foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois
pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos
entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se
houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias
nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de
Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de
perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha
entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas,
misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com
Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville,
tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes.
É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e
legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as
sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e
illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada
pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de
doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo,
que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos
factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.
Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.
Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da
Paranoia--inevitavel corollario da theoria geral da evolução
psychica--tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e
novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos.
Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do
Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit,
sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e
accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado.
I--O DELIRIO CHRONICO
A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios
polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e
vulgar; a passagem á demencia é excepcional--O delirante chronico é um
degenerado; importante observação pessoal--A prognose dos delirios
polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de
Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.
O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas,
anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula
eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender
um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não
faria senão confirmar.
Recordemos que duas circumstancias--uma d'ordem etiologica, outra de
natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então
perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
ordem invariavel--o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o
demencial.
Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O
delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de
espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação
intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em
relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de
Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições,
megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
_d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2].
[1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.
[2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.
Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção
mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
_polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios
d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios
degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam
aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
embora possam tambem recidivar.
Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de
contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
Isto nos facilita a critica.
É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da
evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e
de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude
mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio
ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se
esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio
Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita
e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
perseguições.
O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está
longe de ser favoravel a Magnan.
Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de
ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado,
Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente
n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios
systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que
nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa
experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações;
de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando
pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas
ambiciosas.
Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de
ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um
facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos
alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á
dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os
observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico
este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na
Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da
psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que
conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão
inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de
observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
intercorrente que deve attribuir-se.
Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a
terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução
vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.
O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido,
tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer
do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição,
seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando
_especie_ o que é apenas _variedade_.
Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
ponto de vista da etiologia.
Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um
degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura;
póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do
delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não
tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em
periodos de irrevogavel successão.
Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos
psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em
que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
se acha contido) merece ser examinada.
É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só
póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica
para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os
livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém,
desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação
clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica
do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico,
se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que
grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que
muitas vezes incide sobre estes doentes.
Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação
pessoal que póde juntar-se aos de Séglas.
Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos
referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme
assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão,
remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se
installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando
da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés,
_pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições,
idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois
começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de
todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social
existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de
perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.
Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe,
que mantinha regulares relações sociaes, que se governava
financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por
Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem
a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que
podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é
um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das
mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
_mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal
dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
_irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das
mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
e uma notavel _asymetria facial_.
Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é
mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e
irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este
psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.
Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e
dos delirios polymorphos.
Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a
psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre
infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim
terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua,
tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio
Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não
hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina:
ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos
conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos
casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto,
as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das
vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções
para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios,
quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a
disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade
paranoica--a verdadeira doença, no fundo.
Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é
perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios
n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
grupo nosologico bastantemente differenciado--pela evolução, pela
pathogenia e pelo prognostico--dos delirios systematicos dos
degenerados, eis o que não póde acceitar-se.
Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte
historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do
Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
Verrücktheit de Krafft-Ebing.
É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em
evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam
e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883,
escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos,
expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade
Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições
Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega
Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade
scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido
erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo
signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta
psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de
Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o
equivalente da Verrücktheit e da Paranoia.
A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no
espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o
actual não vale o antigo.
Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão
estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não
acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e
descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos
curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á
associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando
completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel
com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á
degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
_sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia
á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo
diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do
doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser,
emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a
antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas
condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o
que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
actual, e os casos _frustres,_--a grande, a formidavel massa dos casos
clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.
Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a
consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
_impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em
individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da
etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
«Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente».
Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_.
Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella
procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder
acceitar-se sem restricções.
II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA
Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de
marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação
pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.