O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem

e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos

seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo

exame das suas origens.

Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose

funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio

das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma

gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi

sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos

coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional

constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma

evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e

que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1].

[1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,

pag. 293.

A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte

reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas

doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de

marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade

morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os

delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á

melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal.

Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de

causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de

sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio

intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de

interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não

implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para

a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma

_degenerescencia intellectual_.

Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel

que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de

todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da

não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte

original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás

idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é

sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um

delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,

creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um

_temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das

_fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo

alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo

exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,

radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para

interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o

paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente,

como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é

no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o

interessam, as que com elle directamente se relacionam; a

_egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_

do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado

persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio

das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda

inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os

auctores illustram de uma maneira magistral.

D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se

pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de

um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior

do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de

subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o

paranoico, portanto, como um documento de atavismo.

Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever

applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o

paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do

que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.

«Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em

que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do

conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto,

idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes

em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é

paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram

remotos antepassados.

[1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.

Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma

grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,

porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que

denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro

analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça

com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o

mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As

raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a

sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os

conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua

raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,

não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa

fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise.

Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros

pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo

paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.

Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e

inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado

todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia

dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;

essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,

resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma

_fé_--tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face

dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente

proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje

equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.

Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia

encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de

perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os

tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á

constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.

Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico

representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de

anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma

frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras

cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia

material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A

extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula

imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes

nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os

auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da

existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes

do que qualquer outro alienado»[1].

[1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos

de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas

expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados

arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,

as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,

os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao

delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos,

que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da

cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo

material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos

amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos

naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da

magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do

mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos,

encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos

primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1].

[1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de

resumir.

A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa,

recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing

e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,

estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a

Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia

intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A

Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que

d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os

italianos, uma doutrina _anthropologica_.

Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja

dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e

outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.

Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia

secundaria_--um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a

primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia

secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão,

uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado

feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma

hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e

da degenerescencia.

Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria

diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter

paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental

invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o

equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo

degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo

individuo os caracteres de um série pathologica»[1].

[1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.

XIII, pag. 61.

Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial

degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;

mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a

intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos

avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio

systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se

o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha

concepções delirantes e tendencias para a demencia.

«Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas

evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou

mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria

representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A

Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma

disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais

das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia

secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que,

caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas

falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia

secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em

si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto

da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a

apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um

espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com

apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse.

Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por

Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em

traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma

predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,

nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição

da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a

melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim,

baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e

guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento

cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos

degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a

verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1].

[1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.

Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,--profundamente

diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger.

Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original

concepção.

Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura

demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem

uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma

e de outra.

Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor

italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio

o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes

companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a

continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,

do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê

n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á

melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de

fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a

Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos.

Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples,

resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento

affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria,

evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são

diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,

refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia

secundaria que na primaria.

 conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma

psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia

secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes

dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que

os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a

uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que

podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1].

[1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.

* * * * *

Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte

historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a

Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas

originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos

trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.

A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,

sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das

causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de

pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.

A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os

seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia

nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada

por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento,

determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar

correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial,

embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do

espirito»[1].

[1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.

Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo

_monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão

_delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os

delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma

pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas

_concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo

Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como

algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas

palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo

symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com

effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique

desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma

desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional

insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional

disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os

auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que

poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.

[1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed.,

pag. 204.

Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção

dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da

_Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda

muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este

desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo

progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2].

[2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).

O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao

assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de

_nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os

portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre

hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande

_egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,

não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio

social a que se não subordinam, antes constantemente chocam.

Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova

edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de

_monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston

encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as

intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se

vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo

como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.

O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a

_delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é,

fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e

mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou

não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa

pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença

n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e

raça da pessoa que a expressa»[2].

[1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243.

[2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.

Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe

em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns

alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a

assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos

delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as

variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.

[3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.

No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,

todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.

[4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.

Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a

litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella

nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.

Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e

de Greidenberg, em 1885.

O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a

génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a

debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não

primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não

derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam

contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as

idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de

perseguição.

O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria

aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra

adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia

quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de

enfraquecimento cerebral.

SEGUNDA PARTE

EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

METHODO A SEGUIR

Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados--Exame

critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit

aguda e secundaria--Determinação final do conceito anthropologico de

Paranoia.

Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da

altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos

delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição

intellectual dos delirantes.

Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio

symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença--que se chama

melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições

ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de

_extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais

tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria

pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto,

fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem;

não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada

pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal

de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos,

successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,

loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa

de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da

predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de

um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia.

Analyse, synthese e interpretação pathogenica--taes foram, pois, na

marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo

espirito scientifico.

A Paranoia · 第 6 / 12 段