pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
psychiatria franceza--A autoobservação e o raciocinio não representam um
papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A
primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.
Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
soffridas.
Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.
Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
perseguições a que primeiro se applicou.
Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.
A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
ella é radicalmente falsa.
Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
candidato á loucura,
Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
physica da degenerescencia.
Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
A experiencia diz precisamente o contrario.
Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
immediata d'este.
O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
_primitivamente_.
A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade
é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão
germina: espontaneamente, fatalmente.
Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de
perseguições.
Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem
repetido, uma transformação consciente e raciocinada?
O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da
attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude
reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado
ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa
interpretações e as rejeita mesmo.
Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido
nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma
perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta
ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para
o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas
allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão
implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as
razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito
observador um cumplice de imaginarios inimigos.
Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que
provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação
de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano
seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver
perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve
naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos
que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não
estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem
zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças
e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.
É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para
explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de
hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o
grão germina.
É só depois de installado por um processo a que são extranhos o
raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar
o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para
interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em
que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.
Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás
idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,--bem longe de as
radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
proveito proprio.
Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente
chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia
delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria
definitivamente as duas doenças.
Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as
hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos
delirios.
Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a
phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios
systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
_hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
accidentaes perturbações emotivas.
Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que
essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre
idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.
De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial
da doença.
V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS
Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as
allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga idéa
de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
idéa--Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios
paranoicos--Uma rectificação de Magnan.
Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes,
servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.
Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo
elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o
antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.
Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella
duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente
rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra,
muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação
inversa se realisa.
«O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou
affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo
secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este
ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente
intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes
continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo
contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações
imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o
producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O
delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
loucura parcial ... Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].
[1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
[2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.
Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
contrario, seria sempre um allucinado-delirante.
Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.
Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
delirio e se impõe como realidade ... Muito outra é a allucinação no
Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
persistentes allucinações»[1].
[1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.
Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
novas.
Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?
É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
allucinatorios.
De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
alguma coisa de tormentoso e incoherente.
Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
primitividade das allucinações nos deirios systematisados.
Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.