D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de

defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede

de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por

_sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O

doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa,

associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de

consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma

_hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era

para Gérente, o fundamento da Paranoia.

Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á

hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção

psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado

acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a

base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser

procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa

lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.

O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor

acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um

extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu

fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.

[1] _Die Paranoia_, 1883.

Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente

degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas

no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,

entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

[2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.

Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a

fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura

obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle

a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem

primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com

effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam

_invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na

Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes

até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,

tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não

accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como

conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.

Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se

altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em

França, quer na Allemanha, antes de 1878.

[3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.

Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma

variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e

apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a

depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor

de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo

rudemente combatida por Fritsch e outros.

Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar

idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas

aguda e chronica da Paranoia.

Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do

proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma

chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao

espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da

associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes

á demencia.

Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto

primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente

compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento

até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um

symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas

delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no

delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma

aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as

allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de

perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras).

Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um

desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda

de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas

poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o

affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou

mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados

de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de

prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á

demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura,

outras pela abolição das faculdades.

Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as

duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que

são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias:

hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.

É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o

traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma

perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos

duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos

os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,

como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação:

persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,

o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com

predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,

no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até

os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de

grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns

escrevem.

É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez,

demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos

symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes,

tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução,

notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a

transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,

com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os

symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas

differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio

systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que

manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que

o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma

chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com

erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda

possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a

consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de

fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as

percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem

systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo

por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde

tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as

allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um

d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica

apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo

fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,

sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado

agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e

systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as

differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de

variadas, são visinhas»[1].

[1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.

122.

A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos

acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma

erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica

sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde

Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas

sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma

analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre

todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,

direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem

distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios

systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de

vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que

muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se

approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com

allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,

distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da

melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,

que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e

domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém

tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento

depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira

depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,

de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o

stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente

distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as

caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o

stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á

variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia

obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a

este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o

stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma

e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do

delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas

psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia

se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do

sonho)»[1].

[1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.

Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da

Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos

interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de

termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por

exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em

vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a

obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,

póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de

_systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de

_incoherencia_.

Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por

Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi

vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores

e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente

separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso

estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de

que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos

clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e

que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a

Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição

e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,

acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução

irregular e marchando tantas vezes para a cura?

A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,

vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em

mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão

fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela

terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque

precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que

uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para

abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para

não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia

aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente

contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que

a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em

que os motivos differenciaes se esbatem.

Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o

criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,

importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos

prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia

aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou

esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os

depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos

hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como

complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.

Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e

allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,

segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha

gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples

_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses

funccionaes e organicas.

Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as

degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os

pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,

_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses

ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia

cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_

reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;

a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou

passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho

de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_

á Paranoia é, pois, impossivel.

Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na

_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.

A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um

esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da

marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam

o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas.

A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer

que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da

Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da

personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações

fundamentaes do humor.

Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de

_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações

medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão

mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas

d'este delirio.

[1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.

Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma

Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob

o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora

symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento

do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como

por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O

predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria

os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,

inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os

depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios

maniacos, agudos e sobreagudos.

[2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.

As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir

mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes

intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,

puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros

ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A

marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela

morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre

algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De

resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo

raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,

porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia

que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia

propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à

demencia, termo natural das psychopatias que não curam.

Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que

rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação

representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella

cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer

idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente

diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas

_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de

phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha

da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos

confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,

desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo

se conspira para as separar.

Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e

ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,

exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de

_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de

_Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura

possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos

da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou

_transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_

de duas psychoses distinctas n'um unico doente.

Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a

historia dos trabalhos germanicos.

Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi

perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome

não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de

Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.

Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da

melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para

a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a

Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação

mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os

psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia

incompleta_.

E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,

tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e

o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já

senão residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas,

taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximação pathogenica ou

nosologica era, com effeito, possivel.

Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do

momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os

seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma

aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á

Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da

melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da

Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.

* * * * *

Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os

delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor

intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu

logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.

A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii

sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela

clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então

quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do

mallogrado escriptor italiano.

Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com

Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do

desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,

escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos

definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o

desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se

tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da

vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que

assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com

Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,

apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da

hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque

a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,

comquanto capaz de remissões.

[1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,

vol. VII.

O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado

psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os

conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde

logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios

systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e

originalidade imprevistas.

Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como

o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos

sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam

modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas

são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.

O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como

vae vêr-se, dos mais originaes.

Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos

diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é

um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a

Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica.

Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a

Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os

auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de

delirio.

A Paranoia · 第 5 / 12 段