N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e

_secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e

_intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos

extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos

os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na

imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos

iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos

de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a

actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos

auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios

systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e

allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que

com menor frequencia.

Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e

restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos

implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido

exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para

comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.

Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que

não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania

ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas

sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia.

Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso,

typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos

a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias

physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e

_persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios,

systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o

_systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_

de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos,

idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes.

_Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores

allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios

systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no

mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_

dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de

Gérente e de Régis.

Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta

accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o

que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como

synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo,

Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose

degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida

empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia

masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se

em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das

psychoneuroses_). Note-se, porém,--e isto fará cessar toda a

confusão--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral

pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o

determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando

muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos

de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas

expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia

persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_

uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa

determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre

Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado

primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado

na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a

_variedade_.

Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e

doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes

que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de

limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos

inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o

assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o

ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque

só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e

chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos

definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,

cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras

divagações.

Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que,

podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre

chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da

primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que

os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem

grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua

expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;

emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras

derivadas, adjectivos e adverbios.

Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a

doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a

desenvolveu e aprofundou.

[1] _Über Monomanie_, 1863.

[2] _Arch. f. Psych._, 1867.

[3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.

[4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da

Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de

estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou

expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão

secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de

perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal

insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a

debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não

consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose,

mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das

allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem

algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia

reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e

independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes

destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As

idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,

como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se

_d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo

de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do

raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro

clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e

evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,

uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade,

_Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura

obsessiva ou das idéas fixas.

Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente

das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na

sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna

uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de

facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da

fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma

_chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se

produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma

fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações

principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de

idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão

mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos

estados catatonicos de Kahlbaum.

A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós

traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães,

das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este

capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora

d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só

para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas

para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos

de estudar e precisar mais tarde.

Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um

fundo degenerativo.

Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os

estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem

logar na mania e na melancolia.

[1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as

idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de

interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na

Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados

emocionaes secundarios,--meras reacções do sentimento sob o contheudo

das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a

fórma _aguda_ da Paranoia.

Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo,

n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

[1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas

delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido

constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade

psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes

n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe

uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam

para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por

n'elle abolir o _senso critico_.

Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia

descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de

partida as allucinações.

No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio

processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da

Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para

quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade

(_fórma activa_) do delirio de perseguições.

[2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.

No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing

da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.

Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes;

assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e

desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira

dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar

á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de

considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a

evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos

doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem

considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as

psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose

constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela

hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o

enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração

fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem

exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o

paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas

idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não

procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo

mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao

paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um

excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são,

pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem

tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De

resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são

senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)

implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado,

a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a

dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á

loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença

representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter

preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como

nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes,

descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e

uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e

notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se

isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na

descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e

progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de

grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução

dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing,

ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio

o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do

delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo

o eminente professor, toda a evolução da doença.

Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da

Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na

Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem

de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a

esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e

profunda.

Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos

que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre

o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos

morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes;

ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os

factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios

primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e

conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são,

definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de

actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença

está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas

corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem,

como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os

processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará

senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez

dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta

explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e

illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta

d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de

enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou

das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios

de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que

elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças

febris.

[1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.

Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a

diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva

ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu

o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e

mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e

Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

[1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as

idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e

duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma

anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas».

Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o

curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas

delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta

_invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--é, pois,

a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não

representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença

_constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade

psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram

radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela

interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela

caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do

mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle

mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas

_persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,

descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,

[1] _Comp. der Psych._, 1883

Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,

que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa

separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos

alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos

para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que

denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,

tal como se dá nos criminosos.

Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal

de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora

da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de

uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado

melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio

ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto,

fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os

tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não

são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de

perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia

ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de

grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado

d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.

O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos

primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora

expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora

manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual

serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este

ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não

seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as

impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o

mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende

como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no

quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma

errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de

hypocondria e de melancolia.

[2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante

doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores

allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não

representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas

a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos

que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos

originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros

estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos

com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos

physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do

organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a

movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas

necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa

mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de

affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por

defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias

necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente

e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de

perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando

tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de

perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na

melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este

sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia

conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que

immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo,

antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos,

nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia

neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta--infecções,

venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por

impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O

delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente

d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens

excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso

_anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso

humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos

sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é

especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular,

diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural.

Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,

o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,

como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza

como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as

vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de

seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores

da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1].

[1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.

Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição,

Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e

como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se

hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam

n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio

e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

A Paranoia · 第 4 / 12 段