Na seguinte manhã, Estacio levantou-se tarde e foi direito á sala de
jantar, onde encontrou D. Ursula, pachorrentamente sentada na poltrona
de seu uso, ao pe de uma janella, a ler um tomo do _Saint-Clair das
Ilhas_, enternecida pela centesima vez com as tristezas dos desterrados
da ilha da Barra; boa gente e moralissimo livro, ainda que enfadonho e
massudo, como outros de seu tempo. Com elle matavam as matronas daquella
quadra muitas horas compridas do inverno, com elle se encheu muito
serão pacífico, com elle se desafogou o coração do muito lagryma
sobresalente.
--Veiu? perguntou Estacio.
--Veiu, respondeu a boa senhora fechando o livro. O almôço
esfria,--continuou ella dirigindo-se á mucama que alli estava de pe,
juncto da mesa; já foram chamar... nhanhã Helena?
--Nhanhã Helena disse que ja vem.
--Ha dez minutos, observou D. Ursula ao sobrinho.
--Naturalmente não tarda, respondeu este. Que tal?
D. Ursula estava pouco habilitada a responder ao sobrinho. Quasi não
vira o rosto de Helena; e ésta, logo que alli chegou, recolheu-se ao
aposento que lhe deram, dizendo ter necessidade de repouso. O que D.
Ursula pôde afiançar foi somente que a sobrinha era moça feita.
Ouviu-se descer a escada um passo rapido, e não tardou que Helena
apparecesse á porta da sala de jantar. Estacio estava então encostado
á janella que ficava em frente da porta e dava para a extensa varanda,
donde se viam os fundos da chacara. Olhou para a tia como esperando que
ella os apresentasse um ao outro. Helena detivera-se ao vel-o.
--Menina, disse D. Ursula com o tom mais doce que tinha na voz, este é
meu sobrinho Estacio, seu irmão.
--Ah! disse Helena sorrindo e caminhando para elle.
Estacio dera egualmente alguns passos.
--Espero merecer sua affeição, disse ella depois de curta pausa. Peço
desculpa da demora; estavam á minha espera, creio eu.
--Iamos para a meza agora mesmo, interrompeu D. Ursula como protestando
contra a ideia de que ella os fizesse esperar.
Estacio procurou corrigir a rudez da tia.
--Tinhamos ouvido o seu passe na escada, disse elle. Sentemo-nos, que o
almoço esfria.
D. Ursula ja estava sentada á cabeceira da mesa; Helena ficou á
direita, na cadeira que Estacio lhe indicou; este tomou logar do lado
opposto. O almoço correu silencioso e desconsolado; raros monosyllabos,
alguns gestos de assentimento ou recusa, tal foi o dispendio da conversa
entre os tres parentes. A situação não era commoda nem vulgar.
Helena, posto forcejasse por estar senhora de si, não conseguia vencer
de todo o natural acanhamento da occasião. Mas, se o não vencia de
todo, podiam ver-se atravez delle certos signaes de educação fina.
Estacio examinou aos poucos a figura da irmã.
Era uma moça de dezeseis a dezesete annos, delgada sem magreza,
estatura um pouco acima de mediana, talhe elegante e attitudes modestas.
A face, de um moreno-pecego, tinha a mesma imperceptivel penugem da
fructa de que tirava a côr; naquella occasião tingiam-na uns longes
côr de rosa, a principio mais rubros, natural effeito do abalo. As
linhas puras e severas do rosto parecia que as traçára a arte
religiosa. Se os cabellos, castanhos como os olhos, em vez de dispostos
em duas grossas tranças, lhe cahissem espalhadamente sôbre os hombros,
e se os proprios olhos alçassem as pupillas ao ceu, dissereis um
daquelles anjos adolescentes que traziam a Israel as mensagens do
Senhor. Não exigiria a arte maior correcção e harmonia de feições,
e a sociedade bem podia contentar-se com a polidez de maneiras e a
gravidade do aspeto. Uma só cousa pareceu menos aprazivel ao irmão:
eram os olhos, ou antes o olhar, cuja expressão de curiosidade sonsa e
suspeitosa reserva foi o unico senão que lhe achou, e não era pequeno.
Acabado o almôço, trocadas algumas palavras, poucas e sôltas, Helena
retirou-se ao seu quarto, onde durante tres dias passou quasi todas as
horas, a ler meia duzia de livros que trouxe comsigo, a escrever cartas,
a olhar pasmada para o ar, ou encostada ao peitoril de uma das janellas.
Alguma vez desceu a jantar com os olhos vermelhos e a fronte pezarosa,
apenas com um sorriso pallido e fugitivo nos labios. Uma creança,
subitamente transferida ao collegio, não desfolha mais tristemente as
primeiras saudades da casa de seus paes. Mas a aza do tempo leva tudo; e
ao cabo de tres dias, ja a physionomia de Helena trazia menos sombrio
aspecto. O olhar perdeu a expressão que primeiro lhe achou o irmão,
para tornar-se o que era naturalmente, mavioso e repousado. A palavra
sahia-lhe mais facil, seguida e numerosa; a familiaridade tomou o lugar
do acanhamento.
No quarto dia, acabado o almôço, Estacio encetou uma conversa geral,
que não passou de um simples _duo_, por que D. Ursula contava os fios
da toalha ou brincava com as pontas do _fichu_ que trazia ao pescoço.
Como falassem da casa, Estacio disse á irmã:
--Ésta casa é tão sua como nossa; faça de conta que nascemos debaixo
do mesmo tecto. Minha tia lhe dirá o sentimento que nos anima a seu
respeito; não o póde haver mais cordial.
Helena agradeceu com um olhar longo e profundo. E dizendo que a casa e a
chacara lhe pareciam bonitas e bem dispostas, pediu a D. Ursula que
lh'as fôsse mostrar mais detidamente. A tia fechou o rosto e seccamente
respondeu:
--Agora não, menina; tenho por hábito descançar e ler.
--Pois eu lerei para a senhora ouvir, replicou a moça com graça; não
é bom cançar os seus olhos; e, além disso, é justo que me acostume a
servil-a. Não acha? continuou ella voltando-se para Estacio.
--É nossa tia, respondeu o moço.
--Oh! ainda não é minha tia! interrompeu Helena. Hade sel-o quando me
conhecer de todo. Por emquanto somos extranhas uma á outra; mas nenhuma
de nós é ma; o coração e a convivencia apertarão de vez os laços
que a natureza atou frouxamente.
Éstas palavras foram ditas em tom de graciosa submissão. A voz com
que ella as proferiu era clara, doce, melodiosa; melhor do que isso,
tinha um mysterioso encanto, a que a propria D. Ursula não pôde
resistir.
--Pois deixe que a convivencia faça falar o coração, respondeu a
irmã do conselheiro em tom brando. Não aceito o offerecimento da
leitura, por que não entendo bem o que os outros me lêm; tenho os
olhos mais intelligentes que os ouvidos. Entretanto, se quer ver a casa
e a chacara, seu irmão póde conduzi-la.
Estacio declarou-se prompto para acompanhar a irmã. Helena, entretanto,
recusou. Irmão embora, era a primeira vez que o via, e ao que parece,
a primeira que podia achar-se a sos com um homem que não seu pae. D.
Ursula, talvez porque preferisse ficar só algum tempo, disse-lhe
seccamente que fôsse. Helena acompanhou o irmão. Percorreram parte da
casa, ouvindo a moça as explicações que lhe dava Estacio e inquirindo
de tudo com zêlo e curiosidade de dona da casa. Quando chegaram á
porta do gabinete do conselheiro, Estacio parou.
--Vamos entrar num logar triste para mim, disse elle.
--Que é?
--O gabinete de meu pae.
--Oh! deixe ver!
Entraram os dous. Tudo estava do mesmo modo que no dia em que o
conselheiro fallecêra. Estacio deu algumas indicações relativas ao
theor da vida doméstica de seu pae; mostrou-lhe a cadeira em que elle
costumava ler, de tarde e de manhã; os retratos de familia, a
secretária, as estantes; falou de quanto podia interessal-a. Sobre a
mesa, perto da janella, estava ainda o último livro que o conselheiro
lêra: eram as _Maximas_ do marquez de Maricá. Helena pegou nelle e
imprimiu um beijo na página aberta. Uma lagryma brotou-lhe dos olhos,
como pingo do sereno que cahisse da aza da noite, não fria como elle,
mas quente de todo o calor de uma alma apaixonada e sensivel; brotou,
deslizou-se e foi cahir no papel.
--Coitado! murmurou ella.
Depois sentou-se na mesma cadeira em que o conselheiro costumava dormir
alguns minutos depois do jantar, e olhou para fóra. O dia começava a
aquecer. O arvoredo dos morros fronteiros estava coberto de flores de
quaresma, com suas petalas roxas e tristemente bellas. O expectaculo ia
com a situação de ambos. Estacio deixou-se levar ao sabor de suas
recordações da meninice. De envolta com ellas, veiu pousar-lhe ao lado
a figura de sua mãe; tornou a ve-la, tal qual se lhe fôra dos braços,
uma crua noite de Outubro, quando elle contava dezoito annos de edade. A
boa senhora morrêra quasi moça,--ainda bella, pelo menos,--daquella
belleza sem outono, cuja primavera tem duas estações.
Helena ergueu-se.
--Amava-o muito? perguntou ella,
--Quem o não amaria?
--Tem razão. Era uma alma grande e nobre; ou adorava-o. Reconheceu-me;
deu-me familia e futuro; levantou-me aos olhos de todos e aos meus
proprios. O resto depende de mim, do juizo que eu tiver,--ou talvez da
fortuna.
Ésta ultima palavra cahiu-lhe do coração com um suspiro. Depois de
alguns segundos de silêncio, Helena enfiou o braço no do irmão e
desceram â chacara. Fôsse influência do logar ou simples mobilidade
de seu espirito, Helena tornou-se logo outra do que se revellára no
gabinete de seu pae. Jovial, graciosa e travessa, perdêra aquella
gravidade quieta e senhora de si com que apparecêra na sala de jantar;
fez-se lepida e viva, como as andorinhas que antes, e ainda agora
esvoaçavam por meio das árvores e por cima da gramma. A mudança
causou certo espanto ao moço; mas elle a explicou de si para si, e em
todo o caso não o impressionou mal. Helena pareceu-lhe naquella
occasião, mais do que antes, o complemento da familia. O que alli
faltava era justamente o gorgeio, a graça, a travessura, um elemento
que temperasse a austeridade da casa e lhe désse todas as feições
necessarias ao lar doméstico. Helena era esse elemento complementar.
A excursão durou cêrca de meia hora. D. Ursula viu-os chegar, ao cabo
desse tempo, familiares e amigos, como se houvessem criado junctos.
As sobrancelhas grisalhas da boa senhora contrairam-se e o labio
inferior recebeu uma dentada de despeito.
--Titia, disse Estacio jovialmente; minha irmã conhece ja a casa toda e
suas dependencias. Resta somente que lhe mostremos o coração.
D. Ursula sorriu,--um sorriso amarello e acanhado, que apagou nos olhos
da moça a alegria que os tornava mais lindos. Mas foi breve a ma
impressão; Helena caminhou para a tia, e pegando-lhe nas mãos,
perguntou com toda a doçura da voz:
--Não quererá mostrar-me o seu?
--Não vale a pena! respondeu D. Ursula com affectada bonhomia;
coração de velha é casa arruinada.
--Pois as casas velhas concertam-se, replicou Helena sorrindo.
D. Ursula sorriu tambem; desta vez, porém, com expressão melhor. Ao
mesmo tempo, fitou-a; e era a primeira vez que o fazia. O olhar, a
principio indifferente, manifestou logo depois a impressão que lhe
causava a belleza da moça. D. Ursula retirou os olhos; porventura
receiou que o influxo das graças de Helena lhe torcessem o coração,
e ella queria ficar independente e inconciliavel.