Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no

delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,

pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de

parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões

do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes,

desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da

physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,

empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,

esse erethismo?

Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.

Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que

são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que

nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros

sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada

resta, a invocar na interpretação do phenomeno,--tão importante, aliás, e

tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença

inteira.

Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e

admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem

provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um

erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a

theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese?

Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros

hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com

ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e

normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do

_contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a

rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o

que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes.

Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre

percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de

uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é

cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia

clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não

falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações,

dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da

acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao

confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos

e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.

Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados

como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou

o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da

percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma

confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o

insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por

vencer os argumentos da razão.

Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições?

Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um

interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_,

que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são

normaes até á invasão da doença.

É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira

das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos

não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios

systematisados.

Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio

Chronico.

Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o

delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain

compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos

elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim

dizer, o seu delirio,--espontanea manifestação de um desequilibrio

preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e

raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só

podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem,

Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e

allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento

morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior

deduzirá, emfim, o delirio.

Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,

que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de

senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem

mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação

invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois

que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.

Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e

allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes

sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain

pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para

todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio,

confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros

conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas

derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.

A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado

periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus

ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um

mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se

apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_

na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem

menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta

época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco

_parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os

_desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas

variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a

pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes ... O doente

persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue

ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a

tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes

acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no

indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o

emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam

com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma

importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de

o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra

ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma

cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As

provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio

silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação

succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas

convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em

guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se

attribue--eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma

palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma

injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illusão. Depois, a

_idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da

intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a

imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].

[1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a

primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o

commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro

_d'après nature_.

A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião

diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete

da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a

sciencia.

Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si

proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas

differentes.

Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida

ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e

conceptuaes, é conforme á verdade clinica.

VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na

exhibição do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica

das obsessões; sua inexactidão--Idéas do auctor; inesperada confirmação

d'ellas por J. Séglas--A obsessão é um delirio systematico abortado;

este é uma obsessão progressiva--Demonstração; analyse dos factos--Como

se fórma o Eu; estratificações systematisadas--A personalidade e as

subpersonalidades; o atavismo.

Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem

um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem

reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a

conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de

obsessões.

Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,

esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas

tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.

Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos

delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não

lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados

mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação

simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu

delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na

exhibição dos seus conceitos falsos.

O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras

francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em

realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente

empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de

constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que

surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo

da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.

Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no

fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma

defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem

duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua

inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do

inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que

obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação

apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.

Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na

exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil

que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno

secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo

contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da

educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de

interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda

remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem

difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o

resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,

como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e

procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso

e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê

surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não

critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura

evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas

habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e

querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,

cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.

Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e

ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de

soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,

pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a

extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as

idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que

provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em

vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas

interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma

sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel

systema das suas convicções religiosas.

Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a

origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das

obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de

subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,

n'uma palavra, de não formarem systema?

A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.

Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um

estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a

sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e

sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos

primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.

Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das

obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na

economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a

expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se

esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo

de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se

impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia

dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os

caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um

syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um

estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico

Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões

são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de

allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,

embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam

_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do

Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração

official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da

assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a

consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a

emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.

Será, porém, rigorosamente assim?

Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade

nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida

convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.

Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso

medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa

obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a

sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior

ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,

o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisações_

que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,

entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no

Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva,

extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente

diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da

cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma

affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que

as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar

parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas

imagens mentaes, em summa.

Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa

consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação

pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de

systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma

_obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde

comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e

expressão da unidade do Eu.

Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com

profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições

sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este

imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob

ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que

defendemos.

A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas

conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa

imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,

elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações

pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção

emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito;

outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,

duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal

collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões,

affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar

repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.

Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,

no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes,

não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só

em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu

contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações

provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em

ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram

em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á

medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão

das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a

dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a

_angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que

theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da

consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente

não sejam provocadas pela idéa obsessiva.

Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações

normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais

fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações

pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,

e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de

estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as

obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo

Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um

delirio systematisado.

Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e

exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96,

contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre

obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,

esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini,

Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á

cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes

e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas

obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio

approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de

idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este

seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas

associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de

_paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a

obsessão.

Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes

aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.

O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um

representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que,

sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo

disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um

instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem

irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e

extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A

systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a

idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que

a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o

acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á

linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso

differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um

começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma

scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens

sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes,

idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da

idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor

deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas

e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta,

todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as

reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,

dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de

angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,

n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz

ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou

no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das

systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação

deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação

anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão

nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem

desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma

campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito,

provocando uma _détente_, um allivio.

A Paranoia · 第 10 / 12 段