Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram

englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados

que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,

pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit

chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e

eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de

Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia

estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que

defendem a Verrücktheit aguda.

Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da

consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou

depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o

predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico

e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella

activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.

Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e

acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal

associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,

ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a

imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.

Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é

identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção

preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um

erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são

infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A

identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por

exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os

delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio

de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão

para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e

hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as

de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio

diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia

mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são

os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a

sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.

Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois

grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação

de Verrücktheit aguda.

Comecemos pelos delirios systematicos.

A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para

designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre

os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se

denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem

vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão

longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje

não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por

Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que

o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da

monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger até

Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,

um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão

principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade

aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios

systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um

papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?

Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os

argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o

hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um

grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;

examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a

opinião contraria.

Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,

para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da

Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas

differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;

sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,

ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.

A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações

notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o

Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,

é um facto importante e que deve registar-se, porque essas

differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à

etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para

definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,

enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as

allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o

delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á

etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa

exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as

causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;

á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente

chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela

morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como

um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença

accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes

outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,

predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,

dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que

provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o

automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,

por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que

na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a

apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora

igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das

idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas

allucinações emergentes de todos os sentidos.

Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao

mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando

não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases

agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu

vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.

Examinemos o valor d'estes argumentos.

Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica

dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado

episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos

permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,

de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação

muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.

Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou

mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo

parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a

titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma

etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem

Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás

causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o

individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir

que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim

pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.

[1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.

Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já

aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem

sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de

perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o

passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente

desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,

phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de

procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,

juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito

fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só

e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de

noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe

encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo

na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,

allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,

irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente

um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias

depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma

luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de

pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,

persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de

grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um

instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava

desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova

religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas

eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,

proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via

mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas

hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,

beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,

rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco

resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,

contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da

demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,

indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão

da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.

Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta

impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,

cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,

que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha

buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o

primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que

podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum

tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente

duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o

quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da

doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,

succedendo a excessos venereos e alcoolicos.

Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit

aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que

a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de

Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no

Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.

Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das

concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em

evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de

perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia

aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado

de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,

appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.

Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade

maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das

allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico

de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,

nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e

a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de

reacção em face dos erros sensoriaes.

Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de

espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se

diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a

pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na

etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de

esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela

acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.

Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente

o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de

reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos

averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os

de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia

invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido

para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de

uma obscura variedade aguda.

Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo

secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de

Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não

necessaria expressão symptomatica d'aquella.

Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se

acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por

algum tempo a sua costumada systematisação--eis o que nos não preoccupa

excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição

mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até

existir independente d'elles.

É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em

defeza da Verrücktheit aguda.

Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer

Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio

systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece

algumas vezes uma phase inicial aguda.

Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por

Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á

verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a

observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso

só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação

positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia

negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam

ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve

encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na

sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um

verdadeiro _delirio parcial_.

Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle

baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles

podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,

na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e

systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada

qual uma etiologia privativa e uma evolução especial--nascendo o

primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,

marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?

No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e

esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como

outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,

abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela

cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico

da eclosão de um delirio systematisado.

Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos

equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo

nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.

Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma

evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,

acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,

manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.

Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a

resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta

frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se

perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um

unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade

das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou

ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das

allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,

pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de

_polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a

designação de Verrücktheit aguda.

Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,

todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha

por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que

ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da

Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,

portanto, inevitavel.

Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na

Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.

Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição

mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se

estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade

aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina

que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e

incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se

encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a

exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios

systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,

porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles

não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e

curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.

III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua

interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação

introduzida--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho

thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos

agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre

elle.

Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:

_Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta

outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,

que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a

d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que

succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente

um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença

constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas

estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma

inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é

indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez

surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente

systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de

manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente

demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são

tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os

paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas

classificações?

A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por

Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os

precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,

estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.

É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento

emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua

evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de

caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel

egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que

nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,

portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,

alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em

vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose

apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva

e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em

manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da

psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a

forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha

ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de

certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a

Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que

divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de

fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.

Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor

italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição

vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados

secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia

preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo

até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo

indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,

contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a

meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,

imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias

teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais

grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a

que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,

pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a

maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se

manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois

casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia

caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em

acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma

_Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a

_chronicidade_ essenciaes da Paranoia.

IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

A Paranoia · 第 8 / 12 段