As primeiras semanas correram sem nenhum successo notavel, mas ainda
assim interessantes. Era, por assim dizer, um tempo de espera, de
hesitação, de observação reciproca, um tactear de caracteres, em
que de uma e de outra parte procuravam conhecer o terreno e tomar
posição. O proprio Estacio, não obstante a primeira impressão,
recolhera-se a prudente reserva, de que o arrancou aos poucos o
procedimento de Helena.
Helena tinha os predicados proprios a captar a confiança e a affeição
da familia. Era docil, affavel, intelligente. Não eram estes, comtudo,
nem ainda a belleza, os seus dotes por excellencia efficazes. O que a
tomava superior e lhe dava probabilidade de triumpho era a arte de
accomodar-se ás circumstâncias do momento e a toda a casta de
espiritos, arte preciosa, que faz habeis os homens e estimaveis as
mulheres. Helena praticava de livros ou de alfinetes, de bailes ou de
arranjos de casa, com egual interesse e gôsto, frivola com os frivolos,
grave com os que o eram, attenciosa e ouvida, sem entono nem
vulgaridade. Havia nella a jovialidade da menina e a compostura da
mulher feita, um accôrdo de virtudes domésticas e maneiras elegantes,
complexo de cousas na apparencia oppostas, mas não inconciliaveis nem
disparatadas entre si.
Além das qualidades naturaes, possuia Helena algumas prendas de
sociedade, que a tornavam acceita a todos, e mudaram em parte o theor da
vida da familia. Não falo da magnifica voz de contralto, nem da
correcção com que sabia usar della, por que ainda então, estando
fresca a memoria do conselheiro, não tivera occasião de fazer-se
ouvir. Era pianista distincta, sabia desenho, falava correntemente a
lingua franceza, um pouco a ingleza e a italiana. Entendia de costura e
bordados e toda a sorte de trabalhos feminis. Conversava com graça e
lia admiravelmente. Mediante os seus recursos, e muita paciencia, arte e
resignação,--não humilde, mas digna,--conseguia polir os asperos,
attrahir os indifferentes e domar os hostis.
Pouco havia ganho no espirito de D. Ursula; mas a repulsa desta ja não
era tão viva como nos primeiros dias. Estacio cedeu de todo, e era
facil; seu coração tendia para ella, mais que nenhum outro. Não cedeu
porém sem alguma hesitação e dúvida. A flexibilidade do espirito da
irmã afigurou-se-lhe a principio mais calculada que expontanea. Mas foi
impressão que passou. Dos proprios escravos não obteve Helena desde
logo a sympathia e boa vontade; esses pautavam os sentimentos pelos de
D. Ursula. Servos de uma familia, viam com desaffecto e ciume a parenta
nova, alli trazida por um acto de generosidade. Mas tambem a esses
venceu o tempo. Um só de tantos pareceu vel-a desde princípio com olhos
amigos; era um rapaz de 16 annos, chamado Vicente, cria da casa e
particularmente estimado do conselheiro. Talvez esta ultima
circunstância o ligou desde logo á filha do seu senhor. Despida de
interesse, porque a esperança da liberdade, se a podia haver, era
precaria e remota, a affeição de Vicente não era menos viva e
sincera; faltando-lhe os gozos proprios do affecto,--a familiaridade e o
contacto,---condenado a viver da contemplação e da memoria, a não
beijar sequer a mão que o abençoava, limitado e distanciado pelos
costumes, pelo respeito e pelos instinctos, Vicente foi, não obstante,
um fiel servidor de Helena, seu advogado convicto nos julgamentos da
senzala.
Ás pessoas da intimidade da casa acolheram Helena com a mesma
hesitação de D. Ursula. Helena sentiu-lhes a polidez fria e
parcimoniosa. Longe de abater-se ou vituperar os sentimentos sociaes,
explicava-os e tratava de os torcer em seu favor,--tarefa em que se
esmerou superando as obstaculos na familia; o resto viria de si mesmo.
Uma pessoa, entre os familiares da casa, não os acompanhou no
procedimento reservado e frio; foi o padre-mestre Melchior. Melchior era
capellão em casa do conselheiro, que mandara construir alguns annos
antes uma excellente capella na chacara, onde muita gente da vizinhança
ouvia missa aos domingos. Tinha sessenta annos o padre; era homem de
estatura mediana, magro, calvo, brancos os poucos cabellos, e uns olhos
não menos sagazes que mansos. De compostura quieta, e grave, austero
sem formalismo, sociavel sem mundanidade, tolerante sem fraqueza, era o
verdadeiro varão apostolico, homem de sua Egreja e de seu Deos, integro
na fe, constante na esperança, ardente na caridade. Conhecêra a
familia do conselheiro algum tempo depois do consorcio deste. Seu olhar
penetrante descobria a causa da tristeza que minou os ultimos annos da
mãe de Estacio; respeitou a tristeza, mas attacou directamente a
origem. O conselheiro era homem geralmente razoavel, salvo nas cousas do
amor; ouviu o padre, prometteu o que este lhe exigia, mas foi promessa
feita na areia; o primeiro vento do coração apagou a escriptura.
Entretanto, o conselheiro ouvia-o sinceramente em todas as occasiões
graves; e o voto de Melchior pesava em seu espirito. Morando na
vizinhança daquella familia, tinha alli o padre todo o seu mundo. Se as
obrigações ecclesiasticas não o chamavam a outro lugar, não se
arredava elle de Andarahy, sítio de repouso apos trabalhosa mocidade.
Das outras pessoas que frequentavam a casa e residiam no mesmo bairro de
Andarahy, mencionaremos ainda o Dr. Mattos, sua mulher, o coronel Macedo
e dous filhos.
O Dr. Mattos era um velho advogado que, em compensação da sciencia do
direito, que não sabia, possuía noções muito aproveitaveis de
meteorologia e botanica, da arte de comer, do voltarete, do gamão e da
política. Era impossivel a ninguem queixar-se do calor ou do frio, sem
ouvir delle a causa e a natureza de um e outro, e logo a divisão das
estações, a differença dos climas, influência destes, as chuvas, os
ventos, a neve, as vasantes dos rios e suas enchentes, as marés e a
pororoca. Elle fallava com egual abundancia das qualidades therapeuticas
de uma herva, da nomenclatura scientifica de uma flor, da estructura de
certo vegetal e suas peculiaridades. Alheio ás nobres paixões da
política, se abria a boca em tal assumpto era para criticar egualmente
de luzias e saquaremas,--os quaes todos lhe pareciam abaixo do paiz. O
jogo e a comida achavam-no menos sceptico; e nada lhe avivava tanto a
physionomia como um bom gamão depois de um bom jantar. Éstas prendas
faziam do Dr. Mattos um conviva interessante nas noites que o não eram,
como o loto é o jogo por excellencia nas occasiões em que outro
qualquer é impossivel. O Dr. Mattos era o loto da sociedade, com a
mesma monotonia dos anexins. Posto soubesse effectivamente alguma cousa
dos assumptos que lhe eram mais prezados, não ganhou o peculio que
possuia, professando a botanica ou a meteorologia, mas applicando as
regras do direito, que ignorou até á morte.
A esposa do Dr. Mattos fôra uma das bellezas do primeiro reinado.
Quando as graças physicas se alliam ás do espirito, a belleza póde
esvair-se, que ainda lhe fica a alma. D. Leonor era uma rosa fanada, mas
conservava o aroma da juventude. Algum tempo se disse que o conselheiro
ardêra aos pes da mulher do advogado, sem repulsa desta; mas só era
verdade a primeira parte do boato. Nem os principios moraes, nem o
temperamento de D. Leonor lhe consentiam outra cousa que não fosse
repellir o conselheiro sem o molestar. A arte com que o fez illudiu os
malévolos; dahi o sussurro, ja agora esquecido e morto. A reputação
dos homens amorosos parece-se muito como juro do dinheiro: alcançado
certo capital, elle proprio se multiplica e avulta. O conselheiro
desfructou essa vantagem, de maneira que se no outro mundo lhe levassem
á collumna dos peccados todos os que lhe attribuiam na terra, receberia
elle dobrado castigo do que mereceu.
O coronel Macedo tinha a particularidade da não ser coronel. Era major.
Alguns amigos, levados de um espirito de rectificação, começaram a
dar-lhe o titulo de coronel, que a princípio recusou, mas que afinal
foi compellido a acceitar, não podendo gastar a vida inteira a
protestar contra elle. Macedo tinha visto e vivido muito; e, sôbre o
peculio da experiencia, possuia imaginação viva, fertil e agradavel.
Era bom companheiro, folgazão e communicativo, pensando serio quando
era preciso. Tinha dous filhos: um rapaz de vinte annos, que estudava em
S. Paulo, e uma moça de vinte e tres, mais prendada que formosa.
Nos primeiros dias de agosto a situação de Helena podia dizer-se
consolidada. D. Ursula não cedêra de todo, mas a convivencia ia
produzindo seus fructos. Camargo era o unico irreconciliavel; sentia-se
atravez de suas maneiras cerimoniosas uma a versão profunda, prestes a
converter-se em hostilidade, se fôsse preciso. As demais pessoas, não
só domadas, mas até enfeitiçadas, estavam ás boas com a filha do
conselheiro. Helena tornara-se o acontecimento do bairro; seus ditos e
gestos eram o assumpto da vizinhança e o prazer dos familiares da casa.
Por uma natural curiosidade, cada um procurava em suas reminiscencias um
fio biographico da moça; mas do inventário retrospectivo ninguem
tirava elementos que podessem construir a verdade ou uma só parcella que
fôsse. A origem da moça continuava mysteriosa; vantagem grande, porque
o obscuro favorecia a lenda, e cada qual podia attribuir o nascimento de
Helena a um amor illustre ou romanesco,--hypotheses admissiveis, e em
todo o caso agradaveis a ambas as partes.