
logo que estava ao pe da moça. De longe, via-a atravez da nevoa
luminosa da imaginação; ao pe era difficil que Eugenia conservasse os
dotes que elle lhe emprestava. Dahi, um dissentimento provavel e um
remorso certo. Agora que a deixava, ia elle irritado contra si mesmo;
achava-se ridiculo e cruel; chegava a adorar toda a graciosa futilidade
de Eugenia; concedia, alguma cousa á edade, á educação, aos
costumes, á ignorancia da vida.
Nesse estado de espirito entrou em casa, onde o esperava um incidente
novo.